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sábado, 6 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 75*

 

Notas de um consultório XIII

Uma obra chega às mãos de alguém em tempo próprio, importa menos a data de sua publicação, mas o instante desse encontro onde o leitor e a leitura se reconhecem. A natureza desses achados se oferece numa incerta frequência a refúgios que aguardam sem pressa. As livrarias, cafés, escolas, bibliotecas, são alguns endereços onde se pode encontrar essas raridades, quase sempre à espera de um visar, uma escuta, um cheiro, um sentir capaz de acolher uma interseção diferenciada.

A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn, é um desses livros que você lê muitas vezes, seja por seu conteúdo ou pela sintonia existencial com suas páginas, por onde se pode evidenciar o desenvolvimento de uma estrutura de pensamento. Uma autogenia se insinua pelas releituras (algo raro nos dias de hoje) de um bom texto, quase como um espelho onde o leitor pode testemunhar sua caminhada existencial.  

O filósofo compartilha sua pesquisa, no que se refere ao aparecimento dos novos paradigmas. Lembrando a necessidade de uma lógica aprendiz, uma postura crítica e reflexiva dos profissionais de qualquer área do conhecimento. Trata da relação daquilo que denomina ciência normal e suas anomalias, consideradas insolúveis com as crenças e procedimentos que detinha até então.

Em Thomas Kuhn: “Considero ‘paradigmas’ as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 53)

O fragmento destaca a categoria tempo, como um ingrediente apto a sustentar uma prática científica. Embora o pesquisador tenha em sua bagagem pessoal a ética e o bom senso, nem sempre essas características são respeitadas, prevalecendo interesses de natureza econômica, ideológica, onde os princípios de verdade tentam manter sua hegemonia a qualquer preço.

Talvez por isso a dificuldade de muita gente em se atrever a estudar e desenvolver uma nova proposta no campo das ciências humanas, quase sempre vinculada a persistência de um pequeno grupo de pensadores (muitas vezes sem recursos em sua época) aptos a enfrentar as adversidades esparramadas pelo caminho.

Paradigmas são modelos, crenças, padrões, onde se articulam e sustentam ideias e práticas no mundo da ciência. Assim é possível vislumbrar o papel da pesquisa acadêmica como um suporte poderoso para sustentação da ciência normal. Seja através da oferta generosa de bolsas de pesquisa, publicações, cátedras onde eminentes oradores prescrevem suas verdades, implementam sua pesquisa, sustentam um status quo institucional.

O pensador compartilha: “Algumas vezes um problema comum, que deveria ser resolvido por meio de regras e procedimentos conhecidos, resiste ao ataque violento e reiterado dos membros mais hábeis do grupo em cuja área de competência ele ocorre. (...) Dessa e de outras maneiras, a ciência normal desorienta-se seguidamente. (...) quando os membros da profissão não podem mais esquivar-se das anomalias que subvertem a tradição existente da prática científica, então começam as investigações extraordinárias (...)” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 65)

Se excluirmos o interesse econômico e ideológico de alguns campos de atuação em ciências humanas, como a rede de consumo de psicofármacos, internação involuntária (manicômios), eletrochoques... é possível realizar um diálogo inter e transdisciplinar de qualidade, com pensadores abertos a uma lógica aprendiz com os eventos de natureza desconhecida.

No que se refere às questões da chamada saúde mental, ainda estamos numa fase em que a maioria dos profissionais, insistem em apresentar novas patologias, disfarçadas de expressões como: síndrome, espectro, transtorno, tentando sustentar as intervenções - praticadas e festejadas - de submissão e controle do fenômeno humano em vias de não-ser. Questão de método!

Suspeita-se que enquanto a indústria de psicofármacos e a medicina do corpo detiverem a propriedade (direta ou indireta) das pesquisas na área, as coisas vão prosseguir nessa direção, mesmo quando as contradições e percepções indicarem outras possibilidades para abordagem das pessoas em seus momentos de travessia existencial.    

As anomalias que subvertem a tradição, costumam ser sufocadas ou direcionadas para um lugar de menos valia pela ciência normal, onde se destacam: as questões econômicas, ideologia, saber-poder de mestres e doutores conformados aos ensinamentos da tradição, dissertações e teses afins para manter interesses diversos como a manutenção de bolsas de pesquisa, parcerias, intercâmbios, patrocínios...

Com Thomas Kuhn: “A ciência normal não se propõe descobrir novidades no terreno dos fatos ou da teoria; quando é bem-sucedida, não os encontra.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 127)

Um novo paradigma tem de conviver, em sua época, com toda sorte de contrariedades, ameaças, críticas (muitas vezes de quem nada sabe do que fala ou escreve), o espanto da classe científica com as possibilidades (ameaçadoras) que se apresentam com os novos olhares e percepções no mundo da ciência.

As novas ideias costumam se apresentar numa forma subversiva, ameaçadora, contraditória ao que se tinha até então, ou seja, trata-se de seminários, publicações, práticas que propõe algo até então desmerecido, distante do que se tinha como metodologia consagrada.

Como a ciência normal se comporta com esses esboços de alma nova que vão surgindo? A história é repleta de exemplos dos tratamentos oferecidos aos precursores em vários campos do conhecimento, poderíamos lembrar as fogueiras patrocinadas pelo índex da igreja católica e seus adeptos, quando mentes brilhantes (homens e mulheres) foram condenadas à fogueira por suas ideias e práticas diferenciadas. Nos dias de hoje as fogueiras são de outra natureza - ideologicamente dissimuladas -, ainda assim, o movimento da vida prossegue para superar os limites, amarras e freios existenciais esparramados pelo caminho.    

O pensador contribui: “(...) alguns homens foram levados a abandonar a ciência devido à sua inabilidade para tolerar crises. Tal como os artistas, os cientistas criadores precisam, em determinadas ocasiões, ser capazes de viver em um mundo desordenado.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 161)

Uma rotina de convívio com a vida desestruturada, recheada de incompletudes discursivas, como tradução dos instantes de travessia entre uma e outra realidade, reivindica uma espécie de profissional diferenciado, apto a conviver e suportar as ameaças ao velho território, num tempo subjetivo, por onde se testam múltiplas variáveis, em busca de um lugar seguro para sua expressividade.

Em Filosofia Clínica, além de se tratar de um novo paradigma terapêutico, onde seus profissionais têm de conviver com a insegurança dos primeiros tempos, da própria natureza da nova abordagem clínica, a qual não trabalha com pressupostos a priori, refém de uma metodologia libertária, onde inexiste um objeto de pesquisa ou tratamento distante da realidade partilhante, mas um sujeito em vias de reconhecer-se numa estrada que lhe pertence.   

Talvez o fato de ser uma novidade radical - a Filosofia Clínica - ofereça um território plástico para a atuação terapêutica, numa interseção entre o filósofo e seu partilhante, apta a oferecer a matéria-prima para a qualidade das intervenções, possa se traduzir em insegurança a alguns estudantes, embora sua estruturação tenha uma fundamentação teórica e prática - muitas vezes de aparência inacreditável - robusta, muitos vão procurar metodologias que deem a ilusão de segurança, com suas retóricas de aspecto infalível, exemplos de casos bem sucedidos, etc. etc.

Em Thomas Kuhn: “Paradigmas não podem, de modo algum, ser corrigidos pela ciência normal. Em lugar disso, (...) a ciência normal leva, ao fim e ao cabo, apenas ao reconhecimento de anomalias e crises.  (...) Os cientistas falam frequentemente de ‘vendas que caem dos olhos’ ou de uma ‘iluminação repentina’ que ‘inunda’ um quebra-cabeça que antes era obscuro, possibilitando que seus componentes sejam vistos de uma nova maneira”. (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 215)  

A correção oferecida pela ciência normal diante de um desvio de rota, uma nova percepção, um desvario de seu ponto de vista, é a constatação de um caos, uma anomalia que precisa ser ajustada, desconstruída. No entanto, como nenhuma dessas possibilidades acontece, e o fenômeno se repete, inaugurando um padrão, essa característica reivindica uma abordagem diferenciada, inexistente a priori, específica a singularidade dos encontros.    

