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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 85*

 

Sobre a extraordinária Filosofia Clínica

No final do ano de 2005 dava aulas, clinicava e flanava no Rio de Janeiro. Meu espaço de trabalho (atendimentos) transitava entre Copacabana, Ipanema, Botafogo, Praça XV no centro histórico, e outros. O consultório itinerante se deslocava entre o endereço físico na rua Miguel Lemos, em Copacabana, a Casa de Cultura Laura Alvim e o Barril 1.800, no Arpoador, os cafés em Botafogo, um pouco antes das aulas, ou na beira da praia, em sintonia com a realidade dos partilhantes.

Esses espaços tinham a vantagem de, ao final das clínicas, permitir longas caminhadas para vivenciar um trajeto sem pressa, buscava colocar uma certa ordem em meus pensamentos. Num dia desses, não recordo ao certo a data, cheguei à livraria da Travessa no Shopping Leblon - uma das maiores livrarias do país - um refúgio em forma de paraíso dos livros. Lá me abastecia com um café recém passado, fragmentos de leitura, percorria estantes recheadas de guloseimas literárias. Subia e descia escadas, avançava pelos corredores, remexia prateleiras e mesas, em busca do texto inesperado.      

Em um desses dias, no espaço reservado para os lançamentos da moda, me deparei com O Mito de Sísifo* de Albert Camus. Uma publicação da Editora Record/RJ. Edição de 2005. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch.

As páginas desse trabalho contêm aspectos que interessam aos estudos da fundamentação teórico-prática do novo paradigma, por descrever a ideia de absurdo numa perspectiva extraordinária, como um fio da navalha por onde o filósofo clínico transita. 

O texto anuncia: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.” (O mito de Sísifo, 2005. Pág. 17)

Essa provocação preliminar se destaca ao dialogar com a expressividade do filósofo, ou seja, quando se utiliza de um dado literal impregnado de vice conceito, o qual só se traduz na construção compartilhada com o contexto narrativo de suas páginas. Antes disso, pode-se ter uma série de equivocidades discursivas, oferecendo apreensões diversas a leitores incautos, apressados. Algo comum em nossos dias!

A Filosofia teórica aprecia recuperar a história da Filosofia, traduzir e estudar os textos dos pensadores em cada época. Uma preparação às reflexões, análises, críticas por vir, em um convite aos totens da trama conceitual, por onde a história se registrou, contribuindo para sustentar arquiteturas empíricas das mais diversas.

Assim a nova abordagem terapêutica, também encontra nesse território - repleto de originais - os subsídios para sua estrutura de pensamento. É necessário lembrar as armadilhas do texto filosófico, semelhante aos labirintos que conduzem a apreensão de uma singularidade.

Com essas considerações de aproximação, em uma escrita a reivindicar releituras, pode-se cogitar sobre o alcance de sua mensagem, os desdobramentos e a estranha lógica que a abastece. O absurdo aparece - fenomenologicamente - desde os primeiros instantes da sua narrativa filosófica.   

Albert Camus refere: “Matar-se, em certo sentido, é como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos. (...) Viver, naturalmente, nunca é fácil. Continuamos fazendo os gestos que a existência impõe por muitos motivos, o primeiro dos quais é o costume. (...) ausência de qualquer motivo profundo para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.” (O mito de Sísifo, 2005. Pág. 19)

O fragmento - dentre outras possibilidades - convida a pensar sobre a busca por sentido em meio ao devir existencial, isto é, o que fazer, como fazer, a que pretexto viver. Onde reencontrar a matriz dos sonhos em meio a tanto desvio de rota, com quem contar em busca de algo ainda sem nome?

Em algum ponto do ano de 1999 na linda cidade de Divinópolis/MG, ganhei um livro de autoria de Affonso Romano de Sant’Ana, da querida filósofa e amiga Irene Amaral, fundadora da faculdade de Filosofia. O título: Fizemos bem em resistir. Um constructo de textos de um cronista do cotidiano. Para nós, da geração que ousou resistir, transgredindo os freios existenciais de 20 anos de ditadura militar, a obra foi um presente singular. Uma das propostas de suas páginas é evidenciar as belezas da vida comum, os impactos da vida simples na alma das pessoas, em suas ideias, costumes, formas de encontrar o sagrado em cada lugar ou nas dinâmicas da interseção com o dia a dia.  

Talvez uma das incógnitas dessa forma de se pensar as coisas, tenha a ver com a possibilidade de se encontrar um caminho singular em meio às tentações da propaganda, do meio onde se agendam determinados costumes, modas, propondo a cada instante algo novo para sustentar velhas formas de existir.

As dialéticas de consultório, numa abordagem como a Filosofia Clínica, reivindicam um papel existencial multifacetado, inacessível a maioria dos pretendentes a essa atividade. A expressividade de um filósofo assim disposto, têm de dar conta da fenomenologia do ser singular, isto é, acolher e transitar pela estrutura de pensamento de cada interseção. Trata-se de um envolvimento distante das ilusões da tipologia e da classificação, as quais acenam um território de aspecto seguro (suas definições) para a atividade terapêutica.  

O filósofo clínico terá de reinventar sua abordagem a cada atendimento, respeitando a singularidade sob seus cuidados. E isso tem se mostrado desafiador, numa cultura impregnada pela ideologia das verdades apriorísticas do especialista.    

A obra indica: “Um mundo que se pode explicar, mesmo com raciocínios errôneos, é um mundo familiar. Mas num universo repentinamente privado de ilusões e de luzes, pelo contrário, o homem se sente um estrangeiro. (...) Esse divórcio entre o homem e sua vida, o ator e seu cenário é propriamente o sentimento do absurdo. (O mito de Sísifo, 2005. Pág. 20)

Uma abordagem clínica deverá conter, necessariamente, como ponto de partida, um estudo aprofundado sobre as circunstâncias existenciais do partilhante, ou seja, acolher, aprender, transitar, compartilhar, para situar-se em meio ao mundo como vontade e representação da pessoa sob seus cuidados.

Camus indica, no fragmento acima, que alguém vivencia sua singularidade de acordo com uma forma de entender as coisas. Independente de estar em conformidade com os princípios de verdade onde se encontra. O mais significativo, quando se refere aos dados de valor em sua vida, é o quanto de si mesmo consiga encontrar no endereço existencial onde se desenvolve como sujeito de sua história.

Os eventos da autogenia, muitas vezes anunciados por uma crise desconstrutiva, costumam embaralhar os conteúdos da estrutura de pensamento. Trata-se de momentos em que a atualização de um discurso existencial entra em contradição com suas anterior_idades.   

A categoria tempo costuma se associar a categoria lugar, para estruturar uma forma de existir, intimamente relacionada ao sentir-se pertencente a um endereço existencial. Assim, os termos agendados, raciocínio, incompletudes narrativas, a expressividade, se apresentam como integrantes da singularidade. A ideia de absurdo, sustentada pelo filósofo, dialoga com os processos de ressignificação existencial de uma pessoa. Nesses momentos, a transição entre uma e outra sintonia, desaloja sensações, ideias, relações, para encontrar outras referências.  

