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Bom dia! Descrituras é um espaço artesanal para alguns esboços de minha autoria. Boa leitura!

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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 68*

Notas do consultório do filósofo VII

A obra: Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, de autoria da escritora Marie Beynon Ray teve sua primeira edição em junho de 1945. O título original é: Doctors of the mind, traduzido para o português como: Médicos do espírito. A edição brasileira é tradução de Juvenal Jacinto para a editora Globo, no ano de 1965.

Esse livro se deixou encontrar em 2003, numa prateleira distante do primeiro olhar, num endereço de livros raros e esgotados em Porto Alegre. Um desses lugares onde se refugiam os inéditos à espera de uma interseção. O texto trata de questões referentes à prática clínica, inicialmente cuidando do tema da Psiquiatria e seu nascimento como ciência da mente. Nos dias de hoje, essa disciplina e coadjuvantes, sob muitos aspectos, traduz sua atividade como consequência das crenças e percepções da biologia, da química, contribuindo com os lucros faraônicos da indústria de psicofármacos, passando longe das causas estruturais dos desajustes e contradições somáticas.  

Talvez não seja acaso o surgimento de novas abordagens terapêuticas, reencontrando o fio da meada que se tinha perdido pela pesquisa refém de seus patrocinadores, dos consumidores desinformados, a ideologia dos princípios de verdade. É possível vislumbrar um muro metodológico, no que se refere à atividade das terapias de base Psi, onde prospera a camisa de força da lógica alienista. Noutras palavras, quando não se sabe o que fazer, encaminha-se o paciente ao Psiquiatra, o qual também não saberá o que fazer. No entanto, legalmente, poderá medicar, internar, conter a expressividade nascente da pessoa para adequá-la aos padrões de normalidade de sua época.  

O período histórico (a circunstância) onde a obra se escreve, tem a ver com os primeiros pensadores da nova área de estudos e intervenção clínica, como: Freud, Jung, Mesmer, Adler... Os quais cuidavam das questões existenciais de forma livre, destituída de vínculos com as ideologias do consumo e submissão do fenômeno humano. Essas mentes brilhantes, ainda hoje mantém seu séquito de seguidores, repetindo sua mensagem, em publicações, biografias, quadros, estátuas, igrejas, demonstrando uma submissão teológica aos seus escritos e ideias, que faziam sentido em determinada época histórica, de acordo com a pesquisa, os estudos, as possibilidades de seu tempo.   

Marie Ray lembra Mesmer: “(...) devia acontecer, raciocinou, que certos pacientes resistiam a esta influência. O doente deve desejar sinceramente ficar bom, deve ter confiança no seu médico, e cooperar com ele; caso contrário, não alcançará nenhum benefício com seus tratamentos. A este laço de simpatia, a esta compreensão mútua entre paciente e médico, ele deu o nome de rapport.” (Médicos do espírito, 1965. Pág. 66).

O fragmento contribui com a reflexão sobre a qualidade das interseções clínicas, ou seja, a natureza do encontro terapêutico entre o partilhante e o filósofo clínico. Esses desdobramentos da hora-sessão prosseguem no cotidiano da pessoa, desconstruindo e reconstruindo sua estrutura de pensamento de acordo com as atividades no espaço terapêutico formal.

A busca por uma terapia, traz consigo um pré-requisito - pelo viés partilhante - que se denomina vontade de melhorar. Um processo investigativo compartilhado deve conter esse ingrediente como base das suas intervenções, em busca de melhores dias para a pessoa.

Assim se pode entender a dificuldade em trabalhar com quem chega ao consultório com resistências, contrariedade em se trabalhar, boicotando a atividade clínica com tramas existenciais para sustentar sua dor, muitas vezes associando essa a sua integridade.

A qualidade da interseção clínica, em qualquer uma de suas formas, será imprescindível para sustentação da terapia. Não se trata somente de uma relação positiva e de entendimento compartilhado, muitas vezes a interseção negativa contêm ingredientes significativos para a atividade do filósofo. Lembrando, ainda, as transições pelas interseções mistas, indefinidas, as quais integram um rol de matéria-prima refugiada na estrutura de pensamento do partilhante.

