Sobre a leitura interminável,
Em 2005 tivemos mais um ano intenso.
Viagens, aulas, atendimentos, pesquisa... Desde 1999 já transitava pelo Rio de
Janeiro, onde logo depois fui morar e trabalhar. Algo diferenciado nesses
tempos na capital fluminense, foi a descoberta de uma feira do livro itinerante,
ou seja, a cada semana, as barracas se deslocavam por alguns bairros.
Num desses dias, na Cinelândia, vi
aquelas barraquinhas enfileiradas em frente ao Odeon e o Amarelinho. Como tinha
a manhã livre, fui exercitar o flanar por seus corredores. Fiquei surpreso ao
encontrar obras raras na região central da cidade, uma atração irresistível. Assim
se deu um achado com a obra de Ricardo Piglia, um autor, até então,
desconhecido para mim.
O livro passava a fazer parte da
minha pequena biblioteca. Trata-se de “O laboratório do escritor”. Publicado em
1994, pela editora Iluminuras/SP, com tradução de Josely Vianna Baptista. Algo
inusitado (embora comum nesses casos) é o fato de o livro estar assinado por alguém
que o adquiriu na 40. Feira do Livro de Porto Alegre/RS em 1994, ano de seu
lançamento. 11 anos depois, e, sabe-se lá por que mãos e mentes o livro viajou
até pousar na feira do livro da Cinelândia.
Me senti um privilegiado por
encontrar uma obra de um autor da estatura de Borges, Cortázar, Lugones,
Silvina Ocampo, Casares, Macedônio Fernández ...
Talvez seja importante destacar
que, para nós, leitores em busca de peças raras e diálogos com a maestria
literária, o que menos importa é saber o ano da edição, bastando, para tanto,
que o texto esteja em condições de ser lido e saboreado. Em minha área de interesse,
os lançamentos barulhentos valem pouco, menos ainda àqueles festejados pelas
mídias de autores endinheirados.
Preferível os
escritores/pensadores exilados, incompreendidos pelos especialistas, os clubinhos
da moda. Sem contar que um livro guarda muitas histórias, possui conteúdos nem
sempre acessíveis à primeira vista, reivindicando releituras para se traduzir
adequadamente e isso reivindica um tempo sem pressa. Bem assim a caminhada existencial de cada um, para encontrar-se com a obra.
Em Piglia: “Literariamente, a
categoria de inimigo é uma posição de leitura. (...) Não se pode ser escritor
sem ter inimigos.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 47)
A atividade literária - o
encontro do leitor com o autor -, quando acontece, se faz numa sintonia singular,
com base numa aproximação das estruturas de pensamento. As buscas por superação
das adversidades, os estudos, a pesquisa, os agendamentos dos princípios de
verdade, aparecem num tempo próprio em cada pessoa. Esse fato costuma delimitar
os ângulos possíveis ao olhar.
Uma decifração adequada dessa
expressividade, requer uma interseção diferenciada, tendo em vista o outro lado
do rio, suas margens, contornos, a floresta que o abriga. Essa circunstância - presente
no fenômeno leitura - oferece um encontro de raridades, um lugar para a
reciprocidade exercitar-se num território de excelência.
O contexto de representação de
mundo (Schopenhauer), pede uma atividade intelectivo-existencial singular, em
busca da conjugação com a outra circunstância diante de si. Assim se pode
entender a ideia de ter um inimigo, como contradição do texto escrito, suas
ideias, possibilidades de entendimento, afrontas e derivações.
A partir desse lugar onde
acontecem encontros e desencontros, a vida se anuncia em linguagem própria,
numa dinâmica nem sempre ao alcance de um espírito de multidão. Talvez por isso
as releituras ofereçam aquele algo mais que a primeira visita deixou escapar.
Com o autor: “(...) por isso
pediu uma entrevista a Carl Jung, que admirava sua obra e que escrevera um
artigo exaltando o Ulisses. Joyce, que nesse momento escrevia Finnegan’s
Wake, mostrou-lhe vários textos de Lucia. ‘Ela usa a linguagem como eu’,
disse. ‘Sim’, respondeu-lhe Jung, ‘mas ali onde você nada, ela se afoga.’” (O
laboratório do escritor, 1994. Pág. 62)
As questões envolvendo a
linguagem são tantas quantas as pessoas envolvidas, ou seja, sem o significado de
uma expressão singular, o que se tem são interpretações distorcivas, contraditórias
com um sentido que permanece incompreendido. É preciso um convívio e
aprofundamento da interseção para conhecer - a partir da literalidade e
contexto - o sentido, alcance, dessas narrativas que se apresentam numa semiose
própria.
Noutras palavras, com o fragmento
de Piglia, as mesmas expressões podem ser outras, em comum acordo com a
pluralidade de uma circunstância mutante.