Nesse processo com a fenomenologia das crises, algo novo acontece, alcançando rotas de tradução pela via de uma interseção compartilhada, por onde se descrevem rascunhos de anúncio sobre algo, até então, desconsiderado.

A mudança de perspectiva concede a fenomenologia do estranho uma proximidade apta a traduzir suas verdades, seu ponto de vista, e com ele dialogar, numa proposta para emancipar sua geografia subjetiva.

Um novo olhar sobre velhas problemáticas aparece para qualificar um convívio aprendiz com realidades, até então, significadas como anomalia. Para que esse processo de descobrimento aconteça é preciso um pesquisador apto a conviver com as ameaças de um território desconhecido, em busca de uma matéria-prima em vias de se mostrar.

O filósofo indica: “Creio que existem excelentes razões para que as revoluções sejam quase totalmente invisíveis. Grande parte da imagem que cientistas e leigos têm da atividade científica criadora provém de uma fonte autorizada que disfarça sistematicamente - em parte devido a razões funcionais importantes - a existência e o significado das revoluções científicas”. (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Págs. 231/232)

Existem múltiplas percepções sobre a invisibilidade preliminar das revoluções científicas. Gostaria de destacar que é comum, em países de vocação colonial (dependência econômica, ideológica, educacional, linguística), uma camada de proteção às novas ideias e práticas científicas, especificamente àquelas oriundas de seu meio, usualmente desmerecidas por grande parte dos próprios nativos.

Assim, não é de estranhar que se forme uma rede de proteção ao redor das novas propostas e estudos no campo das ciências humanas. Distanciando a curiosidade comum dos novos territórios existenciais em vias de aparecimento. Não apenas um novo vocabulário está em curso, mas intervenções de acolhimento, interseção, tradução compartilhada e outros, constituem uma linguagem inacessível há quem não se dispõe percorrer um caminho (recheado de desafios e armadilhas) de estudos e desenvolvimento pessoal em direção ao novo paradigma.    

 Thomas Kuhn ensina: “Dado que os novos paradigmas nascem dos antigos, incorporam comumente grande parte do vocabulário e dos aparatos, tanto conceituais como de manipulação, que o paradigma tradicional já empregara. Mas raramente utilizam esses elementos emprestados de uma maneira tradicional. Dentro do novo paradigma, termos, conceitos e experiências antigos estabelecem novas relações entre si.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 247)

Na pesquisa científica se desenvolvem estudos e práticas com base num chão reconhecido, seja para sustentar suas verdades ou para contraditar suas percepções com novas janelas epistemológicas, intuitivas, ao descrever, sugerir, apontar caminhos alternativos ao que se tinha.

Não é apenas o sentido de algumas expressões que se modificam com a superação de modelos científicos, mas também a conexão do que vai surgindo com termos aptos a descrever os inéditos aparecimentos. 

Outra dificuldade na implementação das novas propostas de ciência é a resistência institucional, em experienciar novas rotas em seu campo dos estudos, as quais costumam surgir em contradição com as ideologias da tradição.   

Esses apontamentos preliminares buscam oferecer subsídios ao desenvolvimento dos estudos em Filosofia Clínica, como um novo paradigma em ciências humanas, o qual se mostra apto a dialogar e compartilhar subsídios a diferentes segmentos no campo da pesquisa teórica, estudos de aprofundamento, práticas de consultório, sem perder de vista suas referências filosófico-clínicas.  

Aquele abraço,

hs  

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 74*

 

Notas do consultório do filósofo XII

O texto apresenta uma obra de Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, publicada na Universidade de Chicago em 1970 (primeira edição). Tenho em mãos a 12a. edição, traduzida e publicada no Brasil em 2013 pela editora Perspectiva, na coleção Debates, dirigida por J. Guinsburg.

Esse livro é significativamente importante aos estudos do novo paradigma da Filosofia Clínica, especificamente por apresentar e fundamentar as razões para o surgimento, a fundamentação teórica e prática de um novo campo de atuação em ciências humanas.  

Para melhor compreensão dessa obra, optei por dividir esse esboço em dois momentos, um a partir do ensaio de apresentação do filósofo canadense Ian Kacking (1936-2023), pensador especializado em Filosofia da Ciência, tendo trabalhado nas universidades de Cambridge, Toronto, Collége de France, dentre outras. Em publicações como: “Múltiplas personalidades e as ciências da memória” (1995), “Viajantes loucos: reflexões sobre a realidade das doenças mentais transitórias” (1998). A seguir teremos uma conversação com Thomas Kuhn.

A nova abordagem da Filosofia Clínica reivindica uma espécie diferenciada de gente, com borogodó ao ser terapeuta, mas também com aptidão e competência para suportar os ataques injustos, descabidos, o desmerecimento de alguns contemporâneos. Além de não possuir uma estrutura institucional robusta, recheada de bolsas de pesquisa, publicações, cátedras consagradas, ainda precisa abrir caminho em meio a avalanche crítica para sustentar o status quo ideológico e corporativo em algumas áreas das ciências humanas.   

Ian Hacking em sua introdução: “(...) incomensurabilidade. Essa é a ideia de que, no curso de uma revolução e da mudança de paradigma, as novas ideias e asserções não podem ser estritamente comparadas às antigas. Ainda que as mesmas palavras estejam em uso, seu significado próprio mudou. (...) a ideia de que uma nova teoria não é escolhida para substituir uma antiga, por ser verdadeira, mas, sim, bem mais por causa de uma mudança de concepção de mundo.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 14)

Uma dificuldade em se apresentar a Filosofia Clínica, é a tendência de muitos em querer comparar, ajustar, às novas ideias com aquilo que já se tem. Muitas vezes até uma palavra utilizada para expressar algo novo, como: circunstância, busca, singularidade, pré-juízos, é logo associada (erroneamente) com algo que já se conhece, desvirtuando a originalidade da nova mensagem onde essas expressões têm sentido próprio.  

Não é raro estudantes de Filosofia Clínica, após as aulas teóricas, numa escassa clínica pessoal e uma supervisão pífia, buscarem uma associação com a Psicanálise ou alguma outra vertente da área Psi, muitas vezes em busca de sustentação econômica, institucional, pessoal para sua atividade terapêutica. O caminho inverso também acontece...

A meu ver trata-se de um equívoco, um erro crasso, pois se trata de concepções teórico-práticas, representações ideológicas divergentes, contraditórias, paradoxais. Àqueles que se intitulam filósofos clínicos e psicanalistas, por exemplo, não entenderam uma coisa nem outra! Quando a metodologia Frankenstein - desses incautos - apresentar problemas, ainda vão criticar as instituições por onde passaram.   

As expressões utilizadas para elaborar uma nova proposta terapêutica, como a Filosofia Clínica, embora contenha integrantes do vocabulário comum, tem seu sentido e significado diferenciados, reivindicando um estudo aprofundado de seus desdobramentos em outro contexto de estudos, pesquisa e aplicabilidade. Tentar enquadrar a nova mensagem cuidadora no que já existe, acaba por vulgarizar, desmerecer, desacreditar as novas ideias e práticas clínicas.   

Com Ian Hacking: “A ciência normal é caracterizada por um paradigma que legitima quebra-cabeças e problemas sobre os quais a comunidade trabalha. Tudo vai bem até que os métodos legitimados pelo paradigma não conseguem enfrentar o aglomerado de anomalias; daí resultam e persistem crises até que uma nova realização redirecione a pesquisa e sirva como um novo paradigma.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 29)

O filósofo lembra o fato de que: ‘tudo vai bem até que os métodos legitimados pelo paradigma não conseguem enfrentar o aglomerado de anomalias’, ou seja, nos dias de hoje se multiplicam as síndromes, espectros, transtornos, acrescentando páginas e páginas à bíblia DSM, fonte de inspiração (americana) para muitos terapeutas. Mesmo com a persistente divulgação em palestras, aulas, cursos, as anomalias da ciência normal não cessam de aparecer. Ainda assim, suas instituições tentam se sustentar, embora já se possa notar, cada vez mais, o surgimento de novas abordagens clínicas à margem do sistema oficial.   

As lógicas da contenção e transformação do sujeito em objeto de submissão e controle pela via medicamentosa, não responde mais - se é que um dia respondeu - aos desafios do fenômeno humano em seus momentos de ressignificação existencial. No entanto, seja pela desinformação das pessoas, questões de natureza familiar, econômica, ideológica, a indústria da loucura prospera em sua linha de produção: pessoa nenhuma!  