Camus refere: “Pensar é reaprender a ver, a ser atento, é dirigir a própria consciência, é fazer de cada ideia e de cada imagem, à maneira de Proust, um lugar privilegiado.” (O Mito de Sísifo, 2005. Pág. 40)

O constructo de pré-juízos acima indica a possibilidade de alguém, sendo sujeito de sua história, investir em sua expressividade, ou seja, encontrar um território existencial que o represente. A base desses ensaios costuma acontecer nos eventos da hora-sessão, onde a pessoa elabora rascunhos, cogitações, para algo mais.  

Num cotidiano, muitas vezes impregnado de contas a pagar, boletos, cobranças, dívidas intermináveis, relações de trabalho injustas, ambientes de submissão, quando em relações predatórias de patrões e empregados, suas propensões aparecem reféns dos princípios de verdade. Em outras palavras, quanto mais carga de trabalho, tributos, gargalos de aprisionamento da expressão, mais alguém leva vantagem em cima da miséria alheia, transformando possibilidades existenciais em objeto de manipulação, controle, desvirtuamento.      

Nesse sentido não é de estranhar o processo acelerado de desestruturação pelo qual passam muitas pessoas, a maioria testemunhando - num cotidiano adverso - a destruição de seus sonhos, buscas, expressividade, submetidos à lógica perversa do deus dinheiro. É uma raridade ainda se encontrar alguém disposto a investir nos seus sonhos, oferecer novas ideias, qualificar a vida ao seu redor.   

O filósofo ensina: “Mas, ao mesmo tempo, o homem absurdo compreende que estava ligado até aqui ao postulado de liberdade em cuja ilusão vivia. Em certo sentido, isto era uma trava. Na medida em que imaginava uma meta para sua vida, ele se conformava com as exigências da meta a ser atingida e se tornava escravo de sua liberdade.” (O Mito de Sísifo, 2005. Pág. 69)

Talvez a questão filosófica apontada pelo fragmento tenha a ver com a vida de muita gente, isto é, quando sua expressividade se vê violentada pelo meio onde se desencontra. O alerta do pensador também se refere ao fato de que a estrutura de pensamento - dos princípios de verdade - manipula os dados da realidade, sugerindo a crença numa liberdade que não chega.      

Esse ser absurdo tratado pelo filósofo lembra os momentos em que o partilhante refaz sua leitura de mundo, atualizando sua condição para ser livre ou seguir nalguma zona de conforto e submissão. O confronto das opções atua para descrever a noção de absurdo de Camus, semelhante aos instantes de crise de ressignificação traduzíveis pelo assunto imediato que leva a pessoa à terapia.

Albert Camus compartilha: “Sabendo que não há causas vitoriosas, gosto das causas perdidas: elas exigem uma alma inteira, tanto na derrota quanto nas vitórias passageiras.” (O Mito de Sísifo, 2005. Pág. 100)

Nas dinâmicas de consultório é interessante notar quando uma pessoa se apresenta em seus momentos de crise existencial. Assim oferece a possibilidade para qualificar a interseção com sua circunstância, destituída de rótulos, titulações, medalhas, jogo de cena institucional e familiar, em diálogos com seu devir existencial recheado de incompletudes em forma de broto.   

Em determinados momentos num sistema social, uma lógica da derrota pode se apresentar como a pedra de toque para alguém readquirir sua condição de sujeito na própria história. O filósofo clínico também atua nesse contexto recheado de perdas e danos, quando os partilhantes se apresentam em vias de transbordamento expressivo.    

Essa ideia de uma alma inteira, como refere Camus, serve para se pensar sobre os ensaios na terapia filosófica, quando a pessoa se encontra com aquilo desmerecido socialmente, mas que se refere a sua condição de maior intimidade. Nesses momentos um esboço autogênico pode auxiliar as buscas em estágio de experimentação.

O filósofo diz assim: “O artista, tanto quanto o pensador, compromete-se com sua obra e se transforma dentro dela.” (O mito de Sísifo, 2005. Pág, 112)

Um papel existencial - o ser filósofo clínico - em sua interseção com as questões do partilhante, pode significar um distanciamento das teses de coerência social, quando estas oferecem ingredientes tóxicos ao devir singular.

É comum o mundo do trabalho oferecer esses componentes para manter a pessoa exilada de seu melhor, ao dar seu sangue, suor e lágrimas, para produzir uma riqueza que não vai usufruir. Quando a terapia busca um melhor endereço existencial ao partilhante, um pouco antes, pode ser necessário - como pré-requisito - fortalecer sua estrutura de pensamento, para suportar os momentos de travessia entre uma e outra realidade.  

Em Filosofia Clínica, a relação cuidadora reivindica um processo de qualificação existencial em direção ao ser terapeuta, ou seja, em tempo próprio, o filósofo clínico pode associar a seu favor ingredientes como: a representação de mundo, o que acha de si, pré-juízos, axiologia, papel existencial, para dar conta da diversidade clínica em sua rotina incomum.

O pensador descreve: “Já devem ter notado que Sísifo é o herói absurdo. (...) Na condição humana, e isto é o lugar-comum de todas as literaturas, há uma absurdidade fundamental ao mesmo tempo que uma implacável grandeza.” (O mito de Sísifo, 2005. Págs. 138 e 148)

A essência da nova abordagem clínica, com base na Filosofia, encontra na singularidade uma possibilidade de interseção. Muitas vezes o partilhante se apresenta na terapia, impregnado de contradições, dúvidas, inseguranças, medos, sobre sua condição excepcional.

Num contexto de vida onde parece que todo mundo está bem resolvido, ter receios, devaneios, questionamentos, ou querer ficar isolado, ter dificuldades com a semiose verbal (embora a pessoa tenha outras formas de expressão), pode significar alguma forma de loucura, mesmo que dissimulada como: síndrome, espectro, transtorno, em busca de um controle que não vai chegar. Um pouco pior, se a lógica da manipulação der certo, aumentam as chances de distorção para uma originalidade em busca do ser singular. Questão de método!    

Algo que parece não ter fim, é a índole - sempre renovada por algumas igrejinhas ideológicas - para criar tipologias e classificações ao extraordinário da condição humana. Momentos em que se manifesta uma proposta desesperada para catalogar, direcionar, cristalizar as lógicas da diferença como algo que, a partir de então terá um nome, uma discriminação, passível de ser tratada pela psicofarmacologia e demais coadjuvantes da bíblia DSM (calhamaço tipológico norte americano)  

Não seria um despropósito compreender o herói absurdo como àquele em busca de um si mesmo que lhe pertença por inteiro. Nesse instante, ao desvestir a roupa da moda, algo novo pode se insinuar em sua percepção - até então embaçada - num espelho existencial distante de seu melhor.    

