Notas do consultório do filósofo XII
O texto apresenta uma obra de
Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, publicada na
Universidade de Chicago em 1970 (primeira edição). Tenho em mãos a 12a. edição,
traduzida e publicada no Brasil em 2013 pela editora Perspectiva, na coleção
Debates, dirigida por J. Guinsburg.
Esse livro é significativamente
importante aos estudos do novo paradigma da Filosofia Clínica, especificamente
por apresentar e fundamentar as razões para o surgimento, a fundamentação
teórica e prática de um novo campo de atuação em ciências humanas.
Para melhor compreensão dessa
obra, optei por dividir esse esboço em dois momentos, um a partir do ensaio de
apresentação do filósofo canadense Ian Kacking (1936-2023), pensador
especializado em Filosofia da Ciência, tendo trabalhado nas universidades de Cambridge,
Toronto, Collége de France, dentre outras. Em publicações como: “Múltiplas
personalidades e as ciências da memória” (1995), “Viajantes loucos:
reflexões sobre a realidade das doenças mentais transitórias” (1998). A
seguir teremos uma conversação com Thomas Kuhn.
A nova abordagem da Filosofia
Clínica reivindica uma espécie diferenciada de gente, com borogodó ao
ser terapeuta, mas também com aptidão e competência para suportar os ataques injustos,
descabidos, o desmerecimento de alguns contemporâneos. Além de não possuir uma
estrutura institucional robusta, recheada de bolsas de pesquisa, publicações,
cátedras consagradas, ainda precisa abrir caminho em meio a avalanche crítica para
sustentar o status quo ideológico e corporativo em algumas áreas das
ciências humanas.
Ian Hacking em sua introdução:
“(...) incomensurabilidade. Essa é a ideia de que, no curso de uma revolução e
da mudança de paradigma, as novas ideias e asserções não podem ser estritamente
comparadas às antigas. Ainda que as mesmas palavras estejam em uso, seu
significado próprio mudou. (...) a ideia de que uma nova teoria não é escolhida
para substituir uma antiga, por ser verdadeira, mas, sim, bem mais por causa de
uma mudança de concepção de mundo.” (A estrutura das revoluções científicas,
2013. Pág. 14)
Uma dificuldade em se apresentar
a Filosofia Clínica, é a tendência de muitos em querer comparar, ajustar, às
novas ideias com aquilo que já se tem. Muitas vezes até uma palavra utilizada
para expressar algo novo, como: circunstância, busca, singularidade, pré-juízos,
é logo associada (erroneamente) com algo que já se conhece, desvirtuando a originalidade
da nova mensagem onde essas expressões têm sentido próprio.
Não é raro estudantes de
Filosofia Clínica, após as aulas teóricas, numa escassa clínica pessoal e uma
supervisão pífia, buscarem uma associação com a Psicanálise ou alguma outra vertente
da área Psi, muitas vezes em busca de sustentação econômica, institucional,
pessoal para sua atividade terapêutica. O caminho inverso também acontece...
A meu ver trata-se de um equívoco,
um erro crasso, pois se trata de concepções teórico-práticas, representações ideológicas
divergentes, contraditórias, paradoxais. Àqueles que se intitulam filósofos
clínicos e psicanalistas, por exemplo, não entenderam uma coisa nem outra! Quando
a metodologia Frankenstein - desses incautos - apresentar problemas, ainda
vão criticar as instituições por onde passaram.
As expressões utilizadas para elaborar
uma nova proposta terapêutica, como a Filosofia Clínica, embora contenha integrantes
do vocabulário comum, tem seu sentido e significado diferenciados,
reivindicando um estudo aprofundado de seus desdobramentos em outro contexto de
estudos, pesquisa e aplicabilidade. Tentar enquadrar a nova mensagem cuidadora
no que já existe, acaba por vulgarizar, desmerecer, desacreditar as novas
ideias e práticas clínicas.