Com Marie Ray: “Mas quando os seus pacientes estavam mesmerizados, Braid verificou, como todos os mesmeristas diziam, que efetivamente estavam num estado mental muito diferente do seu estado normal. Podia fazer com eles uma porção de coisas que não podia quando estavam acordados. Eram dóceis e receptivos, e ele podia injetar em seus espíritos ideias que de algum modo – não sabiam como – curavam os seus males.” (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 75).

Esse aspecto, trabalhado pela autora, diz respeito à circunstância da clínica, ou seja, um constructo de ingredientes que constitui o espaço terapêutico como um lugar privilegiado às construções compartilhadas.  

O estado mental do partilhante, a partir de sua abertura, costuma contribuir com sua expressão e partilha. Muitas vezes o filósofo terá de superar os primeiros encontros, quando a pessoa chega com propósitos para desmerecer a atividade clínica. Com isso, a contradição entre não se trabalhar e a busca por melhores dias, pode significar um ponto de partida aos eventos da hora-sessão.

A autora, ao descrever um estado mental muito diferente do seu estado normal, auxilia o entendimento sobre esse encontro da pessoa consigo mesma na hora-sessão. As modificações da estrutura de pensamento cuidam para ajustar seu funcionamento, de acordo com as resultantes da terapia. Trata-se de um processo diferente da medicalização da Psiquiatria, a qual oferece uma sensação quase imediata de alívio e melhora, para, a seguir, apresentar uma fatura gigantesca de submissão, dependência química, distanciamento da pessoa das suas possibilidades existenciais.  

Em Filosofia Clínica sua abordagem reivindica, além da interseção de qualidade, a intimidade com a metodologia, isto é, respeitar suas etapas de cuidado e atenção à vida, tendo como referência uma circunstância, estrutura de pensamento, submodos (encontrados na farmácia subjetiva do partilhante ou construídos de forma a auxiliar seu desenvolvimento).

A autora lembra de John Jacob Abel, considerado o pai da endocrinologia e compartilha: “Nós os seres humanos, somos farmácias ambulantes, dizia ele. E não o disse por causa do material que introduzimos em nós, senão por causa do material que fabricamos internamente.” (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 103).

Talvez aspectos da medicina antiga, hoje em dia pretensamente superados pela indústria farmacêutica, sejam ainda revolucionários, especificamente no que diz respeito à possibilidade da pessoa encontrar, em seu constructo interno, a maioria dos medicamentos de que necessita.

A ilusão - persistente em nossos dias - de irmos à farmácia para comprar um remédio para dor de cabeça, debelando esse desconforto quase de imediato, sem tratar suas causas, parece estar relacionada a forma de vida que se está implementando. É raro alguém se ocupar com a investigação desses indícios e sinais, muitas vezes escolhendo um cotidiano contraditório consigo mesmo.   

O trajeto para localizar a farmácia subjetiva em cada pessoa é singular, reivindica um estudo compartilhado, uma busca por conhecer e acessar a estrutura de pensamento do partilhante, tendo por base sua história de vida circunstanciada. Com isso pode ser necessário superar as crenças e os freios existenciais contidos em determinados princípios de verdade, tendo como eixo o consumo disseminado de medicamentos, hoje oferecidos em armazéns, mercados, farmácias (que se multiplicam nas esquinas desse país).  

Marie Ray contribui: “Jung disse que todos, mesmo as pessoas regularmente felizes, aparentemente bem ajustadas, com uma vida sexual satisfatória, precisavam do auxílio de um psicólogo experiente. (...) Porque há algo no homem, disse ele, que vai além de suas necessidades materiais (...). (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 126).

Os avanços da ciência se apresentam como: adição, subtração, contradição, derivação, sobreposição de estudos, desconstrução, pesquisas, onde as descobertas anteriores não devem ser esquecidas, por servirem, muitas vezes, como base (ciência normal ou novos paradigmas) ao conhecimento posterior.

A superação de modelos de intervenção no cuidado e atenção à vida, deve significar um desenvolvimento dos estudos, especificamente da atividade clínica voltada para a prevenção e busca da qualidade de vida. Nesse sentido, ao reler os clássicos, é necessário investigar e refletir sobre esses escritos, tendo como referência as novas percepções e evidências da prática de consultório, muitas vezes atualizando ou superando discursos existenciais reconhecidos.   

