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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 95*

 

Sobre textos extraordinários

Em 2012, recém chegando à Porto Alegre, buscava me inteirar sobre as transformações da cidade, àquilo que permanece enquanto muda, especificamente suas livrarias, cinemas, cafés, refúgios desconhecidos ... Foi assim que, numa visita à livraria Cultura, após uma sessão de cinema, me encontrei com uma obra excepcional: “O Arco e a Lira” de Octávio Paz, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht para a editora Cosac naify/SP. 2012.

Nessas aproximações da Literatura com a Filosofia Clínica, muitas vezes é preciso transgredir os agendamentos da tradição interpretativa, a qual distorce originais para imprimir generalizações, patologias narrativas. Os apontamentos desse texto, ao compartilhar releituras de aprendiz, busca descrever o extraordinário da expressão singular.

Embora o escritor mexicano tenha sido agraciado com o Nobel de Literatura em 1990, não se trata de evidenciar suas conquistas, mas as possibilidades de diálogo com o ser humano incomum, sua produção literária em relação a nova abordagem clínica.  

O prólogo do autor, de 1967: “O arco e a lira. O título vem de Heráclito e alude à luta dos opostos que a poesia transforma em harmonia, ritmo e imagem.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 15)

A nova metodologia, com base na Filosofia, acolhe as contradições existenciais como um eixo em vias de ressignificação. Não como uma patologia a ser curada ou reconduzida a uma fôrma de normalidade.  

Uma estrutura de pensamento em busca de si mesma, pode precisar de um caos transformador, para superar referências que a oprimem, para superar muros em direção a outro si mesmo.  

Em uma interseção com as lógicas do instante precursor, o que se apresenta são inéditos refúgios, muitas vezes desconhecidos do dicionário comum. Estes textos se propõem a conviver com a expressividade incompreendida, presente no cotidiano de cada um.   

O filósofo Heráclito de Éfeso (540 a.C. - 470 a.C.), do qual nos chegaram fragmentos de seus escritos, ensina uma lógica dialética, sob muitos aspectos desconhecidos. Torna possível ressignificar anomalias e paradoxos em poesia, harmonia, como indica o escritor, numa relação muito íntima com a Filosofia Clínica, a qual não trata desajustes existenciais como anomalia ou doença mental. Propõe compreender as contradições como resultantes de uma circunstância, nem sempre acessível pelo que se tem.    

Em Octávio Paz: “(...) o poema é apenas isto: possibilidade, algo que só se anima em contato com um leitor ou um ouvinte. Há um traço comum a todos os poemas, sem o qual eles nunca seriam poesia: a participação.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 33)

As lógicas da interseção singular acolhem, convivem, compartilham, deslocam, reencontram pessoas nos momentos privilegiados da terapia, semelhante às relações do leitor com a obra de arte em forma de palavra.

Uma possibilidade de se efetivar um processo existencial desconstrutivo, encontra, nos eventos da hora-sessão, um território propício aos experimentos do partilhante, o qual se integra a um lugar protegido das métricas distorcivas para seu devir em forma de anúncio.

Os ânimos de um e outro integrantes das interseções clínicas, apreciam ajustar e desajustar-se como práticas num esboço de algo por vir. A natureza e o alcance do acolhimento costumam indicar a qualidade da abordagem terapêutica, a qual necessita de uma conjugação de estruturas de pensamento entre o filósofo e o partilhante.  

A participação de que fala o autor, se aproxima de uma condição fundamental a Filosofia Clínica, ou seja, um estado de cooperação clínica, sem a qual restaria uma apropriação do sujeito como objeto, muito comum nas abordagens da tradição, onde o profissional, detentor de uma especialidade, assume as rédeas de um tratamento, distante do território existencial do outro sob seus cuidados, ressignificado, a partir de então, como uma extensão dos agendamentos distorcivos da sua singularidade.

O poeta ensina: “Graças à poesia, a linguagem reconquista seu estado original. Em primeiro lugar, seus valores plásticos e sonoros, geralmente desdenhados pelo pensamento; depois, os afetivos; e, por fim, os significativos. Purificar a linguagem, tarefa do poeta, significa devolver-lhe sua natureza original. (...) A palavra, em si mesma, é uma pluralidade de sentidos.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 55)

Octávio Paz lembra Wittgenstein, ao referir a palavra como portadora de uma pluralidade de sentidos. Assim se pode entender a dimensão de uma busca por significar, pela expressão de quem se diz, como se diz, por onde se diz, como proposta para expansão de suas fronteiras existenciais, em direção a algo ainda sem nome, um produto diferenciado da terapia.

O estado original da linguagem, como indica o escritor, encontra na poesia seu território de excelência, possivelmente por reencantar uma tez de expressividade apta a ampliação do seu ser sujeito numa história que lhe pertence.

A plasticidade desses ensaios do partilhante, em relação a um si mesmo que se desloca, rascunha inéditos por múltiplos endereços existenciais, nem sempre acessível a uma só epistemologia.   

Quando o escritor diz: purificar a linguagem é devolver-lhe sua natureza original, sugere algo que se perdeu pelo caminho. Imprime a suspeita de que o entendimento dos princípios de verdade, possam desperceber as expressões do devir singular. Num território assim pensado, uma definição de doença mental se encaixa como mão e luva, para definir o que é e o que não é: normal, anormal, possível, impossível.   

Em Octávio Paz: “(...) ambos (Yeats e Jiménez) chegam à velhice para escrever seus melhores poemas. Sua corrida em direção à morte foi uma corrida para a juventude poética. Em todas as suas transformações, Jiménez foi fiel a si mesmo.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 100)

A terapia é um lugar onde se pode aprender mais e melhor sobre si mesmo. Desenvolver-se em direção àquilo que lhe pertence por inteiro, sem pedir emprestado uma matéria-prima diversa do que lhe toca como expressividade.   

Um texto de 2007, “Poéticas da singularidade”, publicado pela E-papers/RJ, apresenta indícios sobre a fenomenologia do estranho em cada um, algo que se insinua em momentos raros, muitas vezes inacessível ao próprio titular. Sem contar os momentos em que sal manifestação é debelada à golpes pela intervenção alienista e seus cúmplices.   

Talvez seja a velhice o período da vida mais desvalorizado pelos princípios de verdade, ou seja, quando algumas pessoas conseguem atingir algo considerado utópico, impossível, recheado de desvalia pelas modas, pelos agendamentos da propaganda para se vender frente ao espelho.

Em caso de uma pessoa conseguir aproveitar seu território existencial - como se encontra - como base, para transgredir adversidades, ressignificando o que lhe acontece como matéria-prima, os anos de vida podem ser cúmplices dessa trajetória para si mesma.   

O poeta compartilha: “A poesia é metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso faz fronteira com a magia, a religião e com outras tentativas de transformar o homem e fazer ‘deste’ e ‘daquele’ o ‘outro’ que é ele mesmo.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 119)

Ao anunciar uma trajetória diferenciada, as poéticas da singularidade evidenciam íntima relação com um processo (autogenia) de libertação em cada um, isto é, quando a pessoa atualiza suas memórias para qualificar seu discurso existencial.

Em uma desconstrução preliminar a uma reconstrução pessoal, o sujeito de sua condição, em vias de tornar-se, vivencia múltiplas ideias, sensações, ensaios em direção a um si mesmo que já existia como promessa ou delírio, refugiado em suas margens e periferias.  

A alquimia, magia, religião, filosofia, poesia, podem ser ingredientes de aproximação compreensiva com a vida, um pouco antes de tornar-se. As contradições apreciam ensaios de transformação, em um contexto de vida onde a pessoa se desencontra.

