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domingo, 18 de junho de 2023

Fenomenologia da loucura*

"O delírio é tão perturbador e temido precisamente porque ameaça e coloca, escandalosamente, em discussão o mundo de cada um, com sua presumida obviedade.”

                                                                               Remo Bodei 

A inacreditável expressividade da loucura também se institui em lógicas do inusitado e da diferença. Intervalos de tempo por onde o fenômeno delirante exibe seus contornos. Nuança fugidia à pessoa descontinuar-se em códigos de miragem.

Dialetos de intimidade desdobram-se num sentido distorcido aos raciocínios conhecidos. Ponto de encontro à subjetividade manifestar sua ficção da realidade. As caricaturas de raridade nem sempre encontram tradução ao dizer das unanimidades. No entanto, muitas vezes, o sujeito desestruturado, quando é do seu interesse, é capaz de encontrar meios para deixar de ser inexplicável.

Rituais de invenção diária percorrem labirintos de ideias, sensações e intencionalidades. Tramas significativas de um jeito de ser incompreendido, a revelar-se na alquimia sem disfarce das imperfeições. Esparrama vestígios de múltiplos fenômenos no aparente sem nexo das buscas.

Roland Barthes refere: “ser o sentido obtuso um significante sem significado; daí a dificuldade para nomeá-lo: minha leitura fica suspensa entre a imagem e sua descrição, entre a definição e a aproximação. Se não se pode descrever o sentido obtuso, é que, ao contrário do sentido óbvio, não copia nada: como descrever o que não representa nada? O traduzir pictórico das palavras é, aqui, impossível.” (O óbvio e o obtuso, 1990).  

Para qualificar a relação, pretextos de incompletude atualizam gestos aos desvios essenciais para ser sujeito. Desdobramentos a desvendar vislumbres de possibilidade aos territórios de difícil acesso. A lógica da loucura não desmerece o extraordinário convívio divergente.

Em torno de uma história contada nas pretéritas recordações, geografias estranhas insinuam-se nos fragmentos da palavra distorcida. A narrativa pode se fazer ponte às buscas por entendimento e ressignificação. Algo mais no contraveneno ao ‘nada mais importa’ da pessoa ensimesmada.

O olhar aprendiz constitui ingrediente significativo para o estudo das réplicas distorcidas do real. Desdobramentos em ânimos de ser impensável. Sua atitude desvairada também expressa percursos inéditos em lógicas de incerteza.

A estranheza inicial concede destaque ao principiante que refere nada saber. Um sujeito exilado também denuncia lugares onde a supremacia do dizer sobre o sentir tenta encarcerar as diferenças.

Reminiscência inconclusa nos hieróglifos ainda sem sentido. O acaso é aliado eficaz ao exame desses dialetos. Ao ponto de vista fora de foco, é possível capturar nuanças de raridade. Mistura onde a lucidez mal disfarçada do desvario esconde outras verdades.

Nomenclaturas do indizível podem deixar a realidade normal desinteressante, ao descobrir-se nos paradoxos de ser inconcluso. Pluralidade dos papéis existenciais internados em um só. Atividade estética por excelência, as manifestações do sujeito da loucura, desdobra-se em rituais de autoproteção. Poucas vezes arrisca-se nalguma aproximação com os demais refugiados.  

Em Félix Guattari: “o que se pode denominar a redução esquizo ultrapassa todas as reduções eidéticas da fenomenologia, porque leva ao encontro de ritornelos a-significantes que produzem, novamente, narrativa, que refundem no artifício uma narratividade e uma alteridade existenciais, ainda que delirantes.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000).

O ser incompreensível da loucura não está na pessoa do louco, mas no outro em tentativas de classificá-lo. Distorções bem posicionadas ao olhar incapaz de enxergar. O universo fantástico da loucura não é sempre excludente, também aprecia conviver e compartilhar. Ao objetivar seu aparente desatino, legitima os projetos da irracionalidade. Exímia transgressão às construções bem formatadas da tradição contrária. Outras matérias-primas na perplexidade das novas imagens.

Os manuscritos do delírio desafiam a ordem estabelecida num caos organizado. A pessoa se imprecisa em conjecturas inusitadas. Entrevistas de irrealidade os idiomas de consciência alterada referem um íntimo desconhecido, recém-chegado de outras lonjuras dentro de si.

Uma memória clandestina articula falas de impaciência. A razão entrevista nos desatinos contém artifícios de encontro e perdição. Tentativas de descrever resquícios das obras de arte contidas no absurdo.

Albert Camus contribui: “Qual é então o sentimento incalculável que priva o espírito do sono necessário para a vida? Um mundo que se pode explicar, mesmo com raciocínios errôneos, é um mundo familiar. Mas num universo repentinamente privado de ilusões e de luzes, pelo contrário, o homem se sente um estrangeiro.” (O estrangeiro, 1970).

Cenários indescritíveis possuem o ser eremita, muitas vezes desconsiderado por não conseguir elucidar sua desrazão. As minorias assim dispostas apreciam o alojamento, muitas vezes acolhedor das abstrações.

Atitudes de irreflexão num tempo sem amanhã. Mesmo quando a pessoa permanece incomunicável, não deixa de elaborar produções estapafúrdias em seu retiro interior. Derivações em atalhos de descoberta por entre rotas de interdição. Rupturas e desvios insinuam percursos nem sempre possíveis de partilhar. Para uma testemunha solitária diante do inusitado, é comum o exílio nalguma forma de silêncio.

As estéticas da imaginação realizam intercâmbios com os rumores de língua nova. Não se trata de classificar ou gerar hermenêuticas, o fenômeno fala por si mesmo e requer outras habilidades para tradução.

Merleau-Ponty ensina: “o preço que se deve pagar para ter uma linguagem conquistadora, que não se limite a enunciar o que já sabíamos, mas nos introduza a experiências estranhas, a perspectivas que nunca serão as nossas, e nos desfaça enfim de nossos preconceitos. Jamais veríamos uma paisagem nova se não tivéssemos, com nossos olhos, o meio de surpreender, de interrogar e de dar forma a configurações de espaço e de cor jamais vistas até então.”  (Signos, 1991).

No convívio aprendiz com a desmedida dessas idas e vindas é possível dialogar com as formas da intimidade. Interseção positiva com a geografia interior desconsiderada como sujeito.

Por essas veredas de absurdidade, manifesta-se uma linguagem simbólica a permanecer inconclusa para a perspectiva comum. Na eternidade do instante inexplicável podem se mostrar ressonâncias de aparente sem sentido. Mesclas no discurso alterado e fugaz desses percursos forasteiros.

*Hélio Strassburger in “Filosofia Clínica – Diálogos com a lógica dos excessos.” Ed. E-papers/2009.

****Instagram: @helio_strassburger

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