Notas sobre o consultório do filósofo II
A apresentação da Filosofia Clínica como um novo paradigma terapêutico, tendo em vista sua fundamentação teórica e prática, recoloca a urgência em decifrar sua estrutura de pensamento. Trata-se de uma abordagem essencialmente brasileira, onde a partilha das novas ideias e atividades - desde os idos de 1990 -, quando recebia críticas de quem não sabia o que dizia - como alguns, ainda hoje, não sabem -, ao referir suas narrativas como algo que já existia.
Assim aparece uma dificuldade,
por parte de muitos contemporâneos, em estabelecer uma interseção aprendiz com sua mensagem. A estranheza dos novos territórios diante do olhar, parece
ofuscar quem estava acostumado a determinados tons de claridade. Talvez haja
necessidade de ajustar o velho óculos, para enxergar o que desafia o alcance de
suas lentes.
É o caso do conceito de
singularidade, o qual se traduz - no dicionário comum - como: peculiaridade,
esquisitice, particularidade, extravagância, excentricidade, destacar-se,
sobressair. A expressão se inclui num rol de menções utilizadas no dia a dia
entre as pessoas. Ao institucionalizar o uso de uma palavra, qualquer forma de expressão
outra, que distorça seu significado para acolher a novidade em vias de
apresentação, reivindica uma tradução a partir de suas bases discursivas
existenciais, superando as definições de sua anterior_idade.
Quando o novo paradigma se descreve
em meio a vida contemporânea, se reveste de vocabulário próprio, impregnado de termos,
conceitos, expressões que fazem sentido dentro de uma determinada representação
de mundo, até então desconhecida, marginal, periférica. Em outras palavras, é
preciso um estudo circunstanciado para acessar e compreender suas mensagens.
Em Ernst Cassirer: “Para
determinar com precisão o caráter específico de toda e qualquer forma do
espírito, faz-se necessário, antes de tudo, medi-la pelos seus próprios
padrões. Os critérios segundo os quais ela é avaliada e que norteiam a
apreciação de suas produções não lhe devem ser impostos de fora, sendo, ao
invés, indispensável que derivemos estes critérios das próprias leis básicas
que determinam as suas formações.” (A Filosofia das Formas Simbólicas – A
linguagem. 2001. Pág. 173)
Nos dias de hoje, pouco mais de
30 anos do surgimento (no Brasil!) dessa nova abordagem terapêutica, se
proclama a toda voz a necessidade de uma escuta. Mas, de que escuta se fala? A
escuta da Medicina do corpo? Da Psicanálise e sua hermenêutica interpretativa? A
escuta da Filosofia acadêmica? Em que momentos a escuta poderia ser um
acolhimento aprendiz singularizado? De
quem escuta se fala?
A busca para superar
equivocidades interpretativas reivindica uma lógica aprendiz, incluindo a interseção
com uma estrutura de pensamento, numa dança entre a redução fenomenológica,
analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, e algo mais. Assim se pode acessar
as possibilidades para estudo, compreensão, interação com um sujeito em seu endereço
existencial.
O conceito de singularidade - em
Filosofia Clínica - encontra sua raiz na lógica de Aristóteles (384 – 322 a.C),
de onde se origina seu sentido, isto é, como desenvolvimento de uma reflexão, onde
se tem: termos universais (todo, nenhum...), particulares (estes, aqueles...),
singulares (Maria, Pedro, João...). Assim é possível entender sua contradição
com as percepções da tipologia, da classificação, das síndromes, espectros e demais
narrativas generalistas para controle e medicalização do fenômeno humano.
A expressão singular reivindica
um estudo diferenciado, tendo como ponto de partida um acolhimento pelos exames
categoriais, ou seja, uma aproximação com a circunstância da pessoa que chega ao
consultório. Noutras palavras, trata-se de alguém desconhecido, o qual, à
primeira vista, coloca a estrutura de pensamento do filósofo em processo de
redução fenomenológica, para acolher, descrever, interagir com sua
representação das coisas. Questão de método!