Algumas vezes a matéria-prima para qualificar expressividades, pode significar uma atualização de ajustes, para a manutenção da vida como ela está. Noutras, pode significar uma rebeldia com as amarras de contenção em uma não singularidade.

Com o escritor: “Tudo muda porque tudo se comunica. (...) Podemos mudar, ser pedras ou astros, se conhecermos a palavra justa que abre as portas da analogia. O homem mágico está em comunicação constante com o universo, faz parte de uma totalidade na qual se reconhece e sobre a qual pode agir.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 227)

Um devir autogênico, em suas experimentações, se desloca por territórios diferenciados, onde o sujeito de suas possibilidades se exercita em múltiplas direções existenciais, muitas vezes na companhia imprevisível dos seus recomeços.     

A percepção de que tudo muda, porque tudo se comunica, vincula-se a uma estrutura de pensamento, um lugar para se conhecer a geografia interna, onde se registram os dados sobre a vida de cada um. Ao ingressar num território assim descrito, o filósofo terá de qualificar as idas e vindas intelectivas da recíproca e da inversão, para conhecer e traduzir compartilhando a matéria-prima do outro lado da interseção clínica.

Num espaço assim descrito, existem alternativas de ser e não-ser, isto é, quando uma pessoa se coloca em um processo de abertura, investigação compartilhada e transgressão em busca de superar-se, algo distante da lógica dicionário acontece.   

Octávio Paz ensina: “Ser si mesmo é condenar-se à mutilação porque o homem é apetite perpétuo de ser outro. (...) O homem é o inacabado, embora seja cabal nessa inconclusão; e por isso faz poemas, imagens, nas quais se realiza e se conclui sem nunca concluir totalmente.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 274 e 275)

A noção de incompletude existencial, auxilia a elaborar uma via de acesso ao devir singular, quando este faz e refaz escolhas, experiencia hipóteses na pluralidade de seus originais. Algo novo aparece pelos termos agendados no intelecto, quase sempre inacessíveis às epistemologias da multidão.

Em uma busca por preenchimento existencial, é comum as pessoas elegerem as verdades do consumo para saciar a fome de si mesmas. As lógicas de vitrine apreciam a mescla entre sujeito e objeto, quando uns e outros se confundem para abastecer suas armadilhas existenciais.  

Com o poeta, a vida comum se reapresenta em poéticas da singularidade, oferecendo rotas para superar o deus dinheiro. Uma busca por emancipar o aroma das flores no campo, nos jardins, caminhar na beira da praia sem pressa, saboreando as sensações de um percepcionar em interseção com o ritmo das marés, os tons e sobretons de suas águas, as quais, ao ser as mesmas, já são outras águas.

O patrimônio imaterial em cada um, aprecia desenvolver-se em anúncios de periferia, à margem dos rituais reconhecidos, festejados pela autenticação do notário. Nesse sentido a poesia, a música, o teatro, a literatura, descortinam um espaço de vida incomum. Uma leitura assim pensada, pelas páginas de um texto extraordinário, encontra-se em transgressão das fronteiras do provável.

Aquele abraço,

hs

sábado, 17 de outubro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 94*

 

Páginas em trânsito

Num final de tarde do ano de 2009, nas caminhadas pelo centro histórico de São João del Rei/MG, encontrei a livraria “Ponto literário”. Sendo uma cidade universitária, acolhendo estudantes de várias regiões das Minas Gerais e do país, esse espaço singular oferece opções literárias de qualidade.

Neste endereço fui encontrado pelo livro “As ondas” de Virginia Woolf, traduzida por Lya Luft e publicada pela editora Nova Fronteira/RJ em 1980. Mais uma vez, a página inicial contém um carimbo de uma livraria de Porto Alegre/RS, denunciando uma interseção das terras gaúchas com as mineiras. Como um livro se desloca de um lugar para outro? Por quantas prateleiras, mesas, camas, mãos e mentes, promessas e ilusões revividas, transitam em cada leitura?  

A obra permite um diálogo com a Filosofia Clínica. Suas páginas, impregnadas de uma poética singular, convida a uma relação sem pressa.  Já se disse: ‘cada um lê com o que tem e o que é, no momento de uma leitura’. Talvez resida aí o significado das releituras, ao desvelar o sentido das palavras, até então escondidas no texto.  

Com Virgínia Woolf: “(...). Mas quando nos sentamos juntos, perto um do outro - disse Bernard -, nossas palavras nos fundem um no outro. Estamos emoldurados pela neblina. Formamos um território inapreensível.” (As ondas, 1980. Pág. 13)

Os eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, possuem a tez do acolhimento singular. Ao não interpretar ou distorcer a expressividade partilhante, o filósofo busca uma descrição compreensiva de suas palavras.   

As propostas para interpretar o que acontece nas terapias da tradição, se deparam com uma dificuldade básica, isto é, a de querer acessar o outro a partir de si mesmo, suas leituras, seminários, experiências com outras pessoas, como se fossem as mesmas.   

Com o novo paradigma, a noção de ‘fusão um no outro’, se assemelha ao processo da transição entre recíproca de inversão e inversão, seus deslocamentos, quando da interseção terapêutica. No entanto, não se trata de uma fusão, mas de visitas ao território existencial do partilhante, onde o filósofo experiencia - em perspectiva - outras realidades.  

A aproximação de pontos de vista por uma intencionalidade compartilhada, permite um diálogo de integração, onde algo novo se realiza, tendo como testemunha a evolução dos termos agendados no intelecto, ora traduzidos pelos deslocamentos da relação.

A autora indica: “Somos os primeiros a vir aqui. Somos os descobridores de uma terra desconhecida.” (As ondas, 1980. Pág. 14)

Com as referências da fenomenologia, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, é possível experienciar uma inédita relação com o partilhante, tendo em vista seu endereço existencial - em vias de apresentação.

O vislumbre precursor de um território cristalizado, por si só, pode significar o começo de uma desconstrução, daquilo, até então, sancionado como doença mental, um trajeto para a ressignificação existencial.

As percepções sobre uma ‘terra desconhecida’, permite ensaiar novos caminhos, encontrar rotas de autodescoberta, desconsideradas como delírio ou desrazão. A formulação de hipóteses na terapia filosófica, quando possível, permite que o partilhante se desloque por um devir em forma de rascunho.

Muitas vezes, nesse processo de construção compartilhada, aparecem desvãos para superar a condição de ser estranho no próprio território, ultrapassar a lógica das tipologias psiquiátricas.

Nas palavras da escritora: “Agora, minha mente pode despejar-se para fora de mim. Posso pensar em armadas singrando altas ondas. Estou livre de duros contactos e colisões. Singro solitária sob recifes alvos.” (As ondas, 1980. Pág. 22)

Os deslocamentos longos ou curtos, sejam eles em direção ao passado das memórias ou aos projetos para depois de amanhã, costumam desdobrar-se a partir dos dados sensoriais, onde uma palavra, um cheiro, a leitura ou a música, permitem cogitar sobre a atualização da malha intelectiva da pessoa.

As ideias complexas, recheadas de abstrações, quando direcionadas a favor do partilhante, podem significar-se em múltiplas direções, compondo um cenário de raridade, cuja mapa encontra-se em processo na estrutura de pensamento da autoria.

Para isso acontecer, reivindica-se uma abordagem de acolhimento, trânsito compreensivo e não desmerecimento da expressividade. A elaboração compartilhada de um lugar onde a semiose diferenciada consiga esboçar a coisa nova, aparecendo como um porto seguro para as tratativas de algo ainda sem nome.  

