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Você está no espaço Descrituras. Aqui encontrará alguns textos publicados, inéditos e outros esboços de minha autoria. Boa leitura.

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domingo, 1 de março de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 62*








                         


                                        Notas sobre o consultório do filósofo I 

A prática da Filosofia Clínica se relaciona com as lógicas do inesperado. Existem tantas possibilidades para esses relatos quantos sejam os envolvidos nessa atividade. Essa evidência metodológica acrescenta uma distância significativa com o que se tinha - como opção terapêutica - até então.

Tendo em vista uma representação de mundo, de onde fala o que se diz, essa característica envolve os integrantes desses encontros compartilhados. Um endereço existencial para acessar, reconhecer, descrever, interagir, com tópicos de uma estrutura de pensamento em vias de apresentação. Um refúgio de onde o partilhante encontra meios para traduzir-se ao filósofo clínico.

Schopenhauer ensina: “(...) possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem.” (O mundo como vontade e representação. 2001. Pág. 9)     

A Psiquiatria derivada da medicina do corpo, defende suas verdades e intervenções a qualquer preço. Ao oferecer promessas de controle e submissão da chamada doença mental, através da medicalização do fenômeno humano, transforma eventos de origem subjetiva em uma panaceia refém de uma cura que não chega. Essa abordagem passa longe das causas dos desajustes somáticos, os quais podem ser localizados nas contradições da estrutura subjetiva, na circunstância de vida de cada um, dentre outros. Questão de método!

Os pressupostos da medicina, ao emancipar sua metodologia bem-sucedida em consertar ossos quebrados, permite verificar como a Psiquiatria permanece refém da indústria de psicofármacos, com narrativas próprias de uma ideologia comercial. Tendo como referência essa crença, resta internar a nascente extraordinária com a camisa de força dos protocolos de alcance universal. Seu aceno com promessa de cura, concede o tempo necessário para medicalizar as contradições próprias de uma travessia, iniciando um processo de cristalização comportamental. A droga da Psiquiatria se sustenta na ideologia da desinformação, controle social, os lucros faraônicos da indústria de psicofármacos. A produção da loucura é íntima do olhar alienista e seus cúmplices.  

Nesse sentido, a lógica para domínio e submissão da expressividade se divulga - com o apoio dos incautos e desinformados - como uma forma travestida de ciência. A substituição da expressão: doença mental por distúrbios, espectros, transtornos, são um exemplo dessa tentativa de se manter a qualquer custo uma narrativa maquiada de práticas perversas, que passam longe de acolher, compreender, cuidar, sustentadas por crenças antigas disfarçadas de inovação.  

Com Thomas Szasz: “(...) a visão de que as chamadas doenças mentais são mais idiomas do que doenças não foi ainda adequadamente articulada, nem suas implicações totalmente apreciadas.” (O mito da doença mental, 1974. Pág. 142)

Os princípios de verdade estruturam formas de viver com base em determinadas retóricas existenciais, semelhante ao fundo da caverna de Platão. Nos dias de hoje, com a fartura de psicofármacos à disposição, não é raro a defesa intransigente de seu uso, muitas vezes impregnada de boas intenções. A fabricação da loucura oferece uma imagem diante do espelho como resultante de suas drogas: pessoa nenhuma!    

A intervenção da medicina do corpo, hábil e competente para consertar ou substituir peças em uma máquina - com prazo de validade desconhecida -, ao querer usar essa mesma abordagem nas origens subjetivas da somatização, se vê num impasse, isto é, se coloca a procura de uma cura para algo que não é doença. Noutras palavras, o uso de uma tecnologia bem-sucedida para tratar avarias somáticas, não permite acessar suas causas, passando longe de compreender seus sinais de anúncio.        

O ponto de vista dos novos paradigmas, em sua estruturação preliminar, ao enxergar os eventos do cotidiano sob outra perspectiva, aponta verdades em forma de protociência. É o caso da abordagem clínica da Filosofia (principalmente nos anos 1990) ao se apresentar como uma alternativa a forma de pensar a fenomenologia do humano. O filósofo, ao sair da zona de conforto conceitual, bibliográfica, via de regra representada pela estrutura escolar e acadêmica, assumindo uma atividade terapêutica em consultório, se coloca num processo de abertura e risco para acolher e interagir com a singularidade.  

Ian Hacking no prefácio de Thomas Kuhn: “Nós temos a tendência de ver o que esperamos, mesmo quando a coisa não está lá. Amiúde leva muito tempo para que uma anomalia seja vista pelo que ela é: algo contrário à ordem estabelecida.” (A estrutura das revoluções científicas. 2013. Pág. 33) 

As lógicas do inesperado reivindicam uma interseção peculiar, um borogodó apto a conhecer e transitar por sua representação de mundo. Os desdobramentos compartilhados na hora-sessão se espraiam no dia a dia do partilhante em ensaios para uma nova cognição.