Com Ian Hacking: “A ciência
normal é caracterizada por um paradigma que legitima quebra-cabeças e problemas
sobre os quais a comunidade trabalha. Tudo vai bem até que os métodos
legitimados pelo paradigma não conseguem enfrentar o aglomerado de anomalias;
daí resultam e persistem crises até que uma nova realização redirecione a
pesquisa e sirva como um novo paradigma.” (A estrutura das revoluções
científicas, 2013. Pág. 29)
O filósofo lembra o fato de que:
‘tudo vai bem até que os métodos legitimados pelo paradigma não conseguem
enfrentar o aglomerado de anomalias’, ou seja, nos dias de hoje se multiplicam
as síndromes, espectros, transtornos, acrescentando páginas e páginas à
bíblia DSM, fonte de inspiração (americana) para muitos terapeutas. Mesmo com a
persistente divulgação em palestras, aulas, cursos, as anomalias da ciência
normal não cessam de aparecer. Ainda assim, suas instituições tentam se sustentar,
embora já se possa notar, cada vez mais, o surgimento de novas abordagens
clínicas à margem do sistema oficial.
As lógicas da contenção e
transformação do sujeito em objeto de submissão e controle pela via
medicamentosa, não responde mais - se é que um dia respondeu - aos desafios do
fenômeno humano em seus momentos de ressignificação existencial. No entanto, seja
pela desinformação das pessoas, questões de natureza familiar, econômica,
ideológica, a indústria da loucura prospera em sua linha de produção: pessoa
nenhuma!
Enquanto isso, já se vislumbram abordagens
e acolhimentos diferenciados, em íntima conexão com a realidade singular. Essas
atividades de pesquisa teórica e atuação terapêutica, como a Filosofia Clínica,
existem para permitir a vida ensaiar outros rumos ao seu dia a dia.
Talvez a desconstrução da ênfase
na medicalização, possa atrasar sua inscrição (Filosofia Clínica) como
especialidade acadêmica, embora algumas universidades já ofereçam a
pós-graduação em sua grade de cursos, como a UNESC (Universidade do extremo sul
de Santa Catarina), sediada em Criciúma, a qual mantém o funcionamento da
especialização há mais de 10 anos.
O texto indica: “Nós temos a
tendência de ver o que esperamos, mesmo quando a coisa não está lá. Amiúde leva
muito tempo para que uma anomalia seja vista pelo que ela é: algo contrário à
ordem estabelecida.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 33).
A expectativa de alcançar um
resultado com base no que se conhece, sob muitos aspectos, oferece armadilhas
interpretativas, tendo por base pressupostos anteriores ao aparecimento do fenômeno
humano singular. Assim a epoché (redução fenomenológica) auxilia a
acolher, qualificar a interseção e compreender as pessoas em seus momentos de
estranhamento consigo mesmas e com seu mundo como reapresentação. Muitas vezes,
essa perplexidade diante do inusitado eu-outro-eu, oferece contradições com a
vida que se tinha.
Existem tantas maneiras de lidar
com as anomalias em um campo de atuação, quantas sejam suas propostas e fundamentos.
A maioria - com base na ciência normal - elabora sua defesa para afastar essas
manifestações em forma de broto, oferecendo a lixeira da pesquisa para suas
ideias desmesuradas. Desmesuradas a partir do que se tinha, até então, mas
perfeitamente lógicas para a compreensão das coisas numa outra perspectiva.
Uma dificuldade em se acolher e
superar práticas obsoletas no campo das ciências humanas, é o lugar onde esses
eventos acontecem, como: instituições acadêmicas, públicas ou privadas, as
quais se encontram bem estruturadas em torno das ideias e abordagens
reconhecidas, sustentando uma única via de produção intelectual. Assim se pode
entender as reações contraditórias com as novas metodologias que vão surgindo, muitas
vezes descrevendo eventos improváveis aos padrões anteriores.