Ao referir: ‘ali onde você
nada, ela se afoga’, o texto se aproxima de um vice conceito, por onde a
manifestação de Jung tenta traduzir a natureza das ilusões de seu interlocutor.
Para uma relação compreensiva, precisaríamos de um acolhimento da singularidade,
a partir de seu próprio território existencial.
Piglia ensina: “Como eu gostaria
que meus livros fossem lidos? Tal qual eles são lidos. Nada mais que isso. Por
que o escritor teria que intervir para afirmar ou retificar o que se diz sobre
sua obra? Cada um pode ler o que quiser num texto.” (O laboratório do escritor,
1994. Pág. 67)
O escritor compartilha uma
percepção sobre sua obra, isto é, a leitura deve encontrar as
possibilidades de cada leitor. Assim se descreve a pluralidade compreensiva para
um texto, nem sempre ao alcance de uma construção compartilhada.
Existe quem faça uma leitura
antropológica, filosófica analítica, hermenêutica, fenomenológica,
estruturalista, psicanalítica, psiquiátrica... filosófica clínica. Quem escreve
compartilha uma expressividade, nem sempre acessível
à realidade do leitor. Não se trata de erro, embora delimite o ângulo de
leitura.
Outro dia, li algo assim: ‘ao
falarmos de um autor entendemos seus escritos como um partilhante diante de
nosso olhar’, ora isso, para minha forma de entender as coisas, é um equívoco,
pois a psicanálise já faz isso, a psiquiatria e a psicologia idem. A filosofia clínica não identifica patologias
em sua atividade terapêutica, ainda menos na escrita. Não interpreta os textos
a partir de uma análise inversiva de sua leitura, trata-se, isso sim, de uma
aproximação compreensiva e dialogada com a autoria.
Com o escritor: “Quanto à
crítica, penso que é uma das formas modernas da autobiografia. A pessoa escreve
sua vida quando pensa estar escrevendo suas leituras. (...) O sujeito da
crítica costuma estar disfarçado pelo método (às vezes o sujeito é o método),
mas sempre está presente, e reconstruir sua história e seu lugar é o melhor
modo de ler crítica.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 70 e 71)
Piglia deixa pistas por suas
páginas de escritura singular, ou seja, aponta a suspeita de que a leitura e a
escrita, seja ela uma análise, reflexão, derivação, tem a ver com o sujeito leitor
e sua busca para alcançar os tons e sobretons da obra.
A autoria indica sua digital nas
representações que compartilha. Esse fato tem a ver com a abordagem da
Filosofia Clínica no sentido de evidenciar ‘a mão que balança o berço’,
isto é, quem lê, entende, critica, interage de múltiplas formas com o texto, nem
sempre consegue acessar a intencionalidade do autor, embora descreva sua representação da representação.
Embora o método possa contribuir
para uma determinada percepção das coisas, não é necessariamente o único
aspecto dessa história, ou seja, a partir de uma abordagem clínica, por
exemplo, muito da expressão autoral pode se perder, tendo em vista as
possibilidades de releitura dos originais.
Uma modalidade de autobiografia
está presente em cada ideia, gesto, palavra, partilha, na desmedida em que a
singularidade se encontra numa narrativa existencial em devir.
O texto anuncia: “Sempre se
escreve para alguém, mas nunca se sabe quem é esse alguém”. (O laboratório do
escritor, 1994. Pág. 75)
A busca pelo sujeito da
escritura, precisa encontrar a sintonia entre: autor e leitor, a forma e
conteúdo da obra, sua linguagem... Qualificar os deslocamentos por uma floresta
recheada de equivocidades, onde a literalidade pode ser insuficiente
para acessar os tópicos significativos em uma estrutura de pensamento.
O dado atual - em uma leitura - contribui
para a interseção ampliada com um texto, mas pode não servir para traduzir o autor
dessas palavras. A crítica reflexiva permanece refém de uma metodologia, a
qual, ao esboçar sua ideologia pela abordagem escolhida, destaca aspectos que
fazem sentido ao olhar do crítico.
Sob esse aspecto, a escritura
apresenta uma pluralidade de descrições. Para alguns um desabafo, para outros
um tempo dedicado a registrar suas ideias, ainda àqueles em busca de tradução do
seu cotidiano em diários, sem contar quem encontra na escrita uma forma de vida.
Nesse sentido, pode-se escrever
para si mesmo ou para os leitores, compartilhando a
matéria-prima da estrutura de pensamento. Muitos vão encontrar um espaço de ensaios
e inspiração, outros um refúgio para as dialéticas da
realidade.