Virginia Woolf ensina: “(...) torna-se claro que não sou uno, nem simples, mas complexo, múltiplo.” (As ondas, 1980. Pág. 58)

A escritora compartilha, através de seus personagens, aspectos de sua estrutura de pensamento, por onde se diz livre das ameaças da lógica alienista (como produtora da alienação mental).

Antonin Artaud lembra as intervenções da psiquiatria, sua inveja e ressentimento pela inquietude criativa e a ousadia daqueles que propõe alienar de si mesmos, ao oferecer sua cura a base dos psicofármacos, tratamentos de choque, para convertê-los a sua concepção de normalidade. 

Essa forma de produzir roteiros para uma história, permite a autoria expressar pontos de vista com maior liberdade, ao dizer-se nas manifestações de seus personagens, como meio para dialogar com seus leitores, os quais, ao escolher sua leitura, também eles podem vivenciar aspectos de si mesmos na reciprocidade com a obra.

Com seu roteiro: “Fico atônito quando afasto o véu das coisas com palavras, e constato o quanto mais, infinitamente mais, observei do que consigo dizer. Enquanto falo, as imagens não cessam de borbulhar dentro de mim.” (As ondas, 1980. Pág. 64)

As múltiplas formas para tradução - de uma mesma realidade - oferecem um mosaico de expressividades, nem sempre ao alcance de um só olhar. A esteticidade seletiva pode contribuir com o rol discursivo de cada pessoa, ao oferecer um caminho para experienciar a luz do dia para seus inéditos.  

Uma adequação com a realidade das coisas, pode oferecer algumas facetas sobre sua existência, quase sempre refém da representação de alguém em trânsito. Através da palavra, em uma versão por alguns de seus ângulos, se pode sentir algo que permanece indizível, algumas vezes palpável na fenomenologia das construções compartilhadas.  

A investigação assim pensada, ao compor olhares e sentires, além de qualificar o entendimento, permite esgaçar as fronteiras do possível, compreender as teses e antíteses, um pouco antes de ser síntese. Para, depois disso, em tempo próprio, perseguir-se em novas contradições.    

Em Virginia Woolf: “Sinto mil capacidades brotarem em mim. Ora sou brejeira, alegre, lânguida, ora melancólica. Tenho raízes, mas sou fluída.” (As ondas, 1980. Pág. 77)

Os papéis existenciais costumam se desenvolver na circunstância de cada um. Essa realidade pode se modificar de acordo com as sintonias narrativas e suas possibilidades de desconstrução.

Em um mundo repleto de limites, contenções, lógicas para normalização discursiva, o exercício da singularidade pode ficar cristalizado em alguns momentos. A escrita romanesca contribui para se dizer aquilo incompreendido longe de suas páginas. Os deslimites da poesia, a interpretação do teatro, os ensaios da literatura, as melodias da música, contém uma expressão incompreensível, se desfocada do contexto e das interseções onde se abastece.  

As raízes que permitem uma fluidez, como refere a autora, esboça uma integridade pessoal como base para múltiplos deslocamentos, com a matéria-prima dos sonhos, em recheios de humanidade em processo para ampliar horizontes.

A autora refere: “Mas já começam os sinais, os chamados, as tentativas de me atrair de volta. A curiosidade é eliminada só por pouco tempo. Não se pode viver fora da engrenagem mais do que talvez meia hora. Percebo que os corpos já começam a parecer comuns; mas o que está por trás deles é diferente – a perspectiva.” (As ondas, 1980. Pág. 115)

Os extraordinários momentos da hora-sessão, por onde o partilhante esboça outros para si mesmo, num ambiente livre de interpretações distorcivas de sua singularidade, esse zoom expressivo aprecia ensaios de liberdade, por onde o filósofo compartilha a vertigem das sintonias com o inacreditável.

A intuição desses instantes convida o sujeito extraordinário a ser algo mais, em uma rota desvinculada do visar comum, nem sempre possível de descrição com o que se tem, reivindica encontrar a chave de leitura desses originais.

Para acessar a perspectiva incomum, em cada convívio, pode ser necessário transitar por contornos de imprecisão, dialogar com as lógicas do desconcerto, em tratativas para as poéticas da singularidade.  

Aquele abraço,

hs  

sábado, 10 de outubro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 93*

 

Sobre práticas para criar Unabombers

O filme “Unabomber”, recentemente lançado (setembro/2026), é dirigido por Janus Metz, com roteiro de Sam Chalsen e Nelson Greaves. Uma produção dos EUA, encontrada na Netflix. Os eventos, inspirados numa história real, se apresentam em nova versão. A obra atualiza análises e reflexões críticas sobre a equivocidade de intervenções reconhecidas. Em seu elenco:  Shailene Woodley, Russell Crowe, Jacob Tremblay. Sua narrativa oferece um novo olhar sobre a vida de Ted Kaczynski, conhecido como Unabomber.  

As análises e menções a obra proporciona uma pluralidade de leituras, delimitadas pela representação de quem lê. Esse esboço é uma dessas percepções, tendo como pano de fundo uma obra de arte que, sob vários ângulos, convida a questionar, refletir, analisar. Sua proposta indica uma analítica fenomenológica da singularidade, como refém das intervenções equivocadas da Psiquiatria e coadjuvantes, ainda festejados em universidades, centros de pesquisa, hospitais psiquiátricos, escolas, empresas.  

A película trata de aspectos da vida de Ted Kaczynski, interpretados por Jacob Tremblay. Trata-se de um recorte com base em eventos ocorridos entre o final dos anos 1950 e 1970, quando um jovem de 16 anos ingressa em Harvard para estudar matemática e filosofia. Sua inteligência e expressividade chama a atenção do Prof. Dr. Henry Murray (Russell Crowe) e sua assistente Christiana Morgan (Annabelle Wallis), os quais convidam o menino para uma experiência acadêmica sobre comportamento.

Os dados da pesquisa direcionam e sustentam a tese de desajustes psicológicos do menino considerado prodígio, o qual desenvolve habilidades singularidades para protestar contra a industrialização e a tecnologia. A confecção de bombas enviadas por encomendas a determinadas pessoas, cuja liderança significa o incremento da indústria tecnológica, em detrimento do fenômeno humano e da vida natural, se descreve num desfecho de sua revolta. 

Um destaque, nessa trama, para a atuação da agente do FBI Joanne Miller (Shailene Woodley), ao propor algo diferenciado para decifrar aspectos linguísticos nos escritos de Ted. Sendo a única que enxerga conexões entre as palavras de um texto publicado nos jornais (por Unabomber) e as redações de Ted para a família. Sua percepção singular encontra subsídios para uma rota investigativa peculiar, incompreendida por seus colegas.    

A nova versão da história, mostra um Ted refém dos experimentos de sua época. Apresenta uma metodologia - sustentada pela instituição universitária (Harvard) - disfarçada de cientificidade, com a produção de tipologias, classificações, para sustentar a loucura de suas verdades. As atividades de especialistas em busca de consagração acadêmica, com pupilos reféns de bolsas de pesquisa, compõe uma teia perversa, associadas com a produção da loucura pelos psicofármacos.    

Os agendamentos e distorções da singularidade em prol de um ponto de vista, uma ideologia, seja ela institucional ou não, quando não se coloca abertamente para crítica, análise e reflexão de seus pares, pode se traduzir numa fábrica de desajustados, contribuindo com os princípios de verdade e sua proposta de obsolescência programada.   

Num debate entre o professor e Ted, fica visível as contradições da abordagem do psiquiatra e sua cobaia, quando este se insurge contra o experimento de que é objeto. Ted (com 16 anos na época) confronta o método, as contradições e manipulações, de parte dos mestres da universidade. A partir daí, por seus questionamentos, o menino passa a sofrer agendamentos massivos para se submeter a um diagnóstico de esquizofrenia, resultante da limitação dos professores, em busca por controle, reconhecimento e consagração acadêmica.    