A constatação de que há algo no homem, que vai além de suas necessidades materiais, indica a necessidade de um estudo circunstanciado a cada atendimento, ou seja, a busca pela singularidade contida na abordagem da Filosofia Clínica.

Talvez os agendamentos escolares da escola de medicina, onde se reconhece a máquina corpórea, seu funcionamento, anomalias, a estrutura significativa somática, ofereça aos futuros médicos - mesmo aos melhores - um agendamento limitante aos seus estudos e práticas. No caso de mentes brilhantes como: Mesmer, Freud, Jung..., apesar de sua formação médica, buscaram transgredir os limites de sua área, para encontrar o fenômeno humano numa epistemologia das ruas.

Uma abordagem clínica eficaz traduz sua melhor versão nos eventos de consultório. O espaço de trabalho do filósofo clínico se conjugam no consultório particular, hospitais públicos, ou onde se acumulam pessoas distanciadas de sua melhor possibilidade existencial, manifestando eventos somáticos multifacetados, reivindicando da medicina do corpo, um esforço para entender e acessar algo cujas raízes se encontram noutro lugar. 

Aquele abraço,

*hs

domingo, 19 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 67*

Notas do consultório do filósofo VI 

A circunstância partilhante é um fundamento da atividade clínica do filósofo. Com ela e a partir dela, se institui um lugar, uma base, um chão, onde se desdobram os eventos da interseção terapêutica. Trata-se de uma localização existencial de natureza singular. Seu ponto de partida costuma ser um assunto imediato, uma queixa preliminar, um território subjetivo que vai se apresentando, de acordo com a representação de mundo do partilhante.  

Nesse pedaço de chão é possível acolher e descrever a matéria-prima com a qual o filósofo irá trabalhar. Desprezar essa etapa da investigação clínica é desajustar a própria metodologia, a qual tem por pressuposto um estudo aprofundado e compartilhado dos eventos que integram a singularidade, um pouco antes de uma visibilidade da sua estrutura de pensamento e submodos.

Além de alcançar subsídios a atividade clínica do filósofo, o partilhante, com seu discurso existencial, pode reescrever os dados de sua história, atualizar memórias, acrescentar ingredientes, atualizar sua estrutura de pensamento. As revisitas a historicidade, tendo em vista sua circunstância, adicionam, subtraem, vivências de acordo com as especificidades que vão se apresentando.

Essa aprendizagem compartilhada na terapia, quando desprezada, desconstrói a metodologia, transformando sua proposta de emancipação do sujeito em refém do que já existia. Talvez esse fato ajude a entender a busca de alguns aprendizes, em transitar de uma abordagem para outra, tentando agregar conhecimento, quando na verdade, estão desvirtuando métodos contraditórios, excludentes. Algo que irão entender nas suas tentativas (frustradas) de trabalhar em consultório.  

Sei que a propaganda, os discursos, a retórica de profissionais das ciências humanas convencem muita gente, seja por sua titulação acadêmica, agendamentos de repetição, a persistência em velhos mantras sobre normalidade x anormalidade, saúde x doença, cura x loucura. Aliam-se a este estado de coisas a desinformação das pessoas, que muitas vezes buscam no palavrório fácil de um saber-poder institucional, uma proposta agradável a seus interesses.  

Assim a circunstância de uma pessoa reivindica um convívio continuado com seu endereço existencial em vias de atualização - seja para mudar ou sustentar o próprio território -, experienciando rotas numa investigação compartilhada.

Félix Guattari indica: “O que importa, primordialmente, é o ímpeto rítmico mutante de uma temporalização capaz de fazer unir os componentes heterogêneos de um novo edifício existencial.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 32).

Com a recuperação dos fatos registrados na memória, conhecida como historicidade, pela via da interseção qualificada, o filósofo clínico poderá reconhecer os deslocamentos, as idas e vindas, os ensaios, as modificações, a atualização discursiva existencial da pessoa. Muitas vezes o partilhante irá testemunhar as bases de sustentação do seu cotidiano desaparecer, sob forma de dúvidas, questionamentos, contradições, desestrutura, incompletude discursiva, como evidências de uma estrada nova que se insinua diante do olhar.

Os eventos dessa transição entre uma e outra realidade, costumam abastecer a estrutura de pensamento do partilhante com novas visões de sua circunstância, contribuindo para modificar sua percepção sobre as coisas, pessoas, territórios existenciais em vias de desconstrução.  

