Notas sobre a Felicidade Clandestina
Em 2022 estávamos renascendo dos
distanciamentos da pandemia de Covid. Nessa época de incertezas, medos,
promessas de dias melhores, devaneios e outras sensações estranhas, começávamos
a sair de casa, transitar pela vida lá fora.
Num desses passeios pelo centro
histórico de Porto Alegre, visitando a livraria de livros raros: Nova Roma,
fui encontrado pela “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector. Uma
obra escrita em 1971, publicada em sua primeira edição em 1998 pela editora
Rocco/RJ. Um livro classificado como contos, embora eu tenha restrições
significativas com tipologias em qualquer de suas formas de apresentação. Mais
por atrapalhar a fenomenologia das originalidades do que qualquer outro motivo.
Penso se tratar de um constructo
de textos - lindos textos - de uma escritora magnífica, sob muitos aspectos
incompreendida por seu tempo. Nos dias de hoje, possivelmente, teria um
diagnóstico de autismo, esquizofrenia, ou qualquer outro rótulo da moda,
com base nas narrativas de especialistas.
A obra oferece algumas pistas
sobre a clínica filosófica, impregnada de autogenias e discursos existenciais de
conotação singular. Algo irreconhecível aos reféns da bíblia DSM e
coadjuvantes.
Clarice Lispector compartilha:
“Ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo.
Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. O ovo
vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. Ovo por
enquanto será sempre revolucionário.” (Felicidade clandestina, 1998. Pág. 51)
Trata-se de uma obra que acena e
dialoga com a fenomenologia dos consultórios. Um endereço existencial onde
terapeutas singulares exercem sua expressividade cuidadora num viés
extraordinário. A emancipação dessas intervenções desafia o estreito limite das
métricas generalistas.
A expressão: “O ovo vive foragido
por estar sempre adiantado demais para a sua época”, indica eventos
intermináveis nas entrelinhas de um saber consagrado. Embora essas atividades já
façam parte da vida de muita gente, seu discurso existencial ainda precisa de
proteção e cuidado, por ser contraditório com as lógicas da generalização e as
ideologias de senso comum. Os novos paradigmas, ao possuir uma expressividade diferenciada,
reivindicam uma desconstrução do olhar, inacessível ao espírito de multidão.
O conceito de ciência é amplo. Acolhe
e investiga a formulação de hipóteses, experimentações, descrições e demais apontamentos
de natureza estranha. A estrutura de pensamento do cientista não cabe em
abordagens impregnadas de verdades cristalizadas. A especulação filosófica em sua
tez de espanto, admiração e cogitações, convive com ânimos de descoberta e
invenção. Antes mesmo de ser algo arrazoado, compreensível, seus eventos de protociência
contém a matéria-prima de algo por chegar.
A autora indica: “(...)
sentimentos são água de um instante. Em breve, como a mesma água já é outra
quando o sol a deixa muito leve, e já outra quando se enerva tentando morder
uma pedra, e outra ainda no pé que mergulha (...)”. (Felicidade clandestina, 1998.
Pág. 64)
Não é raro se encontrar, nos
acolhimentos da hora-sessão, pessoas em seus momentos de ensaio consigo mesmas,
isto é, quando se atrevem a investigar, questionar, cogitar sobre quase tudo. Assim,
o filósofo clínico precisa acompanhar o zoom dos movimentos intelectivos do
partilhante.
A dialética dos atendimentos,
inacessível aos limites da régua tipológica, aprecia uma clínica peculiar entre
filósofo e partilhante. Jung (1875-1962) em uma reflexão prognóstica, especulava
sobre a necessidade de uma terapia para cada pessoa. Uma abordagem que teria de
se adequar a cada realidade. Algo pensado e compartilhado - nos dias de hoje - pela
metodologia da Filosofia Clínica.
Cabe destacar a dificuldade em se
tratar de uma pessoa, tendo em vista um rol de classificações generalizantes, transformando
um sujeito em objeto de investigação pelo saber especialista, recheado de significados
e interpretações a priori. Noutras palavras, reivindica-se uma atenção com
o desdobramento das crises, acolhendo as lógicas do desatino como uma manifestação
em vias de não-ser. Assim sendo, numa distância segura da clausura
interpretativa, diagnóstica, capturada por um saber que não sabe que não sabe,
algo mais acontece em uma clínica compartilhada.
O filósofo clínico tem como ponto
de partida às suas intervenções, uma abertura fenomenológica capaz de acolher
as lógicas da diferença, isto é, qualificar uma busca por compreender o outro
sob seus cuidados.
Uma aproximação com o território
recheado de incógnitas do partilhante, numa expressão que pede estudo e
aprendizado sob suas circunstâncias, requer a conjugação de método e borogodó
para ser efetiva. Os exames categoriais, logo após o acolhimento preliminar,
anunciam a atividade clínica. Esse momento, impregnado de acolhimento e
sensibilidade, trata de conhecer aquilo que desconhece. Ao mesmo tempo o
filósofo terá de vigiar sua própria estrutura de pensamento, para interferir
minimamente na expressão do partilhante, sob pena de desvirtuar sua
singularidade.