A antipsiquiatria, com Thomas Szasz, ensina: “A esquizofrenia é definida de modo tão vago que, na realidade, trata-se de um termo frequentemente aplicado a quase toda e qualquer espécie de comportamento reprovado pelo locutor. (...) a esquizofrenia é um símbolo sagrado da psiquiatria, da mesma forma que, digamos, o Cristo crucificado é um símbolo sagrado do cristianismo.” (Esquizofrenia – o símbolo sagrado da psiquiatria, 1978. Pág. 95)

Tal fato é exemplificado no debate entre o professor e Ted, quando aquele, ao se ver questionado, insiste em tipologizar e medicalizar o menino, como resposta para submeter sua expressividade. Algo que o próprio psiquiatra havia referido em cenas anteriores a sua assistente, isto é, comprovaria sua tese (na relação com Ted) a qualquer custo.

É possível identificar o que se esconde nas entrelinhas das nomenclaturas, ao transformar uma singularidade em objeto para as intervenções da psiquiatria e coadjuvantes. Assim, a medicina do corpo ultrapassa as fronteiras de sua atuação, ao oferecer uma hermenêutica com base nos desequilíbrios da química, da biologia, como causa e não como consequência das desestruturações pessoais. Talvez não seja apenas uma questão de método...  

Na esteira de um mundo em busca desenfreada de lucro a qualquer preço, se percebe a indústria de psicofármacos se alimentando da desgraça alheia, a qual, seja por interesses familiares, ideológicos, econômicos ou desinformação, sustenta uma lógica da dependência e submissão ao deus remédio.   

Em alguns momentos, o filme recorda Antonin Artaud: “A medicina nasceu do mal, se é que não nasceu da doença, e se não a provocou e criou, peça por peça, para se atribuir uma razão de existir; mas a psiquiatria nasceu da turba plebeia de seres que quiseram conservar o mal na fonte da doença (...). Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma ideia assustadora, e que só no delírio consegue encontrar uma saída para as coerções que a vida lhe preparou.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2007. Pág. 55).

É sabido que existem homens e mulheres honestos, sensíveis, talentosos nessa área de atuação (psiquiatria, psicologia, filosofia ...), os quais, raramente conseguem romper as armadilhas conceituais da epistemologia acadêmica, das verdades de sua época. No entanto, essa realidade vem sendo superada por outras, à margem do sistema, cuja proposta dialoga com os novos paradigmas. Depois disso, quando um saber revolucionário chega à universidade e demais instituições, se apresenta cristalizado pelos rituais e definições acadêmicas.

Não é raro profissionais da tradição - após algum tempo em clínica -, encontrar na filosofia clínica, um refúgio para suas intuições e experiências de consultório. Ao vislumbrar um acolhimento para o borogodó - que nem sabia que tinha -, o profissional dessas áreas pode superar a ilusão de controle, classificações disfarçadas de ciência.  

O filme surpreende do começo ao fim, quando mostra que o rei está nu, e sem perspectiva de reconhecer-se diante do espelho. Como o momento em que Ted se vê enganado pelas únicas pessoas em que confiava - já que na família também era incompreendido -, com isso, desenvolve uma produção singular para sua condição existencial, sua representação de mundo - como descrença no humano - se sustenta nos estudos de pensadores como: Kant, Hobbes, Maquiavel, e sua circunstância, os quais sustentam sua representação de mundo, pré-juízos, axiologia, e desfechos macabros.  

O roteiro do filme destaca a percepção incomum da agente do FBI Joanne Miller, a qual, mesmo observando indícios em sua investigação para localizar Ted, se vê solitária em sua busca. Seus estudos sobre linguagem (termos agendados no intelecto, raciocínio, significado, contexto) e outros subsídios com base na filosofia, antropologia, sociologia, serviram para alcançar algo que os demais integrantes da equipe não conseguiam acompanhar. Joanne persegue uma via solitária de investigação para encontrar Unabomber onde este se exilou daquilo que o produziu.   

Depois disso, ao comprovar objetivamente suas suspeitas, a agente federal assume a direção da investigação, culminando com a prisão de Ted. Algo que quase ninguém iria perceber, nos instantes finais do filme, depois que tudo ficou esclarecido, são as lágrimas de Joanne Miller. O diretor sugere algo mais ao espectador incomum.

Claudio Willer compartilha: “Para Foucault, Artaud virou pelo avesso, subverteu completamente as noções tradicionalmente aceitas sobre a relação entre criação e loucura: não são mais as obras dos loucos e malditos que precisam justificar-se diante da psicologia, mas sim a psicologia que agora deve tentar justificar-se diante de tais obras. (...) Na carta aos reitores das universidades europeias, Artaud diz assim: “A culpa é dos vossos sistemas embolorados (...) Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo. (...) O menor ato de criação espontânea é um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág.17, 31 e 32)

Nos dias de hoje a obra de Artaud é estudada em centros de pesquisa, universidades, em cursos como: artes visuais, teatro, literatura, filosofia, psicologia. Sua obra poderia desenvolver um espaço investigativo de qualidade, libertário, frequentar cátedras, grupos de estudo, ocupar estantes, não fora as ideologias para controle e manutenção do conhecimento. É preciso superar as interdições kafkianas do mundo acadêmico, acolher as novas ideias e descobertas, ampliar o leque da pesquisa com os novos paradigmas, para começo de conversa.     

O roteiro de Unabomber aparece em nova versão. Parece alertar sobre os equívocos da estrutura escolar e acadêmica, seus rituais cristalizados e cristalizantes, ao descartar como doença mental o que não entende, como a epistemologia e intuições do absurdo, os eventos extraordinários, o convívio com as lógicas da diferença, a singularidade!   

Nesse sentido, com uma ideologia de caso pensado, sua proposta de controle submissão, contribuem para a proliferação de síndromes, transtornos, abastecendo a indústria de psicofármacos, as farmácias que se multiplicam, e os profissionais que, ao desconhecer a fenomenologia do humano, oferecem práticas reféns de um autoengano.

No que se refere às poéticas da singularidade, a produção do cinema contribui para uma crítica reflexiva dessa espécie de coisa, embora ainda distante da desconstrução dos seus rituais maquiados de cientificidade.  

Aquele abraço,

hs  

domingo, 4 de outubro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 92*










Sobre a leitura interminável,

Em 2005 tivemos mais um ano intenso. Viagens, aulas, atendimentos, pesquisa... Desde 1999 já transitava pelo Rio de Janeiro, onde logo depois fui morar e trabalhar. Algo diferenciado nesses tempos na capital fluminense, foi a descoberta de uma feira do livro itinerante, ou seja, a cada semana, as barracas se deslocavam por alguns bairros.   

Num desses dias, na Cinelândia, vi aquelas barraquinhas enfileiradas em frente ao Odeon e o Amarelinho. Como tinha a manhã livre, fui exercitar o flanar por seus corredores. Fiquei surpreso ao encontrar obras raras na região central da cidade, uma atração irresistível. Assim se deu um achado com a obra de Ricardo Piglia, um autor, até então, desconhecido para mim.

O livro passava a fazer parte da minha pequena biblioteca. Trata-se de “O laboratório do escritor”. Publicado em 1994, pela editora Iluminuras/SP, com tradução de Josely Vianna Baptista. Algo inusitado (embora comum nesses casos) é o fato de o livro estar assinado por alguém que o adquiriu na 40. Feira do Livro de Porto Alegre/RS em 1994, ano de seu lançamento. 11 anos depois, e, sabe-se lá por que mãos e mentes o livro viajou até pousar na feira do livro da Cinelândia.

