Seu viés inusitado possui a linguagem própria dos fenômenos que tenta descrever. O autor, como investigador de raridades, busca afinar seu estilo de acordo com as fontes por onde transita. A ele se oferece o desafio de encontrar o melhor ângulo, para realizar a magia da interseção aprendiz.
Os enganos do primeiro olhar
sugerem invisibilidades. Para acessar a mensagem por trás das aparências se faz
impreciso reler e reler e reler, criando e alternando recursos metodológicos.
Uma atenção flutuante se inspira, atualizando diálogos entre a representação
objetiva e subjetiva. Assim a percepção pode estar nos contornos do não dito.
Evidencia aquilo que ficaria vazio sem a sua intervenção.
Semelhante ao momento em que terapeuta
e partilhante se mesclam na hora-sessão, esse processo faz referência à
introspecção marginal. Os envolvidos nessa viagem compartilhada desvestem as
certezas do cristal e perseguem derivações. O discurso híbrido realiza a
pirueta em que dizível e indizível se legitimam um pelo outro, como o
testemunho de alguém sobre suas visões, sensações, caricaturas.
Um pensar cifrado se oferece em
colóquios com os personagens da ficção pessoal. Seus conteúdos ficariam
exilados na apreensão súbita de algo acontecendo, não fora a invenção dialética
a mencionar essas vivências fora da casinha.
Os termos agendados no intelecto
nem sempre auxiliam na tradução das fontes. O acesso à realidade transfigurada
pode estar refugiado nas entrelinhas do dado literal. Seus jogos de linguagem
apreciam a reclusão nalgum ponto da própria exposição, os conteúdos ultrapassam
a definição conhecida.
Nesse ponto ideia e realidade
coincidem, num acordo inédito ao pensamento. Seu exercício de convivência,
muitas vezes, possui uma abordagem distante do senso comum, como um rascunho a
fazer referência à palavra irrealizada. A arte da leitura intersubjetiva se
alimenta de instantes que perdem visibilidade se tão próximos.
A textura alterada desses
itinerários se oferece numa geografia extraordinária. Constituem enredos a
transformar a vida num faz de conta real. Sua estrutura improvável reivindica
uma nova concepção e, embora possa seguir o viés resenhista, sua obra deixa
intocado o sentido do autor.
O abismo entre a semelhança e a
singularidade é um desses equívocos, de onde as tipologias retiram sua fonte de
conhecimento. Ao desmerecer as margens, as lacunas, as especificidades de cada
caso, executa um sobrevoo que não aterrissa. Julgando ter visto tudo, desmerece
as evidências diante do olhar.
Seu apelo desconsiderado se
refugia entremeios do debate especialista. O eco de lugares distantes contém
indícios de um translúcido saber. O sentido aberto/fechado da retórica mestiça
pode ser acessível na qualificação da interseção entre os integrantes dessa
bolha de entendimento.
Múltiplos disfarces protegem os
segredos da vontade sem representação. Aprender a trama comunicativa envolvida,
os contextos pessoais, os desdobramentos, auxilia a superar a ilusão de um
único ponto de vista. A lógica dos excessos propõe uma aproximação com as
irregularidades discursivas. Traduzir os signos do devaneio pode indicar o
refúgio em que a vida se encontra para renascer.
*Hélio Strassburger in "Pérolas
Imperfeitas - Apontamentos sobre as lógicas do improvável". Ed.
Sulina. Porto Alegre/RS. 2012.
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