A travessia por essas pontes de si mesmo pode reivindicar uma interseção diferenciada (consigo mesmo, pessoas, lugares, tempos...) para sua continuidade, embora, algumas vezes, o partilhante possa escolher regressar ao antigo endereço existencial, fazendo pequenos ajustes para manter aquilo que tinha.  

Em Félix Gattari: “(...) cabe-nos redescobrir uma forma de ser do ser, antes, depois, aqui e em toda parte, sem ser, entretanto, idêntico a si mesmo; um ser processual, polifônico, singularizável, de texturas infinitamente complexificáveis, ao sabor das velocidades infinitas que animam suas composições virtuais.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 64).

As dialéticas do inesperado apreciam esses deslocamentos entre uma e outra realidade, ainda quando se mantenha num chão existencial conhecido. Uma fenomenologia do novo aprecia se anunciar num devir singular. A circunstância onde algo assim acontece costuma se reapresentar como algo diferente, na proporção desses reajustes da estrutura de pensamento com seu entorno.

Os trajetos compartilhados na historicidade, ao serem recuperados pela lógica partilhante em vias de ser e não-ser, constituem uma teia de significantes e significados em busca de algo mais. Rever e atualizar eventos cristalizados na malha intelectiva, pode contribuir para superar algo interditado antes de nascer.  

A polifonia referida pelo pensador se associa a esses ensaios para um si mesmo sendo outro. Um lugar onde suas referências possam exercitar aquilo até então desconsiderado, um refúgio para rascunhar versões para depois de amanhã.

Um contexto assim reivindica uma singularidade para se oferecer ao visar de escuta do filósofo clínico, ou seja, é necessário superar as cercas e muros das tipologias para enxergar além da obviedade de uma narrativa classificadora, de onde se acenam verdades recheadas de não-verdades, distorcendo a fenomenologia do partilhante em instantes de travessia.  

Com Félix Gattari: “Ao invés de se abandonar ao horizonte de morte capitalístico, uma política de produção de vida é possível, não para repeti-la tal como ela era há cem ou dois mil anos, mas para produzir formas mutantes segundo coordenadas atualmente imprevisíveis.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 87).

O sistema capitalista elabora prisões e amarras para sustentar suas armadilhas conceituais, ou seja, ao manter as pessoas reféns de uma lógica de consumo, encontra forças para sustentar a ideologia do deus dinheiro. Para tanto, encontra na classificação psiquiátrica e coadjuvantes, aliados para a normalidade dos psicofármacos.

Uma possibilidade de se produzir forças mutantes, como lembra o filósofo, tem a ver com essa dinâmica de consultório, onde, muitas vezes, a categoria lugar - integrante da circunstância - se modifica para acolher a singularidade em processo de transgressão para si mesma.    

A estrutura dessas modificações é de natureza plástica, dinâmica, onde se desenvolvem hipóteses, experimentos, novas rotas para um sujeito que se desloca com a imprevisibilidade de um devir. Por outro lado, na mesma direção, ao sustentar uma determinada circunstância existencial, a pessoa pode realizar suas buscas e derivações de acordo com uma proposta para manutenção do que possui.

O pensador nos auxilia: “Não apenas eu é um outro mas é uma multidão de modalidades de alteridade. (...) A heterogeneidade dos componentes – verbais, corporais, espaciais... – engendra uma heterogênese ontológica tanto mais vertiginosa na medida em que se enlaça atualmente com a proliferação de novos materiais, de novas representações eletrônicas, de uma retração de distâncias e de um alargamento dos pontos de vista.”  (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 121).

Os horizontes existenciais em cada pessoa costumam adormecer diante das insinuações e atrativos dos princípios de verdade. Assim, estar diante da tv, frequentar lugares da moda, acessar redes sociais, costuma significar uma cumplicidade com um processo de manipulação e controle. A vida no fundo da caverna de Platão atualiza suas metodologias para sustentar as ideologias do consumo.   

Nesse sentido, a categoria circunstância pode aparecer recheada de freios existenciais, limites artificiais, direcionamentos institucionais (como a burocracia excessiva por exemplo), escolas para ensinar como se portar, o que valorizar, para onde se dirigir, igrejas para orar ao deus dinheiro...

