Sobre Filosofia Clínica e Literatura IV
Em outono de 2008, após os
atendimentos na casa de cultura Laura Alvim em Ipanema, um pouco antes das
aulas de Filosofia Clínica na faculdade Hélio Alonso em Botafogo no Rio de
Janeiro, no meio do caminho encontrei a livraria Prefácio na rua Voluntários da
Pátria. Numa tentação irresistível, em meio à miscelânia de livros recém
editados e preciosidades distantes do grande público, encontrei a obra “O
ritmo da vida – variações sobre o imaginário pós-moderno” de Michel
Maffesoli, publicada pela editora Record/RJ em 2007. Um texto que possui
intimidade com as referências do novo paradigma da Filosofia Clínica.
O pensador indica: “O pensamento
só é interessante quando é perigoso. Perigoso para a opinião consagrada e
ronronante que serve de fundamento a todos esses ‘pareceres de especialistas’
em que se refestela o poder. (...) São cada vez mais numerosos os que nada têm
a dizer e o dizem em voz alta.” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 13)
Esse fragmento lembra as
repercussões na década de 1990 no Brasil, quando do surgimento da nova
abordagem clínica da Filosofia. Uma legião de incautos seguia alguns pretensos
ilustrados (formadores de opinião?) a falar do que não sabiam em jornais,
rádios, tvs, revistas, os quais davam a impressão de se sentir inseguros com a nova mensagem. Isso tudo está documentado pelas publicações da época.
Ainda nesse período, uma
publicação no caderno mais da Folha de São Paulo, no ano de 1997 ou 1998 (não
lembro bem), atiçou ainda mais o debate em torno da novidade, ao descrever o
novo paradigma como uma iniciativa bem-vinda. As ameaças, dúvidas, censuras
prévias, críticas maldosas, se multiplicavam, via de regra de quem se sentia
ameaçado pela possibilidade de uma terapia distante das tipologias da bíblia
DSM e seus seguidores.
Nos dias de hoje (em 2026) ainda
é possível encontrar alguns integrantes dessa tribo de desinformados, os quais insistem
em perguntar como pode uma Filosofia ser clínica? Demonstrando os estreitos
limites de sua régua epistemológica.
A nova metodologia se reveste de
ameaça há quem tem algum problema com o desenvolvimento da natureza humana, a
qual esboça em seu cotidiano anúncios nem sempre possível de traduzir pelo que
se tinha até então. É importante lembrar que a Filosofia tem a peculiaridade de
transgredir um determinado senso comum em direção ao incomum de suas
possibilidades investigativas.
Com Michel Maffesoli: “Busca
perpétua de um ponto de Arquimedes que é o da dúvida, fugindo, como o diabo da
cruz, das certezas definitivas e do conforto mortífero dos dogmas
empedernidos.” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 25)
A metodologia da Filosofia
Clínica tem características inéditas em sua fundamentação teórico-prática,
dentre elas o fato de que sua abertura permite encontrar e acolher a estrutura
de pensamento singular, num convívio em sintonia com seu endereço existencial.
Os métodos reconhecidos, em
ciências humanas, costumam resvalar para a rigidez classificatória de suas
verdades. Dessa forma dificultam aos seus profissionais romper com a
cristalização do saber, estruturando suas atividades para manutenção do que já
existe. Assim as realidades estranhas são significadas como crise, distorção,
alguma forma de patologia.
Com o conforto mortífero dos
dogmas empedernidos, como refere o pensador, muito se perde. O
estabelecimento de departamentos de pesquisa com seus generosos financiamentos,
as disputas acadêmicas por medalhas, títulos, cátedras, publicações, compõem
uma armadilha existencial difícil de romper. Quando uma mente brilhante desse
círculo vicioso decide pensar e agir fora da curva, logo é defenestrado por
seus pares, os quais não suportam contradições e divergências às suas verdades.
Michel Maffesoli indica: “Devo
frisar que, desde sempre, o ato de pensamento esteve voltado para os que se
fazem perguntas, e não para os que já têm as respostas.” (O ritmo da vida,
2007.Pág. 59)
Os procedimentos do novo
paradigma incluem a oferta de um espaço de expressão ao partilhante, onde
predominam os agendamentos mínimos, isto é, intervenções de abertura, por onde
a pessoa em clínica consiga exercitar-se sem direcionamentos, interrupções,
julgamentos, em direção à um si mesmo expressivo, em sintonia com seu melhor.
A estrutura de pensamento aprecia
se expressar em dialetos distantes do uso comum. Assim sendo, reivindica uma
aproximação cuidadosa com seu território existencial, recheado de areias
movediças, labirintos, deslizes de retórica, e outros refúgios preliminarmente desconhecidos
pelo filósofo, o qual tem de conhecer o universo singular em vias de
apresentação.
Com essa lógica de abertura e
acolhimento, o filósofo clínico trata de efetivar uma pesquisa do outro lado da
interseção, em sintonia fina com a estrutura de pensamento do partilhante, onde
vai recolher subsídios para seu trabalho.
Os ajustes posteriores têm a ver
com a qualidade da escuta preliminar, bem assim com a proximidade com a
estrutura subjetiva sob os cuidados do filósofo, permitindo identificar as
ocorrências de agendamentos indevidos, subtrações, ocultamentos, deslizes
narrativos e outros eventos próprios da fenomenologia das sessões.
