Estive pensando sobre a importância das construções compartilhadas em Filosofia Clínica. Caso tivesse de eleger um dos aspectos de maior destaque em nosso trabalho, seria a competência do filósofo em realizar conjugações e ensaios com seu partilhante no espaço de laboratório.
Quando se pensa nessa forma de
integração, é possível, para algumas pessoas, recordar momentos compartilhados
num café depois de um filme, discutindo o roteiro e seus personagens; ou
saboreando uma comidinha preparada com amor, ou num grupo de amigos; talvez um
pôr do sol ou uma caminhada sem pressa. Assim, pode-se ter uma ideia de
construção compartilhada entre duas ou mais pessoas.
Antes de entrar no tema
propriamente dito, precisamos estabelecer uma base de apoio e sustentação para
que algo assim seja possível. Para que um evento dessa natureza aconteça, são
necessários alguns pré-requisitos: interseção positiva (predominantemente),
exames categoriais bem apontados, semiose, o alcance da estrutura de pensamento
do filósofo na relação com a estrutura de pensamento do partilhante, os
movimentos da subjetividade nos relatos da historicidade, a escuta
fenomenológica.
A matéria-prima, assim pensada,
vai surgindo como fonte de inspiração aos procedimentos clínicos, numa
dialética do ir e vir de um ponto a outro da relação. Descobrir por onde a
pessoa efetiva sua comunicação e expressividade. Como se relaciona com os
outros, consigo mesma, conhecer suas preferências existenciais, podem ser um
bom começo para saber mais sobre seu território singular aos cuidados do
filósofo.
Com a categoria tempo também é possível
ajustar os integrantes desse processo ao endereço da clínica, superar os
contrastes iniciais, as variações discursivas, o tom de voz, o olhar, o
contexto da situação terapêutica, os ensaios de reinvenção, desconstrução,
reconstrução.
Sim, no primeiro encontro já
podem acontecer construções compartilhadas, talvez não com o alcance posterior,
quando o filósofo tiver mais dados da pessoa. O acolhimento inicial, a escuta,
a partilha, o desabafo e tudo mais que for acontecendo, inauguram um espaço privilegiado
de convivência clínica.
Existem pessoas com enorme
dificuldade para efetuar construções compartilhadas pelo dado presencial (olho
no olho). Assim, é possível utilizar recursos como o mundo virtual (internet),
telefone, cartas (alguém ainda escreve?), fotografias. No entanto, nesses casos
(presencial-virtual), pode ser necessário emancipar a categoria tempo e semiose
como ingredientes preliminares para qualificar a interseção e as demais etapas
da terapia.
Quando alguns alunos chegam na
especialização com essa dificuldade – realizar recíproca de inversão (visitar o
mundo do outro) -, pode ser difícil passar os conteúdos básicos da Filosofia
Clínica. Um de seus pressupostos é o talento, a sensibilidade de se colocar no
lugar do outro, ainda que em perspectiva, e aprender, também a regressar ao seu
eixo existencial (com a matéria-prima das visitas).
É possível exercitar essa
capacidade, desenvolver certas habilidades. No entanto, penso naquelas pessoas
que trazem consigo essa aptidão como um componente de sua natureza, tornando
mais acolhedor os encontros de estudo, o processo da formação clínica, incluindo
a teoria (especialização), a terapia pessoal, a supervisão, os primeiros anos
de atendimento, a formação continuada.
Existem inúmeras possibilidades
para se realizar reciprocidade, seja com o mundo do outro ou consigo mesmo, nos
deslocamentos da clínica pessoal; e ainda com seu meio ambiente, ou seja, com a
cidade, o bairro, a vizinhança, as pessoas na rua.
No entanto, é na terapia que essa
virtude demonstra a que veio, ou seja, na percepção (clínica) investigativa do
filósofo com a pessoa diante de si. É no estudar e aprender com o outro, em
colocar-se (em perspectiva) na ótica do partilhante, inclusive realizando
reduções fenomenológicas (suspensão provisória dos juízos) de qualidade,
retornando ao seu eixo próprio, qualificando o papel existencial cuidador.
Um ponto de partida em Filosofia
Clínica é a aptidão aprendiz do filósofo, pois, como não trabalha com manuais
ou classificações a priori, está sempre recomeçando, em um método de
acolhimento ao discurso existencial singular.
Nesse sentido, sua abordagem possui um forte componente antropológico,
sendo o filósofo um guia em uma exploração compartilhada.
Assim, a competência em realizar
conjugações pode mostrar muito da qualidade da terapia, evidenciando um alcance
significativo da malha intelectiva do filósofo e do partilhante, numa
interseção com palavras, silêncios, atitudes, gestos, elaborações, na busca de
fortalecer o partilhante nos seus desdobramentos existenciais.
Penso que a aptidão de realizar
construções compartilhadas seja um fundamento que pode ser aprendido,
exercitado. No entanto, cabe ao filósofo clínico, com atividade efetiva em
consultório, desenvolver este e outros ingredientes de sua maestria, para
tratar as necessidades e contingências do partilhante.
*Hélio Strassburger in “Filosofia Clínica – Anotações e reflexões de um consultório”. Ed. Sulina/Porto Alegre/RS. 2021.
**No Instagram: @helio_strassburger
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