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sábado, 27 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 78*

 

Sobre Filosofia Clínica e Literatura III 

Na primavera de 2006, em um final de manhã, na cidade do Rio de Janeiro, depois dos atendimentos na Miguel Lemos (altura do posto 5 em Copacabana), fui ao centro histórico almoçar no centro cultural Odeon na Cinelândia. Depois segui para as livrarias do largo São Francisco, região da faculdade de Filosofia e Ciências Sociais, onde se refugiam muitas obras raras, descartadas, esquecidas.   

Após algum tempo caminhando pelos corredores, visitando suas estantes, me deparei com uma escada, daquelas usadas para vasculhar as prateleiras mais altas. Subi em seus degraus sem mudá-la de lugar, assim descobri o livro: Despertar dos mágicos – introdução ao realismo fantástico de Louis Pauwels e Jacques Bergier, em sua 19. edição, 463 págs. Traduzida por Gina de Freitas e publicada pela DIFEL /SP em 1983.

Borges diz algo assim: “séculos e séculos depois e um texto chega até você com sua mensagem, em tempo próprio.” Existem vários nomes para esse fenômeno, alguns chamam de coincidência, outros acaso, ainda àqueles que significam sinais...

Aos nossos estudos interessa realizar uma aproximação com esses manuscritos. Com base numa leitura fenomenológica, em interseção com a analítica da linguagem e a hermenêutica compreensiva, é possível acolher e dialogar com sua representação de mundo. Não se trata de patologizar a autoria dos escritos, mas de encontrar a estrutura de pensamento singular como matriz desses originais, um desses endereços existenciais por onde a magia se descreve.  

Com Pauwels e Bergier: “A lógica do ‘bom senso’ já não existe. Na física atual uma proposição pode ser simultaneamente verdadeira e falsa A. B. já não é igual a B. A. Uma mesma entidade pode ser a um tempo contínua e descontínua. (...) Para descrever completamente uma partícula foi necessário acrescentar uma grandeza intraduzível em palavras e que se chamava spin. (...) o ‘número quântico de estranheza’ prolonga-se para além da física, e tem ligações com as profundezas do espírito humano.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 34 e 35)

A abordagem da Filosofia Clínica, ao acolher o estranho como singularidade, realiza interseções de qualidade com a estrutura de pensamento desconsiderada pela ciência normal (Kuhn). Assim se pode compreender o novo paradigma como um passo a mais em direção ao universo singular engessado pelas tratativas de controle e submissão das tipologias, classificações.

Com esse olhar de acolhimento aprendiz, o filósofo clínico convive com uma circunstância inusitada, por onde transita compartilhando àquilo desconhecido às métricas pré-estabelecidas. Noutras palavras, a nova metodologia oferece um constructo apto a compreender a pluralidade significativa das formas humanas.

Semelhante ao encontro do leitor com a autoria, pelas páginas de um livro, a nova abordagem terapêutica, pela via da interseção, se traduz num protagonismo, onde filósofo e partilhante elaboram um lugar aos eventos da terapia.  

A estrutura de pensamento da Filosofia Clínica permite uma atualização permanente de seus pressupostos - sem distorção - para reverenciar a novidade que se aproxima pela integração da trama conceitual com as práticas de consultório. A plasticidade dessa estrutura subjetiva aplicada ao cuidado da pessoa em seu próprio território, permite dialogar e aprender com seu discurso existencial em processo.  

Pauwels e Bergier ensinam: “Quando um jovem engenheiro entra para a indústria, depressa distingue dois universos diferentes. Há o do laboratório, com as leis definidas das experiências que se podem reproduzir, com uma imagem compreensível do mundo. E há o Universo real, no qual as leis nem sempre são aplicadas, onde os fenômenos são por vezes imprevistos, onde o impossível se realiza.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 66)  

Um fenômeno aproximado se detecta nos eventos da hora-sessão, onde a nova abordagem terapêutica se apresenta num viés de abertura e interseção com as facetas do inédito. Dessa forma é possível incrementar a teoria com as percepções dos atendimentos.

Essa metodologia, ao se traduzir como obra aberta (Umberto Eco), interage com as especificidades do ser singular em cada pessoa, ou seja, trata de aprender e interagir com a estrutura de pensamento do partilhante.

A superação de modelos com base numa estrutura rígida, recheada de verdades a priori, se constitui em um novo paradigma. A partir de agora, trata-se de uma lógica aprendiz para acolher e transitar por um endereço existencial compartilhado, em busca de subsídios para intervenções a posteriori, qualificadas pela circunstância partilhante.

Com os autores: “Pedis-me para resumir, em quatro minutos, quatro mil anos de filosofia e os esforços de toda a minha vida. Pedis-me além disso, para traduzir em linguagem clara conceitos para os quais a linguagem clara não é feita. (...) A relatividade, o princípio da incerteza mostram-nos até que ponto o observador de hoje intervém nos fenômenos.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 117)

É comum, nos dias de hoje, quando perguntam sobre Filosofia Clínica, muitos entrevistadores reivindicarem uma síntese ou um resumo da nova abordagem, como se fosse possível descrever com alguma qualidade o teor e a especificidade de seus meandros conceituais, a fundamentação teórico prática.  

Em seus escassos trinta e poucos anos de existência, desde os primeiros estudos de Lúcio Packter, se testemunha um avanço significativo da pesquisa teórica, amparada pelas interseções de consultório. O acolhimento do princípio da incerteza em relação a cada atendimento, reivindica uma abordagem plástica, dinâmica, que inclua em seu arcabouço metodológico possibilidades para as dialéticas da admiração, do espanto, em dessintonia com as limitações das verdades a priori.   

A natureza desse acolhimento desclassificado, destituído de tipologia, permite conhecer algo novo com a chegada do partilhante. Ao entender sua estrutura de pensamento como um projeto existencial em aberto, se torna possível trabalhar as alternativas de mudança para sustentar sua digital.  

Em Pauwels e Bergier: “É que Freud e Einstein realizaram, no início, um colossal esforço de imaginação. Imaginaram um real completamente diferente dos dados racionais admitidos. A partir dessa projeção imaginativa estabeleceram conjuntos de fatos que a experiência verificou. (...) para quem sabe ler, as coincidências usam trajes de luz.” (O despertar dos mágicos, 1983. Págs. 221 e 237)

Talvez seja uma radicalização da singularidade expressiva, um caminho possível para se encontrar habilidades, competências, talentos, genialidade imaginativa para apreender a novidade que paira sobre cada um em linguagem própria, a qual somente pode ser decifrada pela via do encontrar.

Uma estrutura de pensamento assim pensada precisa localizar um território existencial capaz de desenvolver suas aptidões, superando uma sensação de exílio em relação ao espírito de rebanho dos princípios de verdade. Muitas vezes, o que acontece é um desvirtuamento do ensino clássico, em direção a uma aventura em busca de um si mesmo amparado num processo intuitivo singular.

Mentes brilhantes costumam pensar e agir fora da curva, ou seja, precisam suportar toda forma de ataques à sua expressão em desenvolvimento, desde os primeiros ensaios da infância até os dias de maior envergadura existencial. Quando isso acontece, se tem um desenvolvimento anormal de uma forma expressiva, desembocando em relações conflituosas com as circunstâncias onde a pessoa se encontra, nem sempre compreensível a cultura de seu tempo. É preciso uma adequação às lógicas da ventania para acolher e qualificar uma interseção com a natureza desses eventos da singularidade.  

Os desdobramentos do cotidiano pedem cautela nessa proposta de partilha, a qual pode significar um exílio pessoal distante das demais relações, muitas vezes diagnosticado como alguma forma de transtorno, espectro, doença mental. Uma forma de cooptar as lógicas da diferença a um senso comum domesticável.   

A descoberta dessas mensagens interditas na relação da pessoa com ela mesma e àquilo que lhe acontece em seu cotidiano, aprecia dizer-se num dialeto incompreensível aos demais integrantes de sua tribo existencial. Uma via de acesso se apresenta pela captura das semioses no instante precursor, quando o olhar, o rubor, as feições da boca, os trejeitos, exprimem algo que se acrescenta as formas narrativas.