Enquanto isso, já se vislumbram abordagens e acolhimentos diferenciados, em íntima conexão com a realidade singular. Essas atividades de pesquisa teórica e atuação terapêutica, como a Filosofia Clínica, existem para permitir a vida ensaiar outros rumos ao seu dia a dia.    

Talvez a desconstrução da ênfase na medicalização, possa atrasar sua inscrição (Filosofia Clínica) como especialidade acadêmica, embora algumas universidades já ofereçam a pós-graduação em sua grade de cursos, como a UNESC (Universidade do extremo sul de Santa Catarina), sediada em Criciúma, a qual mantém o funcionamento da especialização há mais de 10 anos.     

O texto indica: “Nós temos a tendência de ver o que esperamos, mesmo quando a coisa não está lá. Amiúde leva muito tempo para que uma anomalia seja vista pelo que ela é: algo contrário à ordem estabelecida.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 33).

A expectativa de alcançar um resultado com base no que se conhece, sob muitos aspectos, oferece armadilhas interpretativas, tendo por base pressupostos anteriores ao aparecimento do fenômeno humano singular. Assim a epoché (redução fenomenológica) auxilia a acolher, qualificar a interseção e compreender as pessoas em seus momentos de estranhamento consigo mesmas e com seu mundo como reapresentação. Muitas vezes, essa perplexidade diante do inusitado eu-outro-eu, oferece contradições com a vida que se tinha.   

Existem tantas maneiras de lidar com as anomalias em um campo de atuação, quantas sejam suas propostas e fundamentos. A maioria - com base na ciência normal - elabora sua defesa para afastar essas manifestações em forma de broto, oferecendo a lixeira da pesquisa para suas ideias desmesuradas. Desmesuradas a partir do que se tinha, até então, mas perfeitamente lógicas para a compreensão das coisas numa outra perspectiva.  

Uma dificuldade em se acolher e superar práticas obsoletas no campo das ciências humanas, é o lugar onde esses eventos acontecem, como: instituições acadêmicas, públicas ou privadas, as quais se encontram bem estruturadas em torno das ideias e abordagens reconhecidas, sustentando uma única via de produção intelectual. Assim se pode entender as reações contraditórias com as novas metodologias que vão surgindo, muitas vezes descrevendo eventos improváveis aos padrões anteriores.  

Os termos agendados no intelecto, em uma ciência normal (Kuhn) se propõe a qualificar e distinguir suas narrativas, sob muitos aspectos, tornando a pesquisa refém de armadilhas conceituais estruturantes das suas verdades. Sua narrativa tem a propriedade de agendar e influenciar as linhas de estudos para sustentar as mesmas coisas. Por outro lado, aparecem evidências de que as palavras encontradas para descrever e apresentar as novas versões ou problemas, até então desconhecidos, anunciam novos territórios existenciais em ciências humanas, muitas vezes proporcionando eventos de crise institucional.  

Ian Hacking diz: “Após uma revolução, os cientistas, no campo que foi modificado, trabalham em um mundo diferente.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013, Pág. 35)

Após os momentos de travessia (tempo subjetivo) entre uma e outra realidade, com mudanças para acolher e estruturar um novo paradigma, quase sempre com desconstruções necessárias para um novo espaço investigativo, até então, considerado anomalia ou distorção metodológica, algo incompreensível se traduz ao olhar das anterioridades, modificando a natureza e o alcance de seus estudos.

A sensação de estar num mundo novo, oferece a mudança necessária para acessar as novas linguagens, um desses lugares onde a natureza se oculta para se preservar. Um método de acolhimento e estudo reivindica uma lógica aprendiz, onde será possível uma aproximação com as fenomenologias do estranho.

Nesse sentido as palavras possuem características de desdobramento em múltiplas faces, tornando possível acolher e descrever as novas realidades, objetivando um olhar, uma escuta ou percepção desmerecida pelos recursos que se tinha. Ainda quando utilizam as mesmas expressões para desvelar algo, estas possuem um sentido afinado com a originalidade em vias de tornar-se.        

O filósofo ensina: “(...) após uma revolução em seu campo, um cientista pode ver o mundo de maneira diferente, ter um sentimento diferente sobre como ele funciona, perceber fenômenos diferentes, ficar intrigado por novas dificuldades e interagir com ele de novos modos. (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 37)

Talvez a maior dificuldade para o surgimento de novos paradigmas (em ciências humanas), seja a sustentação de um processo de travessia, isto é, quando uma nova proposta se apresenta, a partir da ruptura com velhos modelos de estudo e intervenção no mundo das terapias, tendo de sustentar-se em meio às inseguranças, críticas, desvalia das estruturas de pensamento já consagradas, festejadas, em elaborações amplamente divulgadas por todos os meios de propagação para suas verdades. 

Uma investigação com temas desmerecidos pode conter a matéria-prima para novas percepções. Sua estrutura de pensamento aprecia o que foi descartado, muitas vezes oferecendo um extraordinário em vias de anúncio. Ainda assim, as bases de sustentação da vida normal tratam de se manter a qualquer custo, através de leis e normas jurídicas, ideológicas, econômicas, reserva de mercado, corporativismos .... enquanto isso, a novidade vai se instalando nas beiras e periferias da vida reconhecida, qualificando sua atividade em conexão com as comunidades onde são encontradas, acolhidas e representadas por sua relação com as coisas e pessoas de seu meio. Ao chegar a ser uma abordagem institucionalizada, muitos e muitos anos depois de sua criação, o novo paradigma se torna, ele também, uma ciência instituída (normal), reconhecida oficialmente. 

É possível sentir um deslumbramento com a percepção dos novos olhares sobre velhas questões em ciências humanas, bem assim com a descoberta de novos territórios existenciais, contraditórios com os padrões de resolução até então reconhecidos, festejados.   

O ensaio de apresentação de Ian Hacking oferece uma chave de leitura ao texto de Thomas Kuhn, possivelmente pela sintonia de estudos e pesquisas dos dois pensadores da ciência. As palavras de Ian Hacking aproximam as teses de Thomas Kuhn da nova abordagem da Filosofia Clínica.  

Aquele abraço,

hs  

terça-feira, 19 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 73*

"La razón poética – Rosalía de Castro e María Zambrano

 Apresentação da obra da Prof. Dra. Arantxa Serantes

Uma apresentação ou prefácio em qualquer livro, por si só, cumpre vários papéis, dentre eles o destaque do seu conteúdo e a maestria da autora. É o caso da obra: La razón poética – Rosalía de Castro e María Zambrano, de autoria da filósofa e escritora Arantxa Serantes (Galícia), publicada pela editora Literatura Abierta em 2022 na Espanha.

Entre surpreso e agradecido pelo convite, busquei saber mais sobre essas três mulheres extraordinárias: Rosalía, María e Arantxa, para tecer alguns apontamentos, tendo como referência seus originais (resultante de sua tese de doutoramento em Filosofia), um pouco antes de seguirem ao prelo. O texto a seguir trata dessa apresentação bilíngue da obra, ainda sem tradução ao português brasileiro (2026).  

Apresentação:

"O texto de Arantxa Serantes convida a um encontro da poesia com a filosofia. Ao localizar sua fonte de matéria-prima na interseção da poética de Rosalía de Castro com a reflexão de María Zambrano, compartilha um diálogo em sintonia com essas mentes brilhantes. A menção dos desdobramentos existenciais desses manuscritos, destaca a singularidade expressiva dessas mulheres escritoras.

Sua abordagem realiza um agradável passeio pelos bosques da imaginação criativa, onde se encontra a produção literária e filosófica de Rosalía de Castro e María Zambrano. Essa relação acontece na perspectiva de uma ‘razão poética’, por onde é possível identificar seus traços comuns. A autora compartilha uma atividade prática-reflexiva, tendo como fonte de inspiração sua pesquisa histórica, a qual reapresenta um diálogo entre poesia e filosofia. Seus manuscritos destacam o alcance da estética literária, a qual atinge cada leitor de acordo com seu horizonte de possibilidades.