Uma realidade em vias de apresentação rascunha seus originais em busca de novos discursos existenciais. O papel existencial cuidador do filósofo não deve ser confundido com uma imersão sem volta em direção ao partilhante, mas como uma base flexível aos seus deslocamentos intelectivos.      

A incompletude discursiva e o raciocínio desestruturado não constituem uma patologia, em que pese as narrativas, agendamentos e a propaganda em contrário, tratando-se de uma publicidade para manutenção da supremacia psiquiátrica, intervindo nos eventos de base subjetiva como se fora uma consequência da medicina do corpo. A loucura não aparece em exames de sangue ou qualquer outra forma de identificação laboratorial, trata-se de uma hermenêutica política, ideológica.   

Em Roland Barthes: “(...) não colaboram para que minha leitura resvale? Um ângulo obtuso é maior do que um ângulo reto: ângulo obtuso de 100 graus, diz o dicionário: também o terceiro sentido me parece maior do que a perpendicular pura, reta, cortante, legal, da narrativa: parece-me que o terceiro sentido abre o campo do sentido totalmente, isto é, infinitamente (...) o sentido obtuso parece desdobrar suas asas fora da cultura (...)”. (O óbvio e o obtuso, 1990. Págs. 47 e 48)

Assim é possível entender a chegada da Filosofia Clínica como um novo olhar, uma compreensão do ser singular. Em meio aos presságios de vida nova, sua abordagem acolhe a singularidade, a qual reivindica uma metodologia diferenciada para encontrar seu titular. Até então não se tinha algo assim, apto a entender a desestrutura pessoal como travessia entre um antes e um depois de qualquer coisa.

Veja-se a realidade dos hospícios, com seus protocolos e práticas alienadas, submissas, inquestionáveis, ao saber-poder da Psiquiatria, isto é, a última palavra sobre baixa ou alta no hospital psiquiátrico é de uma só pessoa. Ainda quando simula ouvir o ponto de vista de outras áreas de atuação, a versão alienista prevalece.

Nesse sentido, como não entender a clausura de muitos internos, ao elaborar uma teia subjetiva própria, para se proteger de um mundo que não o compreende, desmerece sua versão das coisas, não entende sua circunstância existencial, sua contradição como tentativa de ser sujeito na própria história.  

Com Antonin Artaud: “Entre a personagem que se agita em mim quando, ator, avanço em cena e aquele que sou quando avanço na realidade, há, sem dúvida, uma diferença de grau, mas em proveito da realidade teatral. Quando vivo não me sinto viver. Mas quando represento, então sinto que existo. Quem me proibiria de acreditar no sonho do teatro quando acredito no sonho da realidade?” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 102)

Esse estranho que se oferece em linguagem própria, reivindica uma parceria capaz de acolher e qualificar construções compartilhadas, numa lógica aprendiz, onde se pode compreender aquilo que - a princípio - é desconhecido. Em cada um se insinua um ser extraordinário, sua expressão aprecia uma tradução compartilhada, distante de uma abordagem vertical, do tipo: “você sabe com quem está falando?”.

O script pré-determinado das abordagens da tradição, muitas vezes transforma profissionais diferenciados em sua área de atuação, em reféns da clausura metodológica vigiada pelos conselhos de classe, os quais supervisionam, multam, suspendem, excluem quem ousar estudos ou práticas em desconformidade com a rigidez cadavérica de suas normas.   

É interessante descrever uma estrutura de pensamento, em sua irregularidade discursiva, quando busca dizer mais do que consegue. Assim o filósofo clínico terá de aprender, como fundamento de sua atuação em consultório, a conviver com as formas do inacreditável. Talvez recuperando a admiração e o espanto dos primeiros pensadores.  

A descrição multifacetada da singularidade humana, reivindica uma abordagem cúmplice para estudar, transitar, conviver com sua expressão inédita. Pela via da interseção, será possível conhecer aquilo que não se sabe, em aproximações da teoria com uma abordagem adequada a cada pessoa.

Mais que explicar ideias, ensinar história da Filosofia, desenvolver críticas, análises, reflexões, cabe ao filósofo clínico se colocar em risco ao se aproximar do outro na relação terapêutica. Trata-se de encontrar a vida como se apresenta, semelhante ao equilibrista em suas travessias pelo arame, sem rede de proteção.  

Aquele abraço,

hs  

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 61*


                                                  Estranhos 

O conceito de singularidade integra a nova abordagem clínica da Filosofia. Tem como fundamento e ponto de partida investigativo, uma redução fenomenológica e a busca por interseção com o sujeito partilhante. Isso por si só, já deveria bastar para demonstrar seu distanciamento das metodologias comuns, as quais tem por base uma hermenêutica interpretativa, tipológica, classificadora, universal.

Um ser estranho se apresenta, a cada momento, desafiando as lógicas da definição tipológica. Essas intervenções de protocolo para tratar gente desarrazoada, encontra aquilo que elas mesmas colocam no outro sob seus cuidados. Uma tez de indefinição precursora, própria da dialética humana em vias de não-ser, reivindica um algo mais que essas abordagens não têm. Como realizar uma travessia singular - entre um antes e um depois - superando a vertigem desses instantes, com uma camisa de força interpretativa?   

