Notas do consultório do filósofo IV*
Os eventos da hora-sessão possuem
uma pluralidade de aparecimentos e desaparecimentos modificando, com sua
expressão, a circunstância onde se apresentam.
Inexiste um telos onde se poderia chegar com uma certeza cristalina.
Ainda assim é possível transitar por suas inúmeras possibilidades, recheando, com
a fenomenologia dos encontros, esse lugar impregnado de incógnitas, as quais rascunham
seus originais com o que possuem.
A clínica do filósofo, ao conter
em sua atividade terapêutica as bases da analítica da linguagem, fenomenologia,
hermenêutica compreensiva, estruturalismo, compõe uma integração atípica, que ganha
forma e sustentação nos desdobramentos da hora-sessão.
O estruturalismo oferece uma
leitura de integração com a pluralidade de possíveis, num endereço existencial
onde a indeterminação do sem nome aprecia insinuar suas verdades em línguas
desconhecidas. Ao compor um todo com a totalidade de cada parte, se descrevem diálogos
de acolhimento e tradução compartilhada. Para uma aproximação conceitual com essas
especialidades, se reivindica a prática clínica, onde a lógica de uma
expressividade ensaia novos movimentos existenciais.
Jacques Derrida contribui: “Ser
estruturalista é prender-se em primeiro lugar à organização do sentido, à
autonomia e ao equilíbrio próprio, à constituição acabada de cada momento, de
cada forma; é recusar deportar para a categoria de acidente aberrante tudo o
que um tipo ideal não permite compreender. O próprio patológico não é uma
simples ausência de estrutura. É organizado. Não se compreende como
deficiência, defecção ou decomposição de uma bela totalidade ideal. Não é uma
simples derrota do Telos. (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 47).
A busca de sentido na terapia
filosófica é aliada dos múltiplos fundamentos, os quais podem ser encontrados
na trama conceitual acadêmica, um pouco antes de fazer sentido na hora-sessão. Não
se trata de uma aplicação direta dos ensinamentos da teoria, mas de um suporte à
uma transgressão metodológica em busca do outro na relação clínica.
Uma interseção com a
singularidade do partilhante, ainda quando ele mesmo não a reconheça, reivindica
componentes que a teoria não alcança, como: acolhimento, compreensão, partilha,
borogodó para realizar recíproca de inversão e inversão, adaptar-se a lógica do
instante, sem perder a referência do papel existencial. Essa busca de sentido
apresentada por Derrida auxilia a enxergar a categoria circunstância na
Filosofia Clínica, como uma etapa estruturante para saber mais e melhor sobre a
versão da pessoa sob seus cuidados. Uma intencionalidade assim descrita vai
emitir seus sinais de acordo com suas possibilidades, quase sempre em desacordo
com as métricas da tipologia, das classificações de protocolo.
Assim é possível entender a expressividade
de algo ou alguém que se move para se manter, descrevendo uma estrutura de
pensamento em forma de anúncio aos novos territórios da própria estrutura.
Acolher a epistemologia do
estranho, da diferença, é uma aptidão do filósofo clínico, amparado em sua
proposta para descrever a singularidade do outro em seu devir existencial. A
continuidade das sessões permite uma aproximação de qualidade com a realidade
partilhante em vias de não-ser.
Com Derrida: “Se há estruturas,
elas são possíveis a partir dessa estrutura fundamental pela qual a totalidade
se abre e transborda para ganhar sentido na antecipação de um telos que
é preciso entender aqui sob a sua forma mais indeterminada.” (A escritura e a
diferença, 2005. Pág. 47).
A clínica se inicia, via de
regra, com esse desconcerto preliminar, por onde o partilhante se diz com
aquilo que tem. A superação dessa desestrutura costuma ocorrer com o
prosseguimento de sua expressividade, como se estivesse se acostumando com a
nova versão de si mesmo sendo outro.
O transbordamento expressivo de
uma pessoa costuma desajustar a fragilidade estrutural da vida normal, isto é,
as lógicas da normalização comportamental, com base em pressupostos de natureza
ideológica, axiológica, denunciam seus princípios de verdade, por exemplo: a
internação involuntária de alguém que não consegue se fazer entender em seus
momentos de travessia. A possibilidade de um telos se apresenta a partir
de uma desestrutura, recolocando as dinâmicas de consultório numa cumplicidade com
esses ensaios existenciais.
Em Jacques Derrida: “O ser que se
anuncia no ilegível está para além destas categorias, para além do seu próprio
nome ao escrever-se.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 71).
A ilegibilidade de um discurso
existencial reivindica um olhar de escuta fenomenológica, para começo de
conversa. Uma aproximação com a natureza desses inéditos, concede uma decifração
compartilhada de seus originais. Trata-se de rascunhos existenciais em forma de
broto, reivindicam um acolhimento compreensivo, cuidado singularizado, os quais
não se encontram nas classificações da bíblia DSM e coadjuvantes, tão
festejadas pelo carimbo do notário!