Piglia compartilha: “A variedade
de leituras a que pode ser submetido um mesmo livro é incrível, e a experiência
é muito útil para analisar o estado da reflexão sobre a literatura num
determinado momento. (...) é notável comprovar como o livro que se escreveu
muda e se transforma e se converte em outro segundo o recorte feito pelo
crítico ou o lugar de onde o lê. (...) o caráter ideológico e social da
leitura. Todo crítico escreve a partir de uma concepção da literatura (e não só
da literatura). (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 85)
Recentemente, em nosso país,
descobriu-se que juízes tem uma postura ideológica, uma concepção de mundo, ao
compor suas sentenças de aspecto técnico. Noutras palavras, não
existe neutralidade em suas decisões, em que pese a ideia de priorizar o saber jurídico para equilibrar as escaramuças judiciais.
A leitura de uma obra está intimamente relacionada com as possibilidades de seu leitor, sendo estas àquelas do momento em que uma leitura é efetivada. Cada um lê com o que tem, tendo em vista os desdobramentos de sua circunstância, inclusive como derivação, podendo ultrapassar suas origens, para dar curso às novas formas de escritura.
Piglia identifica algo pensado por filósofos como Gramsci, quando identifica conteúdos nem sempre nítidos na expressão humana, isto é, àquilo que estrutura formas de pensar, escolher, agir, compartilhar, costuma se refugiar (como ideologia) nas entrelinhas de uma narrativa.
Com o escritor: “Obviamente não
existe nenhuma relação entre qualidade literária e consagração crítica ou
sucesso de público. A qualidade literária é algo tão raro e difícil de
encontrar que nos acostumamos a procurá-la ali onde a crítica e o mercado negam
os textos ou os silenciam.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 86)
A leitura comum, essa do dia a
dia, reflexo dos sucessos das mídias, concursos literários, menções de
acadêmicos, formadores de opinião, agendamentos massivos sobre o que e como
ler, se reveste de uma obsolescência programada.
Textos libertários - ao contrário - ao oferecer novos paradigmas, contraditórios com uma só forma de ler, escrever,
descrever, reféns de bolsas de estudo e pesquisa, cúmplices em obras e escritores
considerados bem-sucedidos (mais pela publicidade e autopromoção do que pela
qualidade de suas páginas). Vale lembrar a peça ‘tanto barulho por nada’ (final
do séc. XVI) de Shakespeare. A maioria se esvai como fumaça ao vento, de acordo
com a lógica das redes sociais, palestras para multidões, textos escritos por
IA e adjacências.
As propostas do mercado
editorial, evidenciam a ideologia por trás das prateleiras, à disposição dos
livros nas estantes, vitrines, sites, a consagração de autores e autoras da
moda, premiações compradas por autores, aproveitando seus momentos de
palco, até quando os lucros desaparecem, com os tubarões editoriais levando seus dentes afiados e sua goela insaciável para outras águas.
A eficácia de um livro se associa
às possibilidades de sua leitura, ou seja, a qualidade da relação entre as
páginas do autor e seu leitor. Muitas vezes na periferia dos festejos de
multidão, uma obra pode exilar-se numa invisibilidade de quase nada.
Piglia diz assim: “A literatura
constrói a história de um mundo perdido. O romance não expressa nenhuma
sociedade a não ser como negação e contra-realidade. A literatura é sempre
inatual, diz em outro lugar, fora de hora, a verdadeira história. (...) Se a
política é a arte do possível, a arte do ponto final, então a literatura é sua
antítese. Nada de pactos, nada de transações, a realidade não é a única
verdade. (O laboratório do escritor,
1994. Pág. 93)
Esse dado ajuda a compreender o
caráter marginal de autores de obras raras, os quais oferecem a incógnita de
seus textos como um refúgio, ao compartilhar suas menções com a singularidade
leitora.
As publicações assim pensadas,
vinculam-se a uma desvalia, por razões como: apresentação de uma nova
linguagem, o fato de o autor ser desconhecido, desinteresse pelo jogo comercial.
Um texto dessa natureza se descreve para um leitor diferenciado.
O fragmento se aproxima da
reflexão sobre os novos paradigmas, como a filosofia clínica, os quais costumam
ser encontrados e compartilhados por uma determinada tribo existencial, antes
de se definir na realidade acadêmica, ou em forma de igreja.
Se a realidade não é a única
verdade, como recorda Piglia, parece ser preciso encontrar novas rotas a
partir da irrealidade dos devaneios, da inquietude criativa, conviver com as
janelas que se abrem pela esteticidade em suas múltiplas formas de
apresentação. Nesse sentido, inexiste a preocupação em agradar, receber
medalhas, prêmios, mas desvelar novos espaços de vida, muitas vezes exilados no lugar algum de todo lugar.
Aquele abraço,
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