As indicações dessa natureza costumam se apresentar nas dinâmicas de consultório, as quais podem ajustar ou desconstruir essa realidade. As buscas costumam se alinhar para um lugar favorável ao devir partilhante. A circunstância da hora-sessão compõe um refúgio aos ensaios de vida nova, uma espécie de bolha onde se refugiam duas ou mais pessoas em busca de algo mais.

Um alargamento dos pontos de vista, como descreve Gattari, se relaciona com esses deslocamentos para visualizar e sentir as dinâmicas do novo território em vias de anúncio. As lógicas do espanto costumam acompanhar esses momentos de transgressão territorial, por onde se ensaiam possibilidades em forma de broto.

Ainda quando o partilhante se apresenta como desestrutura, manifestada em palavras, gestos, ideias, escolhas meteóricas e de aparente sem sentido, é possível identificar - pela via da interseção - algo que se prepara para nascer e ressignificar uma condição singular. Cabe ao filósofo clínico acolher, aprender os ritmos, a linguagem, a expressão em vias de ensaio para um si mesmo, num lugar onde a circunstância se modifica com a transformação daquilo que a sustenta.

Aquele abraço,

*hs  

domingo, 12 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 66*

Notas do consultório do filósofo V*

É interessante notar, quando alguém avalia, classifica, engessa, procura entender algo novo no mundo da vida, a partir de referências epistemológicas cristalizadas. Esse mesmo dispositivo, que pode servir para estruturar a representação de uma pessoa, como ensina Schopenhauer, pode - dependendo de seu uso - limitar a visão das coisas, ao não se permitir conviver com uma lógica aprendiz em seu cotidiano.

Um aspecto que chama atenção em Filosofia Clínica é a estrutura de pensamento que abastece uma interseção, a qual reivindica uma postura investigativa compartilhada, com base numa estética do encontrar. Um ângulo que inaugura um determinado lugar, um ponto de cooperação, tendo por norte o território subjetivo do partilhante. Endereço existencial por onde o filósofo transita para conhecer a perspectiva do outro, a qual se apresenta em tempo, lugar, linguagem própria, muitas vezes amparados por um discurso existencial em deslocamentos de autogenia.    

A intencionalidade de John Searle auxilia a entender os rumos dessas expressividades, preliminarmente bem ajustadas, para contar sua versão das coisas até onde consegue se manter. Depois disso as palavras parecem se divertir ao compartilhar rastros e anúncios para algo mais. Assim, o filósofo dedica sua escuta fenomenológica para acolher e aprender sobre a natureza desses achados que transbordam os rumores preliminares.

Em uma leitura compartilhada nos eventos da hora-sessão, a qualidade da interseção pode se modificar, de acordo com os aparecimentos e desaparecimentos da matéria-prima que integra a estrutura de pensamento singular.

Umberto Eco auxilia: “(...) a única alternativa a uma teoria radical da interpretação voltada para o leitor é aquela celebrada pelos que dizem que a única interpretação válida tem por objetivo descobrir a intenção original do autor.” (Interpretação e superinterpreação, 1997. Pág. 29).

O pensador italiano contribui com a reflexão sobre esses eventos nem sempre possíveis de descrever apropriadamente, isto é, o que se desdobra e se realiza no acolhimento de um assunto imediato, tendo como referência a natureza e o alcance da interseção que vai se constituindo, como uma ponte a permitir um trânsito de lado a lado por suas margens.

Por essas idas e vindas algo mais se realiza, levando em conta o território subjetivo e o discurso existencial do partilhante, o qual vai abastecendo o filósofo clínico com sua versão das coisas, recuperando sua historicidade, atualizando sua percepção sobre aquilo que se foi, muitas vezes reaparecendo em nova versão.  

É fundamental compreender o outro a partir de seu território existencial, sem ficar refém de suas convicções, pois estas podem conter labirintos, armadilhas, desvãos, que o próprio titular desconheça. Para isso, o filósofo terá de exercitar sua inquietude criativa para descobrir outras rotas ao partilhante, em vista de freios existenciais descabidos.    

Em Umberto Eco: “Poder-se-ia dizer que um texto, depois de separado de seu autor (assim como da intenção do autor) e das circunstâncias concretas de sua criação, flutua no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis.” (Interpretação e superinterpretação, 1997. Pág. 48).

