A rigidez do raciocínio bem estruturado, nos relatos da palavra definida, abriga um dizer de natureza inconformada. Antítese da comunicação inicial, esse teor descompassado, ao ser contradição, prescreve novos rituais para comunicar. As propostas por desmerecê-lo reafirmam sua natureza de transgressão. Seu rumor de não palavra, ao ser dizível, aponta uma estética da desrazão.
Esses relatos interditos na
expressividade buscam emancipar as fronteiras discursivas. Sua desconformidade inaugura
espaços, oferece ambientes para novos experimentos narrativos. Ao quebrar
protocolos, emancipa aquilo por vir. A palavra dialética contém em si mesma:
afirmação e negação. Um território com cheiro de terra nova se apresenta em
cada página.
Na ruptura com aquilo que já foi
novidade, empenha-se em querer mais. Acolhe as dinâmicas da crise como um
anúncio. Sua referência de inspiração são as autogenias precursoras. Ao dizer
não à rigidez do discurso completo, bem-acabado, sua alternativa é uma poética
das incompletudes. Sua ótica de reverência à vida persiste em ser ensaio
criativo.
Nessa arte de evidenciar frestas,
rasura-se a norma definitiva. Suas vírgulas, espaços em branco, acenam um devir
de raridades. Sua lógica subversiva, ao denunciar refúgios na palavra
consentida, equivale a uma premonição. Assim é possível vislumbrar algo mais
além de fracassos, acertos, dúvidas. São muitas as invenções contidas na
desorganização preliminar do sujeito. Sua força emancipadora reside nos
anúncios de originalidade.
Sua intencionalidade de negação
faz girar a vida aprisionada nas teses de sentido único. A ideia, ao sair de si
mesma, desconstrói certezas para inaugurar verdades. Desse ponto de vista, uma
transcendência parece flertar com os descaminhos do cotidiano. Quiçá um devir a
flanar entremeios da rigidez discursiva, significando-se como arte a emancipar
fronteiras.
*Hélio Strassburger in “A
Palavra Fora de Si – Anotações de Filosofia Clínica e Linguagem”. Ed.
Multifoco/RJ. 2017.
**Instagram: @helio_strassburger
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