Aquele abraço,

*hs

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 84*

Sobre acolhimento, princípios de verdade, construção compartilhada...

A garota ideal é um filme de 2007, produzido nos EUA e Canadá, com duração de 103 min. Escrito por Nancy Oliver e dirigido por Craig Gillespie, tendo Ryan Gosling no papel principal. Disponível no Prime.

Trata-se de uma obra de rara sensibilidade e compreensão do fenômeno humano em seus momentos de dor e sofrimento. O conteúdo aborda a singularidade de Lars Lindstrom (Ryan Gosling). Sua expressividade em relação a circunstância onde se encontra, compartilha algo inusitado ao adquirir uma boneca (Bianca), com a qual desenvolve um relacionamento romântico (sem ser sexual).

A partir daí, se inicia uma discussão familiar que envolve a comunidade inteira, a qual se reúne para decidir o que fazer com Lars e sua nova companheira. Inicialmente chega-se a cogitar uma internação psiquiátrica (de parte do seu irmão), ideia logo rechaçada pela cunhada e demais membros do lugar.

Com isso, a família decide procurar ajuda com um especialista. Encontram a Dra. Dagmar (Patrícia Clarkson), a qual, numa abordagem não convencional, acolhe e interage com Lars em seu próprio território existencial, ou seja, mantém uma interseção dialogada com a boneca, em busca de uma via de acesso a estrutura de pensamento de Lars, a qual, à primeira vista, se encontra em equilíbrio e feliz com a nova relação.

Os procedimentos da Dra. Dagmar, inicialmente, espantam a família, a qual, depois de algum tempo, trata de assumir comportamento semelhante, bem assim os moradores da cidade, os quais interagem com o casal peculiar - não sem uma estranheza inicial -, como se fossem namorados. Lars e Bianca passam a frequentar as festas comunitárias, vão à missa, atuam em eventos benemerentes.

O filme caminha para algo inédito em seu roteiro, ou seja, com o tratamento não convencional pela Dra. Dagmar, ao cuidar de Lars pela representação da boneca, bem assim seu crescente interesse por Margot (Kelli Garner), elabora um processo desconstrutivo que vai aparecendo de forma sutil. O espectador tem a oportunidade de presenciar - passo a passo - a transformação na vida de Lars.    

É interessante notar o envolvimento dos princípios de verdade com a situação de sua família, isto é, as pessoas da comunidade acolhe a realidade do personagem e cuidam de Bianca, levam-na ao cabeleireiro, as atividades da igreja, aos eventos do hospital, integrando a personagem em seu dia a dia. Algo raríssimo de se ver, em se tratando de um meio social distante das lógicas da diferença.

A trama destaca o papel existencial diferenciado das mulheres, as primeiras a compreender (instinto e sensibilidade?) o que se passa com Lars, a começar por sua cunhada Karin Lindstrom (Emily Mortimer), a qual, num primeiro momento, de forma intuitiva, acolhe e visita a realidade do cunhado, em busca de entender sua condição, bem antes de se cogitar uma especialista para o caso.

A obra lembra um evento clínico, por volta de 2005, na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora, quando do atendimento de uma menina que carregava uma boneca (que chamava de filha), com a qual dialogávamos em busca de uma interseção clínica. A partilhante descrevia-se através da sua filha, a qual tinha sentimentos, dores existenciais, fazia escolhas, se emocionava, queria ir para casa. Esse atendimento - assim como outros - está registrado em dvd, iniciativa de colegas que acompanhavam as clínicas nessa época.    

É significativo notar que a sociedade, ao beber na fonte da esteticidade seletiva - como o cinema - pode aprender com seus agendamentos, emancipar seu cotidiano. O filme, com sua pesquisa, produção e roteiros de uma quase ficção, contribui para emancipar a compreensão do fenômeno humano, superando crenças como: normal x anormal, saúde x doença, tipologia x singularidade, bem assim os freios existenciais representados pela ideologia psiquiátrica e a indústria da psicofarmacologia. A questão que se apresenta, nesses casos, é sobre a proliferação de síndromes, espectros, desdobramentos de tipologias, para manutenção da ciência normal (Thomas Kuhn), seus interesses corporativos, econômicos, para sustentar - a qualquer preço - uma metodologia em vias de superação pelos novos paradigmas.   

Existem abordagens terapêuticas nas margens e periferias do sistema universitário, jurídico e social admitidas por leis e normas, as quais, ao serem aprovadas e entrarem em vigor (pela lentidão legislativa), muitas vezes já estarão superadas. Nesse sentido, as propostas que tentam cristalizar a dialética da vida, vão sendo superadas pela inquietude criativa de mentes brilhantes, raras vezes reconhecidas em seu tempo.   

A Garota Ideal descreve um processo existencial a partir da crise de Lars, tendo a atividade terapêutica da Dra. Dagmar e o envolvimento da comunidade, como fundamento para sua superação. A abordagem da médica pressupõe uma singularidade, para qualificar a interseção com uma situação diferenciada. Algo que restaria inalcançável pelos manuais e práticas generalistas. Semelhante ao roteiro do filme, muitos desses profissionais andam por aí, refugiados na invisibilidade de seus consultórios. Seguem nas entrelinhas das retóricas oficiais, protegidos da vigilância institucional, suas normas e regras para contenção das novas abordagens terapêuticas.   

Nesse sentido, após algum tempo de terapia, a sequência do filme descreve o fato de Bianca - segundo Lars - começar a passar mal. O qual, num dia qualquer - que nunca é um dia qualquer - percebe que sua namorada não está bem. A família chama a ambulância para levar Bianca ao hospital, chegando lá ela é entubada e passa por tratamento.

Uma construção compartilhada se desenvolve no hospital, quando médicos e enfermeiros entram em cena, acolhendo e cuidando de Lars através da internação da boneca. Como traduz a Dra. Dagmar à família e demais membros da comunidade, o renascimento de Lars vai acontecer em tempo próprio, de dentro para fora, tendo por referência sua estrutura de pensamento, a qual se manifestava por sua interseção com Bianca.

Assim se inicia uma preparação para o desligamento do casal, com a contribuição de vários personagens da trama, especificamente o reaparecimento de Margot, a qual acolhe e é acolhida por Lars. Os dois ficam cada vez mais íntimos, coincidindo com a morte e sepultamento de Bianca.  

O cinema integra-se a vida social de forma significativa, ao oferecer um olhar ampliado e diferenciado, em forma de anúncio sobre questões emblemáticas, como a internação involuntária, a incompreensão do outro, tendo como referência o próprio umbigo epistemológico. Ao se vestir com verdades e soluções a priori para as questões cotidianas, o aparato institucional expõe suas dificuldades para responder às incógnitas do ser singular. Em uma sociedade que se transforma a cada momento, a fratura exposta dos princípios de verdade se apresenta em hospitais, escolas, universidades, presídios, e outros endereços existenciais, os quais poderiam oferecer práticas diferenciadas de estudo, acolhimento e intervenção.  