Me senti um privilegiado por encontrar uma obra de um autor da estatura de Borges, Cortázar, Lugones, Silvina Ocampo, Casares, Macedônio Fernández ...

Talvez seja importante destacar que, para nós, leitores em busca de peças raras e diálogos com a maestria literária, o que menos importa é saber o ano da edição, bastando, para tanto, que o texto esteja em condições de ser lido e saboreado. Em minha área de interesse, os lançamentos barulhentos valem pouco, menos ainda àqueles festejados pelas mídias de autores endinheirados.  

Preferível os escritores/pensadores exilados, incompreendidos pelos especialistas, os clubinhos da moda. Sem contar que um livro guarda muitas histórias, possui conteúdos nem sempre acessíveis à primeira vista, reivindicando releituras para se traduzir adequadamente e isso reivindica um tempo sem pressa. Bem assim a caminhada existencial de cada um, para encontrar-se com a obra.

Em Piglia: “Literariamente, a categoria de inimigo é uma posição de leitura. (...) Não se pode ser escritor sem ter inimigos.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 47)

A atividade literária - o encontro do leitor com o autor -, quando acontece, se faz numa sintonia singular, com base numa aproximação das estruturas de pensamento. As buscas por superação das adversidades, os estudos, a pesquisa, os agendamentos dos princípios de verdade, aparecem num tempo próprio em cada pessoa. Esse fato costuma delimitar os ângulos possíveis ao olhar.

Uma decifração adequada dessa expressividade, requer uma interseção diferenciada, tendo em vista o outro lado do rio, suas margens, contornos, a floresta que o abriga. Essa circunstância - presente no fenômeno leitura - oferece um encontro de raridades, um lugar para a reciprocidade exercitar-se num território de excelência.

O contexto de representação de mundo (Schopenhauer), pede uma atividade intelectivo-existencial singular, em busca da conjugação com a outra circunstância diante de si. Assim se pode entender a ideia de ter um inimigo, como contradição do texto escrito, suas ideias, possibilidades de entendimento, afrontas e derivações.

A partir desse lugar onde acontecem encontros e desencontros, a vida se anuncia em linguagem própria, numa dinâmica nem sempre ao alcance de um espírito de multidão. Talvez por isso as releituras ofereçam aquele algo mais que a primeira visita deixou escapar.

Com o autor: “(...) por isso pediu uma entrevista a Carl Jung, que admirava sua obra e que escrevera um artigo exaltando o Ulisses. Joyce, que nesse momento escrevia Finnegan’s Wake, mostrou-lhe vários textos de Lucia. ‘Ela usa a linguagem como eu’, disse. ‘Sim’, respondeu-lhe Jung, ‘mas ali onde você nada, ela se afoga.’” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 62)

As questões envolvendo a linguagem são tantas quantas as pessoas envolvidas, ou seja, sem o significado de uma expressão singular, o que se tem são interpretações distorcivas, contraditórias com um sentido que permanece incompreendido. É preciso um convívio e aprofundamento da interseção para conhecer - a partir da literalidade e contexto - o sentido, alcance, dessas narrativas que se apresentam numa semiose própria.   

Noutras palavras, com o fragmento de Piglia, as mesmas expressões podem ser outras, em comum acordo com a pluralidade de uma circunstância mutante.   

Ao referir: ‘ali onde você nada, ela se afoga’, o texto se aproxima de um vice conceito, por onde a manifestação de Jung tenta traduzir a natureza das ilusões de seu interlocutor. Para uma relação compreensiva, precisaríamos de um acolhimento da singularidade, a partir de seu próprio território existencial.   

Piglia ensina: “Como eu gostaria que meus livros fossem lidos? Tal qual eles são lidos. Nada mais que isso. Por que o escritor teria que intervir para afirmar ou retificar o que se diz sobre sua obra? Cada um pode ler o que quiser num texto.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 67)

O escritor compartilha uma percepção sobre sua obra, isto é, a leitura deve encontrar as possibilidades de cada leitor. Assim se descreve a pluralidade compreensiva para um texto, nem sempre ao alcance de uma construção compartilhada.  

Existe quem faça uma leitura antropológica, filosófica analítica, hermenêutica, fenomenológica, estruturalista, psicanalítica, psiquiátrica... filosófica clínica. Quem escreve compartilha uma expressividade, nem sempre acessível à realidade do leitor. Não se trata de erro, embora delimite o ângulo de leitura.    

Outro dia, li algo assim: ‘ao falarmos de um autor entendemos seus escritos como um partilhante diante de nosso olhar’, ora isso, para minha forma de entender as coisas, é um equívoco, pois a psicanálise já faz isso, a psiquiatria e a psicologia idem.  A filosofia clínica não identifica patologias em sua atividade terapêutica, ainda menos na escrita. Não interpreta os textos a partir de uma análise inversiva de sua leitura, trata-se, isso sim, de uma aproximação compreensiva e dialogada com a autoria. 

Com o escritor: “Quanto à crítica, penso que é uma das formas modernas da autobiografia. A pessoa escreve sua vida quando pensa estar escrevendo suas leituras. (...) O sujeito da crítica costuma estar disfarçado pelo método (às vezes o sujeito é o método), mas sempre está presente, e reconstruir sua história e seu lugar é o melhor modo de ler crítica.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 70 e 71)

Piglia deixa pistas por suas páginas de escritura singular, ou seja, aponta a suspeita de que a leitura e a escrita, seja ela uma análise, reflexão, derivação, tem a ver com o sujeito leitor e sua busca para alcançar os tons e sobretons da obra.

A autoria indica sua digital nas representações que compartilha. Esse fato tem a ver com a abordagem da Filosofia Clínica no sentido de evidenciar ‘a mão que balança o berço’, isto é, quem lê, entende, critica, interage de múltiplas formas com o texto, nem sempre consegue acessar a intencionalidade do autor, embora descreva sua representação da representação.      

Embora o método possa contribuir para uma determinada percepção das coisas, não é necessariamente o único aspecto dessa história, ou seja, a partir de uma abordagem clínica, por exemplo, muito da expressão autoral pode se perder, tendo em vista as possibilidades de releitura dos originais.  

Uma modalidade de autobiografia está presente em cada ideia, gesto, palavra, partilha, na desmedida em que a singularidade se encontra numa narrativa existencial em devir.   

O texto anuncia: “Sempre se escreve para alguém, mas nunca se sabe quem é esse alguém”. (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 75)

A busca pelo sujeito da escritura, precisa encontrar a sintonia entre: autor e leitor, a forma e conteúdo da obra, sua linguagem... Qualificar os deslocamentos por uma floresta recheada de equivocidades, onde a literalidade pode ser insuficiente para acessar os tópicos significativos em uma estrutura de pensamento.   

O dado atual - em uma leitura - contribui para a interseção ampliada com um texto, mas pode não servir para traduzir o autor dessas palavras. A crítica reflexiva permanece refém de uma metodologia, a qual, ao esboçar sua ideologia pela abordagem escolhida, destaca aspectos que fazem sentido ao olhar do crítico.

Sob esse aspecto, a escritura apresenta uma pluralidade de descrições. Para alguns um desabafo, para outros um tempo dedicado a registrar suas ideias, ainda àqueles em busca de tradução do seu cotidiano em diários, sem contar quem encontra na escrita uma forma de vida.  

Nesse sentido, pode-se escrever para si mesmo ou para os leitores, compartilhando a matéria-prima da estrutura de pensamento. Muitos vão encontrar um espaço de ensaios e inspiração, outros um refúgio para as dialéticas da realidade.     