Com os autores: “No domínio das ‘curas paranormais’, quer dizer, obtidas com um tratamento psicológico, quer se trate do curandeiro, ‘possuidor do fluido’, quer do psicanalista (feitas todas as distinções entre os métodos), os parapsicólogos chegaram a conclusões do maior interesse. Eles trouxeram-nos uma nova concepção: a do par médico-doente. O resultado do tratamento seria determinado pela ligação telepática que existiria ou não entre o que trata e o paciente. Se essa ligação se estabelece – ela assemelha-se a uma ligação amorosa – produz aquela superlucidez e aquela hiper-receptividade que se observam nos pares apaixonados.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 358)

Os agendamentos elaborados pela via da interseção (em suas múltiplas formas de aparecimento) apreciam encontram ressonância do lado a lado da relação clínica, isto é, quando a qualidade dos encontros significa algo mais, elaborando um território favorável às ressignificações, trocas, aprendizados, numa escuta de olhar singularizado, tendo por base a perspectiva partilhante.  

A estrutura de pensamento das sessões envolve os integrantes da terapia em uma aproximação peculiar, por onde múltiplos eventos se traduzem na autogenia da pessoa. Em uma relação dessa natureza, onde se desenvolve uma afetividade compartilhada, também se constitui uma energia suplementar, a qual se integra aos procedimentos da clínica. Com essa abordagem, as trocas e agendamentos - do lado a lado da interseção - costumam emancipar-se ao cotidiano dos envolvidos.  

Uma fenomenologia aprecia os subúrbios de si mesma para esboçar seus originais. Sua intencionalidade se descreve em enredos de estranha magia, reivindicando a percepção incomum para se traduzir. As questões envolvendo os métodos encontram um território fértil para estudo, pois existem abordagens que facilitam a natureza desses aparecimentos e outras que a dificultam.  

Um aspecto comum a pessoas incomuns é uma tendência ao nomadismo, o qual permite a singularidade transitar para onde sua expressão faça sentido. Outra forma de autoproteção é a aptidão de ser invisível, para um deslocamento incólume em meio às tramas dos princípios de verdade, os quais significam todo mundo como objeto de consumo. É comum essas expressões da singularidade serem tratadas pela ideologia alienista e coadjuvantes (estruturas asilares, hospícios, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, educadores...) como uma forma de distorção existencial.

A hermenêutica interpretativa dessas abordagens se apresenta recheada de motivos para justificar as lógicas da internação e medicalização de sua expressividade. Em meio a isso a vida segue à disposição, lá onde não é possível encontrá-la sem uma sintonia com seu ponto de vista.    

Aquele abraço,

hs

domingo, 21 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 77*


Sobre Filosofia Clínica e Literatura II

Sabe aquela sensação de topar - numa livraria de raridades - com um texto incomum, classificado e carimbado como descartado, por bibliotecários desavisados? Pois foi assim que encontrei a Obra Crítica 2 de Julio Cortázar. Um texto que teve sua primeira edição em 1963, traduzida e publicada no Brasil em 1999 pela editora Civilização Brasileira. 

Nesse caso também é possível estabelecer diálogos em sintonia com a nova abordagem da Filosofia Clínica - sem tipologizar suas páginas - num exercício de recíproca de inversão com a singularidade narrativa do autor e suas percepções. Um texto inclassificável pelas hermenêuticas da contenção discursiva, desconstruindo uma certa hegemonia literária.     

Cortázar compartilha: “(...) Keats contava com a admirável - e angustiosa - característica de todo poeta: a de ser outro, estar sempre em e desde outra coisa. Sua consciência dessa ubiquidade dissolvente - que abre ao poeta os acessos do ser e lhe permite retornar com o poema à guisa de diário de viagem (...)”. (Obra crítica 2. Pág. 41 e 42)

Ao pensarmos nos eventos da espacialidade intelectiva, onde inversão e recíproca se prestam para esses deslocamentos do papel existencial cuidador em direção ao partilhante, bem assim seu retorno a sua própria estrutura de pensamento, é possível sentir uma conexão com as palavras do escritor argentino.

Existe uma infinidade de papéis existenciais e expressividades experienciadas nos eventos da hora-sessão, tendo como referência o novo paradigma terapêutico.

Uma conjugação de raras habilidades e competências, aliadas aos estudos da teoria, à terapia pessoal e a supervisão, podem conceder ao filósofo clínico aprendiz, um vislumbre de suas possibilidades como terapeuta. Essa característica descrita por Cortázar: ‘a de ser outro, estar sempre e desde outra coisa’, conversa com as dialéticas de consultório.

A expressão: ‘lhe permite retornar à guisa de diário de viagem’ lembra os deslocamentos intelectivos do filósofo terapeuta, quando desenvolve uma escuta fenomenológica para aprender e descrever a realidade do outro sob seus cuidados. Nesse ir e vir, se abastece com subsídios para conhecer a versão partilhante em sua própria versão singular.  

Em Cortázar: “Todo leitor da obra completa de Keats - e de suas admiráveis cartas - observará que o périplo do poeta não o levou para além de si mesmo (...).” (Obra crítica 2. Pág. 63)

Muitas vezes a narrativa da historicidade pela pessoa, em versão e tempo próprios, realiza uma atualização significativa do seu passado, como se fosse uma reedição dos eventos de sua história. Isso, por si só, pode significar uma autogenia clínica, por onde a pessoa supere àquilo que se tinha como cristalizado. Existe uma plasticidade - muitas vezes desconhecida - na neurofisiologia partilhante, a qual permite, em maior ou menor grau, a efetivação desses deslocamentos e possibilidades de reescrita para seu diário pessoal.   

Um reencontro consigo mesmo se descreve na terapia, onde a pessoa pode experienciar-se de acordo com sua singularidade em processo. Quando isso acontece, trata-se de uma exploração compartilhada com o partilhante, num território que lhe pertence, embora muitas vezes, inexplorado pelo próprio titular.

A percepção da pessoa como alguém que se desloca - existencialmente - pela vida, onde atualiza seu diário de viagem, como lembra Cortázar, pode significar, ao próprio explorador, uma expressão para suas buscas existenciais.   

O autor em sua leitura de Sartre: “(...) caminhos que liquidam vertiginosamente todas as formas provisórias da liberdade e deixam o homem existencialmente comprometido com a dura e maravilhosa tarefa de renascer, se for capaz, das cinzas de seu eu histórico, seu eu conformado, seu eu conformista.” (Obra crítica 2. Pág. 99)

Uma aproximação de Cortázar com a escritura de Sartre, descreve a fenomenologia dos eventos na Filosofia Clínica de consultório, ou seja, quando aparece um outro sem deixar de ser ele mesmo. Assim a descrição das armadilhas conceituais esparramadas pela historicidade, pode tornar visível uma condição existencial, nem sempre cabível desconstruir.

As indicações de ressignificação, quando possíveis de implementar, ainda assim terão de respeitar categorias como: tempo, lugar, relações do partilhante com sua circunstância. Os eventos de consultório reivindicam a qualidade da interseção para um convívio terapêutico diferenciado, de acordo com a clínica da Filosofia.

Os movimentos estruturais para emancipação de uma realidade para outra, nem sempre são possíveis de implementar sem alguma forma de auxílio. As lógicas da conformação, ao manter a pessoa numa zona de conforto oferecem atrações irresistíveis, para manutenção das coisas como se encontram.     

O escritor indica: “Com Antonin Artaud silenciou na França uma palavra fraturada que só esteve parcialmente do lado dos vivos, enquanto o restante, numa linguagem inatingível, invocava e propunha uma realidade vislumbrada nas insônias de Rodez. (...) claro que Artaud não é muito bem lido em lugar algum, posto que sua significação já definitiva é a do surrealismo no mais alto e difícil grau de autenticidade: um surrealismo não-literário, anti e extraliterário; e que não se pode pedir a todo mundo que reveja suas ideias sobre a literatura, a função do escritor etc.” (Obra crítica 2. Pág. 143)

É uma quase-verdade o fato de que determinados autores são incompreendidos por sua época, bem assim as propostas de emancipação do fenômeno humano em direção às novas possibilidades existenciais, as quais atemorizam muitas lógicas do chamado bom senso.