Talvez pensadores como: Arthur Schopenhauer, Merleau-Ponty e Wittgenstein, pudessem auxiliar o entendimento desse viés desconstrutivo das bases que se tinha, até então. No entanto, quem está disposto a renunciar àquilo que pagou caro para aprender? Como se proteger da teia ideológica das sanções de conselhos e organismos profissionais, os quais limitam, direcionam, autorizam e desautorizam estudos, olhares, sentires, percepções daquilo que ultrapassa as fronteiras do dizível?

Essa questão é antiga, um clássico, na verdade!

Fritjof Capra, ao lembrar Werner Heisenberg: “Meu interesse pela mudança da nova visão de mundo na ciência e na sociedade foi despertado quando eu, ainda um jovem estudante de física de dezenove anos, li Física e Filosofia de Werner Heisenberg. (...) Onde descreve e analisa o singular dilema enfrentado pelos físicos (...) quando começaram a explorar a estrutura dos átomos e a natureza dos fenômenos subatômicos. Essa exploração os colocou em contato com uma estranha e inesperada realidade, que estilhaçou os alicerces da sua visão de mundo e os forçou a pensar de maneira inteiramente nova. (...) Em suas tentativas de compreender a natureza dos fenômenos subatômicos, os cientistas tornaram-se dolorosamente cientes de que seus conceitos básicos, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para a descrição dessa nova realidade.” (Sabedoria Incomum. Pág. 13.)

Em Filosofia Clínica é comum a relação com o incomum. O conceito de singularidade e o novo constructo metodológico, permitem acolher, transitar, interagir, e compreender o sujeito partilhante em seu próprio território, reivindicando do filósofo uma expressividade aprendiz, onde terá subsídios para conhecer uma estrutura de pensamento em momentos de anúncio.  

Nesse sentido, o filósofo terá de exercitar-se em múltiplas expressividades, a partir de seu encontro com o inédito de cada atendimento. Sem perder de vista seu papel existencial cuidador e seu planejamento dinâmico, encontra uma referência nesse ângulo de visão - algumas vezes escorregadio -, para compreender essa escuta que se desloca para transcrever a epistemologia do estranho.   

Como lidar com essa tez de indeterminação, desrazão, singularidade, sem perder-se no outro lado da relação clínica?

Talvez Capra nos auxilie: “O grande feito de Heisenberg foi expressar essas limitações dos conceitos clássicos de uma forma matematicamente precisa - que hoje leva seu nome - e é conhecida como ‘princípio de indeterminação’. (...) O princípio de indeterminação mede o grau em que o cientista influencia as propriedades dos objetos observados pelo próprio processo de mensuração.”   (Sabedoria incomum, pág. 15.)

Ao pensarmos com esse subsídio teórico-prático, aplicado a nossa lógica aprendiz, se pode entender o movimento intelectivo existencial do filósofo clínico, ao deslocar-se em recíproca de inversão e inversão, na relação terapêutica. Com o cuidado e a atenção necessários para encontrar e compreender a pessoa diante de si mesma sendo outra.  

Uma redução fenomenológica auxilia o processo de acolhimento da matéria-prima com a qual o filósofo irá trabalhar, com um mínimo de agendamentos, num território em vias de investigação compartilhada. A epoché também vai ajudar na percepção das intervenções clínicas, sua natureza e alcance na malha intelectiva do partilhante, bem assim as elaborações na estrutura de pensamento do filósofo, ao ser agendado pelas palavras e discurso existencial com os quais trabalha.

Assim é possível estar atento para uma realidade mutante, a qual assume, na provisoriedade do instante precursor, uma tez de invisibilidade, a qual reivindica uma abordagem cúmplice para se mostrar e insinuar alguma forma de tradução ao filósofo clínico. Ao manter uma interseção com base em agendamentos mínimos, dado padrão, literalidade, atualização discursiva, e outros, o filósofo pode construir uma abordagem específica para cada pessoa em atendimento, bem assim, as modificações que vão acontecendo em sua estrutura pelas vivências da hora-sessão.

Fritjof Capra recorda ‘O ponto de mutação’: Um paradigma, para mim, significaria a totalidade de pensamentos, percepções e valores que formam uma determinada visão de realidade, uma visão que é a base do modo como uma sociedade se organiza.” (Sabedoria incomum, pág. 17.)

A mudança de paradigma pressupõe pessoas (pesquisadores) diferenciados, precursores, pensadores desacostumados com uma zona de conforto em sua área de trabalho. Noutras palavras, reivindica uma inquietude curiosa e uma aptidão para navegar em mar aberto, com os riscos que essa atitude oferece, a insegurança de adentrar em águas desconhecidas, conviver e descrever suas nuances, desvios narrativos, contradições, em busca de um eixo significativo de expressão onde outros encontravam somente desatino ou desrazão.