A garota ideal aborda - a pretexto de ficção - àquilo, sob muitos aspectos, ainda incompreendido nos dias de hoje. Antecipa algo que já acontece em muitos espaços compartilhados, com metodologias inéditas, periféricas, invisíveis, marginais, com sua tez de anúncio, distante das retóricas acadêmicas, do espírito de multidão. Possivelmente algo para depois de amanhã!

O roteiro, embora lembre a Filosofia Clínica, ainda assim, permanece distante do novo paradigma, talvez pela necessidade de edição de sua narrativa ou pelo desconhecimento do que já existe. O processo para a desconstrução dos choques estruturais do personagem principal, ao dialogar com os princípios de verdade, propõe uma mediação com a excessiva maquiagem das suas dores existenciais.     

Aquele abraço,

hs  

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 83*

Interseções

Em algum ponto do inverno de 2006, na cidade de São Paulo, num seminário na universidade São Camilo, ganhei da amiga e colega Maria Luiza Nascimento, a obra: “O Beijo e outras histórias” de Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904), médico e escritor russo, traduzida em 2006 por Boris Schnaiderman para a Editora 34/SP. A recomendação era clara: ler o conto: “Enfermaria n.6”. 

Nesse esboço, de forma introdutória, se destaca aspectos do texto em interseção com a Filosofia Clínica. A ideia é realizar uma aproximação crítica-reflexiva das descrições do médico escritor com as atividades do filósofo clínico, a partir de uma referência - além do constructo teórico prático - com vivências de mais de 50 anos (ora num papel existencial, ora noutro) em hospitais e clínicas psiquiátricas.    

Tchekhov convida a pensar: “(...) centenas de loucos passeiam em liberdade, porque a ignorância de vocês é incapaz de distingui-los dos sãos. Por que então eu e estes infelizes devemos ficar aqui, por todos, como bodes expiatórios? O senhor, o enfermeiro, o vigia e toda esta canalha de hospital está, no sentido moral, muito abaixo de cada um de nós, por que então nós estamos aqui, e não vocês? Onde está a lógica?” (O beijo e outras histórias, 2006. Pág. 211)

A ideia de delimitar o convívio entre aquilo conhecido como normalidade e loucura, nunca foi um consenso, ou seja, trata-se, cada vez mais, de uma narrativa impregnada de ideologia, sustentada pela junção da medicina psiquiátrica, a ignorância do povo, os interesses da indústria de psicofármacos, as questões políticas cristalizadas em leis, normas, decretos.  

Por volta de 2007/2008, na Casa de Saúde Esperança (hospital psiquiátrico de periferia) em Juiz de Fora, ocorreu algo que merece registro. Nessa época oferecíamos atendimentos de Filosofia Clínica na instituição. Em um dia de visita aos internos, o pátio ficava cheio de familiares, amigos, enfermeiros, filósofos, técnicos de enfermagem... Entre gritos, falas alteradas e tranquilas, sons diversos, era difícil saber quem era interno e quem não. Nós, filósofos clínicos, aproveitávamos esses momentos para transitar, conversar, ouvir, conhecer, os familiares e qualificar interseções.   

Foi assim que a mãe de um interno me abordou (eu não usava jaleco), perguntando como eram as coisas no hospital. Percebi que ela estava me tratando como um interno, não desfiz o engano (se é que existia!), pois queria aprender com sua visão das coisas. Infelizmente a diretora da Casa percebeu e veio em meu socorro (segundo ela!). Dizia, quase aos gritos: este não é um paciente, é o Professor Hélio - filósofo clínico! Colocando um ponto final ao inusitado, que me agradava.  

Esse fato de ser confundido com os internos, coincide com o questionamento do fragmento acima, por onde Tchekhov aborda uma questão clássica na área, isto é, quais os critérios para distinguir normalidade e anormalidade? Louco e são? Quem interna quem? Quais parâmetros para distinguir um e outro? Talvez a nomenclatura das tipologias e classificações da bíblia DSM ajude a entender as tramas das ideologias da exclusão.

O autor refere: “Quando a sociedade se isola dos criminosos, dos doentes psíquicos e da gente incômoda em geral, ela é inflexível. (...) quando, num futuro distante, tiverem terminado sua existência as prisões e os manicômios, não existirão grades nas janelas, nem roupões de internados. Está claro que essa época chegará cedo ou tarde.” (O beijo e outras histórias, 2006. Pág. 212)

A concepção de uma vida normal, carrega, inevitavelmente, sua contradição, especificamente ao entrar em dessintonia com os princípios de verdade. Nesse sentido se pode entender a natureza e o alcance das normas legais, as regras para regular o convívio social. Na ótica de alguns pensadores, necessárias para equilibrar as expressões de uma comunidade.

No entanto, qual a mão que balança o berço? Quem elabora esse constructo de verdades? De onde vem essas certezas sobre a natureza humana? As quais, pelas vias do agendamento social, se transformam em itens de uma cesta básica para identificar e amordaçar pessoas em atitude suspeita. Franz Kafka aborda essa complexidade institucional, repleta de labirintos e desvãos incompreensíveis em sua obra: “O processo”, onde descreve as dificuldades de alguém ao se ver processado, sem saber do que se trata, sem ter a quem recorrer, num lugar de difícil acesso para defender-se das acusações.   

Alguns terapeutas da não-psiquiatria, nos anos 1960/70, como David Cooper e Ronald David Laing, em projetos como: Villa 21 (anti-hospital) e Kingsley Hall, comunidades terapêuticas onde médicos e pacientes viviam juntos, sem tratamentos forçados ou trancas, tentaram elaborar intervenções clínicas libertárias.

Nesses casos, costuma acontecer algo semelhante as intervenções da Filosofia Clínica em hospitais psiquiátricos, ou seja, quando começam a surgir resultados animadores na terapia, o alienista retoma os tratamentos de submissão com as drogas que conhece, destituindo os filósofos clínicos e quem mais vier, de qualquer possibilidade terapêutica. Assim, com a caneta e a lei ao seu lado, ainda hoje (séc. XXI) o psiquiatra detém as chaves do hospício, a palavra final sobre a camisa de força de seus tratamentos.   

Com Tchekhov: “O senhor é um homem que pensa, que reflete. Em qualquer circunstância, pode encontrar em si mesmo um meio de se tranquilizar. O pensamento livre e profundo (...) um desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo – eis os dois bens mais elevados que o homem jamais conheceu. E o senhor pode possuí-los, ainda que viva atrás de três grades. Diógenes viveu num barril, embora fosse mais feliz que todos os reis da terra.” (O beijo e outras histórias, 2006. Pág. 214)

Talvez uma das maiores questões envolvendo a abordagem da Psiquiatria é sua entrevista preliminar com o paciente, isto é, quando a pessoa chega ao pronto atendimento do hospital e, quase sempre, além de uma manifestação desestruturada, agressiva, já carrega consigo um pré-diagnóstico da família, amigos, colegas, os quais, sob muitos aspectos, agendam o olhar do alienista.    