Tendo como ponto de partida os esboços de um grupo seleto de autores e autoras, no caso da Filosofia Clínica, como resultante das lidas de consultório e a pesquisa teórica, o que se apresenta, cada vez mais, são conteúdos significativos de uma abordagem terapêutica em pleno desenvolvimento, e que veio para ficar!

Antonin Artaud poderia - com ânimos de cumplicidade - integrar o rol de escritores desta Filosofia Clínica que superou (sob vários aspectos) os ensaios preliminares. No mesmo sentido, as críticas que se apresentam como uma denúncia de escrituras obtusas, difíceis, indecifráveis..., em nossa área de estudos, esquecem que, mesmo os totens mais antigos, como as mentes brilhantes precursoras da Psicanálise e da Psicologia, também escreviam (e alguns ainda escrevem) seus textos em linguagem especializada, a qual reivindica um estudo aprofundado de sua expressão.  

O autor diz: “(...) penso, como André Gide, que ‘o mundo será salvo por uns poucos’, e acrescento que esses poucos não estarão instalados no poder nem ditarão nas cátedras as fórmulas da salvação. (...) Não será um ensino, e sim uma presença, um testemunho.” (Obra crítica 2. Pág. 223)

É interessante notar que as novas metodologias, sejam elas proto ou metaciência, costumam surgir às margens do saber instituído. Muitas vezes como contradição e superação do que se tinha, envolvendo sujeitos singularíssimos, os quais tem de superar inúmeras adversidades e provações para acessar o território inédito onde exercitam sua expressividade.   

As celebrações e festejos, as medalhas e títulos honoríficos, servem para estímulo e manutenção do estabelecido. A novidade para depois de amanhã, aprecia insinuar-se nas entrelinhas de um cotidiano que não reconhece sua apresentação.

A poesia existencial, exilada em cada um, aguarda a pedra de toque para vislumbrar a luz do dia. Algumas vezes elabora ensaios nalgum espaço diferenciado, onde se descobre em rascunhos de originalidade. Ainda assim, terá de proteger esse pedaço de chão das ameaças à sua singularidade em desenvolvimento.

Em Cortázar: “O poeta não é um primitivo, e sim um homem que reconhece e acata as formas primitivas; formas que, pensando bem, seria melhor chamar de ‘primordiais’, anteriores à hegemonia racional, e depois subjacentes ao seu tão alardeado império.” (Obra crítica 2. Pág. 263)

Existem tantas formas de expressão para os inéditos, quantos sejam os envolvidos com sua representação. Assim se pode entender a dificuldade em querer classificar o inclassificável, realizar um enquadramento a partir de uma hermenêutica interpretativa, refém de um óculos desfocado, distante de uma tradução compartilhada, onde o outro da interseção ofereça subsídios para seu ser peculiar.  

As ‘formas primordiais’ como refere o poeta, diz respeito a uma novidade em forma de broto, ainda sem nomenclatura, tipologia, mesmo quando os arautos de um saber esclerosado propõem classificar e cristalizar seu aparecimento, essas expressões se oferecem em linguagem própria, muitas vezes como proteção ao devir singular.   

No caso dessas novas propostas serem cooptadas pelos princípios de verdade de uma época, se tornando um modismo, ainda assim, tratam, elas mesmas, de atualizar seu discurso existencial de acordo com suas origens, desnorteando a rigidez cadavérica de pretensa cientificidade. Por outro lado, a natureza humana segue compartilhando seus originais, embora nem sempre seja possível - com as abordagens consagradas - uma tradução adequada às suas verdades. Questão de método!

Aquele abraço,

hs

sábado, 13 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 76*

Sobre Filosofia Clínica e Literatura I

O livro de areia de Jorge Luis Borges, traduzido por Davi Arrigucci Jr. e publicado na coleção da Folha de São Paulo em 2012, se deixou encontrar no ano de 2021, em Porto Alegre, num balaio de saldos na feira do livro.

Não sei ao certo se eu o encontrei ou se foi ele quem me achou. De qualquer forma seus textos de altura e profundidade desmedidas se prestam a múltiplas relações, nesse caso, um diálogo com a nova abordagem terapêutica da Filosofia Clínica.

Em Borges: “Meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que é a mesma coisa.” (O livro de areia, 2012. Pág. 15)

O fragmento ajuda a entender o conceito de representação de mundo de Schopenhauer, o qual ensina que nossa percepção e entendimento das coisas tem a ver com a sintonia com sua estrutura de pensamento.  

Na mesma direção auxilia a compreensão do conceito de autogenia, quando sugere a íntima relação entre a realidade e sua lembrança pessoal da realidade, o evento em si e sua recordação posterior, impregnada de edições, recortes, desvios narrativos, de acordo com o desenvolvimento pessoal envolvido em sua descrição.

Esse fato, por si só, compartilha uma possibilidade de desconstrução, manutenção ou reconstrução clínica em Filosofia, efetivando uma continuidade ou uma via de acesso a novos roteiros, emancipando àquilo que se tinha como insolúvel, cristalizado.     

O autor-pensador destaca que a realidade sem uma singularidade que a compreenda inexiste ou existe noutras perspectivas, pontos de vista. Assim, reivindica uma relação aprendiz entre uma e outra representação de mundo, incluindo o sentido das expressões envolvidas numa conversação.  

Com Borges: “Domino a escrita secreta que defende nossa arte do indiscreto exame do vulgo”. (O livro de areia, 2012. Pág. 57)

Outro dia, li algumas críticas sobre a produção literária de alguns escritores e escritoras, os quais eram classificados como uma leitura hermética, difícil, obtusa, dentre outros elogios. Nesse rol entrava gente como: Clarice Lispector, Dostoiévski, Kafka, Nélida Piñon, Derrida, Cassirer... Todos receberam a pecha de autores inacessíveis, segundo a condição envolvida com sua leitura.  

Uma aproximação com o teor discursivo literário pressupõe a busca por uma chave de leitura, a qual irá permitir uma via de acesso à representação do autor. Não se trata de uma leitura difícil, fácil ou inacessível, mas um constructo literário singular, diferente da obviedade das redes sociais, textos publicitários, as propostas para consumo a qualquer preço.  

A narrativa literária costuma oferecer em suas páginas, conteúdos filosóficos, sociológicos, poéticos, antropológicos, dentre outros, muitas vezes às margens e desvãos da mensagem principal. Inexiste uma só mensagem num texto dessa natureza, suas páginas reivindicam uma leitura de apropriação para suas verdades, muitas delas inacessíveis ao vocabulário reconhecido.  

Essa escrita secreta de que fala Borges, parece conter uma mensagem à espera de uma leitura singular, por onde se compartilham mensagens a um leitor em sintonia com as camadas de profundidade, altitude, latitude, de seu texto. As práticas literárias, os estudos do especialista, muitas vezes parecem afastá-lo de uma escrita acessível ao primeiro olhar. A qualidade de uma obra assim costuma ser desmerecida, tratada como inútil, impossível de traduzir pelos termos do dicionário comum.  

O autor compartilha: “(...) cada qual deve produzir por sua conta as ciências e as artes de que precisa. Nesse caso, cada um deve ser seu próprio Bernard Shaw, seu próprio Jesus Cristo e seu próprio Arquimedes.”  (O livro de areia, 2012. Pág. 74)

Uma aproximação consigo mesmo reivindica uma dedicação exclusiva, como um tempo para os exames periódicos (medicina do corpo), a terapia, os exercícios somáticos e intelectuais, como investimento nesse endereço existencial com prazo de validade. Talvez assim teríamos mais qualidade de vida entre os residentes desta casa.    

Um desses ambientes é a hora-sessão com o filósofo clínico, onde um tempo subjetivo trata de acolher e aprofundar estudos do partilhante sobre um si mesmo em processo. Assim cada um poderia descobrir ou inventar sua singularidade, vivenciando seu endereço existencial de acordo com suas possibilidades, como refere Borges.  