Piglia compartilha: “A variedade de leituras a que pode ser submetido um mesmo livro é incrível, e a experiência é muito útil para analisar o estado da reflexão sobre a literatura num determinado momento. (...) é notável comprovar como o livro que se escreveu muda e se transforma e se converte em outro segundo o recorte feito pelo crítico ou o lugar de onde o lê. (...) o caráter ideológico e social da leitura. Todo crítico escreve a partir de uma concepção da literatura (e não só da literatura). (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 85)

Recentemente, em nosso país, descobriu-se que juízes tem uma postura ideológica, uma concepção de mundo, ao compor suas sentenças de aspecto técnico. Noutras palavras, não existe neutralidade em suas decisões, em que pese a ideia de priorizar o saber jurídico para equilibrar as escaramuças judiciais.

A leitura de uma obra está intimamente relacionada com as possibilidades de seu leitor, sendo estas àquelas do momento em que uma leitura é efetivada. Cada um lê com o que tem, tendo em vista os desdobramentos de sua circunstância, inclusive como derivação, podendo ultrapassar suas origens, para dar curso às novas formas de escritura. 

Piglia identifica algo pensado por filósofos como Gramsci, quando identifica conteúdos nem sempre nítidos na expressão humana, isto é, àquilo que estrutura formas de pensar, escolher, agir, compartilhar, costuma se refugiar (como ideologia) nas entrelinhas de uma narrativa.   

Com o escritor: “Obviamente não existe nenhuma relação entre qualidade literária e consagração crítica ou sucesso de público. A qualidade literária é algo tão raro e difícil de encontrar que nos acostumamos a procurá-la ali onde a crítica e o mercado negam os textos ou os silenciam.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 86)

A leitura comum, essa do dia a dia, reflexo dos sucessos das mídias, concursos literários, menções de acadêmicos, formadores de opinião, agendamentos massivos sobre o que e como ler, se reveste de uma obsolescência programada.

Textos libertários - ao contrário - ao oferecer novos paradigmas, contraditórios com uma só forma de ler, escrever, descrever, reféns de bolsas de estudo e pesquisa, cúmplices em obras e escritores considerados bem-sucedidos (mais pela publicidade e autopromoção do que pela qualidade de suas páginas). Vale lembrar a peça ‘tanto barulho por nada’ (final do séc. XVI) de Shakespeare. A maioria se esvai como fumaça ao vento, de acordo com a lógica das redes sociais, palestras para multidões, textos escritos por IA e adjacências.    

As propostas do mercado editorial, evidenciam a ideologia por trás das prateleiras, à disposição dos livros nas estantes, vitrines, sites, a consagração de autores e autoras da moda, premiações compradas por autores, aproveitando seus momentos de palco, até quando os lucros desaparecem, com os tubarões editoriais levando seus dentes afiados e sua goela insaciável para outras águas.  

A eficácia de um livro se associa às possibilidades de sua leitura, ou seja, a qualidade da relação entre as páginas do autor e seu leitor. Muitas vezes na periferia dos festejos de multidão, uma obra pode exilar-se numa invisibilidade de quase nada.    

Piglia diz assim: “A literatura constrói a história de um mundo perdido. O romance não expressa nenhuma sociedade a não ser como negação e contra-realidade. A literatura é sempre inatual, diz em outro lugar, fora de hora, a verdadeira história. (...) Se a política é a arte do possível, a arte do ponto final, então a literatura é sua antítese. Nada de pactos, nada de transações, a realidade não é a única verdade.  (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 93)

Esse dado ajuda a compreender o caráter marginal de autores de obras raras, os quais oferecem a incógnita de seus textos como um refúgio, ao compartilhar suas menções com a singularidade leitora.  

As publicações assim pensadas, vinculam-se a uma desvalia, por razões como: apresentação de uma nova linguagem, o fato de o autor ser desconhecido, desinteresse pelo jogo comercial. Um texto dessa natureza se descreve para um leitor diferenciado.    

O fragmento se aproxima da reflexão sobre os novos paradigmas, como a filosofia clínica, os quais costumam ser encontrados e compartilhados por uma determinada tribo existencial, antes de se definir na realidade acadêmica, ou em forma de igreja.  

Se a realidade não é a única verdade, como recorda Piglia, parece ser preciso encontrar novas rotas a partir da irrealidade dos devaneios, da inquietude criativa, conviver com as janelas que se abrem pela esteticidade em suas múltiplas formas de apresentação. Nesse sentido, inexiste a preocupação em agradar, receber medalhas, prêmios, mas desvelar novos espaços de vida, muitas vezes exilados no lugar algum de todo lugar.   

Aquele abraço,

hs 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 91*


 









Sobre “Música para Camaleões” I

Em um dia desses, saboreando o silêncio das primeiras horas da manhã de sábado, pelas ruas do centro histórico de Porto Alegre, logo após um café ao lado do “Beco dos Livros”, na rua dos Andradas, encontrei a obra: “Ensaios” de Truman Capote, com tradução de Débora Isidoro e publicada pela editora Leya/SP em 2010.

Um pouco antes de seus textos, o autor compartilha a apresentação aos originais de 1980. Alguém já referiu ser o prefácio uma antecipação do que o leitor irá encontrar no livro. Espécie de antevisão, ou chave de leitura, para os aprofundamentos posteriores.  

As páginas iniciais traduzem o agridoce da expressão singular, por onde o autor se descreve sobre a fenomenologia da escrita.

Em nosso caso, aprendizes da relação da Filosofia Clínica com a Literatura, com suas múltiplas possibilidades de leitura, releitura, derivações, ao ser contraditória com um espírito de multidão, algo mais se oferece.  

Com Truman Capote: “Comecei a escrever quando tinha 8 anos – do nada, sem nenhuma inspiração de um exemplo qualquer. Jamais conhecera alguém que escrevesse; de fato, conhecia poucas pessoas que lessem. Mas o fato era que as únicas quatro coisas que me interessavam eram: ler livros, ir ao cinema, sapatear e desenhar. (...) um dia, comecei a escrever, sem saber que havia acorrentado minha vida a um mestre nobre, mas implacável, destituído de misericórdia. (...)”. (Prefácio de ‘Música para Camaleões’ in Ensaios, 2010. Pág. 579)

O fragmento torna possível refletir sobre os eventos da vida singular, ou seja, como lembra Borges: ‘séculos e séculos e as coisas acontecem para alguém, exatamente agora, numa circunstância específica’.

A percepção atualizada do autor sobre sua condição de leitor e escritor, indica as origens de seu interesse pela literatura. No seu caso, refere não ter tido nenhuma influência familiar, de amigos, colegas... diz ele: “jamais conhecera alguém que escrevesse”.

Essa narrativa de um escritor sobre as origens de sua paixão dominante, tem a ver com algo que se insinuou - bem cedo - em sua estrutura de pensamento, isto é, a vontade irresistível de ler e escrever, mesmo encontrando-se num contexto desfavorável a sua expressividade.  

Uma indagação poderia surgir: de onde vem essa vontade? Como se anunciou, desenvolveu, se manteve? multiplicando o foco e a disciplina para uma dedicação a algo que, até então, não fazia parte de seu entorno existencial. Esse aspecto lembra o conto “O patinho feio” de Hans Christian Andersen, de 1843, onde o autor descreve uma inadequação singular, um processo de autodescoberta. Assim teríamos subsídios para especular sobre a fonte de inspiração de Truman Capote, a superação do exílio na própria vida.  