A partir daí, em uma sucessão de medicalização conhecida como: sossega leão, se tem a oferta inicial dos tratamentos psiquiátricos. Essa intervenção preliminar (psicofármacos) costuma estar na origem e produção das chamadas doenças mentais. Não antes! Antes disso, encontra-se um sujeito em sofrimento por circunstâncias, as quais são desconhecidas da Psiquiatria. Na base dessa reflexão se encontra algo, muitas vezes despercebido, isto é, a tez ideológica oculta nesses tratamentos.

Em outras palavras, com a intervenção dos psicofármacos, até quem não ouvia vozes, não enxergava vultos, passa a enxergar e ouvir coisas em seu dia a dia. O hospital psiquiátrico produz personagens alheios à estrutura de pensamento singular, os quais passam a integrar a vida da pessoa após a alta clínica. Assim se pode entender a crítica clássica da Antipsiquiatria: “Quem deveria tratar as problemáticas existenciais, na verdade, são os agentes precursores da loucura”.

Nos tempos de atividade na cidade baixa em Porto Alegre, uma amiga da área da Psicologia referia: ‘eu não sei mais o que fazer, mesmo não gostando, encaminhei minha paciente ao Psiquiatra’. Veja-se que, ao não saber o que fazer, encaminha-se ao outro profissional, o qual também não saberá o que fazer, no entanto, irá internar, medicar, fazer com ele uma série de experiências para reconduzi-lo à vida normal, seja isso o que for!  

A história da fabricação da loucura pela Psiquiatria não é nova, veja-se os escritos de autores da antipsiquiatria como: Thomas Szasz, David Cooper, Ronald Laing e outros. Em Buenos Aires existe um grupo de filósofos e psicanalistas, trabalhando numa crítica social, onde, segundo eles, a sociedade capitalista é a produtora de desajustes e contradições pessoais. A manutenção dessa espécie de coisa passa pela figura do psiquiatra e suas drogas para normatizar condutas. O recente livro de Emiliano Exposto: “Las máquinas psíquicas”, aborda o tema.       

Aquele abraço,

hs    

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 82*








Lições de Autogenia

Em março de 2010 voltei a morar em Porto Alegre. Num evento na livraria Nova Roma, no centro histórico, denominado: “café filosófico”, promovido pelo IPA – Centro universitário Metodista, coordenado pelos filósofos Claiton Prinzo e Ioná Santos, reencontrei um livro que tentei ler por volta dos anos 1970, sem entender quase nada, em que pese ter folheado suas páginas até o fim.

Trata-se da obra: “O fio da navalha” do médico-escritor William Somerset Maugham (1874-1965), publicada originalmente em 1944. A edição atual foi traduzida no Brasil em 2003, por Lígia Junqueira Smith para a editora Globo/RJ.     

Esse texto compartilha, já no capítulo I da obra, algumas possibilidades para reflexão com a nova abordagem clínica, quando o escritor apresenta um prefácio mesclado a uma introdução ao seu roteiro. A ideia é tecer aproximações com a Filosofia Clínica.

O autor indica: “Nunca senti maior apreensão ao começar um romance. E se digo romance é por não saber de que outra maneira chamá-lo. Não tem grande enredo, não acaba com morte nem com casamento.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 5).

A abordagem do novo paradigma - na minha forma de entender as coisas - se trata de uma abordagem extemporânea, isto é, algo sobre muitos aspectos, ainda incompreensível aos dias atuais, seja por oferecer um acolhimento e cuidados inacessíveis a lógica atual, ou sendo contraditória com os agendamentos do saber estabelecido, cristalizado, em busca de sustentação com a invenção de diagnósticos e prognósticos que se multiplicam.     

Quem a encontra, e já são muitos os interessados em aulas, clínica, seminários, para conviver com sua mensagem terapêutica, parece ter uma conexão intuitiva/instintiva com seu acolhimento libertário, ao compreender a fenomenologia do humano lá onde ela aparece: no discurso existencial de cada um.   

Assim, já nas páginas iniciais, o autor integra uma descrição dos cenários, personagens, com sua participação nos enredos, seja como escritor, pensador, crítico, ou integrante de seus roteiros. Trata-se de uma obra difícil de diagnosticar, catalogar, pelos meios que se tem com uma determinada crítica acadêmica. Mais que uma proposta estratégica da autoria, para se manter livre de rótulos e engrenagens, pode ser entendida como um convite para se pensar fora da curva institucional, emancipando sua leitura para além dos princípios de verdade.

Ao se afastar de um modelo acessível ao primeiro olhar - seu roteiro não acabar em morte nem com casamento -, o escritor proporciona uma narrativa libertária para seu texto, por onde busca descrever pessoas, eventos, circunstâncias, singulares. Sua narrativa é incabível às hermenêuticas interpretativas da crítica literária, da psicanálise, das patologias da psiquiatria e coadjuvantes. Um texto dessa natureza, embora possa ser utilizado por algumas escolas em seus estudos e práticas, por conter a diversidade existencial, transgride a ótica bem ajustada dos consensos.   

O fio da navalha, dentre outras possibilidades, convida a superar os limites da obviedade interpretativa, quando, nas primeiras páginas, desestabiliza o chão de aspecto seguro para sua leitura, tentando preparar seu cúmplice de construção compartilhada para algo que possa aparecer e qualificar sua leitura. Depois disso, amplia horizontes descritivos numa contradição com as lógicas de um só entendimento para suas páginas.    

Com Maugham: “Este livro consiste das recordações que tenho de um homem com quem, em épocas muito espaçadas, tive íntimo contato, mas pouco sei do que lhe aconteceu nos intervalos. Creio que, recorrendo à imaginação, eu poderia preencher plausivelmente as lacunas e tornar mais coerente a minha narrativa; mas a tal não me sinto atraído. Quero unicamente relatar fatos de que tenho conhecimento.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 5)

Algo semelhante acontece nos eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, ou seja, tanto no que diz respeito às narrativas da história de vida do partilhante, ao revisitar o velho álbum e ressignificar alguns acontecimentos, atualizando acordos consigo mesmo e seu entorno existencial, mesmo com a literalidade dos fatos, o que se apresenta costuma estar vinculado a determinadas resultantes das construções compartilhadas.  

O próprio autor vai nos dar um exemplo desse fato, ao desdizer esse parágrafo mais adiante, mostrando que a contradição também perpassa a estrutura de pensamento de mentes brilhantes, tanto quanto aos demais, investidos em suas lidas diárias.   

Um convívio com outra pessoa oferece alguns padrões comportamentais, algumas ideias precisas e outras impregnadas de uma complexidade distante da luz do dia. Assim o texto refere uma trama onde o próprio autor se insinua em suas páginas, seja na percepção dos eventos ao redor da obra, ou como alguém inserido em seus roteiros e cenários.

