Sobre textos extraordinários
Em 2012, recém chegando à Porto
Alegre, buscava me inteirar sobre as transformações da cidade, àquilo que
permanece enquanto muda, especificamente suas livrarias, cinemas, cafés, refúgios
desconhecidos ... Foi assim que, numa visita à livraria Cultura, após uma
sessão de cinema, me encontrei com uma obra excepcional: “O Arco e a Lira” de
Octávio Paz, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht para a editora Cosac naify/SP.
2012.
Nessas aproximações da Literatura
com a Filosofia Clínica, muitas vezes é preciso transgredir os agendamentos da
tradição interpretativa, a qual distorce originais para imprimir generalizações,
patologias narrativas. Os apontamentos desse texto, ao compartilhar releituras
de aprendiz, busca descrever o extraordinário da expressão singular.
Embora o escritor mexicano tenha
sido agraciado com o Nobel de Literatura em 1990, não se trata de evidenciar
suas conquistas, mas as possibilidades de diálogo com o ser humano incomum, sua
produção literária em relação a nova abordagem clínica.
O prólogo do autor, de 1967: “O
arco e a lira. O título vem de Heráclito e alude à luta dos opostos que a
poesia transforma em harmonia, ritmo e imagem.” (O arco e a lira, 2012. Pág.
15)
A nova metodologia, com base na
Filosofia, acolhe as contradições existenciais como um eixo em vias de
ressignificação. Não como uma patologia a ser curada ou reconduzida a
uma fôrma de normalidade.
Uma estrutura de pensamento em
busca de si mesma, pode precisar de um caos transformador, para superar
referências que a oprimem, para superar muros em direção a outro si mesmo.
Em uma interseção com as lógicas
do instante precursor, o que se apresenta são inéditos refúgios, muitas vezes
desconhecidos do dicionário comum. Estes textos se propõem a conviver com a
expressividade incompreendida, presente no cotidiano de cada um.
O filósofo Heráclito de Éfeso
(540 a.C. - 470 a.C.), do qual nos chegaram fragmentos de seus escritos, ensina
uma lógica dialética, sob muitos aspectos desconhecidos. Torna possível ressignificar
anomalias e paradoxos em poesia, harmonia, como indica o escritor, numa relação
muito íntima com a Filosofia Clínica, a qual não trata desajustes existenciais
como anomalia ou doença mental. Propõe compreender as contradições como
resultantes de uma circunstância, nem sempre acessível pelo que se tem.
Em Octávio Paz: “(...) o poema é
apenas isto: possibilidade, algo que só se anima em contato com um leitor ou um
ouvinte. Há um traço comum a todos os poemas, sem o qual eles nunca seriam
poesia: a participação.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 33)
As lógicas da interseção singular
acolhem, convivem, compartilham, deslocam, reencontram pessoas nos momentos
privilegiados da terapia, semelhante às relações do leitor com a obra de arte
em forma de palavra.
Uma possibilidade de se efetivar
um processo existencial desconstrutivo, encontra, nos eventos da hora-sessão,
um território propício aos experimentos do partilhante, o qual se integra a um
lugar protegido das métricas distorcivas para seu devir em forma de anúncio.
Os ânimos de um e outro
integrantes das interseções clínicas, apreciam ajustar e desajustar-se como
práticas num esboço de algo por vir. A natureza e o alcance do acolhimento
costumam indicar a qualidade da abordagem terapêutica, a qual necessita de uma conjugação
de estruturas de pensamento entre o filósofo e o partilhante.
A participação de que fala o
autor, se aproxima de uma condição fundamental a Filosofia Clínica, ou seja, um
estado de cooperação clínica, sem a qual restaria uma apropriação do sujeito
como objeto, muito comum nas abordagens da tradição, onde o profissional,
detentor de uma especialidade, assume as rédeas de um tratamento, distante do
território existencial do outro sob seus cuidados, ressignificado, a partir de
então, como uma extensão dos agendamentos distorcivos da sua singularidade.
O poeta ensina: “Graças à poesia,
a linguagem reconquista seu estado original. Em primeiro lugar, seus valores
plásticos e sonoros, geralmente desdenhados pelo pensamento; depois, os
afetivos; e, por fim, os significativos. Purificar a linguagem, tarefa do
poeta, significa devolver-lhe sua natureza original. (...) A palavra, em si
mesma, é uma pluralidade de sentidos.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 55)
Octávio Paz lembra Wittgenstein,
ao referir a palavra como portadora de uma pluralidade de sentidos.
Assim se pode entender a dimensão de uma busca por significar, pela expressão
de quem se diz, como se diz, por onde se diz, como proposta para expansão de
suas fronteiras existenciais, em direção a algo ainda sem nome, um produto
diferenciado da terapia.
O estado original da linguagem,
como indica o escritor, encontra na poesia seu território de excelência,
possivelmente por reencantar uma tez de expressividade apta a ampliação do seu ser
sujeito numa história que lhe pertence.
A plasticidade desses ensaios do
partilhante, em relação a um si mesmo que se desloca, rascunha inéditos por
múltiplos endereços existenciais, nem sempre acessível a uma só epistemologia.
Quando o escritor diz: purificar
a linguagem é devolver-lhe sua natureza original, sugere algo que se perdeu
pelo caminho. Imprime a suspeita de que o entendimento dos princípios de
verdade, possam desperceber as expressões do devir singular. Num território
assim pensado, uma definição de doença mental se encaixa como mão e
luva, para definir o que é e o que não é: normal, anormal, possível,
impossível.