Os termos agendados no intelecto,
em uma ciência normal (Kuhn) se propõe a qualificar e distinguir suas
narrativas, sob muitos aspectos, tornando a pesquisa refém de armadilhas
conceituais estruturantes das suas verdades. Sua narrativa tem a propriedade de
agendar e influenciar as linhas de estudos para sustentar as mesmas coisas. Por
outro lado, aparecem evidências de que as palavras encontradas para descrever e
apresentar as novas versões ou problemas, até então desconhecidos, anunciam
novos territórios existenciais em ciências humanas, muitas vezes proporcionando
eventos de crise institucional.
Ian Hacking diz: “Após uma
revolução, os cientistas, no campo que foi modificado, trabalham em um mundo
diferente.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013, Pág. 35)
Após os momentos de travessia
(tempo subjetivo) entre uma e outra realidade, com mudanças para acolher e
estruturar um novo paradigma, quase sempre com desconstruções necessárias para um
novo espaço investigativo, até então, considerado anomalia ou distorção
metodológica, algo incompreensível se traduz ao olhar das anterioridades,
modificando a natureza e o alcance de seus estudos.
A sensação de estar num mundo
novo, oferece a mudança necessária para acessar as novas linguagens, um desses
lugares onde a natureza se oculta para se preservar. Um método de acolhimento e
estudo reivindica uma lógica aprendiz, onde será possível uma aproximação com as
fenomenologias do estranho.
Nesse sentido as palavras possuem
características de desdobramento em múltiplas faces, tornando possível acolher
e descrever as novas realidades, objetivando um olhar, uma escuta ou percepção
desmerecida pelos recursos que se tinha. Ainda quando utilizam as mesmas expressões
para desvelar algo, estas possuem um sentido afinado com a originalidade em
vias de tornar-se.
O filósofo ensina: “(...) após
uma revolução em seu campo, um cientista pode ver o mundo de maneira diferente,
ter um sentimento diferente sobre como ele funciona, perceber fenômenos
diferentes, ficar intrigado por novas dificuldades e interagir com ele de novos
modos. (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 37)
Talvez a maior dificuldade para o
surgimento de novos paradigmas (em ciências humanas), seja a sustentação de um
processo de travessia, isto é, quando uma nova proposta se apresenta, a partir
da ruptura com velhos modelos de estudo e intervenção no mundo das terapias,
tendo de sustentar-se em meio às inseguranças, críticas, desvalia das
estruturas de pensamento já consagradas, festejadas, em elaborações amplamente
divulgadas por todos os meios de propagação para suas verdades.
Uma investigação com temas desmerecidos
pode conter a matéria-prima para novas percepções. Sua estrutura de pensamento aprecia
o que foi descartado, muitas vezes oferecendo um extraordinário em vias de
anúncio. Ainda assim, as bases de sustentação da vida normal tratam de se
manter a qualquer custo, através de leis e normas jurídicas, ideológicas,
econômicas, reserva de mercado, corporativismos .... enquanto isso, a novidade
vai se instalando nas beiras e periferias da vida reconhecida, qualificando sua
atividade em conexão com as comunidades onde são encontradas, acolhidas e
representadas por sua relação com as coisas e pessoas de seu meio. Ao chegar a
ser uma abordagem institucionalizada, muitos e muitos anos depois de sua
criação, o novo paradigma se torna, ele também, uma ciência instituída (normal),
reconhecida oficialmente.
É possível sentir um
deslumbramento com a percepção dos novos olhares sobre velhas questões em
ciências humanas, bem assim com a descoberta de novos territórios existenciais,
contraditórios com os padrões de resolução até então reconhecidos,
festejados.
O ensaio de apresentação de Ian
Hacking oferece uma chave de leitura ao texto de Thomas Kuhn, possivelmente
pela sintonia de estudos e pesquisas dos dois pensadores da ciência. As
palavras de Ian Hacking aproximam as teses de Thomas Kuhn da nova abordagem da
Filosofia Clínica.
Aquele abraço,
hs
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