Páginas em trânsito
Num final de tarde do ano de
2009, nas caminhadas pelo centro histórico de São João del Rei/MG, encontrei a
livraria “Ponto literário”. Sendo uma cidade universitária, acolhendo
estudantes de várias regiões das Minas Gerais e do país, esse espaço singular oferece
opções literárias de qualidade.
Neste endereço fui encontrado
pelo livro “As ondas” de Virginia Woolf, traduzida por Lya Luft e publicada
pela editora Nova Fronteira/RJ em 1980. Mais uma vez, a página inicial contém
um carimbo de uma livraria de Porto Alegre/RS, denunciando uma interseção das
terras gaúchas com as mineiras. Como um livro se desloca de um lugar para
outro? Por quantas prateleiras, mesas, camas, mãos e mentes, promessas e
ilusões revividas, transitam em cada leitura?
A obra permite um diálogo com a
Filosofia Clínica. Suas páginas, impregnadas de uma poética singular, convida a
uma relação sem pressa. Já se disse: ‘cada
um lê com o que tem e o que é, no momento de uma leitura’. Talvez resida aí o
significado das releituras, ao desvelar o sentido das palavras, até então escondidas
no texto.
Com Virgínia Woolf: “(...). Mas
quando nos sentamos juntos, perto um do outro - disse Bernard -, nossas
palavras nos fundem um no outro. Estamos emoldurados pela neblina. Formamos um
território inapreensível.” (As ondas, 1980. Pág. 13)
Os eventos da hora-sessão em
Filosofia Clínica, possuem a tez do acolhimento singular. Ao não interpretar ou
distorcer a expressividade partilhante, o filósofo busca uma descrição
compreensiva de suas palavras.
As propostas para interpretar o
que acontece nas terapias da tradição, se deparam com uma dificuldade básica, isto
é, a de querer acessar o outro a partir de si mesmo, suas leituras, seminários,
experiências com outras pessoas, como se fossem as mesmas.
Com o novo paradigma, a noção de
‘fusão um no outro’, se assemelha ao processo da transição entre recíproca de
inversão e inversão, seus deslocamentos, quando da interseção terapêutica. No
entanto, não se trata de uma fusão, mas de visitas ao território existencial do
partilhante, onde o filósofo experiencia - em perspectiva - outras realidades.
A aproximação de pontos de vista
por uma intencionalidade compartilhada, permite um diálogo de integração, onde
algo novo se realiza, tendo como testemunha a evolução dos termos agendados no
intelecto, ora traduzidos pelos deslocamentos da relação.
A autora indica: “Somos os
primeiros a vir aqui. Somos os descobridores de uma terra desconhecida.” (As
ondas, 1980. Pág. 14)
Com as referências da
fenomenologia, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, é possível
experienciar uma inédita relação com o partilhante, tendo em vista seu endereço
existencial - em vias de apresentação.
O vislumbre precursor de um
território cristalizado, por si só, pode significar o começo de uma desconstrução,
daquilo, até então, sancionado como doença mental, um trajeto para a ressignificação
existencial.
As percepções sobre uma ‘terra
desconhecida’, permite ensaiar novos caminhos, encontrar rotas de
autodescoberta, desconsideradas como delírio ou desrazão. A formulação de
hipóteses na terapia filosófica, quando possível, permite que o partilhante se
desloque por um devir em forma de rascunho.
Muitas vezes, nesse processo de
construção compartilhada, aparecem desvãos para superar a condição de ser
estranho no próprio território, ultrapassar a lógica das tipologias
psiquiátricas.
Nas palavras da escritora:
“Agora, minha mente pode despejar-se para fora de mim. Posso pensar em armadas
singrando altas ondas. Estou livre de duros contactos e colisões. Singro
solitária sob recifes alvos.” (As ondas, 1980. Pág. 22)
Os deslocamentos longos ou
curtos, sejam eles em direção ao passado das memórias ou aos projetos para
depois de amanhã, costumam desdobrar-se a partir dos dados sensoriais, onde uma
palavra, um cheiro, a leitura ou a música, permitem cogitar sobre a atualização
da malha intelectiva da pessoa.
As ideias complexas, recheadas de
abstrações, quando direcionadas a favor do partilhante, podem significar-se em
múltiplas direções, compondo um cenário de raridade, cuja mapa encontra-se em
processo na estrutura de pensamento da autoria.