As mudanças resultantes na vida de cada pessoa, a partir de uma terapia, costuma modificar seu meio social. Noutras palavras, uma transformação com base na estrutura de pensamento, impactando a representação de mundo de cada um, soa algo revolucionário, capaz de agendar e imprimir transformações - inicialmente invisíveis - interferindo na realidade das ruas. Depois disso, na cumplicidade da categoria tempo, os princípios de verdades estabelecem regras e normas para abraçar e cristalizar as novas ideias em ciência normal.

Aquele abraço,

hs

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 60***

                                                   Dias Perfeitos       

O filme Dias Perfeitos, com direção e roteiro de Wim Wenders, é de 2023. Tem a duração de 123 min, numa produção da Alemanha e Japão. Disponível no Prime vídeo. Se pode imaginar o tempo para sua produção, desde as primeiras ideias, escritas, reescritas, busca por investimentos, as versões preliminares, escolha de personagens, fotografia, música, filmagens, edições.

Ao compreender a obra como indício de uma autobiografia, é importante recordar que Wim Wenders estudou medicina e filosofia, abandonando a faculdade para se dedicar as suas paixões: o cinema e as artes visuais. Desconstruindo, sob muitos aspectos, uma lógica da tradição escolar. Assim é possível encontrar suas digitais em sua estética.

Dias Perfeitos descreve o cotidiano de um sujeito em tempo próprio. Sua semiose preferida é o silêncio conjugado ao olhar sobre os acontecimentos de sua vida. O filme sugere um esboço para algo imune a passagem do tempo. Seu enredo acolhe a expressão de um vagar sem pressa ao sabor dos dias.  

O personagem Hirayama é zelador e limpa banheiros em Tóquio. A descrição de sua atividade revela uma prosa poética singular, por onde os eventos valorizam o instante multifacetado de cada cena. Uma tez de inacabamento parece descrever a obra de Wim Wenders, semelhante a vida de cada um, ainda quando se tenta cristalizar sua expressão em protocolos, diagnósticos, prognósticos.  

A obra apresenta as poéticas da singularidade em vias de introspecção, deslocamentos curtos, recíproca de inversão, como proposta de algo para chamar de seu. Nesse sentido o discurso existencial do personagem compartilha algo incomum, destaca seu gosto pela música, livros, fotografia, numa interseção diferenciada com as coisas, pessoas, a vida ao seu redor.

Em um momento da obra, a visita inesperada da sobrinha, uma das poucas que o compreendem, desloca, momentaneamente, seu cotidiano, para acolher uma interseção afim com suas verdades. A menina, que fugiu de casa pelas diferenças com a mãe, prefere a forma de vida do seu tio, o acompanha em seu trabalho, lê seus livros, ouve suas músicas, anda de bicicleta com ele, dialoga ... O lugar onde Hirayama mora é simples, ele dorme no chão em meio a seus livros. Seu dia a dia, no entanto, é repleto de uma magia incompreensível aos modelos pré-concebidos dos princípios de verdade. A lógica de um consumo desenfreado não cabe em seus dias. Ao olhar desavisado, sua vida parece ser sempre a mesma. Enquanto isso, o texto convida a desvendar a originalidade em cada cena,  

Talvez sua melhor tradução seja a esteticidade seletiva, por onde compartilha preferências musicais, literárias, fotografando aquilo que escapa ao olhar comum, não com o objetivo de se destacar, competir, aconselhar, mas num convite para reencontrar a si mesmo em cada manhã.       

O roteiro nos recorda os encantos de um devir singular, o qual sendo o mesmo já é outro, inaugurando em cada - minúsculo - evento inéditas possibilidades existenciais. Trata-se de acontecimentos recheados de vida, reivindicando um tempo próprio para decifrar suas nuances de sabor e cor.

A expressividade de Hirayama compartilha momentos onde se poderia morar. O filme é generoso nesses encontros com o extraordinário, os instantes refugiados numa fenomenologia fugaz, reivindicam uma sintonia diferenciada para se mostrar. Uma simplicidade complexa se insinua na brisa leve da copa das árvores, registradas pela fotografia do personagem.  

Sua bicicleta é a companhia favorita para os finais de semana, quando leva sua roupa para lavar, revela seus filmes, qualifica suas leituras, ouve suas músicas em fitas cassete. Seu jeito de ser encontra numa jovem a interseção com seu gosto singular. Sua família, com exceção da sobrinha, não o entende. A maioria das melodias são dos anos 1970/1980, reapresentando um estilo musical e a poesia de algo que parecia esquecido.

Wim Wenders recupera um tom favorável ao ser analógico, em meio a velocidade vertiginosa da internet e coadjuvantes. O roteiro ensina sobre a condição humana exilada em um devir, muitas vezes incompreendida, refém de rótulos, tipologias, por quem não dispõe de meios para compreendê-la em seu jeito peculiar de existir.  