A tese da ‘razão poética’ descrita por Arantxa Serantes, se oferece em uma chave de leitura: “La poesia piensa como no puede hacerlo la filosofia, la poesia conoce como no puede conocer la filosofia. La filosofia piensa metodicamente, la poesia empaticamente; la filosofia onoce lo universal, la poesia particular. Ambas son distintas, pero por distintas, complementares. Ambas aman y buscan la verdade por caminhos distintos que, al final, siempre se unen y encuentram, porque la verdade, em su origem, es una. (...)”.

Nessa perspectiva a autora desenvolve o conceito de ‘razão poética’ de María Zambrano, ao oferecê-la coo um método apto ao acolhimento da singularidade em sua circunstância histórica. Nesse caminho descritivo, analítico, reflexivo, indica o fato desse período no final do século XIX ao começo do século XX, onde se coloca em dúvida a poética na relação com a metodologia científica, resultando em práticas sociais desumanizadoras. Esse pressuposto se insere nos dias de hoje, com a avalanche tecnológica ocupando espaços do fenômeno humano, nem sempre de acordo com sua melhor condição existencial.

O método compartilhado nessas páginas, oferece uma percepção sobre a ótica de ‘um duplo nascimento’, ou seja, um estabelecido pela natureza e outro com base no devir existencial. A ideia de uma estética filosófica, a partir da expressão de Rosalía de Castro e María Zambrano, se oferece em um enredo de múltiplas faces, ora compilado pela maestria de Arantxa Serantes em sua tese de doutoramento. Ao compartilhar esse encontro de singularidades, se resgata uma produção a repercutir sua poética em nossos dias.

Nesse sentido se destaca o olhar da pesquisadora atenta, para além da classificação que separa uma obra e outra, em uma reescrita alinhada com a identificação da unidade na diversidade. Seus apontamentos descrevem ingredientes singulares para tratar de temas universais.  A tese elabora uma escritura, tendo como propedêutica o encontro da poesia com a filosofia. Ao ressignificar a inquietude existencial como uma via de acesso a farmácia subjetiva, se revela uma busca pelo autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, em uma integridade discursiva de onde Rosalía de Castro, María Zambrano e Arantxa Serantes, brotam de uma mesma fonte de inspiração.

A autora contribui: “(...) El parentesco entre las almas de Rosalía e Zambrano parece muy estrecho, pues ambas compartieron experiencias vitales y preocupaciones similares, expressadas em obra de naturaliza linguística y conceptual distintas, más hermanadas em su sensibilidade, expresividad y temas vitales por ellas tratados. (...)”.

Com a ‘razão poética’ é possível acolher e superar as vivências adversas, encontrando na expressividade literária e filosófica, uma abordagem para elaborar as dores da alma. Trata-se de emancipar o território subjetivo em busca de uma desconstrução dos exílios e percalços existenciais. A possibilidade de um renascimento pessoal diz respeito a superação das dificuldades e limites oferecidos pelo cotidiano. O tema recebe um tratamento diferenciado nessas páginas, onde se destaca o olhar atento e a escrita sensível da filósofa ao traduzir seu encontro com Rosalía de Castro e María Zambrano, como uma interseção de originalidades.

O texto ora ressignificado em livro, compartilha um saber com sabor de poéticas da singularidade. Seu teor se inscreve como uma nova disciplina no horizonte da estética filosófica. Seu discurso existencial realiza um convite a uma hermenêutica compreensiva, por onde qualifica o diálogo intersubjetivo, essencial ao processo de abertura e acolhimento do fenômeno humano. Suas páginas, ao indicar uma íntima relação da poesia com o pensamento, elabora um convite para expandir as fronteiras da subjetividade. Em ‘um método-caminho’, reapresenta um humanismo que transpõe os muros da academia para encontrar o mundo da vida.

Ao tecer suas percepções e reflexões sobre essas extraordinárias mulheres, se descreve um universo que se expande pela interseção da realidade com a ficção. Mais que uma distinção entre filosofia e poesia, se refere as semelhanças dos manuscritos de diferentes épocas, bem assim o território de onde surgiram. Os rastros contidos nas páginas de Rosalía de Castro e María Zambrano, proporcionam a identificação de um discurso transcendental.

O fato de se encontrar essas mulheres escritoras nesse período histórico, desafia o status quo, gerando um espanto e desconcerto de se ter um lugar de destaque para a alma feminina, em uma área de hegemonia masculina. A   representação filosófica deste trabalho se traduz em uma poética reflexiva ao exibir suas fontes de inspiração teórica, por onde a autora conduz um agradável passeio pela filosofia contemporânea.

Arantxa Serantes compartilha uma narrativa protagonista em íntima relação com a poética e a filosofia. Sua obra provoca a sensação de que, ao mergulharmos na poesia de Rosalía de Castro e na filosofia de María Zambrano, estamos em sintonia com uma fonte de inspiração da alma Galega. A singularidade plural dessas páginas, ao descrever uma via de acesso a porção de infinito em cada um, elabora uma matéria-prima ao uso poético da racionalidade."

Desejo boas leituras e releituras!"

Aquele abraço,

hs

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 72*

 

Notas do consultório do filósofo XI 

Tenho em mãos um livro que encontrei, ou fui encontrado por ele (nessas coisas, como em todas as outras - como ensina Borges - não se deve ser dogmático!), na cidade de Santa Maria/RS em 1980. Atualizei a leitura dessas páginas por volta de 15/20 vezes até hoje. Essa atividade permite identificar algo novo em cada releitura, uma faceta, um desvão, possivelmente afim com a vida acontecendo entre uma e outra.

Sua referência é significativa pela aproximação e diálogo com as lidas de consultório, uma busca por tradução de algo que restaria intraduzível por completo, não fora a proposta de transcrever alguns aspectos da atividade clínica filosófica. O texto contribui, esclarece, ajuda a entender a nova abordagem clínica e sua menção às poéticas da singularidade.    

Cartas a um jovem poeta e a canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke, de Rainer Maria Rilke, com tradução de Paulo Rónai e Cecília Meireles, respectivamente, é uma edição de 1976, publicada pela Editora Globo de Porto Alegre/RS.

A apresentação da obra por Cecília Meireles, com aquele algo mais dos textos diferenciados, convida o leitor aos conteúdos que se vai encontrar a seguir. Como: “(...) a parte formal da arte acaba sempre por se realizar, quando atrás dela há uma imposição total de vida transbordante.” Essa característica apontada pela escritora está afinada com a abordagem da Filosofia Clínica, no sentido de que por entre os dados de uma expressividade clínica, costumam aparecer múltiplos componentes da vida de uma pessoa. A intencionalidade aprecia esses momentos para descrever uma fenomenologia do partilhante, naquilo que restaria inacessível à percepção comum.  

Rainer Maria Rilke diz assim: “As coisas estão longe de ser todas tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. (...).” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Pág. 21)

O fragmento lembra alguns trabalhos realizados em hospitais psiquiátricos em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, quando se utilizava a esteticidade seletiva como expressão para algumas pessoas destituídas de voz e vez, seja pelo abandono e descaso de sua gente ou pelas intervenções da Psiquiatria, encharcando seus pacientes de psicofármacos, na impossibilidade de uma abordagem acolhedora, compreensiva, apta a compreender e interagir com a singularidade em cada um.

Essas atividades em sintonia com uma ciência diferenciada, traduz o cotidiano do filósofo clínico, o qual encontra em sua metodologia, os meios para acolher e desenvolver as partilhas com o outro da interseção.  

Um pouco antes de ser algo palpável, a expressividade de uma pessoa internada involuntariamente, refém dos tratamentos institucionais (dentro da lei), distante de abordagens que poderiam auxiliar sua expressividade em vias de não-ser, contraditória com a cultura reconhecida do lugar onde se encontra, se oferece ao visar do filósofo clínico como espanto, estranheza. Esses eventos costumam ter uma manifestação diferente do usual, subversiva, contradizendo princípios de verdade estruturantes das metodologias que a tentam conter e tratar, para reconduzir a pessoa à vida normal (seja isso lá o que for!).  

Com o poeta: “(...) há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles. (...) O futuro está firme, caro Sr. Kappus, nós é que nos movimentamos no espaço infinito.” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Págs. 64 e 65).