Com o autor: “(...) a diferença entre escrever muito bem e a verdadeira arte; é sutil, mas selvagem. (...) Era preciso aprender muito e de muitas fontes: não só dos livros, mas da música, da pintura e simplesmente da observação diária. (...) Aos 17 anos eu já era um escritor. Se fosse pianista, esse teria sido o momento do meu primeiro concerto público.” (Prefácio de ‘Música para Camaleões’ in Ensaios, 2010. Pág. 579 e 580)

A busca por desenvolver uma expressividade afim com a paixão dominante pode significar uma vida inteira de dedicação, estudos e pesquisas. Algo que Rainer Maria Rilke descreve em sua obra: “Cartas a um jovem poeta”, quando sugere rotas para emancipar um papel existencial imprescindível, tendo por referência uma vida de aprendiz.   

Esse aspecto dialoga com a nova abordagem da Filosofia Clínica, isto é, muita gente se aproxima de sua mensagem, no entanto, é raro um desses candidatos ao ser filósofo clínico, aprofundar sua compreensão, tanto no que diz respeito a fundamentação teórica (mais acessível) ou a fundamentação prática (mais simples, mais complexa), momentos em que muitos estudantes procuram encontrar-se noutras metodologias, preferencialmente àquelas onde se tenha a ilusão de um território seguro, ao classificar, tipologizar, universalizar pressupostos sobre a fenomenologia humana.

Algumas vezes, é possível encontrar um candidato ao ser filósofo clínico, que carrega em sua bagagem existencial, determinadas características singulares, que o indicam como estudante da nova abordagem. Ter vivido e convivido em muitas circunstâncias existenciais como: estudar, graduar-se, pós graduar-se, casar, separar, casar de novo, ter filhos, mudar de casa, bairro, cidade, dentre outras... costuma legitimar o encontro da pessoa com a Filosofia Clínica, bem depois que já foi testada pelas adversidades cotidianas.  

O ensaísta compartilha: “O texto: ‘Ouvindo as musas’ me fez pensar em linhas totalmente diferentes: eu queria produzir uma novela jornalística, alguma coisa em grande escala que teria a credibilidade do fato, a rapidez imediata do filme, a profundidade e a liberdade da prosa e a precisão da poesia.” (Prefácio de “Música para Camaleões” in Ensaios, 2010. Pág. 582)

A busca de Truman Capote por algo inexistente, parece afim com sua expressão literária em desenvolvimento, ou seja, semelhante ao devir da hora-sessão, onde o partilhante experiencia recursos estruturais no espaço da terapia.

Nesse sentido, pode ser desafiador encontrar uma representação para a singularidade. Costuma pagar-se um alto preço pelas vivências da transição, suas contradições e desafios, até localizar um endereço existencial para chamar de seu. O constructo mencionado pelo escritor descreve um alto grau de dificuldade, acessível a candidatos diferenciados em seus devaneios de esboço.

Recordo um partilhante em crise existencial, após concluir seu terceiro pós-doutorado - o primeiro nos EUA, o segundo na Alemanha e o terceiro na UFRGS (universidade federal do RS) - quando se deu conta que viveu, a maior parte de seus dias, de bolsas de pesquisa, sem nenhum convívio com a vida lá fora (palavras dele).

Aos 44 anos de idade, tinha dificuldades de relacionamento com os outros e consigo mesmo, encontrava nos pais uma casa segura para morar. Depois disso (no tempo do partilhante) descobriu-se que ele passara a maior parte da vida fazendo escolhas que não tinham a ver consigo mesmo. Tinha jogado para a torcida, como gostava de dizer, ao entender que suas opções não eram suas, mas dos outros.

A partir desse ponto, foi possível qualificar as buscas por uma expressividade singular, algo contraditório com o que havia até então. Com isso foi possível aproveitar os deslizes de sua trajetória, como matéria-prima aos projetos e sonhos, até então, desmerecidos.  

O ensaio indica: “Escritores, pelo menos aqueles que assumem riscos genuínos, que se dispõe a abrir o peito e caminhar na prancha, têm muito em comum com outro grupo de homens solitários – aqueles que ganham a vida em uma mesa de bilhar ou carteado.” (Prefácio de “Música para Camaleões”, 2010. Pág. 582)

Ao usar um vice conceito para descrever a integridade do escritor, é possível encontrar referências comuns ao ser filósofo clínico. Não sendo uma abordagem consagrada como as modalidades da Psicanálise, Psicologia, Psiquiatria; o que se vislumbra é que, além das dificuldades teórico-práticas que a preparação ao novo paradigma oferece, ainda se tem de lidar, num país de forte vocação colonial como o Brasil, com a prevalência de narrativas distantes da nossa realidade.   

Ser filósofo clínico, ser escritor, ou outra atividade, reivindica peculiaridades inacessíveis a maioria dos candidatos. Assim se pode entender o elevado número de pessoas reféns da lógica contracheque.

Talvez a solidão de quem encontrou-se nesse borogodó - de ser filósofo clínico – possa se traduzir nas páginas escritas com sangue, suor e lágrimas, onde a singularidade se apresenta num encontro das marés com as ilhas da impermanência.

Em Truman Capote: “Um escritor precisa ter todas as cores, toda a sua habilidade disponível na mesma paleta para misturar (e, em casos apropriados, aplicar simultaneamente). (...) Depois de escrever centenas de páginas (...) consegui desenvolver um estilo. Havia encontrado uma moldura dentro da qual era capaz de assimilar tudo o que sabia sobre escrever.” (Prefácio de “Música para Camaleões”, 2010. Pág. 585)

Para desenvolver uma aptidão ao ser filósofo clínico, como indica o lindo texto do prof. Miguel Angelo Caruzo sobre o tema, publicado na edição primavera da revista da Casa da Filosofia Clínica, é necessária uma trajetória de estudos que envolve escolas, universidades, e o cotidiano do candidato, impregnando de vida uma busca por algo ainda sem nome.

Uma aproximação do prefácio com o papel existencial em desenvolvimento, pode conferir aos estudantes e profissionais da Filosofia Clínica, um encontro com a aptidão singular.

A clínica pessoal, as leituras de base com a orientação de especialistas, a supervisão e a formação continuada, compõem uma trajetória incomum. A maioria, em nossos dias, busca respostas rápidas, cursos de finais de semana, retóricas fartas de promessas em sites, blogs, podcasts, a cumplicidade da farmácia da esquina e as prescrições do alienista, seus coadjuvantes, diante da multidão de incautos. Em quem confiar? Nesses dias de tanta fake News, narrativas apressadas, distantes da singularidade exilada em cada pessoa.   

O desenvolvimento de um estilo reivindica dedicação exclusiva, tempo, pesquisa, práticas de atendimento e escrita - no caso dos ensinamentos de Truman Capote - e bem depois disso, é possível encontrar algo semelhante a essência sartreana, mencionada no ‘O existencialismo é um humanismo’, isto é, primeiro você vive e, depois disso, aparece uma essência, como desdobramento de um si mesmo na estrutura de pensamento singular.

Aquele abraço,

hs

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 90*

Sobre escritores, fantasmas e mortos,                      

Algo encantador em eventos como a feira do livro de Porto Alegre é a possibilidade de flanar - quase invisível - por suas estantes, balaios de saldo, conviver com a impermanência dos acasos e coincidências, os quais, nem sempre são acasos ou coincidências. Trata-se de momentos de uma quase terapia, por onde é possível descobrir raridades distantes da sintonia existencial das modas e acenos da publicidade de autores em busca de ser multidão.

Foi assim que descobri - num balaio de saldos a R$ 5,00 - a obra: “De escritores, fantasmas e mortos”, de Paul Lodd, publicada pela editora Livre Expressão/RJ em 2010. Um texto diferenciado do começo ao fim, que lembra clássicos através dos protagonistas Jean Pierre e Jerôme, em passeios pelas cidades de Nova York, Buenos Aires, La Paz e Rio de Janeiro. Recorda um estilo que surgiu com Baudelaire no século XIX.  