É provável que o livro, mais que oferecer um texto impregnado de descrições com a digital do escritor, também efetive um convite à reflexão nossa de cada dia. A categoria lugar e o tempo da peça literária se desdobram para dar sabor e cor aos personagens envolvidos com a trama. O escritor nos coloca em recíproca de inversão e deslocamentos curtos em boa parte do tempo, por onde convida a visitar sua perspectiva das coisas.

No fio da navalha: “(...) é possível que o gênero de vida que esse homem escolheu para si próprio e a singular força e doçura do seu caráter tenham uma influência sempre crescente sobre seus semelhantes, de modo que, mesmo muito tempo depois de sua morte, talvez se compreenda que nesta época viveu uma criatura extraordinária.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 6)

As atividades de consultório possuem uma tez de imprevisibilidade, compreensível a nova abordagem da Filosofia Clínica, onde o fundamento da fenomenologia, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, se reapresentam a todo instante, como integrantes de um discurso existencial compartilhado.

Em Filosofia Clínica há um envolvimento - o fio da navalha - em reciprocidade, quando as palavras deixam de ser uma definição para traduzir pessoas. Existe uma transgressão narrativa pelas construções compartilhadas da hora-sessão.    

A escolha de determinados papéis existenciais afins com uma expressividade, costuma cobrar um preço inacessível a muita gente. Seja esse valor de cunho econômico, existencial ou no convívio com sua tribo existencial. Dependendo dos princípios de verdade onde se encontre uma pessoa em busca de si mesma, esse fato, por si só, pode significar uma contradição com seus amigos, família, trabalho. Assim, além de sonhar com uma vida que lhe represente por inteiro, ainda terá de fortalecer sua estrutura de pensamento, para dar conta da desestabilização dos outros com sua singularidade.

Não é raro, por exemplo, quando um casal se separa, esse fato impactar a rede de interseções ao seu redor, questionando sua forma de viver, seus valores, o trabalho onde se encontram inseridos por necessidade financeira, o desajuste das convicções familiares, e algo mais. Por outro lado, na mesma direção, quem está de bem com a vida, não vai se sentir impactado pelas atitudes dos outros em vias de divórcio, tendo em vista o território onde desenvolve seu cotidiano.

O parágrafo também convida para se pensar sobre a força e o impacto dos agendamentos de convívio, onde - ao menos num sistema que se quer capitalista - a competição, a comparação, a disputa, se encontram presentes em cada esquina, muitas vezes desqualificando o outro em seu jeito de existir.  

Em Maugham: “Há pouco declarei nada ter inventado; quero agora modificar essa asserção. Tomei a liberdade, que desde o tempo de Heródoto os historiadores têm tomado, de pôr nos lábios dos meus personagens palavras que eu, pessoalmente, não poderia ter ouvido. (...) para dar vida e verossimilhança a cenas que teriam sido incolores se apenas reveladas.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 6)

O fragmento auxilia a compreensão sobre o fenômeno da contradição, como um ensaio para estruturas de pensamento em ação. Bem assim, o desdobramento existencial singular, conhecido como autogenia, por onde o sujeito consegue transgredir-se para outro si mesmo.

As propostas para apresentar uma fenomenologia da hora-sessão, numa interpretação a priori dos acontecimentos, tem testemunhado uma desilusão significativa, ao oferecer um olhar distante das dinâmicas de consultório. Um lugar onde as lógicas da diferença, as figuras do estranho se apresentam em dialeto próprio, muitas vezes distantes da luz do dia. Por isso as estórias e lendas, em suas narrativas impregnadas de simbologia e outras formas de vice-conceito, conseguem esboçar aquilo que restaria inacessível pelo dado literal.      

Nesse sentido, o escritor se multiplica em papéis existenciais: autor, amigo, viajante, testemunha, para compartilhar lugares, desenvolver roteiros, que adquirem vida própria a partir de suas descrições. Sua atuação sugere experienciar o fio da navalha entre um e outro personagem, por onde se desloca ora como ator principal, coadjuvante ou com a narrativa de seus disfarces.  

Semelhante a percepção sobre os temperos da imaginação, são os eventos da terapia, os quais, muitas vezes, no discurso singular do partilhante aparecem impregnados de fantasia, imaginação, diante de fatos ora sendo superados. Instantes onde uma narrativa adquire sabor e cor, em conexão com a subjetividade em vias de transgressão pessoal em direção a outro si mesmo.

Somerset Maugham compartilha: “É difícil a gente compreender bem as criaturas e não creio que possamos conhecer ninguém a fundo (...). Pois os homens não são somente eles; são também a região onde nasceram, a fazenda ou o apartamento da cidade onde aprenderam a andar, os brinquedos que brincaram quando crianças, as lendas que ouviram dos mais velhos, a comida de que se alimentaram, as escolas que frequentaram, os esportes em que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que acreditaram.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 6 e 7)

Talvez o brilhantismo de uma obra tenha a ver com a trajetória existencial da autoria, onde encontra subsídios em interseção com sua estrada, os endereços existenciais, as relações, os múltiplos personagens, suas derivações e transgressões, bem assim uma aptidão em descrever o inusitado de cada evento.

Uma interseção com a Filosofia Clínica, se apresenta na percepção do autor sobre a dificuldade em conhecer alguém a fundo, ou seja, propõe enxergar e sentir além dos dados de superfície. Entender àquilo que se oferece nas entrelinhas de uma relação, por onde se pode alcançar uma tradução compartilhada para as razões e desrazões de cada pessoa, tendo como ângulo de visão um ir e vir com o outro lado do rio.

A proposta do novo paradigma terapêutico, carrega, desde seus primeiros escritos o sonho e a utopia de uma vida melhor, seja isso o que for, tendo como perspectiva uma recíproca de inversão e a necessária inversão intelectiva para um aprofundamento investigativo compartilhado.   

As categorias existenciais como: lugar, tempo, interseção, compõem um rol de possibilidades que atribuem a Filosofia Clínica, uma digital de acolhimento e convívio com o território do partilhante. Em outras palavras, ao superar a lógica diagnóstica e a clausura da bíblia DSM, o filósofo se aventura em mar aberto, tendo por companhia suas braçadas e a boia salva-vidas da nova abordagem.

Aquele abraço,

hs  

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 81*

Singularidade

O filme: “Os homens que não amavam as mulheres”, em sua versão americana, é de 2011. Dirigido por David Fincher e roteiro de Steven Zaillian, com duração de 2h38min. Pode ser encontrado no Prime e Netflix.   

Trata-se de uma adaptação para o cinema da obra precursora da trilogia literária Millennium do sueco Stieg Larsson, publicada (mais de 500 págs. cada uma) originalmente em 2005, traduzida no Brasil em 2010 pela Cia das Letras/SP. Coincidência ou não, o escritor morreu aos 50 anos de idade, após entregar o último manuscrito, não chegou a ver sua publicação.  