O pensador ensina: “Fazer o
pensamento reverdecer. Tratar de reanimá-lo, com constância, e também com
audácia, mantendo o contato com a vida. O que leva a relativizar a ciência. A
fazer com que ela não se leve a sério. Pois a ciência não deixa de ser ciência
a partir do momento em que se torna uma regra dogmática que não podemos
transgredir?” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 105)
Uma abordagem fundamentada numa lógica
aprendiz, precisa conter em seu constructo metodológico fundamentos que
possibilitem uma plasticidade expressiva do terapeuta em relação a circunstância
de seu papel existencial.
Talvez o melhor conceito de
ciência esteja relacionado a atividade do cientista, a mente brilhante
envolvida com seus estudos efetivar seu trabalho num convívio com os inéditos
aparecimentos em seu cotidiano, impulsionando reflexões, análises, partilhas
com os demais integrantes de sua tribo.
O fato de uma pesquisa estar
relacionada com ânimos de vida nova, tem a ver com a estrutura de pensamento do
pesquisador, o meio onde exercita suas habilidades e competências, a rede de
colaboração em um trabalho recheado de construções compartilhadas.
A busca por superação dos dogmas
e verdades cristalizadas e cristalizantes na ciência, vincula-se a determinadas
singularidades, as quais aparecem de tempos em tempos, para impulsionar a descoberta
de novos paradigmas, recheando seu cotidiano com interrogações reflexivas,
descobrindo territórios que estavam à espera de um olhar.
Em Michel Maffesoli: “É
efetivamente esse aspecto inacabado que, de forma desenvolta, é vivenciado nos
ajuntamentos precários de todos os tipos que pontuam a vida social. (...) esse
perpétuo adolescente que não se decide a tornar-se um ser acabado, comprazendo-se
num constante devir. (...) a conexão social é feita mais de ‘afinidades
eletivas’ que de contratos racionais. Ter ou não o ‘feeling’ será o critério
essencial para julgar a qualidade de uma relação. E é nesse aspecto no mínimo
evanescente que repousará sua durabilidade.” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 162)
Uma incompletude discursiva existencial
pode ter tantos significados quantos sejam os envolvidos com sua manifestação. Assim
não se deve classificar as formas múltiplas e desconhecidas de expressão,
nalguma fôrma tipológica, sob o risco de engavetar, engessar um processo
existencial em vias de não-ser.
A inquietude singular criativa reivindica
um acolhimento e uma aproximação com sua expressividade, ou seja, um cuidado e
atenção específicos a uma determinada tez fenomenológica, a qual vai se
apresentar - se assim decidir - no tempo próprio de sua autogenia.
Pode ser esse constante devir,
a pedra de toque para compreender singularidades incompreendidas. Nesse
sentido, trata-se de uma interseção afim com as tramas de um contexto
existencial, onde o filósofo clínico terá de adequar sua expressividade e papel
existencial.
As afinidades eletivas e o
feeling de que trata Maffesoli ajudam a entender a qualidade dos
encontros e desencontros pela vida. Nas lidas de consultório não é diferente,
pois a natureza das interseções e a resultante da terapia, encontram-se
afinadas com uma sensação de pertencimento àquele lugar onde o partilhante e o
filósofo estabelecem um lugar para suas expressões. A característica de ser evanescente
costuma significar algo mais às lógicas da hora-sessão.
Com o autor: “O imaginário
societal tem uma autonomia específica. É móvel, fugidio, polimorfo, mas não
menos eficaz. E somente um politeísmo epistemológico pode levar a entender o
advento das figuras em torno das quais se estrutura a ligação social.” (O ritmo
da vida, 2007. Pág. 193)
Maffesoli lembra que para uma
aproximação eficaz com determinada realidade, é necessário aprender seus
ritmos, sua linguagem, o tempo por onde se desloca, como se desloca, os
momentos em que se diz, por onde se diz, ou seja, superar as métricas estabelecidas
a priori, para encontrar a originalidade singular.
Uma aproximação com os princípios
de verdade reivindica a transcrição desse imaginário societal descrito
pelo autor. Sua mobilidade fugaz, polimorfa, indica algo que se move em
múltiplas direções. Para detectar sua autogenia é preciso uma abordagem apta a sintonizar
com seus deslocamentos.
Assim como a própria estrutura de
pensamento permite um convívio aprendiz com esse fenômeno social, também se
pode cogitar sobre as formas do estranho, refugiadas nas entrelinhas de uma
narrativa oficial, autenticada pela cultura que a desmerece.
Maffesoli indica: “O filósofo
americano Thoreau fala em algum momento de um quarto estado. Ao lado da Igreja,
do Estado e do povo, o estado do ‘andarilho errante’. Que podemos entender
através de todas essas figuras nômades que recusam a estabilidade sexual,
ideológica ou profissional.” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 196)
Uma metodologia apta a captar as
nuances dessa expressão, precisa estar em sintonia com sua dialética, ou seja,
mover-se em conexão com uma realidade fugaz. Para aprender sobre a natureza
dessa errância que se desloca, muitas vezes sem deixar rastros visíveis de sua
existência, é necessária uma relação aprendiz com a estrutura de pensamento de
sua geografia subjetiva, identificar as tramas significativas de sua
singularidade.
O andarilho errante
elabora um discurso existencial próprio, desconhecido as regras do convívio
societal, sua apresentação se reveste de um assombro capaz de modificar o meio
por onde passa. As formas de sua descrição contém cores e sabores que afrontam os
nichos existenciais por onde transita.
A descrição de suas narrativas
contém ingredientes aptos a desestabilização daquilo que se encontra frágil, do
ponto de vista de uma sustentação estrutural, isto é, a expressividade do andarilho
errante convida a reflexão crítica dos pressupostos de aparência firme,
recheados de convicção, como se fora uma investigação sobre o território
existencial ser aquilo mesmo que indica a primeira vista.
Aquele abraço,
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