Sobre Filosofia Clínica e Literatura III
Na primavera de 2006, em um final
de manhã, na cidade do Rio de Janeiro, depois dos atendimentos na Miguel Lemos
(altura do posto 5 em Copacabana), fui ao centro histórico almoçar no centro
cultural Odeon na Cinelândia. Depois segui para as livrarias do largo São
Francisco, região da faculdade de Filosofia e Ciências Sociais, onde se refugiam
muitas obras raras, descartadas, esquecidas.
Após algum tempo caminhando pelos
corredores, visitando suas estantes, me deparei com uma escada, daquelas usadas
para vasculhar as prateleiras mais altas. Subi em seus degraus sem mudá-la de
lugar, assim descobri o livro: Despertar dos mágicos – introdução ao
realismo fantástico de Louis Pauwels e Jacques Bergier, em sua 19. edição, 463
págs. Traduzida por Gina de Freitas e publicada pela DIFEL /SP em 1983.
Borges diz algo assim: “séculos e
séculos depois e um texto chega até você com sua mensagem, em tempo próprio.”
Existem vários nomes para esse fenômeno, alguns chamam de coincidência, outros
acaso, ainda àqueles que significam sinais...
Aos nossos estudos interessa
realizar uma aproximação com esses manuscritos. Com base numa leitura
fenomenológica, em interseção com a analítica da linguagem e a hermenêutica
compreensiva, é possível acolher e dialogar com sua representação de mundo. Não
se trata de patologizar a autoria dos escritos, mas de encontrar a estrutura de
pensamento singular como matriz desses originais, um desses endereços
existenciais por onde a magia se descreve.
Com Pauwels e Bergier: “A lógica
do ‘bom senso’ já não existe. Na física atual uma proposição pode ser
simultaneamente verdadeira e falsa A. B. já não é igual a B. A. Uma mesma
entidade pode ser a um tempo contínua e descontínua. (...) Para descrever
completamente uma partícula foi necessário acrescentar uma grandeza
intraduzível em palavras e que se chamava spin. (...) o ‘número quântico
de estranheza’ prolonga-se para além da física, e tem ligações com as
profundezas do espírito humano.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 34 e 35)
A abordagem da Filosofia Clínica,
ao acolher o estranho como singularidade, realiza interseções de qualidade com
a estrutura de pensamento desconsiderada pela ciência normal (Kuhn). Assim se
pode compreender o novo paradigma como um passo a mais em direção ao universo
singular engessado pelas tratativas de controle e submissão das tipologias,
classificações.
Com esse olhar de acolhimento
aprendiz, o filósofo clínico convive com uma circunstância inusitada, por onde
transita compartilhando àquilo desconhecido às métricas pré-estabelecidas. Noutras
palavras, a nova metodologia oferece um constructo apto a compreender a
pluralidade significativa das formas humanas.
Semelhante ao encontro do leitor
com a autoria, pelas páginas de um livro, a nova abordagem terapêutica, pela via
da interseção, se traduz num protagonismo, onde filósofo e partilhante elaboram
um lugar aos eventos da terapia.
A estrutura de pensamento da
Filosofia Clínica permite uma atualização permanente de seus pressupostos - sem
distorção - para reverenciar a novidade que se aproxima pela integração da
trama conceitual com as práticas de consultório. A plasticidade dessa estrutura
subjetiva aplicada ao cuidado da pessoa em seu próprio território, permite
dialogar e aprender com seu discurso existencial em processo.
Pauwels e Bergier ensinam:
“Quando um jovem engenheiro entra para a indústria, depressa distingue dois
universos diferentes. Há o do laboratório, com as leis definidas das
experiências que se podem reproduzir, com uma imagem compreensível do mundo. E
há o Universo real, no qual as leis nem sempre são aplicadas, onde os fenômenos
são por vezes imprevistos, onde o impossível se realiza.” (O despertar dos
mágicos, 1983. Pág. 66)
Um fenômeno aproximado se detecta
nos eventos da hora-sessão, onde a nova abordagem terapêutica se apresenta num
viés de abertura e interseção com as facetas do inédito. Dessa forma é possível
incrementar a teoria com as percepções dos atendimentos.
Essa metodologia, ao se traduzir
como obra aberta (Umberto Eco), interage com as especificidades do ser singular
em cada pessoa, ou seja, trata de aprender e interagir com a estrutura de
pensamento do partilhante.
A superação de modelos com base
numa estrutura rígida, recheada de verdades a priori, se constitui em um
novo paradigma. A partir de agora, trata-se de uma lógica aprendiz para acolher
e transitar por um endereço existencial compartilhado, em busca de subsídios
para intervenções a posteriori, qualificadas pela circunstância
partilhante.
Com os autores: “Pedis-me para
resumir, em quatro minutos, quatro mil anos de filosofia e os esforços de toda
a minha vida. Pedis-me além disso, para traduzir em linguagem clara conceitos
para os quais a linguagem clara não é feita. (...) A relatividade, o princípio
da incerteza mostram-nos até que ponto o observador de hoje intervém nos
fenômenos.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 117)
É comum, nos dias de hoje, quando
perguntam sobre Filosofia Clínica, muitos entrevistadores reivindicarem uma
síntese ou um resumo da nova abordagem, como se fosse possível descrever com
alguma qualidade o teor e a especificidade de seus meandros conceituais, a
fundamentação teórico prática.
Em seus escassos trinta e poucos
anos de existência, desde os primeiros estudos de Lúcio Packter, se testemunha
um avanço significativo da pesquisa teórica, amparada pelas interseções de
consultório. O acolhimento do princípio da incerteza em relação a cada
atendimento, reivindica uma abordagem plástica, dinâmica, que inclua em seu
arcabouço metodológico possibilidades para as dialéticas da admiração, do
espanto, em dessintonia com as limitações das verdades a priori.
