A palavra, em deslocamento por seus muitos territórios, também busca uma legibilidade para sua singularidade. Aptidão rara em meio às ditaduras da semiose verbal. Ao conviver sempre no mesmo lugar, ainda que em línguas diferentes, exibe uma excepcional aventura discursiva em cada pessoa.
Em um mundo apropriadamente
imperfeito, pode ser indizível, ao dicionário conhecido, o melhor ponto de
equilíbrio para se traduzir. Essa suspeita se insinua nas possibilidades do
instante perfeito. Essa transgressão da zona areia movediça de conforto
existencial aproxima-se de um mundo quase invisível. Assim pode acolher e
dialogar com a mutante medida de todas as coisas.
Ao destacar o viés dessas poéticas
da irreflexão, apresenta-se uma negação de que tudo já foi dito, pensado,
tentado. Nele um espaço desconhecido se abre como proposta. Talvez a escola, ao
ensinar a ler e escrever, incluísse aprendizados na arte de ouvir, sonhar,
flutuar, dialogar com suas paredes, experienciar a singularidade diante de si
mesma. Quiçá emancipar-se do tumulto silencioso da palavra impronunciada.
Nesse sentido, a convivência
aprendiz com esses códigos de ser inédito pode conceber a crise precursora, o
desajuste social, a incompreensão, como rascunhos de uma obra acontecendo. Em
um chão de incompletudes, os subúrbios da expressividade acolhem o devir dos
recomeços.
Ao filósofo dos casos perdidos,
acostumado a ter um não saber como ponto de partida, vislumbra-se essa dialética
como uma emancipação do olhar. Lógica principiante a conjugar o recém chegando
vocabulário de ser singular. Uma estética a reivindicar a exceção por onde o
espelho da realidade se move.
*Hélio Strassburger in “A palavra
fora de si – Anotações de Filosofia Clínica e Linguagem. Ed. Multifoco/RJ/2017.
****Instagram: @helio_strassburger
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