Notas do consultório do filósofo XI
Tenho em mãos um livro que encontrei, ou fui encontrado por ele (nessas coisas, como em todas as outras - como ensina Borges - não se deve ser dogmático!), na cidade de Santa Maria/RS em 1980. Atualizei a
leitura dessas páginas por volta de 15/20 vezes até hoje. Essa atividade
permite identificar algo novo em cada releitura, uma faceta, um desvão, possivelmente
afim com a vida acontecendo entre uma e outra.
Sua referência é significativa
pela aproximação e diálogo com as lidas de consultório, uma busca por tradução
de algo que restaria intraduzível por completo, não fora a proposta de
transcrever alguns aspectos da atividade clínica filosófica. O texto contribui,
esclarece, ajuda a entender a nova abordagem clínica e sua menção às poéticas
da singularidade.
Cartas a um jovem poeta e
a canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke, de
Rainer Maria Rilke, com tradução de Paulo Rónai e Cecília Meireles,
respectivamente, é uma edição de 1976, publicada pela Editora Globo de Porto
Alegre/RS.
A apresentação da obra por
Cecília Meireles, com aquele algo mais dos textos diferenciados, convida o leitor
aos conteúdos que se vai encontrar a seguir. Como: “(...) a parte formal da
arte acaba sempre por se realizar, quando atrás dela há uma imposição total de
vida transbordante.” Essa característica apontada pela escritora está afinada
com a abordagem da Filosofia Clínica, no sentido de que por entre os dados de
uma expressividade clínica, costumam aparecer múltiplos componentes da vida de
uma pessoa. A intencionalidade aprecia esses momentos para descrever uma
fenomenologia do partilhante, naquilo que restaria inacessível à percepção
comum.
Rainer Maria Rilke diz assim: “As
coisas estão longe de ser todas tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia
fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço
em que nenhuma palavra nunca pisou. (...).” (Cartas a um jovem poeta, 1976.
Pág. 21)
O fragmento lembra alguns
trabalhos realizados em hospitais psiquiátricos em Minas Gerais, Rio de
Janeiro, Rio Grande do Sul, quando se utilizava a esteticidade seletiva como
expressão para algumas pessoas destituídas de voz e vez, seja pelo abandono e
descaso de sua gente ou pelas intervenções da Psiquiatria, encharcando seus pacientes
de psicofármacos, na impossibilidade de uma abordagem acolhedora,
compreensiva, apta a compreender e interagir com a singularidade em cada um.
Essas atividades em sintonia com
uma ciência diferenciada, traduz o cotidiano do filósofo clínico, o qual
encontra em sua metodologia, os meios para acolher e desenvolver as partilhas
com o outro da interseção.
Um pouco antes de ser algo
palpável, a expressividade de uma pessoa internada involuntariamente, refém dos
tratamentos institucionais (dentro da lei), distante de abordagens que poderiam
auxiliar sua expressividade em vias de não-ser, contraditória com a cultura
reconhecida do lugar onde se encontra, se oferece ao visar do filósofo clínico
como espanto, estranheza. Esses eventos costumam ter uma manifestação diferente
do usual, subversiva, contradizendo princípios de verdade estruturantes das metodologias
que a tentam conter e tratar, para reconduzir a pessoa à vida normal (seja isso
lá o que for!).
Com o poeta: “(...) há de se
reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos
homens em vez de entrar neles. (...) O futuro está firme, caro Sr. Kappus, nós
é que nos movimentamos no espaço infinito.” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Págs.
64 e 65).
Uma percepção sobre a natureza e
o alcance de uma terapia, se relaciona com a abordagem, a qualidade da
interseção e o desenvolvimento do partilhante, tendo como referência o lugar de
onde partiu (no início de sua clínica), seus deslocamentos em busca (muitas
vezes provisória), para reencontrar-se numa outra forma de existir, viver, conviver.
Essa elaboração resultante da relação
do filósofo com seu partilhante, propõe alcançar, traduzir, compartilhar
conteúdos, até então, desconhecidos ao próprio sujeito. Esses dados da
realidade subjetiva costumam encontrar termos para se manifestar, nem sempre
compreensíveis à primeira vista pelo titular de suas verdades.
A ideia do poeta de que um
destino se origina na própria pessoa, tem a ver com a possibilidade do
partilhante desconstruir e reconstruir sua circunstância singular. Um lugar
para ensaiar novas referências para si mesmo sendo outro.