Esse esboço trata (de forma introdutória) a íntima sintonia da extraordinária Rooney Mara, ao interpretar a singular Lisbeth Salander. Após a leitura das três obras e assistir ao filme, você pode se perguntar várias coisas, dentre elas a conexão profunda da atriz com a personagem, incluindo uma espécie de autorretrato (em sua versão feminina) do autor da trilogia.  

É interessante verificar a pluralidade de leituras sobre uma obra, com isso é possível detectar abordagens, crenças, diferentes fundamentos e representações de mundo, algo caro à Filosofia Clínica. Um dos quesitos da nova abordagem terapêutica é a necessidade de uma epistemologia aprendiz, para estabelecer uma interseção com as lógicas da diferença sob seus cuidados.  

O ser peculiar de Rooney Salander se destaca no filme e nos textos da trilogia, ou seja, além de uma investigadora sensível e repleta de habilidades, também revela a expressividade radical que a constitui. 

Para encontrar a via de acesso a singularidade de cada um, é pré-requisito uma aproximação com seu território existencial, tendo como referência a espacialidade intelectiva - prioritariamente a recíproca de inversão -, como ponto de apoio para uma investigação compartilhada. No caso de Rooney Salander, é possível identificar sua auto reclusão, o distanciamento de um convívio social comum, seu trânsito com desenvoltura pelos labirintos do mundo, submundo, por aquilo que lhe interessa. 

Para localizar seus padrões estruturais atualizados (a causa dos desajustes, contradições), é necessário acolher sua historicidade por uma descrição fenomenológica compartilhada. Assim também será possível vislumbrar a natureza e condições de seu papel existencial extraordinário. Uma rara aptidão para reelaboração pessoal se destaca na personagem, isto é, quando muitos deixariam de lado suas buscas em razão de dificuldades, Rooney-Salander desenvolve uma criatividade para incrementar planos de ação inéditos.  

A atividade clínica da Filosofia permite encontrar pessoas assim estruturadas, isto é, sem o rótulo e a pecha das tipologias psiquiátricas. Dessa maneira, tendo por fundamento um território singular, em vias de apresentação, qualifica uma interseção para um acolhimento diferenciado com o outro da relação.  

Uma dificuldade das metodologias com critérios da bíblia DSM é realizar um trabalho de base fenomenológica, analítica, hermenêutica compreensiva, ou seja, com uma redução apta para evitar os agendamentos, desvios e direcionamentos da terapia. Dessa forma é quase impossível sentir e perceber a pessoa em seu próprio território, a qual, em muitas abordagens, permanece refém da autoridade e interpretações do analista, traduzindo e significando os eventos na vida da pessoa de acordo com sua cartilha e representação das coisas.  

O novo paradigma da Filosofia Clínica atualiza os estudos de mentes brilhantes como: Mesmer, Mary Baker Eddy, Freud, Jung, Lacan, e seus seguidores, ou seja, em ciências humanas a emancipação de uma metodologia encontra um ponto de partida nas atividades de seus precursores. 

Nesse sentido, conviver com a atriz-personagem Rooney Salander se apresenta como um privilégio aos estudos do novo paradigma, uma vez que não se tem moldes apriorísticos para enquadrá-la em alguma neurose, psicose, trauma, espectro, transtorno, os quais condicionariam o ângulo de percepção para seu devir singular.   

Trata-se, isso sim, de encontrar o ser humano em seu próprio território existencial, onde desenvolve sua expressão de acordo com sua estrutura de pensamento. Os deslocamentos existenciais de uma pessoa assim descrita, apresenta um constructo de referências e desenvoltura inacessíveis há quem não tenha olhos de ver. Uma vida estranha às interpretações de base cristalizante, as quais não conseguem interagir com as dinâmicas da singularidade em ação, necessitando definir tipos para tentar classificar e controlar comportamentos com diagnósticos, prognósticos. Dessa forma não é raro passar despercebida uma medicação disponível na própria farmácia subjetiva da pessoa.    

Com uma percepção de natureza instintiva e habilidade extraordinária em relação a computadores, incrementadas por uma perspicácia vivencial com tudo que a cerca, Rooney Salander consegue acessar tópicos e lugares desconsiderados, desmerecidos pelas avaliações da prática criminal, ou seja, consegue chegar aonde outros não chegam. Por essa razão é contratada pelo jornalista investigativo (Daniel Craig) para auxiliar na investigação de uma pessoa desaparecida. 

A manutenção de sua atividade só é possível por ser uma perita diferenciada em sua equipe, os quais detém um status quo em função de trabalhos anteriores. Ainda assim, o convívio do jornalista com Rooney Salander se descreve como uma relação mista, algumas vezes indeterminada. 

Em razão dessas mesmas características a personagem principal dos livros e do filme é perseguida o tempo todo, seja para cooptá-la para um trabalho ou outro. Talvez por isso tenha uma residência desconhecida, sem contar que Rooney se desloca para ser encontrada apenas por quem deseja. As obras da trilogia contêm narrativas impregnadas de mistério, aventura, estranheza, sem contar as inúmeras possibilidades de leitura (analítica, hermenêutica, fenomenológica, psicanalítica, psiquiátrica, filosófico-clínica...), de acordo com a autogenia de cada leitor.   

Nos dias de hoje, em meio à miríade - barulhenta - de métodos terapêuticos, a Filosofia Clínica, se apresenta numa proposta silenciosa, distante das modas, consensos, unanimidades. Nesse sentido, costuma ser parte da terapia, a busca pelo endereço existencial de um filósofo clínico. Sendo inacessível ao visar comum, assemelha-se a personagem incomum da trama, reivindicando uma sintonia para se deixar encontrar.  

Muitas vezes se traduz Rooney Salander, nos livros e em alguns momentos do filme, através de delegados de polícia, psicólogos, detetives, jornalistas..., como estranha, maluca, antissocial etc. Também poderia ser catalogada como autista, de acordo com as narrativas da moda atual, agendadas e festejadas - em quase desespero! - por todo lugar. Esse fato lembra as práticas de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista: “Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade!”      

Singularidade, por onde andas? Por que não apareces para mim? Dediquei tanto tempo em graduações, mestrados, doutorados, seminários, congressos e intercâmbios. Fui tão longe em busca de especialistas, sábios, gurus, ficando cada vez mais distante da tua versão... até hoje.   

Aquele abraço,

hs









sexta-feira, 10 de julho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 80*

Filosofia Clínica e Literatura V

Em 2009, logo após os atendimentos no café do antigo espaço Itaú de cinema, na praia de Botafogo, numa revisita a Blooks Livraria, encontrei a obra “Um mapa da desleitura” de Harold Bloom, crítico literário americano, publicada em 2003 pela editora Imago/RJ.