Uma percepção sobre a natureza e o alcance de uma terapia, se relaciona com a abordagem, a qualidade da interseção e o desenvolvimento do partilhante, tendo como referência o lugar de onde partiu (no início de sua clínica), seus deslocamentos em busca (muitas vezes provisória), para reencontrar-se numa outra forma de existir, viver, conviver.

Essa elaboração resultante da relação do filósofo com seu partilhante, propõe alcançar, traduzir, compartilhar conteúdos, até então, desconhecidos ao próprio sujeito. Esses dados da realidade subjetiva costumam encontrar termos para se manifestar, nem sempre compreensíveis à primeira vista pelo titular de suas verdades.

A ideia do poeta de que um destino se origina na própria pessoa, tem a ver com a possibilidade do partilhante desconstruir e reconstruir sua circunstância singular. Um lugar para ensaiar novas referências para si mesmo sendo outro.     

Um aspecto que diferencia a Filosofia Clínica das demais abordagens terapêuticas, é seu caráter libertário, ou seja, quando diz respeito a um processo singular de transformação e busca para algo que integre e represente sua expressividade.

A categoria tempo, o lugar, a interseção, associados a um devir peculiar, compõem um eixo apto a manter ou modificar uma forma de vida. Muitas vezes, quando a pessoa consegue descrever-se, acessar meios para um processo singular, isso, por si só, pode oferecer matéria-prima para ressignificar suas crises em um novo lugar para viver.

Rainer Maria Rilke contribui: “Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se? Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho (...).” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Pág. 68).

A essência da Filosofia Clínica já estava lá, nas edições iniciais dos cadernos didáticos da formação, apesar de alguns freios metodológicos do autor, foi possível emancipar a mensagem original do novo paradigma, sob muitos aspectos divergente com a intenção de se manter a submissão à lógica alienista, como o caso de vedar atendimentos do filósofo as pessoas com discurso incompleto, raciocínio desestruturado. Dizia-se, naqueles tempos, que se deveria encaminhar ao especialista. 

Após essa desinformação preliminar, e com as atividades em hospitais psiquiátricos (apesar das limitações estruturais), o dia a dia em consultório, aulas, consultorias, foi demonstrado que a nova metodologia era apta a acolher e cuidar da fenomenologia do humano em qualquer de suas formas de expressão. Não se trata da medicina do corpo, mas de uma medicina da singularidade, onde é possível um diálogo inter e transdisciplinar, para qualificar as práticas de cuidado e atenção à vida.  Um desses lugares onde a imaterialidade se encontra com seus paradoxos.

As lógicas de controle aos eventos de ressignificação existencial propõem conter sua expressão, muitas vezes algo que luta para nascer, superando os limites impostos pela alienação familiar, escolar, religiosa, política, sustentam uma ideologia voltada para uma normalidade distante de alguém em vias de tornar-se.

O poeta compartilha: “(...) não pense que aquele que o procura consolar leva uma vida descansada no meio das palavras simples e discretas que às vezes fazem bem ao senhor. A vida dele comporta muito sacrifício e muita tristeza e fica-lhes muito atrás. Mas se assim não fosse, ele nunca poderia ter encontrado aquelas palavras.” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Pág. 70)

Com essas palavras o autor torna possível compreender o sentido da expressão borogodó em Filosofia Clínica, talvez até, em outras profissões cuidadoras, quando se associam - na estrutura de pensamento - um constructo de sensibilidade, competências, habilidades para cuidar e ser cuidado. O papel existencial conjugado a uma expressividade de maestria, acontece como um desdobramento de múltiplas interseções clínicas, desenvolvidas na superação de obstáculos, freios existenciais, camisa de força institucional, por onde é possível acessar ideias, sensações, formas de viver e conviver diferenciadas, muitas vezes distantes das normas e leis estabelecidas, para encontrar o sujeito singular.

Não é preciso regrar essas estruturas de pensamentos singulares, com raras aptidões ao ser cuidador em qualquer abordagem, mas acolher e trabalhar as especificidades que a integram, como uma obra-prima da natureza humana a transgredir as lógicas da submissão ideológica. Ao sujeito assim pensado, além das buscas por superar suas contradições subjetivas, ainda terá de conviver com a dessintonia de seu meio, o qual, muitas vezes, não o compreende por viver assim.   

Um dado que se apresenta na vida de um cuidador - como uma fonte de inspiração - em suas atividades terapêuticas, é a inquietude e a insubmissão com as intervenções para produzir e sustentar estruturas que degradam o sujeito, como: a internação involuntária, a indústria de psicofármacos, a medicalização psiquiátrica, a equivocidade de se destituir a pessoa em vias de não-ser de sua manifestação singular. Nesse sentido, ser transgressor, em qualquer de suas formas, pode significar uma medicina para superar os muros e cercas da alienação institucional, perseguindo um lugar melhor para se viver.

Aquele abraço,

hs  

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 71*

Notas do consultório do filósofo X 

O livro A prosa do mundo, de Maurice Merleau-Ponty (14/03/1908-03/05/1961), traduzida por Paulo Neves e publicada pela editora Cosac & Naify/SP em 2002, com prefácio do filósofo Claude Lefort (21/04/1924–03/10/2010), cuida de questões referentes a fenomenologia da linguagem, suas expressões, derivações. No curso do texto é possível vislumbrar uma intencionalidade da autoria em meio a sua proposta inicial.  

É preciso lembrar que essa obra ficou incompleta, pois o autor arrumou as malas e partiu em meio aos seus esboços. O que se tem é uma parte redigida pelo filósofo, e, outra, por especialistas. Alguém já escreveu por aí perguntando: como você gostaria que a morte te encontrasse? E alguns respondem: fazendo aquilo que mais amo na vida! No caso de Merleau-Ponty parece ser esse o caso, isto é, sua interseção irresistível com ela, se deu em meio a projetos inacabados.

A nova abordagem da Filosofia Clínica se abastece na teoria filosófica, literatura, poesia, a circunstância singular de cada um e as atividades de consultório. Assim é possível realizar uma aproximação com os eventos que a sustentam e desenvolvem há mais de 30 anos. Trata-se de uma abordagem terapêutica brasileira.

Para se entender a fundamentação teórica de base filosófica aplicada à clínica, reivindica-se uma abertura significativa e uma plasticidade para acompanhar seus trajetos de aproximação e interseção prática nas lidas de consultório.  

Já no prefácio Claude Lefort compartilha: “No escritor o pensamento não dirige de fora a linguagem: o escritor é ele mesmo um novo idioma que se constrói, que inventa meios de expressão e se diversifica segundo seu próprio sentido. (...) Toda grande prosa é também uma recriação do instrumento significante, doravante manejado segundo uma sintaxe nova.” (A prosa do mundo, 2002. Pág. 9)

O fragmento nos ajuda a pensar sobre o constructo de possibilidades contidas numa estrutura de pensamento. Ao encontrar na linguagem - em qualquer de suas semioses - um veículo de expressão, esse achado qualifica a atividade clínica do filósofo, desde os momentos preliminares à alta compartilhada. 

A nova mensagem terapêutica encontra sua base de sustentação no pressuposto da singularidade, onde cada partilhante possui um território diferenciado, lugar onde seu discurso existencial se realiza em tempo, lugar e interseção peculiares. É nesse endereço existencial que o filósofo irá acessar a matéria-prima e transitar pelo mundo como representação do outro sob seus cuidados.

Talvez seja o espanto (nada filosófico) a matriz de onde uma pessoa em crise de ressignificação se encontre, quando alguém de seu meio (família, trabalho, amigos) oferece uma forma de terapia para normalizar as coisas. Esse momento costuma ser o mais problemático, pois a maioria das pessoas desconhece metodologias clínicas, permanecendo refém das modas, dos discursos do especialista na tv, publicações, seminários, aulas, onde se enaltece uma ou outra metodologia, a maioria com base na medicina do corpo. Assim sendo, dependendo do profissional ou da abordagem que encontrar pela frente, a pessoa terá uma rota pré-determinada, a partir de um diagnóstico e prognósticos.  

