"O delírio é tão perturbador e temido precisamente porque ameaça e coloca, escandalosamente, em discussão o mundo de cada um, com sua presumida obviedade.”
Remo Bodei
A inacreditável expressividade da
loucura também se institui em lógicas do inusitado e da diferença. Intervalos
de tempo por onde o fenômeno delirante exibe seus contornos. Nuança fugidia à
pessoa descontinuar-se em códigos de miragem.
Dialetos de intimidade
desdobram-se num sentido distorcido aos raciocínios conhecidos. Ponto de
encontro à subjetividade manifestar sua ficção da realidade. As caricaturas de
raridade nem sempre encontram tradução ao dizer das unanimidades. No entanto,
muitas vezes, o sujeito desestruturado, quando é do seu interesse, é capaz de
encontrar meios para deixar de ser inexplicável.
Rituais de invenção diária
percorrem labirintos de ideias, sensações e intencionalidades. Tramas significativas
de um jeito de ser incompreendido, a revelar-se na alquimia sem disfarce das
imperfeições. Esparrama vestígios de múltiplos fenômenos no aparente sem nexo
das buscas.
Roland Barthes refere: “ser o
sentido obtuso um significante sem significado; daí a dificuldade para
nomeá-lo: minha leitura fica suspensa entre a imagem e sua descrição, entre a
definição e a aproximação. Se não se pode descrever o sentido obtuso, é que, ao
contrário do sentido óbvio, não copia nada: como descrever o que não representa
nada? O traduzir pictórico das palavras é, aqui, impossível.” (O óbvio e o
obtuso, 1990).
Para qualificar a relação,
pretextos de incompletude atualizam gestos aos desvios essenciais para ser
sujeito. Desdobramentos a desvendar vislumbres de possibilidade aos territórios
de difícil acesso. A lógica da loucura não desmerece o extraordinário convívio
divergente.
Em torno de uma história contada
nas pretéritas recordações, geografias estranhas insinuam-se nos fragmentos da
palavra distorcida. A narrativa pode se fazer ponte às buscas por entendimento
e ressignificação. Algo mais no contraveneno ao ‘nada mais importa’ da pessoa
ensimesmada.
O olhar aprendiz constitui
ingrediente significativo para o estudo das réplicas distorcidas do real.
Desdobramentos em ânimos de ser impensável. Sua atitude desvairada também
expressa percursos inéditos em lógicas de incerteza.
A estranheza inicial concede
destaque ao principiante que refere nada saber. Um sujeito exilado também
denuncia lugares onde a supremacia do dizer sobre o sentir tenta encarcerar as
diferenças.
Reminiscência inconclusa nos
hieróglifos ainda sem sentido. O acaso é aliado eficaz ao exame desses
dialetos. Ao ponto de vista fora de foco, é possível capturar nuanças de
raridade. Mistura onde a lucidez mal disfarçada do desvario esconde outras
verdades.
Nomenclaturas do indizível podem
deixar a realidade normal desinteressante, ao descobrir-se nos paradoxos de ser
inconcluso. Pluralidade dos papéis existenciais internados em um só. Atividade
estética por excelência, as manifestações do sujeito da loucura, desdobra-se em
rituais de autoproteção. Poucas vezes arrisca-se nalguma aproximação com os
demais refugiados.
Em Félix Guattari: “o que se
pode denominar a redução esquizo ultrapassa todas as reduções eidéticas da fenomenologia,
porque leva ao encontro de ritornelos a-significantes que produzem, novamente,
narrativa, que refundem no artifício uma narratividade e uma alteridade
existenciais, ainda que delirantes.” (Caosmose – um novo paradigma
estético, 2000).
O ser incompreensível da loucura
não está na pessoa do louco, mas no outro em tentativas de classificá-lo.
Distorções bem posicionadas ao olhar incapaz de enxergar. O universo fantástico
da loucura não é sempre excludente, também aprecia conviver e compartilhar. Ao
objetivar seu aparente desatino, legitima os projetos da irracionalidade.
Exímia transgressão às construções bem formatadas da tradição contrária. Outras
matérias-primas na perplexidade das novas imagens.
Os manuscritos do delírio
desafiam a ordem estabelecida num caos organizado. A pessoa se imprecisa em conjecturas
inusitadas. Entrevistas de irrealidade os idiomas de consciência alterada
referem um íntimo desconhecido, recém-chegado de outras lonjuras dentro de si.
Uma memória clandestina articula
falas de impaciência. A razão entrevista nos desatinos contém artifícios de
encontro e perdição. Tentativas de descrever resquícios das obras de arte
contidas no absurdo.
Albert Camus contribui: “Qual
é então o sentimento incalculável que priva o espírito do sono necessário para
a vida? Um mundo que se pode explicar, mesmo com raciocínios errôneos, é um
mundo familiar. Mas num universo repentinamente privado de ilusões e de luzes,
pelo contrário, o homem se sente um estrangeiro.” (O estrangeiro, 1970).
Cenários indescritíveis possuem o
ser eremita, muitas vezes desconsiderado por não conseguir elucidar sua
desrazão. As minorias assim dispostas apreciam o alojamento, muitas vezes
acolhedor das abstrações.
Atitudes de irreflexão num tempo
sem amanhã. Mesmo quando a pessoa permanece incomunicável, não deixa de
elaborar produções estapafúrdias em seu retiro interior. Derivações em atalhos
de descoberta por entre rotas de interdição. Rupturas e desvios insinuam
percursos nem sempre possíveis de partilhar. Para uma testemunha solitária
diante do inusitado, é comum o exílio nalguma forma de silêncio.
As estéticas da imaginação
realizam intercâmbios com os rumores de língua nova. Não se trata de
classificar ou gerar hermenêuticas, o fenômeno fala por si mesmo e requer
outras habilidades para tradução.
Merleau-Ponty ensina: “o preço
que se deve pagar para ter uma linguagem conquistadora, que não se limite a
enunciar o que já sabíamos, mas nos introduza a experiências estranhas, a
perspectivas que nunca serão as nossas, e nos desfaça enfim de nossos
preconceitos. Jamais veríamos uma paisagem nova se não tivéssemos, com nossos
olhos, o meio de surpreender, de interrogar e de dar forma a configurações de
espaço e de cor jamais vistas até então.” (Signos, 1991).
No convívio aprendiz com a
desmedida dessas idas e vindas é possível dialogar com as formas da intimidade.
Interseção positiva com a geografia interior desconsiderada como sujeito.
Por essas veredas de absurdidade,
manifesta-se uma linguagem simbólica a permanecer inconclusa para a perspectiva
comum. Na eternidade do instante inexplicável podem se mostrar ressonâncias de
aparente sem sentido. Mesclas no discurso alterado e fugaz desses percursos
forasteiros.
*Hélio Strassburger in “Filosofia
Clínica – Diálogos com a lógica dos excessos.” Ed. E-papers/2009.
****Instagram: @helio_strassburger
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