Em Octávio Paz: “(...) ambos
(Yeats e Jiménez) chegam à velhice para escrever seus melhores poemas. Sua
corrida em direção à morte foi uma corrida para a juventude poética. Em todas
as suas transformações, Jiménez foi fiel a si mesmo.” (O arco e a lira, 2012.
Pág. 100)
A terapia é um lugar onde se pode
aprender mais e melhor sobre si mesmo. Desenvolver-se em direção àquilo que lhe
pertence por inteiro, sem pedir emprestado uma matéria-prima diversa do que lhe
toca como expressividade.
Um texto de 2007, “Poéticas da
singularidade”, publicado pela E-papers/RJ, apresenta indícios sobre a
fenomenologia do estranho em cada um, algo que se insinua em momentos raros, muitas
vezes inacessível ao próprio titular. Sem contar os momentos em que sal
manifestação é debelada à golpes pela intervenção alienista e seus cúmplices.
Talvez seja a velhice o período
da vida mais desvalorizado pelos princípios de verdade, ou seja, quando algumas
pessoas conseguem atingir algo considerado utópico, impossível, recheado de
desvalia pelas modas, pelos agendamentos da propaganda para se vender frente ao
espelho.
Em caso de uma pessoa conseguir aproveitar
seu território existencial - como se encontra - como base, para transgredir
adversidades, ressignificando o que lhe acontece como matéria-prima, os anos de
vida podem ser cúmplices dessa trajetória para si mesma.
O poeta compartilha: “A poesia é
metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso faz fronteira com a magia,
a religião e com outras tentativas de transformar o homem e fazer ‘deste’ e
‘daquele’ o ‘outro’ que é ele mesmo.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 119)
Ao anunciar uma trajetória
diferenciada, as poéticas da singularidade evidenciam íntima relação com um
processo (autogenia) de libertação em cada um, isto é, quando a pessoa atualiza
suas memórias para qualificar seu discurso existencial.
Em uma desconstrução preliminar a
uma reconstrução pessoal, o sujeito de sua condição, em vias de tornar-se, vivencia
múltiplas ideias, sensações, ensaios em direção a um si mesmo que já existia como
promessa ou delírio, refugiado em suas margens e periferias.
A alquimia, magia, religião,
filosofia, poesia, podem ser ingredientes de aproximação compreensiva com a
vida, um pouco antes de tornar-se. As contradições apreciam ensaios de
transformação, em um contexto de vida onde a pessoa se desencontra.
Algumas vezes a matéria-prima
para qualificar expressividades, pode significar uma atualização de ajustes,
para a manutenção da vida como ela está. Noutras, pode significar uma rebeldia
com as amarras de contenção em uma não singularidade.
Com o escritor: “Tudo muda porque
tudo se comunica. (...) Podemos mudar, ser pedras ou astros, se conhecermos a
palavra justa que abre as portas da analogia. O homem mágico está em
comunicação constante com o universo, faz parte de uma totalidade na qual se
reconhece e sobre a qual pode agir.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 227)
Um devir autogênico, em suas
experimentações, se desloca por territórios diferenciados, onde o sujeito de
suas possibilidades se exercita em múltiplas direções existenciais, muitas
vezes na companhia imprevisível dos seus recomeços.
A percepção de que tudo muda,
porque tudo se comunica, vincula-se a uma estrutura de pensamento, um lugar
para se conhecer a geografia interna, onde se registram os dados sobre a vida
de cada um. Ao ingressar num território assim descrito, o filósofo terá de
qualificar as idas e vindas intelectivas da recíproca e da inversão, para
conhecer e traduzir compartilhando a matéria-prima do outro lado da interseção
clínica.
Num espaço assim descrito, existem
alternativas de ser e não-ser, isto é, quando uma pessoa se coloca em um
processo de abertura, investigação compartilhada e transgressão em busca de superar-se,
algo distante da lógica dicionário acontece.
Octávio Paz ensina: “Ser si mesmo
é condenar-se à mutilação porque o homem é apetite perpétuo de ser outro. (...)
O homem é o inacabado, embora seja cabal nessa inconclusão; e por isso faz
poemas, imagens, nas quais se realiza e se conclui sem nunca concluir
totalmente.” (O arco e a lira, 2012. Pág. 274 e 275)
A noção de incompletude
existencial, auxilia a elaborar uma via de acesso ao devir singular, quando
este faz e refaz escolhas, experiencia hipóteses na pluralidade de seus
originais. Algo novo aparece pelos termos agendados no intelecto, quase sempre inacessíveis
às epistemologias da multidão.
Em uma busca por preenchimento
existencial, é comum as pessoas elegerem as verdades do consumo para saciar a
fome de si mesmas. As lógicas de vitrine apreciam a mescla entre sujeito e
objeto, quando uns e outros se confundem para abastecer suas armadilhas
existenciais.
Com o poeta, a vida comum se reapresenta
em poéticas da singularidade, oferecendo rotas para superar o deus dinheiro. Uma
busca por emancipar o aroma das flores no campo, nos jardins, caminhar na beira
da praia sem pressa, saboreando as sensações de um percepcionar em interseção com
o ritmo das marés, os tons e sobretons de suas águas, as quais, ao ser as
mesmas, já são outras águas.
O patrimônio imaterial em cada
um, aprecia desenvolver-se em anúncios de periferia, à margem dos rituais
reconhecidos, festejados pela autenticação do notário. Nesse sentido a poesia,
a música, o teatro, a literatura, descortinam um espaço de vida incomum. Uma
leitura assim pensada, pelas páginas de um texto extraordinário, encontra-se em
transgressão das fronteiras do provável.
Aquele abraço,
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