O fato de uma expressão ser inédita ao titular de uma circunstância singular, assusta e, muitas vezes, coloca o próprio sujeito em formas de ser objeto numa investigação interpretativa, onde se traduz essa espécie de coisa como: anormalidade, desatino, loucura. O que, sob certo aspecto está correto, pois a pessoa em crise costuma oferecer um discurso existencial recheado de incompletude narrativa, desconserto, sensação de adentrar num território desconhecido, inclusive criando um vocabulário - muitas vezes incompreensível para si mesmo - para dar conta da avalanche de modificações em sua estrutura de pensamento.   

Com Merleau-Ponty: “Na terra, já se fala há muito tempo, e a maior parte do que se diz passa despercebido. (...) uma língua é capaz de assinalar o que ainda nunca foi visto (...) nenhum pensamento permanece nas palavras, nenhuma palavra no puro pensamento de alguma coisa.” (A prosa do mundo, 2002. Pág. 23)  

É interessante notar esse fenômeno da interseção humana, onde muitas vezes se fala sem ser ouvido, se ouve sem entender, se busca uma interação distanciada do contexto em que a expressão se apresenta. Pode-se perguntar: quem ainda se ocupa para encontrar a fonte de inspiração e desdobramentos de uma expressividade?

Por outro lado, essa fonte de matéria-prima aprecia refugiar-se - pela via da intencionalidade - nos termos agendados no intelecto, os quais se oferecem numa semiose singular, reivindicando uma tradução compartilhada de seus conteúdos.

Existem anúncios que se expressam pelas palavras, muitas vezes transgredindo a vontade preliminar da autoria. Esse fenômeno costuma integrar eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, não como uma constatação de um inconsciente, mas expressão de uma vontade em devir.  

Ao referir: nenhum pensamento permanece nas palavras, o pensador compartilha essa percepção de que as palavras, ao dizerem muito, ainda assim não esgotam a fonte de inspiração de onde partiram.   

Merleau-Ponty indica: “(...) o livro não me interessaria tanto se me falasse apenas do que conheço. De tudo que eu trazia, ele serviu-se para atrair-me para mais além. (...) Ele se instalou no meu mundo. Depois, imperceptivelmente, desviou os signos de seu sentido ordinário, e estes me arrastam como um turbilhão para um outro sentido que vou encontrar. (...)”. (A prosa do mundo, 2002. Pág. 33)

A relação de um leitor com um livro se assemelha à interseção do filósofo clínico com o partilhante, ou seja, os eventos de compartilhamento na hora-sessão atribuem a um e outro, conteúdos significativos resultantes das construções compartilhadas. Se é verdade que o sujeito em terapia se modifica com a continuidade dos encontros, também o filósofo acrescenta - de um jeito próprio - conteúdos à sua malha intelectiva.   

Uma vivência dessa natureza, onde se reapresentam territórios subjetivos, até então desmerecidos pelo partilhante, costuma abrir janelas e portas epistemológicas, intuitivas, transgressivas, por onde a pessoa pode experienciar algo novo, um desses lugares onde a fonte de inspiração atualiza seu discurso existencial.

Os eventos de releitura - integrantes da lógica das sessões - oferecem uma fenomenologia da descoberta, semelhante a revisita a lugares, pontos de vista, obras de arte, eventos da clínica filosófica, onde a matéria-prima se apresenta pela via da interseção e se descreve pelas construções compartilhadas, distante de um saber-poder interpretativo - exclusivo - do terapeuta.

Há um processo integrativo e libertário do partilhante na abordagem da Filosofia Clínica. Ao superar a lógica da dependência de um suposto inconsciente, se esboça um encontro singular impregnado de desconstruções, reconstruções, autogenias.   

Com o pensador: “(...) é o preço que se deve pagar para ter uma linguagem conquistadora, que não se limite a enunciar o que já sabíamos, mas nos introduza a experiências estranhas, a perspectivas que nunca serão as nossas, e nos desfaça enfim de nossos preconceitos. Jamais veríamos uma paisagem nova se não tivéssemos, com nossos olhos, o meio de surpreender, de interrogar e de dar forma a configurações de espaço e de cor jamais vistas até então.” (A prosa do mundo, 2002. Pág. 119)

É possível pensar sobre o que leva tanta gente a buscar uma metodologia - para trabalhar com pessoas - com base em definições cartesianas, cristalizadas, excessivamente bem ajustadas, de aspecto controlador, em tentativas de manipulação, reféns das percepções da medicina do corpo, instituindo aquilo conhecido como doença mental, síndromes, espectros, trauma, psicopatologias...

Uma suspeita, resultante dessas reflexões, é de que o território existencial do outro, muitas vezes insubmisso aos tratamentos da tradição, apresenta realidades distantes da percepção engessada das abordagens para contenção e direcionamento de sua expressão, oferecendo curas para doenças inexistentes. Essa noção, de aspecto científico, na verdade trata-se de uma abordagem ideológica, política, ao acenar com uma cura que não chega. O que ocorre são desvios de rota de uma expressividade singular, como proposta para contenção de seu devir, ora em vias de não-ser. A partir daí, se instalam intervenções para controle do outro, através da instituição psiquiátrica, a qual irá internar e medicalizar a singularidade como proposta de recondução da pessoa às verdades da lógica comum.  

Esse dado ajuda a pensar sobre a desistência de ex-alunos em se envolver com a metodologia da Filosofia Clínica, a qual exige uma lógica aprendiz, um estudo permanente sobre o outro e sobre si mesmo, em busca de conhecer as circunstâncias de um e outro nos eventos da hora-sessão.

Para muitos, parece ser difícil renunciar a um pretenso saber-poder que instalaria o terapeuta num lugar de destaque na relação clínica. Com a nova abordagem terapêutica, preliminarmente, o filósofo irá aprender com o partilhante os meios para acessar sua farmácia interior, qualificar a interseção, aprender sua linguagem e algo mais, passando longe das retóricas acadêmicas e não acadêmicas para a manutenção de princípios de verdade.  

Assim se colocam, esses incautos, numa busca por métodos que prometem a sustentação de um lugar de saber-poder do profissional, tendo por base - exclusivamente - sua experiência profissional e suas leituras, as narrativas a priori sobre cada caso. Esse ponto de vista se mantém numa proposta generalista, classificadora, onde se acena uma segurança (ilusória!) que não encontra reciprocidade nas intervenções clínicas.  Quando algo escapa a essa lógica cristalizada e cristalizante, resta o encaminhamento ao Alienista, o qual também não sabe o que fazer com esses desdobramentos da existência, restando a medicalização e, não raras vezes, a produção daquilo que promete curar.  

A formação do filósofo clínico inclui, além dos encontros com a fundamentação teórica, o estudo de casos clínicos singulares (que não podem ser compreendidos como uma fórmula mágica que sirva a todo mundo!), seminários, aulas complementares, clínica pessoal, supervisão, formação continuada. Esse fato, por si só, evidencia um caráter de seleção - rigoroso - aos candidatos ao ser filósofo clínico.

O estranhamento diante do novo, das lógicas da diferença, compartilha uma percepção filosófica que vem de longe, dos primeiros pensadores, os quais encontravam no espanto as origens do filosofar. Com isso se pode compreender o papel existencial e a expressividade do filósofo clínico em consultório, o qual tem por bússola uma relação aprendiz para seus deslocamentos e partilhas pelo endereço existencial inédito, singular, do partilhante.   

Aquele abraço,

hs   

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Filosofia Clínica agridoce 70*

Notas do consultório do filósofo IX 

Dialética para principiantes é de autoria do filósofo Carlos Roberto Cirne-Lima (1931-2020) - um dos maiores pensadores brasileiros -, publicada na coleção Idéias em 1996 pela editora Unisinos/São Leopoldo/RS. Em 2005, na feira do livro de Porto Alegre/RS, assim que a vi, tive a impressão de que essa obra aguardava - no balaio dos livros desprezados - uma sintonia para ser encontrada. 

O texto é significativo aos estudos da Filosofia Clínica. Ao fundamentar o tema da autogenia, especificamente os movimentos existenciais a partir das interseções da malha intelectiva, suas contradições, adições, subtrações, multiplicações, descrevem uma matéria-prima nem sempre acessível ao primeiro olhar.