Uma dificuldade nessa caminhada de autodescoberta e investimento nas próprias habilidades e competências, começa na escola tradicional, a qual aparece recheada de decoreba, interpretação de textos e sujeição as verdades do mestre-escola, um desses lugares onde se torce o pepino desde cedo, muitas vezes para qualificar mão de obra barata a um sistema político injusto, desigual, excludente.

Mais tarde o trabalhador, agendado de que deve dedicar sua vida ao trabalho (na maioria das vezes distante de seu melhor), seja através dos ensinamentos familiares, escolares, religiosos ou qualquer outra forma de submissão aos princípios de verdade onde se vê inserido como peça substituível.

Borges indica: “No meu escritório da rua México guardo a tela que alguém pintará, daqui a milhares de anos, com materiais hoje dispersos no planeta.” (O livro de areia, 2012. Pág. 75)

É interessante notar que a matéria-prima com a qual uma escritura se realiza, tem a ver com o cotidiano do autor, isto é, as referências e os agendamentos de suas leituras, vídeos, conversas, lugares que frequenta, as relações com os outros e consigo mesmo, multiplicando seus territórios existenciais diante de um espelho que se move.

Os eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, pela natureza de sua abordagem com base na singularidade (Aristóteles), contribuem para ensaios expressivos em forma de broto. Neste lugar privilegiado onde se pode desconstruir, desabilitar, reconstruir, reabilitar um si mesmo noutras direções existenciais, se estabelece um convívio com as curvas, avanços, retrocessos, de uma estrada recheada de incompletudes discursivas, aguardando algo novo por chegar.

A singularidade costuma se espantar ao descobrir-se em novas rotas existenciais, numa exploração compartilhada com o filósofo clínico, semelhante a um Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães, Américo Vespúcio, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Cabral e outros, ao avistar terra nova, onde se ameaçava com o fim do mundo.

Jorge Luis Borges ensina: “Espero que as notas apressadas que acabo de ditar não esgotem este livro e que seus sonhos continuem se ramificando na hospitaleira imaginação daqueles que agora o fecham.” (O livro de areia, 2012. Pág. 103)

As palavras do autor acenam uma epistemologia aprendiz, isto é, deixar uma janela entreaberta para acolher a leitura que ainda não veio, a escrita desconhecida, privilegiando uma ética do encontrar, onde leitor e escritor qualifiquem uma interseção.  

Uma obra - por melhor que seja sua escrita - não se conclui por inteiro, parece aguardar aquele algo mais presente nas autogenias do autor, em sintonia com sua atualização existencial.   

Nesse sentido é possível uma aproximação entre esses fenômenos da hora-leitura e as dialéticas da hora-sessão em Filosofia Clínica, elaborando aquilo que se insinua quando duas ou mais pessoas elaboram um espaço de construção compartilhada.

Aquele abraço,

hs

sábado, 6 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 75*

 

Notas do consultório do filósofo XIII

Uma obra chega às mãos de alguém em tempo próprio, importa menos a data de sua publicação, mas o instante desse encontro onde o leitor e a leitura se reconhecem. A natureza desses achados se oferece numa incerta frequência a refúgios que aguardam sem pressa. As livrarias, cafés, escolas, bibliotecas, são alguns endereços onde se pode encontrar essas raridades, quase sempre à espera de um visar, uma escuta, um cheiro, um sentir capaz de acolher uma interseção diferenciada.

A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn, é um desses livros que você lê muitas vezes, seja por seu conteúdo ou pela sintonia existencial com suas páginas, por onde se pode evidenciar o desenvolvimento de uma estrutura de pensamento. Uma autogenia se insinua pelas releituras (algo raro nos dias de hoje) de um bom texto, quase como um espelho onde o leitor pode testemunhar sua caminhada existencial.  

O filósofo compartilha sua pesquisa, no que se refere ao aparecimento dos novos paradigmas. Lembrando a necessidade de uma lógica aprendiz, uma postura crítica e reflexiva dos profissionais de qualquer área do conhecimento. Trata da relação daquilo que denomina ciência normal e suas anomalias, consideradas insolúveis com as crenças e procedimentos que detinha até então.

Em Thomas Kuhn: “Considero ‘paradigmas’ as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 53)

O fragmento destaca a categoria tempo, como um ingrediente apto a sustentar uma prática científica. Embora o pesquisador tenha em sua bagagem pessoal a ética e o bom senso, nem sempre essas características são respeitadas, prevalecendo interesses de natureza econômica, ideológica, onde os princípios de verdade tentam manter sua hegemonia a qualquer preço.

Talvez por isso a dificuldade de muita gente em se atrever a estudar e desenvolver uma nova proposta no campo das ciências humanas, quase sempre vinculada a persistência de um pequeno grupo de pensadores (muitas vezes sem recursos em sua época) aptos a enfrentar as adversidades esparramadas pelo caminho.

Paradigmas são modelos, crenças, padrões, onde se articulam e sustentam ideias e práticas no mundo da ciência. Assim é possível vislumbrar o papel da pesquisa acadêmica como um suporte poderoso para sustentação da ciência normal. Seja através da oferta generosa de bolsas de pesquisa, publicações, cátedras onde eminentes oradores prescrevem suas verdades, implementam sua pesquisa, sustentam um status quo institucional.

O pensador compartilha: “Algumas vezes um problema comum, que deveria ser resolvido por meio de regras e procedimentos conhecidos, resiste ao ataque violento e reiterado dos membros mais hábeis do grupo em cuja área de competência ele ocorre. (...) Dessa e de outras maneiras, a ciência normal desorienta-se seguidamente. (...) quando os membros da profissão não podem mais esquivar-se das anomalias que subvertem a tradição existente da prática científica, então começam as investigações extraordinárias (...)” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 65)

Se excluirmos o interesse econômico e ideológico de alguns campos de atuação em ciências humanas, como a rede de consumo de psicofármacos, internação involuntária (manicômios), eletrochoques... é possível realizar um diálogo inter e transdisciplinar de qualidade, com pensadores abertos a uma lógica aprendiz com os eventos de natureza desconhecida.

No que se refere às questões da chamada saúde mental, ainda estamos numa fase em que a maioria dos profissionais, insistem em apresentar novas patologias, disfarçadas de expressões como: síndrome, espectro, transtorno, tentando sustentar as intervenções - praticadas e festejadas - de submissão e controle do fenômeno humano em vias de não-ser. Questão de método!

Suspeita-se que enquanto a indústria de psicofármacos e a medicina do corpo detiverem a propriedade (direta ou indireta) das pesquisas na área, as coisas vão prosseguir nessa direção, mesmo quando as contradições e percepções indicarem outras possibilidades para abordagem das pessoas em seus momentos de travessia existencial.    

As anomalias que subvertem a tradição, costumam ser sufocadas ou direcionadas para um lugar de menos valia pela ciência normal, onde se destacam: as questões econômicas, ideologia, saber-poder de mestres e doutores conformados aos ensinamentos da tradição, dissertações e teses afins para manter interesses diversos como a manutenção de bolsas de pesquisa, parcerias, intercâmbios, patrocínios...

Com Thomas Kuhn: “A ciência normal não se propõe descobrir novidades no terreno dos fatos ou da teoria; quando é bem-sucedida, não os encontra.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 127)

Um novo paradigma tem de conviver, em sua época, com toda sorte de contrariedades, ameaças, críticas (muitas vezes de quem nada sabe do que fala ou escreve), o espanto da classe científica com as possibilidades (ameaçadoras) que se apresentam com os novos olhares e percepções no mundo da ciência.

As novas ideias costumam se apresentar numa forma subversiva, ameaçadora, contraditória ao que se tinha até então, ou seja, trata-se de seminários, publicações, práticas que propõe algo até então desmerecido, distante do que se tinha como metodologia consagrada.

Como a ciência normal se comporta com esses esboços de alma nova que vão surgindo? A história é repleta de exemplos dos tratamentos oferecidos aos precursores em vários campos do conhecimento, poderíamos lembrar as fogueiras patrocinadas pelo índex da igreja católica e seus adeptos, quando mentes brilhantes (homens e mulheres) foram condenadas à fogueira por suas ideias e práticas diferenciadas. Nos dias de hoje as fogueiras são de outra natureza - ideologicamente dissimuladas -, ainda assim, o movimento da vida prossegue para superar os limites, amarras e freios existenciais esparramados pelo caminho.    