O filme, semelhante aos eventos da hora-sessão, convida a um exercício de desaceleração para um reencontro consigo mesmo, investigando os deslocamentos do cotidiano, seus devaneios, reflexões, e algo mais, a perseguir-se pelas esquinas e calçadas, visitando jardins, compartilhando um café, assistindo um filme, saboreando a vida sem pressa, acolhendo seus dias num protagonismo para ser sujeito na própria história.

Nesse sentido a obra permite cogitar sobre a poética existencial de todos e cada um, por onde se imprimem rastros de que alguém passou por aqui, apesar das iniciativas e agendamentos para significar singularidade em espírito de multidão.     

Aquele abraço,

*hs

**Texto originalmente publicado na edição verão/2025 da revista da Casa da Filosofia Clínica

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 59*


                                        Percepção Incomum 

O filme: "Edward Mãos de Tesoura" é de 1990, com direção de Tim Burton. Uma produção dos EUA e duração de 1h45min. Roteiro de Caroline Thompson e Tim Burton. No elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, dentre outros.

Sua reflexão pode ser abordada de múltiplos pontos de vista, tantos quantos forem os envolvidos com sua análise e sintonia. A inspiração para o roteiro vem da adolescência de Tim Burton, ao recuperar ilustrações sobre sua sensação de isolamento e dificuldades em se relacionar com os moradores de sua cidade.

A partir daí, se inicia o trabalho de Caroline Thompson e Tim Burton, para desenvolver esse rascunho preliminar. É significativo lembrar que o esboço se apresenta na percepção de um jovem extraordinário, o qual não consegue se enturmar com o gesso da vida normal. Quase uma aula de enraizamento, reconstrução, deslocamento longo, para atualizar uma autopercepção de Tim Burton.

As cenas iniciais destacam uma aptidão - borogodó - de Peg, vendedora de Avon, a qual, ao encontrar Edward morando sozinho num castelo abandonado, manifesta uma plasticidade peculiar, mantendo com ele uma interseção incomum de acolhimento e cuidados com sua expressividade, sem julgar, classificar ou tipologizar.    

Um ponto de interesse é a afirmação de Edward (raro momento de fala do personagem), ao ser descoberto num canto da sala, em meio as sombras, de que “estava incompleto”, ou seja, por ter tesouras no lugar das mãos, deixava entrever uma sensação de abandono, desmerecimento.   

A ideia de exclusão, tão comum, como efeito colateral das lógicas de consumo, onde pessoas se transformam em objeto de desejo, para consumir e ser consumido pelo lucro a qualquer preço, sustenta a proliferação de diagnósticos (ideologias de saber-poder) para enquadrar o fenômeno humano multifacetado, o qual, a cada tentativa de aprisionamento interpretativo, se desdobra para reapresentar-se noutras formas de existir (singularidade). Haja síndrome, espectro, transtorno, para cristalizar aquilo que se multiplica a cada olhar. Questão de método!   

Após as críticas e desconfianças iniciais, Edward é aceito pelos moradores, pois tem algo que lhes interessa, isto é, oferece gratuitamente suas habilidades para elaborar cortes de cabelo as mulheres do bairro, arruma seus quintais, tosa seus cachorros. Decora o bairro inteiro com sua estética, transformando a paisagem, enriquecendo ruas e jardins com sua expressão, tem olhos para a beleza e harmonia em todas as coisas.

Edward, ao não ser - exatamente - humano ou robô, inclui um personagem contraditório com as lógicas de entendimento da vida como algo linear, recheadas de fundamentos para direcionamento comportamental, onde protocolos, laudos, diagnósticos, cumprem um papel de manutenção da ilusão de controle as verdades de laboratório.  

Existem muitos desvãos no filme associados ao tema principal, como o fato de Edward sentar-se na calçada ao lado de um cão, ao qual oferece seus serviços de estética, fazendo o que sabia fazer, compartilhar cuidado e carinho. Sem esquecer a maldade no meio do caminho, numa cena em que se tenta classificar o personagem como uma ameaça - por ser diferente -, forjando situações onde sua inocência e ingenuidade são reféns de alguns membros da comunidade.   

O filme, no que se refere a Edward, lembra a maestria de Chaplin, pois o personagem quase não fala, se expressando em atitudes com as pessoas e o mundo ao seu redor.  Nesse sentido lembra o conceito de discurso existencial em Filosofia Clínica, superando a ilusão de que uma retórica e boa apresentação pessoal podem bastar para uma leitura confiável, reivindicando um convívio continuado para se ter uma aproximação de qualidade entre o que se diz e o que se faz.   

Aquele abraço,

*hs

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 58*

                                                   27 Noites 

O filme argentino 27 noites, Netflix 2025, com roteiro, direção e atuação de Daniel Hendler, com base no livro da escritora Natalia Zito, tem a duração de 1h47min. A obra se inspira em fatos reais, abordando a vida da personagem Martha Hoffman, colecionadora de arte rica, audaciosa, animada.   