Trata-se de uma obra para dialogar - sem agendar traumas e outros imbróglios - com a representação da Filosofia Clínica. Suas páginas convidam a descobrir a raridade dos eventos desconsiderados pelas modas e eventos de massa, tão comuns em nosso tempo de lógicas da multidão.

Com o autor: “A sua alma de flâneur se contenta com os pequenos detalhes que costuma observar nesses passeios. (...) Nunca precisou de grandes templos, praças ou santuários para ingressar nas abstrações do caminhante.” (De escritores, fantasmas e mortos. 2010. Pág. 7)

É possível cogitar-se sobre o alcance, na malha intelectiva do escritor, desses momentos desconsiderados, menores, irrelevantes, pela maioria das pessoas, as quais seguem embriagadas pelas luzes, deixando escapar a originalidade dos desvãos, dos becos em tons e sobretons de raridade, lá onde a vida se insinua como singularidade.   

Um exercício dessa natureza pode auxiliar a desintoxicação dessas tecnologias do homem máquina, resultante de tanta ideologia para consumo material, impulsionar a supervelocidade cognitiva em busca de novos muros para conter a expressividade humana. Verdadeira fábrica de ansiedades e outros monstrinhos intelectivos a direcionar a vida para longe dela mesma.

As caminhadas pelas ruas da cidade, visitando bairros, jardins, praças, cafés, como apontava um ilustre caminhante como João do Rio, pode contribuir para que a pessoa reencontre um si mesmo, em meio a tanta distração, a propostas insidiosas para ser o que não se é, a perseguir metas que não chegam (armadilhas conceituais).

O autor descreve os devaneios do caminhante como um ir e vir entre inversão e recíproca de inversão, por onde se pode experienciar dados sensoriais em sintonia com as percepções do autor em suas possibilidades de ação pelos trânsitos por onde se desloca.  

Em Paul Lodd: “Imagino o twitter sendo apresentado a Proust, que inaugurou um tempo narrativo onde a pressa não tem vez. Fábrica de escritores sem literatura, diria ele, não é mesmo?” (De escritores, fantasmas e mortos, 2010. Pág. 83)

É possível sentir a relação da pressa com as lógicas do consumo, ou seja, práticas impregnadas daquilo que se batizou de obsolescência programada, onde tudo tem prazo de validade.   

Nesse sentido, o fenômeno humano significa algo provisório. Passa a fazer parte da vertigem descartável dos dias. Assim quase não se encontra mais, a perseguir-se na distância - cada vez maior - para um si mesmo que escapa.   

O tempo, em um discurso existencial, reivindica uma conexão com sua singularidade. Aparece em sintonia com o andarilho a impulsionar seus ponteiros com suas caminhadas.    

Talvez esse fato ajude a entender a dificuldade em se deixar de lado - por algum tempo - as redes sociais para pegar um livro e saborear suas páginas, se deliciar com seus roteiros e personagens, participar e interagir com suas circunstâncias.

O texto refere: “Vale aqui lembrar Proust (...) o nosso escritor de em Busca do tempo perdido nos dizia que o leitor almeja compreender mais a si mesmo através do livro do que o próprio livro e que ele não pode entender um livro se não se entender a si próprio através desse livro.” (De escritores, fantasmas e mortos, 2010. Pág. 90)

As buscas - quando existentes - podem ser tantas quantas forem as possibilidades em cada pessoa a exercitar-se em projetos, sonhos, devaneios, para a redação de seus originais.

Uma proposta de compreensão a partir do convívio com uma obra, pode não esgotar as possibilidades do fenômeno humano. Em cada pessoa existe um rol de expressividades à espera. Algo que a Filosofia Clínica descreve e compartilha com o devir singular, desconstruindo as definições a priori, generalistas, tipológicas.

A percepção e sintonia com um livro costuma relacionar-se com a autogenia do leitor, isto é, as páginas que não façam sentido num momento da vida de uma pessoa, pode significar algo mais em outro ponto de sua história.   

Uma obra, ainda pode servir como pedra de toque para uma percepção da pessoa com sua singularidade. Nessa interseção do leitor com a obra, algo pode se acrescentar à sua própria história. Uma fenomenologia do estranho aprecia as narrativas desses desvãos.

Paul Lodd compartilha: Não sei se o seu ponto de vista coincide com o meu, mas não importa; porque os distintos pontos de vista não se excluem, eles se complementam para formar a verdade.” (De escritores, fantasmas e mortos, 2010. Pág. 98)

A versão do autor sugere múltiplas possibilidades às construções compartilhadas da hora-sessão, quando partilhante e filósofo clínico encontram uma perspectiva, um ponto de vista, para colocar as dialéticas da terapia a seu favor. Essa ideia de acréscimo pode significar um achado para a pessoa em seus dias de transição entre uma e outra realidade.

Muitas vezes, ao mudar o ângulo do olhar, o mundo inteiro se modifica, experienciando a possibilidade de ressignificar-se na companhia de um outro que o acolhe sem julgar, classificar, interpretar ou desvirtuar seu processo existencial.

Uma epistemologia do diálogo, dos encontros refugiados numa interseção entre representações de mundo, costuma ampliar o horizonte de seus integrantes. Talvez seja essa faceta um dos aspectos de maior significado nas práticas terapêuticas não ortodoxas.

Jung cogitava a necessidade de se encontrar uma terapia para cada pessoa. Rogers enfatizava o caráter expressivo e libertário desses encontros terapêuticos... Packter encontra subsídios na Filosofia para desenvolver uma metodologia que contempla (dentre outras) essas duas propostas clínicas. Uma referência de mentes brilhantes e instigantes nas pesquisas e evidências terapêuticas dos novos paradigmas.    

Com a publicação da obra “Poéticas da singularidade”, pela editora E-Papers/RJ em 2007, o tema da singularidade ganhou destaque. Até então esse dado aparecia como algo complementar a terapia, sem ter o alcance e significado que tem hoje em dia. Algo que foi desenvolvendo-se com as práticas de consultório em suas múltiplas versões (hospital, consultório, associações de bairro e morros de periferia, empresas, escolas...).  

O escritor indica: “Alice no país das maravilhas – é um conto fantástico (...) a importância de Alice resulta da dupla originalidade: a de ser um conto em que o mais importante não é o que acontece e sim o que se fala; um conto em que o autor-poeta é superado, ou melhor, auxiliado pelo professor matemático, interessado na metalinguagem, que utiliza a transgressão lógica como uma terapia hipnótica. Alice pretende chegar à lógica por meio da incoerência e do absurdo.”  (De escritores, fantasmas e mortos, 2010. Pág. 103)

A informação dirigida pode conter ingredientes diferenciados para uma estrutura de pensamento, desde que esteja vinculada às suas necessidades subjetivas, existenciais. O convívio com um livro, que ofereça em suas páginas mensagens a singularidade, pode conter a medicação de que uma pessoa necessita.  

Noutras palavras, ler, conviver, dialogar com a estrutura de pensamento de um texto, costuma oferecer uma pluralidade de opções, para quem, até então, tinha somente um caminho a perseguir-se.   

A singularidade aprecia se oferecer em narrativas de aspecto comum, contendo versões fantásticas, delirantes, extraordinárias, em linguagem própria. Essa referência reivindica uma abordagem capaz de acolher fenomenologicamente (sem tipologias, distorções) o contexto de vida contido nas descrições do partilhante, desde os instantes preliminares da terapia à alta compartilhada.

Aquele abraço,

hs