Com isso se pode pensar sobre a estrutura significativa de uma expressão, o quanto ela permanece íntegra com a autoria, após sua partilha, independente da semiose que utilize para se contar. Os textos existenciais vivenciados no cotidiano, imprimem suas versões nessa página singular, a qual desconstrói, acrescenta, renova seus esboços em forma de vida.  

A essência do rumor que anuncia, se insinua em meio a matéria-prima da intencionalidade, um desses caminhos por onde a fenomenologia do humano se apresenta, ainda quando se propõe omitir algo para si mesmo. 

Um ser multifacetado aprecia transgredir as lógicas da vida comum. Sua expressão oferece, em linguagem própria, nem sempre compreensível ao olho nu dos consensos, uma variedade de possíveis, ao descortinar facetas da realidade tidas como improvável ou incomum, acrescenta algo novo à vida que se tinha.

As páginas de uma obra que se elabora no mundo da vida, tem por companhia o ingrediente das suas relações. O percurso das calçadas, as vitrines, os cafés e livrarias, os aromas do jardim, o canto dos passarinhos, os sinos da igreja, as vozes e suas verdades, compõem a multifacetada realidade onde se encontra o texto das ruas.   

Nesse sentido, uma transcrição pode conter mensagens que serão acessíveis a determinados leitores, outras para outros, e assim por diante, levando-se em conta a sintonia das interseções entre a leitura e a escritura. A crítica literária, por exemplo, vai oferecer tantas versões sobre uma mesma obra, quantas sejam suas leituras, releituras, desleituras. Algumas vezes, o leitor de um mesmo livro, ao rever uma leitura poderá modificar antigas ideias sobre o tema, tendo em vista as águas da estrutura de pensamento em busca de outras margens.

Com Umberto Eco: “Leonardo (da Vinci) era um grande visionário, isto é, que ele estava pensando (de forma irreal para seu tempo, e com base em suposições falsas) num empreendimento futuro realista. Mas defini-lo como gênio utópico significa exatamente que a comunidade reconhece que, de algum modo, ele estava certo, e de outro desvairadamente errado.” (Interpretação e superinterpretação, 1997. Pág. 170).

A estrutura de pensamento dos princípios de verdade, em determinado momento histórico, costuma prescrever suas regras, normas, leis, para um convívio de harmonia entre as pessoas. Para movimentar a roda da história - levando-se em conta que ela tenha rodas, poderia ter cascos de navio, hélices de avião, barbatanas, asas de pássaro... - se faz necessária a percepção de alguns sujeitos em desconformidade com a lógica onde se encontram, oferecendo um visar sobre o que está por chegar.

Assim não há que se falar em acerto ou erro, verdade ou mentira, realidade ou ilusão, os eventos de cada um se apresentam ora numa narrativa existencial, ora noutra, muitas vezes em pronúncias estranhas, com palavras de múltiplos sentidos. A perplexidade desses aparecimentos aprecia se associar a lugares, tempos, a vida de cada um em sintonia ou dessintonia com sua singularidade.  

Aquele abraço,

hs

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 65***










Notas do consultório do filósofo IV* 

Os eventos da hora-sessão possuem uma pluralidade de aparecimentos e desaparecimentos modificando, com sua expressão, a circunstância onde se apresentam.  Inexiste um telos onde se poderia chegar com uma certeza cristalina. Ainda assim é possível transitar por suas inúmeras possibilidades, recheando, com a fenomenologia dos encontros, esse lugar impregnado de incógnitas, as quais rascunham seus originais com o que possuem.  

A clínica do filósofo, ao conter em sua atividade terapêutica as bases da analítica da linguagem, fenomenologia, hermenêutica compreensiva, estruturalismo, compõe uma integração atípica, que ganha forma e sustentação nos desdobramentos da hora-sessão.   

O estruturalismo oferece uma leitura de integração com a pluralidade de possíveis, num endereço existencial onde a indeterminação do sem nome aprecia insinuar suas verdades em línguas desconhecidas. Ao compor um todo com a totalidade de cada parte, se descrevem diálogos de acolhimento e tradução compartilhada. Para uma aproximação conceitual com essas especialidades, se reivindica a prática clínica, onde a lógica de uma expressividade ensaia novos movimentos existenciais.