O pensador contribui: “(...) alguns homens foram levados a abandonar a ciência devido à sua inabilidade para tolerar crises. Tal como os artistas, os cientistas criadores precisam, em determinadas ocasiões, ser capazes de viver em um mundo desordenado.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 161)

Uma rotina de convívio com a vida desestruturada, recheada de incompletudes discursivas, como tradução dos instantes de travessia entre uma e outra realidade, reivindica uma espécie de profissional diferenciado, apto a conviver e suportar as ameaças ao velho território, num tempo subjetivo, por onde se testam múltiplas variáveis, em busca de um lugar seguro para sua expressividade.

Em Filosofia Clínica, além de se tratar de um novo paradigma terapêutico, onde seus profissionais têm de conviver com a insegurança dos primeiros tempos, da própria natureza da nova abordagem clínica, a qual não trabalha com pressupostos a priori, refém de uma metodologia libertária, onde inexiste um objeto de pesquisa ou tratamento distante da realidade partilhante, mas um sujeito em vias de reconhecer-se numa estrada que lhe pertence.   

Talvez o fato de ser uma novidade radical - a Filosofia Clínica - ofereça um território plástico para a atuação terapêutica, numa interseção entre o filósofo e seu partilhante, apta a oferecer a matéria-prima para a qualidade das intervenções, possa se traduzir em insegurança a alguns estudantes, embora sua estruturação tenha uma fundamentação teórica e prática - muitas vezes de aparência inacreditável - robusta, muitos vão procurar metodologias que deem a ilusão de segurança, com suas retóricas de aspecto infalível, exemplos de casos bem sucedidos, etc. etc.

Em Thomas Kuhn: “Paradigmas não podem, de modo algum, ser corrigidos pela ciência normal. Em lugar disso, (...) a ciência normal leva, ao fim e ao cabo, apenas ao reconhecimento de anomalias e crises.  (...) Os cientistas falam frequentemente de ‘vendas que caem dos olhos’ ou de uma ‘iluminação repentina’ que ‘inunda’ um quebra-cabeça que antes era obscuro, possibilitando que seus componentes sejam vistos de uma nova maneira”. (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 215)  

A correção oferecida pela ciência normal diante de um desvio de rota, uma nova percepção, um desvario de seu ponto de vista, é a constatação de um caos, uma anomalia que precisa ser ajustada, desconstruída. No entanto, como nenhuma dessas possibilidades acontece, e o fenômeno se repete, inaugurando um padrão, essa característica reivindica uma abordagem diferenciada, inexistente a priori, específica a singularidade dos encontros.    

Nesse processo com a fenomenologia das crises, algo novo acontece, alcançando rotas de tradução pela via de uma interseção compartilhada, por onde se descrevem rascunhos de anúncio sobre algo, até então, desconsiderado.

A mudança de perspectiva concede a fenomenologia do estranho uma proximidade apta a traduzir suas verdades, seu ponto de vista, e com ele dialogar, numa proposta para emancipar sua geografia subjetiva.

Um novo olhar sobre velhas problemáticas aparece para qualificar um convívio aprendiz com realidades, até então, significadas como anomalia. Para que esse processo de descobrimento aconteça é preciso um pesquisador apto a conviver com as ameaças de um território desconhecido, em busca de uma matéria-prima em vias de se mostrar.

O filósofo indica: “Creio que existem excelentes razões para que as revoluções sejam quase totalmente invisíveis. Grande parte da imagem que cientistas e leigos têm da atividade científica criadora provém de uma fonte autorizada que disfarça sistematicamente - em parte devido a razões funcionais importantes - a existência e o significado das revoluções científicas”. (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Págs. 231/232)

Existem múltiplas percepções sobre a invisibilidade preliminar das revoluções científicas. Gostaria de destacar que é comum, em países de vocação colonial (dependência econômica, ideológica, educacional, linguística), uma camada de proteção às novas ideias e práticas científicas, especificamente àquelas oriundas de seu meio, usualmente desmerecidas por grande parte dos próprios nativos.

Assim, não é de estranhar que se forme uma rede de proteção ao redor das novas propostas e estudos no campo das ciências humanas. Distanciando a curiosidade comum dos novos territórios existenciais em vias de aparecimento. Não apenas um novo vocabulário está em curso, mas intervenções de acolhimento, interseção, tradução compartilhada e outros, constituem uma linguagem inacessível há quem não se dispõe percorrer um caminho (recheado de desafios e armadilhas) de estudos e desenvolvimento pessoal em direção ao novo paradigma.    

 Thomas Kuhn ensina: “Dado que os novos paradigmas nascem dos antigos, incorporam comumente grande parte do vocabulário e dos aparatos, tanto conceituais como de manipulação, que o paradigma tradicional já empregara. Mas raramente utilizam esses elementos emprestados de uma maneira tradicional. Dentro do novo paradigma, termos, conceitos e experiências antigos estabelecem novas relações entre si.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 247)

Na pesquisa científica se desenvolvem estudos e práticas com base num chão reconhecido, seja para sustentar suas verdades ou para contraditar suas percepções com novas janelas epistemológicas, intuitivas, ao descrever, sugerir, apontar caminhos alternativos ao que se tinha.

Não é apenas o sentido de algumas expressões que se modificam com a superação de modelos científicos, mas também a conexão do que vai surgindo com termos aptos a descrever os inéditos aparecimentos. 

Outra dificuldade na implementação das novas propostas de ciência é a resistência institucional, em experienciar novas rotas em seu campo dos estudos, as quais costumam surgir em contradição com as ideologias da tradição.   

Esses apontamentos preliminares buscam oferecer subsídios ao desenvolvimento dos estudos em Filosofia Clínica, como um novo paradigma em ciências humanas, o qual se mostra apto a dialogar e compartilhar subsídios a diferentes segmentos no campo da pesquisa teórica, estudos de aprofundamento, práticas de consultório, sem perder de vista suas referências filosófico-clínicas.  

Aquele abraço,

hs  

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 74*

 

Notas do consultório do filósofo XII

O texto apresenta uma obra de Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, publicada na Universidade de Chicago em 1970 (primeira edição). Tenho em mãos a 12a. edição, traduzida e publicada no Brasil em 2013 pela editora Perspectiva, na coleção Debates, dirigida por J. Guinsburg.

Esse livro é significativamente importante aos estudos do novo paradigma da Filosofia Clínica, especificamente por apresentar e fundamentar as razões para o surgimento, a fundamentação teórica e prática de um novo campo de atuação em ciências humanas.  

Para melhor compreensão dessa obra, optei por dividir esse esboço em dois momentos, um a partir do ensaio de apresentação do filósofo canadense Ian Kacking (1936-2023), pensador especializado em Filosofia da Ciência, tendo trabalhado nas universidades de Cambridge, Toronto, Collége de France, dentre outras. Em publicações como: “Múltiplas personalidades e as ciências da memória” (1995), “Viajantes loucos: reflexões sobre a realidade das doenças mentais transitórias” (1998). A seguir teremos uma conversação com Thomas Kuhn.

A nova abordagem da Filosofia Clínica reivindica uma espécie diferenciada de gente, com borogodó ao ser terapeuta, mas também com aptidão e competência para suportar os ataques injustos, descabidos, o desmerecimento de alguns contemporâneos. Além de não possuir uma estrutura institucional robusta, recheada de bolsas de pesquisa, publicações, cátedras consagradas, ainda precisa abrir caminho em meio a avalanche crítica para sustentar o status quo ideológico e corporativo em algumas áreas das ciências humanas.   