Em Clarice: “A agonia de seu
nascimento. Até então eu nunca vira a coragem. A coragem de ser o outro que se
é, a de nascer do próprio parto, e de largar no chão o corpo antigo. (...) Suas
núpcias consigo mesma.” (Felicidade clandestina, 1998. Pág. 75)
Uma terapia que não inclua uma autogenia,
e esteja fundada somente em dados axiológicos, pré-juízos, princípios de
verdade, se apresentará como algo retilíneo, distante dos ajustes - necessários
- com a realidade de cada um.
Em um texto escrito numa data
incerta, publicada não lembro onde, com o título: De quantas mortes você já
ressuscitou? - nessa época ainda não tinha lido Clarice -, abordei algo
semelhante, referente ao processo de desconstrução e reconstrução possível na
vida de uma terapia.
Para uma caminhada dessa
natureza, existem quesitos que reivindicam dedicação, coragem transformadora,
interseção qualificada, disponibilidade e abertura de alma, dentre outros
aspectos para se realizar uma redescoberta de si mesmo sendo outro.
Se tem algo que incomoda é o fato
da maioria das pessoas ter uma certa preguiça mental, uma disposição para serem
submissas a opinião alheia, não pensar por si mesmas. Ter como fonte de
credibilidade um princípio de autoridade, seja de natureza religiosa, médica
psiquiátrica, psicanalítica, filosófico clínica, ou qualquer de suas manifestações
de tez disfarçada, ideologizada em palestras, livros, púlpitos, jornais,
programas de tv, sites, blogs da internet.
Nesse sentido, é possível
perceber - dentre outros aspectos - a natureza libertária de uma terapia
voltada para um encontro da pessoa com ela mesma, numa interseção aprendiz com
sua própria estrutura de pensamento e os recursos que possui, ainda quando inacreditáveis
aos totens para onde, até então, dirigia suas preces. Uma lógica de plantio e
colheita aparece como cúmplice de um processo pessoal transformador.
A autora refere: “E pessoas
precisam tanto poder contar a história delas mesmas.” (Felicidade clandestina,
1998. Pág. 83)
Um dado que pode passar
despercebido, nos eventos da terapia, é o alcance dos relatos atualizados da
história de vida (circunstanciada), por onde o partilhante executa avanços e
recuos, devaneios, incompletudes narrativas, e algo mais, inacessíveis longe da
estrutura de pensamento onde o discurso existencial se elabora.
Talvez por isso a confissão
religiosa se mantenha por tanto tempo, isto é, ao confessar seus pecados e
receber uma penitência, muita gente se sente melhor. Por outro lado, esse
procedimento contribui - dentre outras facetas - para perpetuar uma armadilha
conceitual, quando o penitente se sente liberado para seguir pecando. Dessa
forma contribui com os princípios de verdade onde abastece seus dias.
Em clínica esse processo tem
outra natureza, ao elaborar algo novo com base nas construções compartilhadas, sendo
possível testemunhar um desenvolvimento pessoal singular. Uma superação em
busca de fortalecimento da própria estrutura subjetiva, seja como proposta aos
novos endereços existenciais ou atualização de reformas.
Uma lógica dialética costuma se
apresentar nas narrativas da história de vida, por onde a pessoa possa efetivar
releituras de si para si mesma em tempos, lugares, relações outras, como
subsídio para entender e transitar por sua estrutura de pensamento nos dias de
hoje.
Com Clarice: “Eles também achavam
que os outros queriam caçá-los não para o sexo, mas para a normalidade.
Eles eram medrosos, científicos, exaustos de experiência.” Felicidade
clandestina, 1998. Pág. 125)
Pode ser incabível, para muita
gente, uma existência distante de sua representação das coisas. Abordagens com
pessoas consideradas desajustadas, anormais, tem dificuldade em
compreender essas expressões da vida singular, seu olhar enxerga algo que
precisa ser tratado, normalizado pelos princípios de verdade, seja isto lá o
que for.
Não é raro, em asilos
psiquiátricos, alguns internos terem a sensação de uma ameaça constante a si
mesmos, desconfiam do lugar onde se encontram, com quem se relacionam, os
objetos, sons, cheiros... Isso costuma traduzir - em linguagem própria - o
distanciamento delas mesmas com sua circunstância existencial.
Assim, querer tratar a
expressividade sem compreender as funções que a sustentam, costuma se traduzir
em abordagens de superfície, tangenciando a essência das contradições
estruturais. Com isso elabora-se um território fértil às intervenções do
alienista, o qual permanece refém de práticas ideologizadas por seus
antecessores. Não supõe ser sua postura acrítica, alienada, àquela a produzir a
loucura que jura debelar.
Aquele abraço,
*hs
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