Muitas vezes, mergulhados em um cotidiano de trabalho, família, relações, não é raro passar despercebido as inquietudes que integram os momentos de ressignificação existencial, bem assim, as investidas para sustentação de uma forma de vida. Com a nova mensagem terapêutica os estudos sobre a autogenia - em qualquer de suas formas de apresentação - constituem um capítulo fundamental na formação clínica do filósofo.

O pensador indica: “Filosofia é um grande jogo de quebra-cabeça. (...) Fazer Filosofia significa jogar o jogo até o fim, isto é, montar as peças, de sorte que se possa ver a imagem global. (...) Na Filosofia não temos todas as peças. O universo ainda está em curso, a História não terminou. Muitas coisas, que nem sabemos quais são, estão por vir.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 15)

Um estudo com base na singularidade, reivindica uma aproximação com a fenomenologia do partilhante, ou seja, acolher sem classificar ou tipologizar para encontrar o outro sujeito da relação em território próprio.

Ao lembrar o jogo de quebra-cabeça, onde montar as peças de sorte que se possa ver a imagem global, lembra um caminho para acessar a estrutura de pensamento de cada pessoa, a qual se esboça numa grafia própria, incabível as lógicas de controle e direcionamento de sua expressão. Um ponto de partida se anuncia num convívio continuado, onde o filósofo e o partilhante se encontram numa clínica singular, diferenciada, ora como ser, ora como não-ser, a redigir uma estética compartilhada.   

O filósofo nos indica que na Filosofia não temos todas as peças, alerta para o fato de encontrarmos mais espaços vazios do que recheios. Se pensarmos na fenomenologia do humano, essa questão se atualiza num sujeito onde ser e não-ser são. Assim, o filósofo clínico, nos eventos da hora-sessão, preliminarmente, sabe que não sabe. Com isso se coloca à disposição para aprender com a pessoa, tratando de aproximar, não interpretar ou controlar, mas descrever os territórios inesperados que vão aparecendo, um pouco antes de saber mais e melhor sobre a versão partilhante.      

Em Cirne-Lima: “Ser e Não-Ser, que à primeira vista se opõem e se excluem, na realidade constituem uma unidade sintética, que é o Ser em Movimento, o Devir. No Devir existe um elemento que é o Ser, mas existe por igual um outro elemento igualmente essencial que é o Não-ser. Ser e Não-Ser, bem misturados, não mais se repelem e se excluem, mas entram em amálgama e se fundem para constituir uma nova realidade.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 22)

Talvez a principal dificuldade em se entender a movimentação existencial (subjetiva ou objetiva) conhecida como autogenia, em Filosofia Clínica, tenha a ver com os componentes de aspecto estático da tradição, a qual propõe uma via prioritariamente linear. Ao desconhecer os altos e baixos da estrada, suas curvas e deslizes, os avanços e recuos, as pontes que precisam ser construídas, o convívio com o inesperado, as manutenções e as transgressões, o papel existencial do filósofo aprendiz pode ser desafiado a superar seus freios existenciais.  

Uma vida que desconheça suas contradições e impermanências, pode conter, em si mesma, a peça faltante ao quebra-cabeças da estrutura de pensamento. A clínica assim descrita, se insere num diálogo com seus paradoxos, quando os deslocamentos estruturais anunciam novas conformações existenciais.

Não se trata de emancipar uma condição em detrimento da outra, mas de buscar uma integração das propostas de aspecto excludente, isto é, a partir de uma construção compartilhada, encontrar uma conexão onde uma e outra expressão tópica encontrem um novo sentido na estrutura de pensamento. Semelhante àquilo que o pensador chama de amálgama para constituir uma nova realidade, ou seja, o que se apresenta é um ponto de vista diferenciado, onde uma e outra se reapresentam em autogenia.  

Cirne-Lima auxilia: “São os sofistas que primeiro transplantaram o jogo dos opostos de Heráclito do plano da Filosofia da Natureza para o plano das relações sociais.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 34)

A apropriação de determinados ensinamentos filosóficos para aplicação cotidiana não é nova. O que se destaca em Filosofia Clínica, é o fato de se realizar uma interseção da fundamentação teórica com a atividade prática de consultório, isto é, não se trata de ensinar História da Filosofia ou filosofar, mas uma abordagem terapêutica apta a compor os ensinamentos da tradição filosófica com a clínica, acolhendo a dialética das contradições para novas propostas de cuidado e atenção à vida.

O novo paradigma da Filosofia Clínica, denota suas origens na Filosofia e na Medicina. O pensador precursor do novo método - Lúcio Packter -, em razão de suas origens pessoais e profissionais, elaborou uma interseção entre as duas abordagens, inaugurando uma terapia diferenciada.   

A busca por superação de paradoxos existenciais, se contrapõe à prisão onde muita gente permanece refém, sustentando os diagnósticos e prognósticos do Psiquiatra, os traumas fabricados por intervenções e agendamentos indevidos... Assim é importante lembrar a natureza e o significado de certas correspondências contraditórias, as quais, algumas vezes, abastecem um devir de transformação.  

Ao se propor uma desconstrução desses pressupostos, se inicia uma busca por acolher o fenômeno do ser singular, o qual se estrutura de um jeito próprio, distante das verdades festejadas pelos holofotes, com narrativas impregnadas de retórica, como: você sabe com quem está falando? Essa é uma prática científica! Para vender a ideia de que as coisas são de uma só maneira e não podem ser de outra. Destituindo a pessoa de meios para superar as metodologias da cristalização existencial.

Com o pensador: “(...) embora sejam pólos mutuamente excludentes, tese e antítese, se conciliam como Ser num nível mais alto e mais nobre. (...) Ser é a síntese dos dois pares de opostos que regem a construção do universo. (...) Dentro do Ser polarizam-se repouso e movimento, mesmice e alteridade.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 86)

Tendo em vista um movimento desconstrutivo do assunto último (aquilo que estrutura a dor existencial, muitas vezes traduzida como doença!), onde tópicos de aspecto excludentes interferem na expressividade do partilhante, é possível encontrar um novo lugar de convívio para propostas contraditórias, as quais, com as intervenções da terapia filosófica, podem ressignificar a natureza e o alcance de uma estrutura de pensamento.  

Um processo assim deve vislumbrar uma aproximação com o funcionamento e possibilidades de mudança ao partilhante, ainda quando escolha se manter em determinado constructo estrutural. Muitas vezes, para sustentar ou modificar uma determinada autogenia, poderá testar escolhas, experienciar hipóteses, investigar as origens, a propriedade de suas convicções.

O filósofo, ao referir “dentro do Ser polarizam-se repouso e movimento, mesmice e alteridade”, nos oferece um ensinamento sobre a representação de mundo - entre ficar ou partir -, numa estrutura de pensamento, a alteridade pode significar remédio ou veneno, tendo por base uma realidade singular.   

Nesse sentido se pode pensar sobre o alcance dos relacionamentos em sociedade, onde a pluralidade existencial tenta conviver com a lógica das diferenças, muitas vezes num mesmo endereço existencial (em casa, no trabalho, na pracinha, transporte coletivo...). Aprender a semiose dessas interseções constitui um fundamento da nova abordagem, por onde se busca compreender a estrutura de pensamento, para verificar as possibilidades de convívio das pessoas consigo mesmas e com suas circunstâncias existenciais.       

Cirne-Lima ensina: “Quando as pessoas falam e, apesar da boa vontade, não conseguem se entender, é que estão falando línguas diferentes.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 102)

O fragmento aponta para a necessidade de um aprendizado sobre a forma como uma e outra pessoa se expressam, em busca de uma ponte para entendimento dos termos agendados no intelecto, estruturação ou desestruturação de raciocínio, completude ou incompletude discursiva, os quais indicam rotas a geografia subjetiva do outro. 

Ainda assim, existem muitos componentes dessa proposta por interseção, como uma abertura ao conviver, como base para um entendimento compartilhado. Noutras palavras, trata-se de ajustar a linguagem a uma sintonia compreensiva.  

Cada pessoa, ainda quando utilize o vocabulário comum, se diz em linguagem própria, pois existe um sentido singular, nem sempre ao alcance do outro em vias de querer entender a partir de suas próprias referências. O movimento intelectivo conhecido como recíproca de inversão, costuma favorecer a compreensão dos eventos da hora-sessão, onde o filósofo busca encontrar o partilhante em seu território.