Ian Hacking em sua introdução: “(...) incomensurabilidade. Essa é a ideia de que, no curso de uma revolução e da mudança de paradigma, as novas ideias e asserções não podem ser estritamente comparadas às antigas. Ainda que as mesmas palavras estejam em uso, seu significado próprio mudou. (...) a ideia de que uma nova teoria não é escolhida para substituir uma antiga, por ser verdadeira, mas, sim, bem mais por causa de uma mudança de concepção de mundo.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 14)

Uma dificuldade em se apresentar a Filosofia Clínica, é a tendência de muitos em querer comparar, ajustar, às novas ideias com aquilo que já se tem. Muitas vezes até uma palavra utilizada para expressar algo novo, como: circunstância, busca, singularidade, pré-juízos, é logo associada (erroneamente) com algo que já se conhece, desvirtuando a originalidade da nova mensagem onde essas expressões têm sentido próprio.  

Não é raro estudantes de Filosofia Clínica, após as aulas teóricas, numa escassa clínica pessoal e uma supervisão pífia, buscarem uma associação com a Psicanálise ou alguma outra vertente da área Psi, muitas vezes em busca de sustentação econômica, institucional, pessoal para sua atividade terapêutica. O caminho inverso também acontece...

A meu ver trata-se de um equívoco, um erro crasso, pois se trata de concepções teórico-práticas, representações ideológicas divergentes, contraditórias, paradoxais. Àqueles que se intitulam filósofos clínicos e psicanalistas, por exemplo, não entenderam uma coisa nem outra! Quando a metodologia Frankenstein - desses incautos - apresentar problemas, ainda vão criticar as instituições por onde passaram.   

As expressões utilizadas para elaborar uma nova proposta terapêutica, como a Filosofia Clínica, embora contenha integrantes do vocabulário comum, tem seu sentido e significado diferenciados, reivindicando um estudo aprofundado de seus desdobramentos em outro contexto de estudos, pesquisa e aplicabilidade. Tentar enquadrar a nova mensagem cuidadora no que já existe, acaba por vulgarizar, desmerecer, desacreditar as novas ideias e práticas clínicas.   

Com Ian Hacking: “A ciência normal é caracterizada por um paradigma que legitima quebra-cabeças e problemas sobre os quais a comunidade trabalha. Tudo vai bem até que os métodos legitimados pelo paradigma não conseguem enfrentar o aglomerado de anomalias; daí resultam e persistem crises até que uma nova realização redirecione a pesquisa e sirva como um novo paradigma.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 29)

O filósofo lembra o fato de que: ‘tudo vai bem até que os métodos legitimados pelo paradigma não conseguem enfrentar o aglomerado de anomalias’, ou seja, nos dias de hoje se multiplicam as síndromes, espectros, transtornos, acrescentando páginas e páginas à bíblia DSM, fonte de inspiração (americana) para muitos terapeutas. Mesmo com a persistente divulgação em palestras, aulas, cursos, as anomalias da ciência normal não cessam de aparecer. Ainda assim, suas instituições tentam se sustentar, embora já se possa notar, cada vez mais, o surgimento de novas abordagens clínicas à margem do sistema oficial.   

As lógicas da contenção e transformação do sujeito em objeto de submissão e controle pela via medicamentosa, não responde mais - se é que um dia respondeu - aos desafios do fenômeno humano em seus momentos de ressignificação existencial. No entanto, seja pela desinformação das pessoas, questões de natureza familiar, econômica, ideológica, a indústria da loucura prospera em sua linha de produção: pessoa nenhuma!  

Enquanto isso, já se vislumbram abordagens e acolhimentos diferenciados, em íntima conexão com a realidade singular. Essas atividades de pesquisa teórica e atuação terapêutica, como a Filosofia Clínica, existem para permitir a vida ensaiar outros rumos ao seu dia a dia.    

Talvez a desconstrução da ênfase na medicalização, possa atrasar sua inscrição (Filosofia Clínica) como especialidade acadêmica, embora algumas universidades já ofereçam a pós-graduação em sua grade de cursos, como a UNESC (Universidade do extremo sul de Santa Catarina), sediada em Criciúma, a qual mantém o funcionamento da especialização há mais de 10 anos.     

O texto indica: “Nós temos a tendência de ver o que esperamos, mesmo quando a coisa não está lá. Amiúde leva muito tempo para que uma anomalia seja vista pelo que ela é: algo contrário à ordem estabelecida.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 33).

A expectativa de alcançar um resultado com base no que se conhece, sob muitos aspectos, oferece armadilhas interpretativas, tendo por base pressupostos anteriores ao aparecimento do fenômeno humano singular. Assim a epoché (redução fenomenológica) auxilia a acolher, qualificar a interseção e compreender as pessoas em seus momentos de estranhamento consigo mesmas e com seu mundo como reapresentação. Muitas vezes, essa perplexidade diante do inusitado eu-outro-eu, oferece contradições com a vida que se tinha.   

Existem tantas maneiras de lidar com as anomalias em um campo de atuação, quantas sejam suas propostas e fundamentos. A maioria - com base na ciência normal - elabora sua defesa para afastar essas manifestações em forma de broto, oferecendo a lixeira da pesquisa para suas ideias desmesuradas. Desmesuradas a partir do que se tinha, até então, mas perfeitamente lógicas para a compreensão das coisas numa outra perspectiva.  

Uma dificuldade em se acolher e superar práticas obsoletas no campo das ciências humanas, é o lugar onde esses eventos acontecem, como: instituições acadêmicas, públicas ou privadas, as quais se encontram bem estruturadas em torno das ideias e abordagens reconhecidas, sustentando uma única via de produção intelectual. Assim se pode entender as reações contraditórias com as novas metodologias que vão surgindo, muitas vezes descrevendo eventos improváveis aos padrões anteriores.  

Os termos agendados no intelecto, em uma ciência normal (Kuhn) se propõe a qualificar e distinguir suas narrativas, sob muitos aspectos, tornando a pesquisa refém de armadilhas conceituais estruturantes das suas verdades. Sua narrativa tem a propriedade de agendar e influenciar as linhas de estudos para sustentar as mesmas coisas. Por outro lado, aparecem evidências de que as palavras encontradas para descrever e apresentar as novas versões ou problemas, até então desconhecidos, anunciam novos territórios existenciais em ciências humanas, muitas vezes proporcionando eventos de crise institucional.  

Ian Hacking diz: “Após uma revolução, os cientistas, no campo que foi modificado, trabalham em um mundo diferente.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013, Pág. 35)

Após os momentos de travessia (tempo subjetivo) entre uma e outra realidade, com mudanças para acolher e estruturar um novo paradigma, quase sempre com desconstruções necessárias para um novo espaço investigativo, até então, considerado anomalia ou distorção metodológica, algo incompreensível se traduz ao olhar das anterioridades, modificando a natureza e o alcance de seus estudos.

A sensação de estar num mundo novo, oferece a mudança necessária para acessar as novas linguagens, um desses lugares onde a natureza se oculta para se preservar. Um método de acolhimento e estudo reivindica uma lógica aprendiz, onde será possível uma aproximação com as fenomenologias do estranho.

Nesse sentido as palavras possuem características de desdobramento em múltiplas faces, tornando possível acolher e descrever as novas realidades, objetivando um olhar, uma escuta ou percepção desmerecida pelos recursos que se tinha. Ainda quando utilizam as mesmas expressões para desvelar algo, estas possuem um sentido afinado com a originalidade em vias de tornar-se.        

O filósofo ensina: “(...) após uma revolução em seu campo, um cientista pode ver o mundo de maneira diferente, ter um sentimento diferente sobre como ele funciona, perceber fenômenos diferentes, ficar intrigado por novas dificuldades e interagir com ele de novos modos. (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 37)

Talvez a maior dificuldade para o surgimento de novos paradigmas (em ciências humanas), seja a sustentação de um processo de travessia, isto é, quando uma nova proposta se apresenta, a partir da ruptura com velhos modelos de estudo e intervenção no mundo das terapias, tendo de sustentar-se em meio às inseguranças, críticas, desvalia das estruturas de pensamento já consagradas, festejadas, em elaborações amplamente divulgadas por todos os meios de propagação para suas verdades. 