Sabe quando você se depara, nas páginas de um livro, com aquilo que sabia existir, mas ainda não tinha palavras para se dizer? Pois é, foi assim com esse texto de base crítica, historicista, analítica, ao alcançar subsídios para algo que já vinha se delineando nas clínicas, leituras, pesquisas, com o novo paradigma da Filosofia Clínica.

O escritor-pensador refere: “A leitura, como o título indica, é um ato tardio e inteiramente impossível que, quando forte, trata-se sempre de uma desleitura. O sentido literário tende a se tornar mais indeterminado à medida que a linguagem literária se torna mais sobredeterminada.” (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 23).

A aproximação com as palavras do autor, revela - dentre outros aspectos - possibilidades de ressignificação ao partilhante. Desde as palavras iniciais, com a narrativa de sua história de vida, a estrutura de pensamento, aos procedimentos de maior alcance em sua malha intelectiva, a pessoa efetiva uma reinscrição para si mesma. Uma caminhada de aproximação compartilhada com as tramas desse território inédito, oferece um olhar sobre a originalidade dos eventos, até então, desconsiderados.  

Com essa percepção atualizada sobre os desdobramentos que o trouxeram até aqui, esses registros da memória podem reescrever conteúdos que restariam cristalizados em forma de trauma, armadilha conceitual, ou sustentar tipologias e classificações.     

A leitura de uma obra carrega consigo a possibilidade de uma desleitura pelo leitor, o qual, ao ler e reler uma obra, pode significar suas páginas como uma fonte de inspiração de algo para chamar de seu.  

Talvez a indeterminação de que fala o escritor, possa acolher a inquietude criativa do leitor, onde sua sintonia, ao estabelecer uma interseção derivada da intencionalidade do autor, descubra uma matriz refugiada em sua própria estrutura de pensamento, ampliando horizontes de sentido pelos desvãos da palavra.   

Os eventos da desleitura se assemelham aos deslocamentos da estrutura subjetiva do partilhante em sua terapia, ou seja, quando a pessoa descobre em si mesma ingredientes para desconstruir limites estruturais plantados pelo mundo da cultura, agendamentos dos princípios de verdade onde, até então, a pessoa se desencontrava.    

Com Harold Bloom: “Para que uma leitura (desleitura) seja ela mesma produtora de outros textos, é obrigatório que afirme sua singularidade, sua totalidade, sua verdade.” (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 85)

As questões envolvendo a expressividade de uma pessoa podem ser acessadas e significadas sob diferentes ângulos, compreendidas a partir da representação de mundo, interseções, papel existencial, recursos metodológicos que disponha ao seu redor.  

Assim uma desleitura como produtora de novos sentidos, seja através de uma distorção para outras possibilidades de escritura, sustentação de suas páginas com acréscimos, derivações, ou num esboço de novas versões, elaboram um roteiro para qualificação existencial, a partir de um texto literário precursor.

Os apontamentos para uma fenomenologia da hora-sessão também se descrevem nessa relação do leitor com suas leituras. Noutras palavras, os encontros que podem ser semanais entre o filósofo e seu partilhante, onde elaboram um espaço investigativo compartilhado, apreciam encontrar uma matéria-prima impregnada de originalidade em meio a um caos precursor.  

O autor indica: “(...), mas atos, pessoas e lugares, para que sejam utilizados por poemas, devem eles próprios ser tratados antes como se já fossem poemas, ou partes de poemas.” (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 86)

Pode ser inacessível entender uma desestruturação pessoal num determinado ambiente, restando a sua expressividade em desacordo com a categoria circunstância, refugiar-se em algum ponto da própria subjetividade.

Uma expressão singular socialmente distante, muitas vezes se deve a uma inadequação a determinada realidade, isto é, a pessoa não encontra meios para se integrar ao jogo social, suas normas e regras pré-estabelecidas. Quando isso acontece, é preciso buscar novos roteiros em sua estrutura de pensamento, dialogando com um endereço existencial em vias de reescrita.   

Para sustentar uma determinada autogenia, a relação tópica usual, ao se sentir ameaçada por uma desconstrução, costuma oferecer a crise como forma de defesa. Acolher a poesia existencial de cada um, ainda quando esta esteja desajustada e distante da pessoa com ela mesma, pode significar uma via de acesso para novas interseções.   

O distanciamento de uma abordagem clínica (pretenso saber-poder) em relação ao devir singular da pessoa, ao desmerecer a titularidade de seu jeito de ser, poderia aprender mais e melhor se tivesse meios (metodologia) para compreendê-la em seu próprio território existencial. Tal abertura poderia significar mais que mil manuais psiquiátricos, os quais permanecem reféns da proliferação de síndromes, transtornos, espectros, para tentar dar conta da natureza humana multifacetada.   

O crítico lembra Marcuse e Hegel: “(...) quando este insiste que o pensamento dialético deve tornar presente o que é ausente ‘porque a maior parte da verdade encontra-se naquilo que está ausente’”. (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 185)

Em Filosofia Clínica existem procedimentos - como a escuta fenomenológica e agendamentos singularizados - que favorecem a manifestação de conteúdos da estrutura de pensamento do partilhante, até então considerados inacessíveis, desconhecidos, desmerecidos. As possibilidades contidas em um discurso existencial exilado de si mesmo, costumam se insinuar numa trama narrativa própria, que reivindica uma tradução compartilhada para se contar.  

Um desses momentos em clínica é a recuperação - em versão própria e sem interpretação pelo filósofo - da historicidade pela pessoa, outro são as intervenções submodais nos estágios avançados da terapia, onde o partilhante pode reconhecer e utilizar procedimentos que tenham a ver consigo mesmo, até então, inacessíveis na própria farmácia.   

As contradições apreciam oferecer uma matéria-prima irreconhecível em uma determinada expressão, os eventos da hora-sessão favorecem uma tradução compartilhada. Nesse ambiente seguro da clínica, o partilhante pode exercitar-se pelos recantos desconsiderados de sua estrutura de pensamento.

Conceitos como verdade, mentira, simulacros, jogo de cena, somente fazem sentido dentro de um processo terapêutico, onde será possível compreender seu aparecimento como integrante das dialéticas da terapia. Aqui trata-se de uma aproximação investigativa pela via da interseção, longe da qual restarão equivocidades e incompletudes interpretativas de quem se aventurar em territórios desconhecidos as definições de manual.  

Uma abordagem com base no acolhimento e convívio com as lógicas do desatino, terá, necessariamente de contar com um estudo compartilhado de uma estrutura de pensamento, sem o qual o filósofo ficará refém de hermenêuticas impregnadas de retórica e definições propícias a desvirtuar a fenomenologia da clínica.

Em outras palavras, a cada nova representação de mundo, ao se tentar defini-la em moldes pré-fabricados, o que vai ficar à vista é aquilo que seus intérpretes conseguem enxergar, distantes de uma lógica aprendiz compartilhada, onde seria possível uma descrição a partir de uma recíproca de inversão.     

Aquele abraço,

hs