Seu argumento se desenvolve com a internação involuntária de Martha (83 anos) por suas filhas em uma clínica psiquiátrica, onde permanece por vinte e sete noites. Com isso é indicado pela justiça um especialista (Casares) para avaliar a condição mental/existencial de Martha. A partir daí os dois mantém uma relação singular, com agendamentos do lado a lado da convivência.

A produção se junta a outras centenas de filmes, livros, peças de teatro, que abordam a vida incompreendida e o tratamento com a camisa de força da bíblia DSM. (questão de método).

Pode-se lembrar: Um estranho no ninho (1976), com Jack Nicholson e direção de Milos Forman, Shine – brilhante (1996), com Geoffrey Rush e direção de Scott Hicks Garota Interrompida (2002) com Winona Ryder e Angelina Jolie e direção de James Mangold, O Pescador de ilusões (2021) com Jeff Bridges e Robin Williams e direção de Terry Gilliam, e outros.

O comportamento fora da curva - a resistência de Marta em não renunciar a si mesma - experienciado pela personagem, descreve, em perspectiva, aquilo que muita gente vivencia em seu cotidiano, ou seja, a sensação de exílio na própria casa. Quando isso acontece, o mundo normalizado, ao ver seu modus operandi ameaçado, se socorre da Psiquiatria, a qual, a partir de um primeiro encontro, recheado de agendamentos familiares do candidato a louco, trata de iniciar a produção da loucura, com isso se estabelece aquilo conhecido como: doença mental.

Os hospitais psiquiátricos, bem como a sociedade que os mantém, são a verdadeira fábrica da loucura, estruturados e mantidos dentro da lei. Assim constituem uma sociedade produtora de desajustes existenciais, de quem não consegue se adaptar ao modo de vida injusto, desigual, onde todos devem querer ser objeto de consumo.

Nos dias de hoje as escolas e seus professores, tem treinamentos para identificar desvios de conduta, ou seja, localizar algum estágio de loucura nascente, através do registro de comportamentos estranhos por parte dos alunos. Nasce assim uma categorização de síndromes, espectros, transtornos, massivamente divulgados como verdade (lembra Joseph Goebbels? Ministro da propaganda de Hitler?) para conter as contradições com o espírito de rebanho.   

Antigamente essas práticas existiam, embora tímidas, nos anos 1960/70 a moda era caracterizar atitudes suspeitas como: disritmia, uma espécie de antessala para a esquizofrenia, outra invenção servindo ao contexto social alienado.

Friedrich Nietzsche alertou para a ilusão dos linguistas em querer dominar o fenômeno humano atribuindo um nome para cada evento. Noutras palavras, acredita-se – ainda hoje – que batizar determinadas atitudes, pode traduzir uma expressão singular.

Nesse sentido, o filme 27 noites atualiza a reflexão sobre o direito de ser expressivo, um tema caro a Filosofia Clínica, a qual possui uma abordagem em sintonia com a fenomenologia da singularidade.

Martha, ao ser desrespeitada por suas filhas e parcela significativa da sociedade, encontra refúgio numa comunidade periférica, num subúrbio de Buenos Aires, onde é acolhida como artista e sujeito de sua história. Nesse endereço existencial ela não é louca, excêntrica ou qualquer outra invenção tipológica, que não a Martha inspirando acolhimento, amor, carinho, características que influenciaram sua relação com o especialista.  

Interessante notar que Casares, designado para enquadrar sua paciente, se depara com um movimento intelectivo conhecido da Filosofia Clínica: a recíproca de inversão. Ao conviver com Martha, o especialista aprofunda sua relação e vivencia circunstâncias inéditas, ao regressar ao seu eixo existencial (inversão), reconhece a limitação de seu jeito de viver.   

A obra, pela limitação de tempo em um roteiro complexo, as necessárias edições para se adequar a realidade cinema, deixa nas entrelinhas conteúdos que poderiam ser abordados, como: a influência da sociedade na relação com pessoas consideradas descartáveis, sejam jovens, adultos, velhos, geralmente em desconformidade com um script previamente elaborado por uma hegemonia comportamental ideologizada (no sentido de Gramsci -como ocultação das verdadeiras intenções).

Assim é possível antever um convívio social com base na dissimulação, jogos de cena, inautenticidade. Quando aparece alguém contraditório com essa norma social, a ameaça surge no horizonte das estruturas de controle e submissão, algo que se inicia na família, escola, igrejas e contamina o eixo da sociedade, oferecendo como produto ótimo de suas intervenções um não-ser chancelado.   

Nos dias de hoje a produção literária, cinematográfica, clínica, e suas derivações, tem encontrado nas periferias e subúrbios uma matéria-prima para suas elaborações criativas, uma forma de resistência em meio a tanto faz de conta e dissimulação, representada pela hegemonia institucional.   

Aquele abraço,

*hs

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 57*

Filosofia clínica e discurso existencial | Sílex

Boas leituras e releituras!