Uma investigação com temas desmerecidos pode conter a matéria-prima para novas percepções. Sua estrutura de pensamento aprecia o que foi descartado, muitas vezes oferecendo um extraordinário em vias de anúncio. Ainda assim, as bases de sustentação da vida normal tratam de se manter a qualquer custo, através de leis e normas jurídicas, ideológicas, econômicas, reserva de mercado, corporativismos .... enquanto isso, a novidade vai se instalando nas beiras e periferias da vida reconhecida, qualificando sua atividade em conexão com as comunidades onde são encontradas, acolhidas e representadas por sua relação com as coisas e pessoas de seu meio. Ao chegar a ser uma abordagem institucionalizada, muitos e muitos anos depois de sua criação, o novo paradigma se torna, ele também, uma ciência instituída (normal), reconhecida oficialmente. 

É possível sentir um deslumbramento com a percepção dos novos olhares sobre velhas questões em ciências humanas, bem assim com a descoberta de novos territórios existenciais, contraditórios com os padrões de resolução até então reconhecidos, festejados.   

O ensaio de apresentação de Ian Hacking oferece uma chave de leitura ao texto de Thomas Kuhn, possivelmente pela sintonia de estudos e pesquisas dos dois pensadores da ciência. As palavras de Ian Hacking aproximam as teses de Thomas Kuhn da nova abordagem da Filosofia Clínica.  

Aquele abraço,

hs  

terça-feira, 19 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 73*

"La razón poética – Rosalía de Castro e María Zambrano

 Apresentação da obra da Prof. Dra. Arantxa Serantes

Uma apresentação ou prefácio em qualquer livro, por si só, cumpre vários papéis, dentre eles o destaque do seu conteúdo e a maestria da autora. É o caso da obra: La razón poética – Rosalía de Castro e María Zambrano, de autoria da filósofa e escritora Arantxa Serantes (Galícia), publicada pela editora Literatura Abierta em 2022 na Espanha.

Entre surpreso e agradecido pelo convite, busquei saber mais sobre essas três mulheres extraordinárias: Rosalía, María e Arantxa, para tecer alguns apontamentos, tendo como referência seus originais (resultante de sua tese de doutoramento em Filosofia), um pouco antes de seguirem ao prelo. O texto a seguir trata dessa apresentação bilíngue da obra, ainda sem tradução ao português brasileiro (2026).  

Apresentação:

"O texto de Arantxa Serantes convida a um encontro da poesia com a filosofia. Ao localizar sua fonte de matéria-prima na interseção da poética de Rosalía de Castro com a reflexão de María Zambrano, compartilha um diálogo em sintonia com essas mentes brilhantes. A menção dos desdobramentos existenciais desses manuscritos, destaca a singularidade expressiva dessas mulheres escritoras.

Sua abordagem realiza um agradável passeio pelos bosques da imaginação criativa, onde se encontra a produção literária e filosófica de Rosalía de Castro e María Zambrano. Essa relação acontece na perspectiva de uma ‘razão poética’, por onde é possível identificar seus traços comuns. A autora compartilha uma atividade prática-reflexiva, tendo como fonte de inspiração sua pesquisa histórica, a qual reapresenta um diálogo entre poesia e filosofia. Seus manuscritos destacam o alcance da estética literária, a qual atinge cada leitor de acordo com seu horizonte de possibilidades.

A tese da ‘razão poética’ descrita por Arantxa Serantes, se oferece em uma chave de leitura: “La poesia piensa como no puede hacerlo la filosofia, la poesia conoce como no puede conocer la filosofia. La filosofia piensa metodicamente, la poesia empaticamente; la filosofia onoce lo universal, la poesia particular. Ambas son distintas, pero por distintas, complementares. Ambas aman y buscan la verdade por caminhos distintos que, al final, siempre se unen y encuentram, porque la verdade, em su origem, es una. (...)”.

Nessa perspectiva a autora desenvolve o conceito de ‘razão poética’ de María Zambrano, ao oferecê-la coo um método apto ao acolhimento da singularidade em sua circunstância histórica. Nesse caminho descritivo, analítico, reflexivo, indica o fato desse período no final do século XIX ao começo do século XX, onde se coloca em dúvida a poética na relação com a metodologia científica, resultando em práticas sociais desumanizadoras. Esse pressuposto se insere nos dias de hoje, com a avalanche tecnológica ocupando espaços do fenômeno humano, nem sempre de acordo com sua melhor condição existencial.

O método compartilhado nessas páginas, oferece uma percepção sobre a ótica de ‘um duplo nascimento’, ou seja, um estabelecido pela natureza e outro com base no devir existencial. A ideia de uma estética filosófica, a partir da expressão de Rosalía de Castro e María Zambrano, se oferece em um enredo de múltiplas faces, ora compilado pela maestria de Arantxa Serantes em sua tese de doutoramento. Ao compartilhar esse encontro de singularidades, se resgata uma produção a repercutir sua poética em nossos dias.

Nesse sentido se destaca o olhar da pesquisadora atenta, para além da classificação que separa uma obra e outra, em uma reescrita alinhada com a identificação da unidade na diversidade. Seus apontamentos descrevem ingredientes singulares para tratar de temas universais.  A tese elabora uma escritura, tendo como propedêutica o encontro da poesia com a filosofia. Ao ressignificar a inquietude existencial como uma via de acesso a farmácia subjetiva, se revela uma busca pelo autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, em uma integridade discursiva de onde Rosalía de Castro, María Zambrano e Arantxa Serantes, brotam de uma mesma fonte de inspiração.

A autora contribui: “(...) El parentesco entre las almas de Rosalía e Zambrano parece muy estrecho, pues ambas compartieron experiencias vitales y preocupaciones similares, expressadas em obra de naturaliza linguística y conceptual distintas, más hermanadas em su sensibilidade, expresividad y temas vitales por ellas tratados. (...)”.

Com a ‘razão poética’ é possível acolher e superar as vivências adversas, encontrando na expressividade literária e filosófica, uma abordagem para elaborar as dores da alma. Trata-se de emancipar o território subjetivo em busca de uma desconstrução dos exílios e percalços existenciais. A possibilidade de um renascimento pessoal diz respeito a superação das dificuldades e limites oferecidos pelo cotidiano. O tema recebe um tratamento diferenciado nessas páginas, onde se destaca o olhar atento e a escrita sensível da filósofa ao traduzir seu encontro com Rosalía de Castro e María Zambrano, como uma interseção de originalidades.

O texto ora ressignificado em livro, compartilha um saber com sabor de poéticas da singularidade. Seu teor se inscreve como uma nova disciplina no horizonte da estética filosófica. Seu discurso existencial realiza um convite a uma hermenêutica compreensiva, por onde qualifica o diálogo intersubjetivo, essencial ao processo de abertura e acolhimento do fenômeno humano. Suas páginas, ao indicar uma íntima relação da poesia com o pensamento, elabora um convite para expandir as fronteiras da subjetividade. Em ‘um método-caminho’, reapresenta um humanismo que transpõe os muros da academia para encontrar o mundo da vida.

Ao tecer suas percepções e reflexões sobre essas extraordinárias mulheres, se descreve um universo que se expande pela interseção da realidade com a ficção. Mais que uma distinção entre filosofia e poesia, se refere as semelhanças dos manuscritos de diferentes épocas, bem assim o território de onde surgiram. Os rastros contidos nas páginas de Rosalía de Castro e María Zambrano, proporcionam a identificação de um discurso transcendental.

O fato de se encontrar essas mulheres escritoras nesse período histórico, desafia o status quo, gerando um espanto e desconcerto de se ter um lugar de destaque para a alma feminina, em uma área de hegemonia masculina. A   representação filosófica deste trabalho se traduz em uma poética reflexiva ao exibir suas fontes de inspiração teórica, por onde a autora conduz um agradável passeio pela filosofia contemporânea.

Arantxa Serantes compartilha uma narrativa protagonista em íntima relação com a poética e a filosofia. Sua obra provoca a sensação de que, ao mergulharmos na poesia de Rosalía de Castro e na filosofia de María Zambrano, estamos em sintonia com uma fonte de inspiração da alma Galega. A singularidade plural dessas páginas, ao descrever uma via de acesso a porção de infinito em cada um, elabora uma matéria-prima ao uso poético da racionalidade."