Um aspecto que diferencia a
Filosofia Clínica das demais abordagens terapêuticas, é seu caráter libertário,
ou seja, quando diz respeito a um processo singular de transformação e busca
para algo que integre e represente sua expressividade.
A categoria tempo, o lugar, a
interseção, associados a um devir peculiar, compõem um eixo apto a manter ou
modificar uma forma de vida. Muitas vezes, quando a pessoa consegue
descrever-se, acessar meios para um processo singular, isso, por si só, pode oferecer
matéria-prima para ressignificar suas crises em um novo lugar para viver.
Rainer Maria Rilke contribui:
“Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se? Se
algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o
organismo se serve para se libertar de um corpo estranho (...).” (Cartas a um
jovem poeta, 1976. Pág. 68).
A essência da Filosofia Clínica
já estava lá, nas edições iniciais dos cadernos didáticos da formação, apesar
de alguns freios metodológicos do autor, foi possível emancipar a mensagem
original do novo paradigma, sob muitos aspectos divergente com a intenção de se
manter a submissão à lógica alienista, como o caso de vedar atendimentos do
filósofo as pessoas com discurso incompleto, raciocínio desestruturado.
Dizia-se, naqueles tempos, que se deveria encaminhar ao especialista.
Após essa desinformação preliminar, e
com as atividades em hospitais psiquiátricos (apesar das limitações
estruturais), o dia a dia em consultório, aulas, consultorias, foi demonstrado
que a nova metodologia era apta a acolher e cuidar da fenomenologia do humano
em qualquer de suas formas de expressão. Não se trata da medicina do corpo, mas
de uma medicina da singularidade, onde é possível um diálogo inter e
transdisciplinar, para qualificar as práticas de cuidado e atenção à vida. Um desses lugares onde a imaterialidade se
encontra com seus paradoxos.
As lógicas de controle aos
eventos de ressignificação existencial propõem conter sua expressão, muitas
vezes algo que luta para nascer, superando os limites impostos pela alienação
familiar, escolar, religiosa, política, sustentam uma ideologia voltada para
uma normalidade distante de alguém em vias de tornar-se.
O poeta compartilha: “(...) não
pense que aquele que o procura consolar leva uma vida descansada no meio das
palavras simples e discretas que às vezes fazem bem ao senhor. A vida dele
comporta muito sacrifício e muita tristeza e fica-lhes muito atrás. Mas se
assim não fosse, ele nunca poderia ter encontrado aquelas palavras.” (Cartas a
um jovem poeta, 1976. Pág. 70)
Com essas palavras o autor torna
possível compreender o sentido da expressão borogodó em Filosofia
Clínica, talvez até, em outras profissões cuidadoras, quando se associam - na
estrutura de pensamento - um constructo de sensibilidade, competências, habilidades
para cuidar e ser cuidado. O papel existencial conjugado a uma expressividade
de maestria, acontece como um desdobramento de múltiplas interseções clínicas,
desenvolvidas na superação de obstáculos, freios existenciais, camisa de força
institucional, por onde é possível acessar ideias, sensações, formas de viver e
conviver diferenciadas, muitas vezes distantes das normas e leis estabelecidas,
para encontrar o sujeito singular.
Não é preciso regrar essas
estruturas de pensamentos singulares, com raras aptidões ao ser cuidador em
qualquer abordagem, mas acolher e trabalhar as especificidades que a integram,
como uma obra-prima da natureza humana a transgredir as lógicas da submissão
ideológica. Ao sujeito assim pensado, além das buscas por superar suas
contradições subjetivas, ainda terá de conviver com a dessintonia de seu meio,
o qual, muitas vezes, não o compreende por viver assim.
Um dado que se apresenta na vida
de um cuidador - como uma fonte de inspiração - em suas atividades
terapêuticas, é a inquietude e a insubmissão com as intervenções para produzir
e sustentar estruturas que degradam o sujeito, como: a internação involuntária,
a indústria de psicofármacos, a medicalização psiquiátrica, a equivocidade de
se destituir a pessoa em vias de não-ser de sua manifestação singular. Nesse sentido, ser transgressor, em qualquer de suas formas,
pode significar uma medicina para superar os muros e cercas da
alienação institucional, perseguindo um lugar melhor para se viver.
Aquele abraço,
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