A natureza desse acolhimento
desclassificado, destituído de tipologia, permite conhecer algo novo com a
chegada do partilhante. Ao entender sua estrutura de pensamento como um projeto
existencial em aberto, se torna possível trabalhar as alternativas de mudança
para sustentar sua digital.
Em Pauwels e Bergier: “É que Freud
e Einstein realizaram, no início, um colossal esforço de imaginação. Imaginaram
um real completamente diferente dos dados racionais admitidos. A partir dessa
projeção imaginativa estabeleceram conjuntos de fatos que a experiência
verificou. (...) para quem sabe ler, as coincidências usam trajes de luz.” (O
despertar dos mágicos, 1983. Págs. 221 e 237)
Talvez seja uma radicalização da
singularidade expressiva, um caminho possível para se encontrar habilidades,
competências, talentos, genialidade imaginativa para apreender a novidade que
paira sobre cada um em linguagem própria, a qual somente pode ser decifrada pela
via do encontrar.
Uma estrutura de pensamento assim
pensada precisa localizar um território existencial capaz de desenvolver suas
aptidões, superando uma sensação de exílio em relação ao espírito de rebanho dos
princípios de verdade. Muitas vezes, o que acontece é um desvirtuamento do
ensino clássico, em direção a uma aventura em busca de um si mesmo amparado num
processo intuitivo singular.
Mentes brilhantes costumam pensar
e agir fora da curva, ou seja, precisam suportar toda forma de ataques à sua expressão
em desenvolvimento, desde os primeiros ensaios da infância até os dias de maior
envergadura existencial. Quando isso acontece, se tem um desenvolvimento
anormal de uma forma expressiva, desembocando em relações conflituosas com as
circunstâncias onde a pessoa se encontra, nem sempre compreensível a cultura de
seu tempo. É preciso uma adequação às lógicas da ventania para acolher e
qualificar uma interseção com a natureza desses eventos da singularidade.
Os desdobramentos do cotidiano
pedem cautela nessa proposta de partilha, a qual pode significar um exílio
pessoal distante das demais relações, muitas vezes diagnosticado como alguma
forma de transtorno, espectro, doença mental. Uma forma de cooptar as lógicas
da diferença a um senso comum domesticável.
A descoberta dessas mensagens
interditas na relação da pessoa com ela mesma e àquilo que lhe acontece em seu
cotidiano, aprecia dizer-se num dialeto incompreensível aos demais integrantes
de sua tribo existencial. Uma via de acesso se apresenta pela captura das
semioses no instante precursor, quando o olhar, o rubor, as feições da boca, os
trejeitos, exprimem algo que se acrescenta as formas narrativas.
Com os autores: “No domínio das
‘curas paranormais’, quer dizer, obtidas com um tratamento psicológico, quer se
trate do curandeiro, ‘possuidor do fluido’, quer do psicanalista (feitas todas
as distinções entre os métodos), os parapsicólogos chegaram a conclusões do
maior interesse. Eles trouxeram-nos uma nova concepção: a do par médico-doente.
O resultado do tratamento seria determinado pela ligação telepática que
existiria ou não entre o que trata e o paciente. Se essa ligação se estabelece
– ela assemelha-se a uma ligação amorosa – produz aquela superlucidez e aquela
hiper-receptividade que se observam nos pares apaixonados.” (O despertar dos
mágicos, 1983. Pág. 358)
Os agendamentos elaborados pela
via da interseção (em suas múltiplas formas de aparecimento) apreciam encontram
ressonância do lado a lado da relação clínica, isto é, quando a qualidade dos
encontros significa algo mais, elaborando um território favorável às ressignificações,
trocas, aprendizados, numa escuta de olhar singularizado, tendo por base a perspectiva
partilhante.
A estrutura de pensamento das
sessões envolve os integrantes da terapia em uma aproximação peculiar, por onde
múltiplos eventos se traduzem na autogenia da pessoa. Em uma relação dessa
natureza, onde se desenvolve uma afetividade compartilhada, também se constitui
uma energia suplementar, a qual se integra aos procedimentos da clínica. Com
essa abordagem, as trocas e agendamentos - do lado a lado da interseção - costumam
emancipar-se ao cotidiano dos envolvidos.
Uma fenomenologia aprecia os
subúrbios de si mesma para esboçar seus originais. Sua intencionalidade se descreve
em enredos de estranha magia, reivindicando a percepção incomum para se
traduzir. As questões envolvendo os métodos encontram um território fértil para
estudo, pois existem abordagens que facilitam a natureza desses aparecimentos e
outras que a dificultam.
Um aspecto comum a pessoas
incomuns é uma tendência ao nomadismo, o qual permite a singularidade transitar
para onde sua expressão faça sentido. Outra forma de autoproteção é a aptidão
de ser invisível, para um deslocamento incólume em meio às tramas dos
princípios de verdade, os quais significam todo mundo como objeto de consumo. É
comum essas expressões da singularidade serem tratadas pela ideologia alienista
e coadjuvantes (estruturas asilares, hospícios, psicólogos, psiquiatras,
psicanalistas, educadores...) como uma forma de distorção existencial.
A hermenêutica interpretativa
dessas abordagens se apresenta recheada de motivos para justificar as lógicas
da internação e medicalização de sua expressividade. Em meio a isso a vida
segue à disposição, lá onde não é possível encontrá-la sem uma sintonia com seu
ponto de vista.
Aquele abraço,
hs
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