Desejo boas leituras e releituras!"

Aquele abraço,

hs

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 72*

 

Notas do consultório do filósofo XI 

Tenho em mãos um livro que encontrei, ou fui encontrado por ele (nessas coisas, como em todas as outras - como ensina Borges - não se deve ser dogmático!), na cidade de Santa Maria/RS em 1980. Atualizei a leitura dessas páginas por volta de 15/20 vezes até hoje. Essa atividade permite identificar algo novo em cada releitura, uma faceta, um desvão, possivelmente afim com a vida acontecendo entre uma e outra.

Sua referência é significativa pela aproximação e diálogo com as lidas de consultório, uma busca por tradução de algo que restaria intraduzível por completo, não fora a proposta de transcrever alguns aspectos da atividade clínica filosófica. O texto contribui, esclarece, ajuda a entender a nova abordagem clínica e sua menção às poéticas da singularidade.    

Cartas a um jovem poeta e a canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke, de Rainer Maria Rilke, com tradução de Paulo Rónai e Cecília Meireles, respectivamente, é uma edição de 1976, publicada pela Editora Globo de Porto Alegre/RS.

A apresentação da obra por Cecília Meireles, com aquele algo mais dos textos diferenciados, convida o leitor aos conteúdos que se vai encontrar a seguir. Como: “(...) a parte formal da arte acaba sempre por se realizar, quando atrás dela há uma imposição total de vida transbordante.” Essa característica apontada pela escritora está afinada com a abordagem da Filosofia Clínica, no sentido de que por entre os dados de uma expressividade clínica, costumam aparecer múltiplos componentes da vida de uma pessoa. A intencionalidade aprecia esses momentos para descrever uma fenomenologia do partilhante, naquilo que restaria inacessível à percepção comum.  

Rainer Maria Rilke diz assim: “As coisas estão longe de ser todas tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. (...).” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Pág. 21)

O fragmento lembra alguns trabalhos realizados em hospitais psiquiátricos em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, quando se utilizava a esteticidade seletiva como expressão para algumas pessoas destituídas de voz e vez, seja pelo abandono e descaso de sua gente ou pelas intervenções da Psiquiatria, encharcando seus pacientes de psicofármacos, na impossibilidade de uma abordagem acolhedora, compreensiva, apta a compreender e interagir com a singularidade em cada um.

Essas atividades em sintonia com uma ciência diferenciada, traduz o cotidiano do filósofo clínico, o qual encontra em sua metodologia, os meios para acolher e desenvolver as partilhas com o outro da interseção.  

Um pouco antes de ser algo palpável, a expressividade de uma pessoa internada involuntariamente, refém dos tratamentos institucionais (dentro da lei), distante de abordagens que poderiam auxiliar sua expressividade em vias de não-ser, contraditória com a cultura reconhecida do lugar onde se encontra, se oferece ao visar do filósofo clínico como espanto, estranheza. Esses eventos costumam ter uma manifestação diferente do usual, subversiva, contradizendo princípios de verdade estruturantes das metodologias que a tentam conter e tratar, para reconduzir a pessoa à vida normal (seja isso lá o que for!).  

Com o poeta: “(...) há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles. (...) O futuro está firme, caro Sr. Kappus, nós é que nos movimentamos no espaço infinito.” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Págs. 64 e 65).

Uma percepção sobre a natureza e o alcance de uma terapia, se relaciona com a abordagem, a qualidade da interseção e o desenvolvimento do partilhante, tendo como referência o lugar de onde partiu (no início de sua clínica), seus deslocamentos em busca (muitas vezes provisória), para reencontrar-se numa outra forma de existir, viver, conviver.

Essa elaboração resultante da relação do filósofo com seu partilhante, propõe alcançar, traduzir, compartilhar conteúdos, até então, desconhecidos ao próprio sujeito. Esses dados da realidade subjetiva costumam encontrar termos para se manifestar, nem sempre compreensíveis à primeira vista pelo titular de suas verdades.

A ideia do poeta de que um destino se origina na própria pessoa, tem a ver com a possibilidade do partilhante desconstruir e reconstruir sua circunstância singular. Um lugar para ensaiar novas referências para si mesmo sendo outro.     

Um aspecto que diferencia a Filosofia Clínica das demais abordagens terapêuticas, é seu caráter libertário, ou seja, quando diz respeito a um processo singular de transformação e busca para algo que integre e represente sua expressividade.

A categoria tempo, o lugar, a interseção, associados a um devir peculiar, compõem um eixo apto a manter ou modificar uma forma de vida. Muitas vezes, quando a pessoa consegue descrever-se, acessar meios para um processo singular, isso, por si só, pode oferecer matéria-prima para ressignificar suas crises em um novo lugar para viver.

Rainer Maria Rilke contribui: “Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se? Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho (...).” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Pág. 68).

A essência da Filosofia Clínica já estava lá, nas edições iniciais dos cadernos didáticos da formação, apesar de alguns freios metodológicos do autor, foi possível emancipar a mensagem original do novo paradigma, sob muitos aspectos divergente com a intenção de se manter a submissão à lógica alienista, como o caso de vedar atendimentos do filósofo as pessoas com discurso incompleto, raciocínio desestruturado. Dizia-se, naqueles tempos, que se deveria encaminhar ao especialista. 

Após essa desinformação preliminar, e com as atividades em hospitais psiquiátricos (apesar das limitações estruturais), o dia a dia em consultório, aulas, consultorias, foi demonstrado que a nova metodologia era apta a acolher e cuidar da fenomenologia do humano em qualquer de suas formas de expressão. Não se trata da medicina do corpo, mas de uma medicina da singularidade, onde é possível um diálogo inter e transdisciplinar, para qualificar as práticas de cuidado e atenção à vida.  Um desses lugares onde a imaterialidade se encontra com seus paradoxos.

As lógicas de controle aos eventos de ressignificação existencial propõem conter sua expressão, muitas vezes algo que luta para nascer, superando os limites impostos pela alienação familiar, escolar, religiosa, política, sustentam uma ideologia voltada para uma normalidade distante de alguém em vias de tornar-se.

O poeta compartilha: “(...) não pense que aquele que o procura consolar leva uma vida descansada no meio das palavras simples e discretas que às vezes fazem bem ao senhor. A vida dele comporta muito sacrifício e muita tristeza e fica-lhes muito atrás. Mas se assim não fosse, ele nunca poderia ter encontrado aquelas palavras.” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Pág. 70)

Com essas palavras o autor torna possível compreender o sentido da expressão borogodó em Filosofia Clínica, talvez até, em outras profissões cuidadoras, quando se associam - na estrutura de pensamento - um constructo de sensibilidade, competências, habilidades para cuidar e ser cuidado. O papel existencial conjugado a uma expressividade de maestria, acontece como um desdobramento de múltiplas interseções clínicas, desenvolvidas na superação de obstáculos, freios existenciais, camisa de força institucional, por onde é possível acessar ideias, sensações, formas de viver e conviver diferenciadas, muitas vezes distantes das normas e leis estabelecidas, para encontrar o sujeito singular.

Não é preciso regrar essas estruturas de pensamentos singulares, com raras aptidões ao ser cuidador em qualquer abordagem, mas acolher e trabalhar as especificidades que a integram, como uma obra-prima da natureza humana a transgredir as lógicas da submissão ideológica. Ao sujeito assim pensado, além das buscas por superar suas contradições subjetivas, ainda terá de conviver com a dessintonia de seu meio, o qual, muitas vezes, não o compreende por viver assim.   

Um dado que se apresenta na vida de um cuidador - como uma fonte de inspiração - em suas atividades terapêuticas, é a inquietude e a insubmissão com as intervenções para produzir e sustentar estruturas que degradam o sujeito, como: a internação involuntária, a indústria de psicofármacos, a medicalização psiquiátrica, a equivocidade de se destituir a pessoa em vias de não-ser de sua manifestação singular. Nesse sentido, ser transgressor, em qualquer de suas formas, pode significar uma medicina para superar os muros e cercas da alienação institucional, perseguindo um lugar melhor para se viver.

Aquele abraço,

hs