Longe disso, a abordagem das
terapias clássicas, apesar de, algumas vezes, usarem a expressão ‘singular’, parece
desconhecer o que acontece com a estrutura de pensamento de seus profissionais,
os quais, ao entender a pessoa diante de si com o olhar das tipologias e
classificações da Psiquiatria e coadjuvantes, enquadra e distorce a expressividade
em frente, transformando um sujeito em objeto de análise e interpretação. Direciona
respostas, agenda ideias, comportamentos, sensações, sem dar-se conta de sua cumplicidade
com aquilo que busca tratar.
Ser singular inclui um nome,
sobrenome, uma circunstância existencial, sua expressão, a relação com o mundo
da vida. O filósofo clínico terá de aprender com o partilhante as rotas para
sua estrutura de pensamento, sendo guiado por ele pelos escaninhos de sua
subjetividade, muitas vezes impregnada de armadilhas, areia movediça, refúgios.
Assim o papel existencial cuidador refere uma ontologia e uma antropologia, em
seus estudos para compreender um território desconhecido, decifrar linguagens,
rituais de vida, morte, renascimento, reconhecer a farmácia interna em cada pessoa.
Nesse sentido a Literatura de
cada um oferece uma interseção favorável com a reflexão sobre esse outro que se
apresenta, isto é, o lugar de onde se diz o que fala: a estrutura de pensamento
singular. Essa aproximação do leitor com o autor, a partir da descrição de seus
originais, costuma significar uma tradução peculiar sobre sua fonte de
inspiração. Ainda quando se trata de uma releitura, um ser irrepetível se
apresenta, imprimindo seus rastros pelo dado padrão, intencionalidade, no contato
com suas páginas e capítulos existenciais. Talvez o rio de Heráclito (500 - 450
a.C.), em seus deslocamentos, consiga decifrar a inquietude dessas águas sempre
outras.
Os eventos de construção
compartilhada realizam um estudo sobre o fenômeno multifacetado de uma obra.
Assim se pode ampliar o entendimento sobre a literalidade e os transbordamentos
de um texto. Semelhante aos eventos da hora-sessão e seus desdobramentos
existenciais.
Ricardo Piglia auxilia: “Ler a
partir do lugar em que se escreveu não define o leitor ideal como aquele que lê
melhor, mas como aquele que lê a partir de uma posição próxima à composição em
si. Nabokov aponta isso com clareza: ‘O bom leitor, o leitor admirável não se
identifica com os personagens do livro, mas com o escritor que compôs o livro’”.
(O último leitor, 2017. Pág. 158)
Essa aproximação cuidadosa, a
partir de uma redução fenomenológica, possibilita ao filósofo clínico leitor encontrar
o outro em sua expressão peculiar. Aqui não se trata de uma abordagem de base
apriorística, onde as páginas existenciais de uma pessoa poderiam ser
traduzíveis pela lógica apertadinha da hermenêutica dos protocolos.
O termo singular pode apresentar muitos sentidos, de acordo com seu uso. Aqui é preciso fazer um alerta sobre a
areia movediça das palavras comuns, as quais possuem nuances e significados
outros, nem sempre alcançável pela literalidade de suas menções. O convívio do
dia a dia, no mundo do trabalho, na família, com amigos, colegas, pode
qualificar o entendimento das expressões e seu significado, no entanto, basta
um processo desconstrutivo para modificar sua direção, desarmonizando algo até
então reconhecível.
A atividade dos princípios de
verdade, com base nas ideologias da vida normal, multiplica seus recessos,
desvãos. Trata-se de endereços existenciais onde se abrigam os esquisitos, atípicos, sem
nome, desprovidos de um acolhimento compreensivo. Refúgios que a
lógica protocolo não imagina existir, em sua sanha de controle e submissão do
fenômeno humano. Nesse sentido, para acessar a singularidade, reivindica-se uma
aproximação compartilhada com seu discurso existencial, em busca da fonte de
inspiração de onde fala o que se diz.
Aquele abraço,
hs
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