Aquele abraço,

*hs

Filosofia Clínica Agridoce 56*

*Resenha de Ana Bia para o site: https://proximolivro.net/

A vida é uma dança imprevisível entre o que conhecemos e o que ousamos explorar. “Pérolas Imperfeitas: Apontamentos Sobre as Lógicas do Improvável”, de Hélio Strassburger, não se contenta em ser apenas uma leitura; é um convite a questionar as realidades que nos cercam. Com uma prosa ligeira e provocante, Strassburger oferece um vislumbre das complexidades do cotidiano, os fragmentos de beleza que só emergem na imperfeição.

A obra se faz acompanhar de reflexões que transitam entre o inesperado e o banal, revelando que muitas vezes são as falhas que nos fazem humanos. Em suas páginas, você encontrará a essência das pepitas de sabedoria que surgem na adversidade e nos desafios diários. Ao longo de 142 páginas de puro deleite, Strassburger despiu-se de qualquer formalismo excessivo e, em vez disso, abraçou a autenticidade. A narrativa se torna um espelho, refletindo nossas próprias lógicas do improvável, fazendo você refletir sobre as suas próprias experiências de vida e as lutas pessoais que moldam seu ser.

Os leitores se dividem entre os que se sentem revigorados pelo estilo ousado e direto do autor, e aqueles que, talvez, esperavam algo mais linear. O que é claro é que a prosa de Strassburger provoca reações intensas: muitos se sentem inspirados a embarcar em uma jornada de autodescoberta, enquanto outros criticam a falta de uma estrutura mais convencional. Mas quem precisa de convenções quando a vida, com todas suas reviravoltas, nos ensina a improvisar?

Neste cenário onde a lógica as vezes falha, a obra provoca risos, lágrimas e um profundo pensar crítico. O autor não está só debatendo o improvável; ele deixa a porta escancarada para que você possa entrar e vivenciar a imperfeição como um valor vital. Aqui reside a verdadeira pérola: a aceitação do inusitado como parte da história humana.

Com uma sensibilidade quase poética, Hélio Strassburger se coloca como um maestro das palavras: cada frase e cada aponto são notas que compõem uma melodia de introspecção, trazendo à tona a beleza nas falhas e nas incertezas do ser. Você já parou para pensar nas suas próprias pérolas imperfeitas? Aqueles momentos que, à primeira vista, parecem ser um desastre, mas que, com o tempo, revelam-se extraordinários?

Na cultura contemporânea, repleta de superficialidades, o autor consegue nos cutucar para sairmos da zona de conforto. Ele nos faz lembrar que, por trás de cada imperfeição, podemos encontrar histórias ricas e cheias de vida. Não é apenas uma leitura; é uma experiência transformadora que modela sua visão de mundo e de si mesmo.

Deixe que Pérolas Imperfeitas invada sua mente e seu coração. Esteja pronto para questionar e, quem sabe, reinventar suas próprias lógicas do improvável, pois, em última análise, a beleza reside justamente nas imperfeições. Você está disposto a embarcar nessa viagem de autodescoberta e reflexão? O que você vai fazer com essas novas pérolas adquiridas? A escolha é sua! 🌊✨️

📖 Pérolas Imperfeitas: Apontamentos Sobre as Lógicas do Improvável. Ed. Sulina/Porto Alegre/RS. 2012.

by Hélio Strassburger

🧾 142 páginas

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*Ana Bia

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domingo, 21 de setembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 55*

  

                                                         Fora de foco 

O filme Desconstruindo Harry é de 1997. Tem a duração de 1h35min. Escrito, dirigido, representado por Woody Allen e convidados. A obra se aproxima da nova abordagem terapêutica da Filosofia Clínica, especialmente com roteiros de autogenia, espacialidade intelectiva, e outros. No entanto se distancia, quando o fenômeno humano singular é tratado como algo universal, coisificado, refém de tipologias, estereótipos, protocolos.    

Um aspecto vinculado aos deslocamentos intelectivos, se refere a pluralidade de expressões, derivações, para integrar o roteiro, tendo por base uma só matriz descritiva. Em outras palavras, trata-se de textos dentro de um texto, num convite para o leitor/espectador acompanhar a interseção do centro com suas margens. Vivenciar as sensações que se oferecem na história.

No mesmo sentido, um pouco antes de ir ao cinema, autor e obra se confundem em sua redação. Os personagens se mesclam na criatividade dos roteiros. O texto se assemelha a uma autobiografia para as telas.  

O filme convida a superar as cenas iniciais, onde facilmente se poderia cair numa armadilha interpretativa, acreditando saber, de antemão, do que se trata, para onde a obra se dirige. A trama surpreende o tempo todo, onde realidade e ficção se reapresentam para dizer e desdizer quase tudo.   

A escritura do autor se desdobra para encontrar o cinema. As múltiplas estórias em um mesmo roteiro elaboram - com o espectador - um contrato de lógica absurda, próximo do drama kafkiano. Múltiplos papéis existenciais redigem seus originais, onde as franjas e periferias integram uma coisa para ser outra.  