Nesse sentido, uma ilegibilidade
reivindica um estudo circunstanciado de suas fontes de expressão, a língua em
que se diz e não se diz, sua representação das coisas, por onde dialoga com o
mundo da vida, seus ensaios e rascunhos em forma de apresentação. Depois dessa
base de reconhecimento, pode ser possível encontrar a epistemologia intuitiva desse
dicionário singular, para seguir aos novos endereços existenciais.
Uma abordagem como a Filosofia
Clínica, se inscreve na interseção com o desarrazoado, para encontrar, em sua
própria estrutura de pensamento, a fonte de inspiração para sua atividade
clínica. Então, acompanhar, descrever, compreender, o caráter de ser ilegível,
inacreditável, extraordinário, costuma ser a rotina da nova terapia com base na
Filosofia. Sua plasticidade se constitui como um tango, por onde as evidências
da vida diferente se encontram em uma conexão peculiar, nem sempre de acordo
com os princípios de verdade. Seu significado está atrelado a uma conexão
profunda com o discurso existencial do devir singular.
Para entender a realidade de suas
narrativas, é necessário encontrar esse lugar de onde se diz aquilo que
aparece, muito próximo das poéticas da singularidade, uma aproximação com os
eventos de aparente sem sentido, para localizar a epistemologia desses
desencontros onde uma nova versão existencial se esboça.
Jacques Derrida recorda: “Seria
tentador aproximar o que dissemos de Artaud do que nos dizem Holderlin,
Mallarmé: que a inspiração é em primeiro lugar esse ponto puro em que ela
falta. Mas é preciso resistir a esta tentação das afirmações demasiado gerais.
Cada poeta diz o mesmo, e não é, contudo, o mesmo, é o único, sentimo-lo bem.”
(A escritura e a diferença, 2005. Pág. 111).
É possível associar a
fenomenologia de Merleau-Ponty com a analítica da linguagem de Wittgenstein e a
hermenêutica compreensiva de Gadamer, para dar conta desse estruturalismo que
Derrida nos apresenta, como a pedra de toque para compreender as rotas de uma
integração singular.
Talvez a tentação de ser aceito
socialmente, a qualquer preço, possa estar na base dessa necessidade em se
adaptar à realidade dos consensos, desprezando, muitas vezes, sua própria
estrutura de pensamento, em desfavor das circunstâncias onde cada um se
encontra. Paga-se caro por querer pertencer a um lugar onde não se cabe por
inteiro, participando de uma normalidade que despreza a lógica das diferenças,
discrimina as manifestações da expressividade como loucura e desrazão, redige
leis e normas para sustentar a camisa de força social.
O novo paradigma da Filosofia
Clínica se associa às iniciativas - ainda em seu estágio preliminar - para desconstruir
as intervenções da generalização, as quais transformam um sujeito com raras
habilidades existenciais em objeto de controle e submissão às drogas da moda.
Derrida contribui: “Artaud teve
igualmente cuidado em marcar a sua discordância em relação à psicanálise e
sobretudo ao psicanalista, aquele que julga poder segurar o discurso na
psicanálise, deter a sua iniciativa e poder de iniciação”. (A escritura e a diferença,
2005. Pág. 164).
Ora, ora, ora, nos últimos anos,
alguns incautos que se apresentam como filósofos clínicos, vão buscar na Psicanálise
e outras metodologias, um suporte para sua atividade terapêutica. Além de
mostrar que não aprenderam Filosofia Clínica, permanecendo na superfície de sua
apresentação, boicotando seus estudos, a clínica pessoal, os estágios, ainda
levam suas questões mal resolvidas para outra abordagem.
Parece não existir uma reflexão
crítica sobre o fato de que a Psicanálise, ao propor uma expressão do chamado
inconsciente, coloca o paciente refém das interpretações do psicanalista. Troca
uma cela por outra, transformando pessoas agendáveis - que cabem nessa
metodologia - em cumplicidade (Estocolmo?) com os delírios da hermenêutica do
analista.
Quem estudou Filosofia e Filosofia
Clínica - pelo menos os conceitos básicos -, deveria saber que a metodologia da
Psicanálise, trata as pessoas a partir de definições apriorísticas e suas
classificações, quase sempre distorcendo a originalidade em vias de
aparecimento, para se enquadrar em sua régua interpretativa, onde se destaca uma
ideologia de saber-poder, disfarçada de libertação.
A representação de mundo do
alienista*, ao se aproveitar da fragilidade momentânea da pessoa em seus
momentos de ressignificação existencial, se traduz como proposta para
redirecionar a vida da pessoa para a vida normal, seja isso o que for. Ao
querer transformar a inquietude criativa de Artaud em loucura, a
Psiquiatria nada mais fez do que colocar à vista os estreitos limites de sua régua
metodológica, em busca de transformar um sujeito singular (insubmisso,
criativo, subversivo) numa extensão do seu entendimento das coisas.
Aquele abraço,
*hs
**Alienista no sentido de que muitos profissionais dessa área, alienam a pessoa de sua condição expressiva singular, mantendo a mesma subjugada às intervenções da Psiquiatria.
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