Para isso acontecer,
reivindica-se uma abordagem de acolhimento, trânsito compreensivo e não desmerecimento
da expressividade. A elaboração compartilhada de um lugar onde a semiose
diferenciada consiga esboçar a coisa nova, aparecendo como um porto seguro para
as tratativas de algo ainda sem nome.
Virginia Woolf ensina: “(...)
torna-se claro que não sou uno, nem simples, mas complexo, múltiplo.” (As
ondas, 1980. Pág. 58)
A escritora compartilha, através
de seus personagens, aspectos de sua estrutura de pensamento, por onde se diz livre
das ameaças da lógica alienista (como produtora da alienação mental).
Antonin Artaud lembra as
intervenções da psiquiatria, sua inveja e ressentimento pela inquietude
criativa e a ousadia daqueles que propõe alienar de si mesmos, ao oferecer sua
cura a base dos psicofármacos, tratamentos de choque, para convertê-los a sua
concepção de normalidade.
Essa forma de produzir roteiros para
uma história, permite a autoria expressar pontos de vista com maior liberdade, ao
dizer-se nas manifestações de seus personagens, como meio para dialogar com seus
leitores, os quais, ao escolher sua leitura, também eles podem vivenciar
aspectos de si mesmos na reciprocidade com a obra.
Com seu roteiro: “Fico atônito
quando afasto o véu das coisas com palavras, e constato o quanto mais,
infinitamente mais, observei do que consigo dizer. Enquanto falo, as imagens
não cessam de borbulhar dentro de mim.” (As ondas, 1980. Pág. 64)
As múltiplas formas para tradução
- de uma mesma realidade - oferecem um mosaico de expressividades, nem sempre
ao alcance de um só olhar. A esteticidade seletiva pode contribuir com o rol
discursivo de cada pessoa, ao oferecer um caminho para experienciar a luz do
dia para seus inéditos.
Uma adequação com a realidade das
coisas, pode oferecer algumas facetas sobre sua existência, quase sempre refém
da representação de alguém em trânsito. Através da palavra, em uma versão por
alguns de seus ângulos, se pode sentir algo que permanece indizível, algumas
vezes palpável na fenomenologia das construções compartilhadas.
A investigação assim pensada, ao
compor olhares e sentires, além de qualificar o entendimento, permite esgaçar
as fronteiras do possível, compreender as teses e antíteses, um pouco antes de
ser síntese. Para, depois disso, em tempo próprio, perseguir-se em novas contradições.
Em Virginia Woolf: “Sinto mil
capacidades brotarem em mim. Ora sou brejeira, alegre, lânguida, ora
melancólica. Tenho raízes, mas sou fluída.” (As ondas, 1980. Pág. 77)
Os papéis existenciais costumam
se desenvolver na circunstância de cada um. Essa realidade pode se modificar de
acordo com as sintonias narrativas e suas possibilidades de desconstrução.
Em um mundo repleto de limites,
contenções, lógicas para normalização discursiva, o exercício da singularidade
pode ficar cristalizado em alguns momentos. A escrita romanesca contribui para se
dizer aquilo incompreendido longe de suas páginas. Os deslimites da poesia, a
interpretação do teatro, os ensaios da literatura, as melodias da música, contém
uma expressão incompreensível, se desfocada do contexto e das interseções onde
se abastece.
As raízes que permitem uma
fluidez, como refere a autora, esboça uma integridade pessoal como base para múltiplos
deslocamentos, com a matéria-prima dos sonhos, em recheios de humanidade em
processo para ampliar horizontes.
A autora refere: “Mas já começam
os sinais, os chamados, as tentativas de me atrair de volta. A curiosidade é
eliminada só por pouco tempo. Não se pode viver fora da engrenagem mais do que
talvez meia hora. Percebo que os corpos já começam a parecer comuns; mas o que
está por trás deles é diferente – a perspectiva.” (As ondas, 1980. Pág. 115)
Os extraordinários momentos da
hora-sessão, por onde o partilhante esboça outros para si mesmo, num ambiente
livre de interpretações distorcivas de sua singularidade, esse zoom expressivo
aprecia ensaios de liberdade, por onde o filósofo compartilha a vertigem das
sintonias com o inacreditável.
A intuição desses instantes
convida o sujeito extraordinário a ser algo mais, em uma rota desvinculada do
visar comum, nem sempre possível de descrição com o que se tem, reivindica encontrar
a chave de leitura desses originais.
Para acessar a perspectiva
incomum, em cada convívio, pode ser
necessário transitar por contornos de imprecisão, dialogar com as lógicas do
desconcerto, em tratativas para as poéticas da singularidade.
Aquele abraço,
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