O lugar privilegiado onde se refugia a matéria-prima da pessoa, com a qual o filósofo clínico irá trabalhar, acontece num endereço existencial - inicialmente - desconhecido, com uma expressividade incomum, onde o terapeuta - semelhante ao antropólogo - vai conviver com as lógicas da diferença, decifrar as incógnitas do seu devir.   

Aquele abraço,

hs      

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 69*


Notas do consultório do filósofo VIII

A atividade clínica do filósofo se relaciona com a pluralidade existencial descrita nos eventos da hora-sessão. Com isso seus apontamentos adquirem sentido, expressividade, significado, tendo por base uma percepção sobre a representação de mundo sob seus cuidados.  

Um acolhimento eficaz deve conter uma referência aprendiz sobre os termos agendados no intelecto, sua trama discursiva existencial, a semiose por onde o partilhante se diz, seu contexto de vida.   

Esse convívio de construção compartilhada encontra, na escuta fenomenológica, um ponto de partida, para, logo a seguir, localizar existencialmente sua circunstância e aprofundamento da estrutura de pensamento, numa associação com a analítica da linguagem, a hermenêutica compreensiva, compondo um eixo estruturante apto a encontrar os inéditos de uma narrativa existencial, lá onde refugia sua singularidade.     

Muitas vezes a pessoa - em seus momentos de crise - tem dificuldade em se reconhecer, devido a velocidade de suas transgressões, desde o desconcerto de suas ideias a atitudes desconexas. Nesses momentos é significativo um acolhimento com base na recíproca de inversão, onde o filósofo irá encontrar o partilhante em seu território existencial.   

Gilles Deleuze contribui: “Geralmente, só dá para ser estrangeiro numa outra língua. Aqui, ao contrário, trata-se de ser um estrangeiro em sua própria língua. Proust dizia que os belos livros forçosamente são escritos numa espécie de língua estrangeira.” (Conversações, 1998. Pág. 52).

Uma aproximação com as referências de cada pessoa pressupõe o entendimento da língua por onde se expressa, seja numa construção compartilhada na hora-sessão ou desdobramentos do seu cotidiano. Com essa sintonia - pela via da interseção - é possível visitar sua estrutura de pensamento em vias de ser estranha para si mesma.

Esse ser estrangeiro em sua própria língua, como refere o pensador, pode significar algo novo diante do espelho. Trata-se de decifrar a língua que se insinua na língua, isto é, conhecer os termos agendados no intelecto para acessar conteúdos existenciais em forma de projeto.

Nesses instantes a companhia que se apresenta é a insegurança, o medo, a relação com esse outro que vai se insinuando na vida de cada um. As autogenias costumam rascunhar seus originais por essas falas recheadas de incompletude, desestruturação discursiva, escritos estranhos, insinuando um território extraordinário em instantes de apresentação.   

Com Deleuze: “(...) quando ocorre uma inovação, ela pode vir de um lugar inesperado, numa circunstância excepcional (...)”. (Conversações, 1998. Pág. 94).

A condição para o aparecimento de uma novidade no mundo da vida, seja através de uma narrativa errática, um discurso existencial contraditório, se anunciam em poéticas da singularidade, onde um olhar inédito aponta improváveis amanhãs.   

Talvez a maior dificuldade da relação com uma ideia ou um novo constructo na vida prática, esteja relacionada ao espanto de sua apresentação. Um lugar onde o cotidiano se reapresenta em múltiplas formas, nem sempre com um vocabulário reconhecido. Assim as intervenções para adequação institucional, encontram na classificação e tipologias os moldes para conversão da singularidade em algo comum.  

A literatura, o mundo das artes, a poesia, a música, o teatro, cinema, contribuem com esses deslocamentos de travessia, onde essas pontes entre uma realidade e outra se oferecem para descrever e elaborar algo ainda sem tradução.

Em Gilles Deleuze: “(...) É que, no momento em que alguém dá um passo fora do que já foi pensado, quando se aventura para fora do reconhecível e do tranquilizador, quando precisa inventar novos conceitos para terras desconhecidas, caem os métodos e as morais, e pensar torna-se, como diz Foucault, um ‘ato arriscado’, uma violência que se exerce primeiro sobre si mesmo.” (Conversações, 1998. Pág. 128).

Existe uma interseção - nem sempre positiva - entre as propostas da pesquisa científica (seja como proto ou metaciência) e a vida como ela é. Ponto de encontro para lidar com eventos inesperados, muitas vezes numa abordagem de controle e submissão do devir existencial. Assim se pode entender a desestrutura de uma pessoa no espelho irreconhecível dos seus dias.  

Ao inventar novos conceitos para terras desconhecidas, como indica o pensador, tem a ver com as propostas de ressignificação existencial, os deslocamentos, as idas e vindas, como ensaios de aproximação com uma estrutura de pensamento em vias de tornar-se.  

Um aspecto que se destaca, tem a ver com a maneira como são tratados esses instantes de estranheza, quando algo novo surge no horizonte de cada um. No caso de novos paradigmas, se destacam as resistências mercadológicas, corporativas, para sustentar um eixo de saber-poder hegemônico. Quando se refere a uma pessoa, seja na vida familiar, no mundo do trabalho, amigos, o que se apresenta é o significado desses comportamentos como anomalia, doença, algo a ser tratado pela farmácia alienista.

Para uma pessoa em busca de si mesma sendo outra, a natureza e o alcance das intervenções clínicas podem significar uma acomodação com algo que busca superar. A exploração de novas possibilidades estruturais - autogenias - tem a ver com uma disposição pessoal em compartilhar ensaios de ressignificação e descoberta, um convívio com territórios integrantes da própria estrutura, embora, até então, desconhecidos ou inacessíveis.      

Nesse sentido, não é raro uma pessoa ter de lidar com as circunstâncias ao seu redor, seja como desdobramento de estudos e pesquisas ou na vida corporativa, familiar, num aprendizado sobre a estrutura de pensamento em processo de autogenia, com base nos indícios presentes numa linguagem recheada de incompletude discursiva e raciocínio desestruturado.   

Deleuze auxilia: “Nietzsche dizia que um pensador sempre atira uma flecha, como no vazio, e que um outro pensador a recolhe, para enviá-la numa outra direção. É o caso de Foucault. O que recebe, Foucault o transforma profundamente. Ele não para de criar.” (Conversações, 1998. Págs. 146/147).   

A Filosofia Clínica nasce em um momento histórico peculiar, quando se acenam múltiplas novidades, especificamente na área tecnológica, onde a maioria das pessoas saboreia as inovações para melhorar seu dia a dia como uma coisa entre outras coisas. Enquanto isso, o fenômeno humano segue refém de velhas fórmulas para contenção, controle, submissão de sua expressividade, cercado pelos muros e freios existenciais de cada época.

O novo paradigma cuidador encontra sua fonte de inspiração nas reflexões e análises da Filosofia, a qual, associada as dinâmicas de consultório, compõe uma nova direção ao acolhimento e cuidados com a pessoa em seus momentos de autodescoberta.

Aquilo que se pensava existir somente na esfera das ideias, adquire um contorno objetivo nos procedimentos clínicos da nova mensagem terapêutica. Seu olhar de escuta e demais procedimentos, se associam as metodologias libertárias, contraditórias com as práticas para classificar e domesticar a expressividade humana.

Os eventos da singularidade reivindicam método e borogodó, destituindo, sob muitos aspectos, um saber-poder que tenta se manter a qualquer custo. A Filosofia Clínica existe há pouco mais de 30 anos, e é uma elaboração crítica, reflexiva, analítica, prática, voltada para a interseção com a fenomenologia do humano em suas buscas de reelaboração, seja para manter ou desconstruir sua autogenia.  

Talvez os rituais de ensino, pesquisa, publicações acadêmicas tenham algo a aprender com as contradições que insistem em bater à sua porta, compartilhando algo que os artigos científicos e notas de rodapé não alcançam. A novidade costuma se insinuar - um pouco antes de ser cooptada pelos princípios de verdade - nos convívios com o inesperado, nas entrelinhas e desvãos da cristalização institucional, no extraordinário refugiado na invisibilidade dos recomeços.   

Aquele abraço,

hs