O discurso da personagem ao invadir a casa de Harry Block (Allen): “Você acabou com a minha vida e agora vou me matar aqui, na sua frente, no seu carpete”, o escritor: “você é uma desequilibrada”, ela rebate: “Sim, por isso você me escolheu! (...), quem mais me convenceria a fazer sexo oral no enterro do meu pai?”, a cena prossegue com outros diálogos desencontrados, ameaças, acusações, relação compartilhada pela desestrutura.    

Pouco depois, em nova cena, com a trilha sonora de “garota de Ipanema”, o filme prossegue, agora em nova perspectiva, convidando o espectador a experienciar uma mudança de rota, onde o enredo principal dialoga com suas derivações.        

A obra é contextualizada num ambiente vintage, onde o ator/escritor/roteirista/diretor trabalha em seu apartamento, a meia luz, dedilhando sua Remington, lugar para expressão de suas ideias e criatividade. Um refúgio para sua singularidade.   

Em outro momento Harry Block aparece deitado num divã, com o analista a sua cabeceira. Fato recorrente numa obra de inspiração psicanalítica, apesar das críticas que o autor lhe concede. Ao longo da história surgem nuances da escritura de Woody Allen, com sua digital impressa nas cenas e personagens de sua obra. Muitas vezes se tem a sensação de ver e ouvir sua voz por todo lado.   

A sequência traz o escritor novamente em terapia, dizendo de sua preferência por prostitutas: “não consigo me acertar no amor (...) eu ainda adoro prostitutas, sabe?  você faz o que tem de fazer, paga e elas vão embora. Você não tem que falar de Proust, filmes, e mais nada”.

Quando a terapeuta faz uma intervenção: “O conto que você estava trabalhando” ... Harry relembra: “a câmera está fora de foco. O ator está fora de foco. O Mell está fora de foco”. (...) Quando chega em casa a mulher diz: “você está estranho”, ele: “sim, estou fora de foco”, ela: “você está borrado”, ele: “estou passando por uma coisa que não sei o que é. (...) Não consigo escrever, não vem”.

Na cena seguinte o personagem se apaixona por sua terapeuta. O narrador onipresente: “Para Epstein, finalmente encontrava a mulher ideal, alguém que o compreendia”. Mais uma vez oferecendo uma leitura não-linear, Harry encontra na rua seu outro eu, aquele do momento inicial do filme, onde conversam. “Quem é você?” ele pergunta, o outro responde: “sou quem você criou e agora não me reconhece? (...) eu sou você, um pouco disfarçado.”

Em outro momento, quando sua nova terapeuta, em sessão com o escritor, deixa de lado seu papel existencial para ir à sala ao lado, onde encontra o personagem do divã sendo outro - num raro instante onde Harry Block e Woody Allen são o mesmo -, passam a discutir sua relação, tendo como motivação um relato da terapia. Uma estética para traduzir realidade e ficção como algo ainda sem nome. Em Filosofia Clínica a fenomenologia da hora-sessão se aproxima desse outro lugar onde as pessoas se encontram.   

A seguir, em um novo desdobramento do filme, Harry Block vai ao submundo e encontra o anjo decaído. Um breve embate entre eles: o escritor: “eu sou mais poderoso que você, pois sou um grande pecador e você é um anjo caído (...) Uma vez quase atropelei um crítico literário, desviei no último instante”. O anjo caído: “quer que ligue o ar-condicionado?” Harry: “tem ar-condicionado aqui?” o anjo: “Sim, destrói a camada de ozônio”.

Questionado das razões por estar no inferno e não no céu, o escritor responde pelo anjo: “é melhor mandar aqui do que servir no céu, acho que foi Milton que falou isso”.

Em outra cena, Harry vai receber uma homenagem na universidade onde estudou. Para isso convida uma prostituta para lhe acompanhar, chegando lá é preso, acusado de sequestrar seu filho. Os amigos pagam sua fiança, ele é solto.

Após, chega à homenagem da universidade e pergunta aos colegas: “posso levar mais alguém?”.  Quando respondem: “é claro, o sonho é seu! Todos esperam para homenageá-lo, afinal, você os criou.” Em suas reflexões Harry pensa: “Como pode um cara que não funciona na vida real, funcionar na arte?”. Uma personagem tenta traduzir: “Seus livros parecem um pouco tristes na superfície, por isso eu gosto de desconstruí-los, pois no fundo são felizes.”

Nesse sentido o autor compartilha uma história recheada de estórias, para descrever-se em seus escritos. Uma ficção por onde a realidade transita, revelando aspectos desconhecidos. Ao retornar para sua casa e reencontrar sua Remington, tem a ideia para um romance. Segundo ele: “A nova obra irá oferecer uma descrição de como nossas vidas consistem na forma que escolhemos distorcê-las”. Sua escrita - mais uma vez - salvou sua vida.

Aquele abraço,

*hs