Jacques Derrida contribui: “Ser estruturalista é prender-se em primeiro lugar à organização do sentido, à autonomia e ao equilíbrio próprio, à constituição acabada de cada momento, de cada forma; é recusar deportar para a categoria de acidente aberrante tudo o que um tipo ideal não permite compreender. O próprio patológico não é uma simples ausência de estrutura. É organizado. Não se compreende como deficiência, defecção ou decomposição de uma bela totalidade ideal. Não é uma simples derrota do Telos. (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 47).

A busca de sentido na terapia filosófica é aliada dos múltiplos fundamentos, os quais podem ser encontrados na trama conceitual acadêmica, um pouco antes de fazer sentido na hora-sessão. Não se trata de uma aplicação direta dos ensinamentos da teoria, mas de um suporte à uma transgressão metodológica em busca do outro na relação clínica.   

Uma interseção com a singularidade do partilhante, ainda quando ele mesmo não a reconheça, reivindica componentes que a teoria não alcança, como: acolhimento, compreensão, partilha, borogodó para realizar recíproca de inversão e inversão, adaptar-se a lógica do instante, sem perder a referência do papel existencial. Essa busca de sentido apresentada por Derrida auxilia a enxergar a categoria circunstância na Filosofia Clínica, como uma etapa estruturante para saber mais e melhor sobre a versão da pessoa sob seus cuidados. Uma intencionalidade assim descrita vai emitir seus sinais de acordo com suas possibilidades, quase sempre em desacordo com as métricas da tipologia, das classificações de protocolo.

Assim é possível entender a expressividade de algo ou alguém que se move para se manter, descrevendo uma estrutura de pensamento em forma de anúncio aos novos territórios da própria estrutura.  

Acolher a epistemologia do estranho, da diferença, é uma aptidão do filósofo clínico, amparado em sua proposta para descrever a singularidade do outro em seu devir existencial. A continuidade das sessões permite uma aproximação de qualidade com a realidade partilhante em vias de não-ser.

Com Derrida: “Se há estruturas, elas são possíveis a partir dessa estrutura fundamental pela qual a totalidade se abre e transborda para ganhar sentido na antecipação de um telos que é preciso entender aqui sob a sua forma mais indeterminada.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 47).

A clínica se inicia, via de regra, com esse desconcerto preliminar, por onde o partilhante se diz com aquilo que tem. A superação dessa desestrutura costuma ocorrer com o prosseguimento de sua expressividade, como se estivesse se acostumando com a nova versão de si mesmo sendo outro.  

O transbordamento expressivo de uma pessoa costuma desajustar a fragilidade estrutural da vida normal, isto é, as lógicas da normalização comportamental, com base em pressupostos de natureza ideológica, axiológica, denunciam seus princípios de verdade, por exemplo: a internação involuntária de alguém que não consegue se fazer entender em seus momentos de travessia. A possibilidade de um telos se apresenta a partir de uma desestrutura, recolocando as dinâmicas de consultório numa cumplicidade com esses ensaios existenciais.   

Em Jacques Derrida: “O ser que se anuncia no ilegível está para além destas categorias, para além do seu próprio nome ao escrever-se.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 71).

A ilegibilidade de um discurso existencial reivindica um olhar de escuta fenomenológica, para começo de conversa. Uma aproximação com a natureza desses inéditos, concede uma decifração compartilhada de seus originais. Trata-se de rascunhos existenciais em forma de broto, reivindicam um acolhimento compreensivo, cuidado singularizado, os quais não se encontram nas classificações da bíblia DSM e coadjuvantes, tão festejadas pelo carimbo do notário!

Nesse sentido, uma ilegibilidade reivindica um estudo circunstanciado de suas fontes de expressão, a língua em que se diz e não se diz, sua representação das coisas, por onde dialoga com o mundo da vida, seus ensaios e rascunhos em forma de apresentação. Depois dessa base de reconhecimento, pode ser possível encontrar a epistemologia intuitiva desse dicionário singular, para seguir aos novos endereços existenciais.

Uma abordagem como a Filosofia Clínica, se inscreve na interseção com o desarrazoado, para encontrar, em sua própria estrutura de pensamento, a fonte de inspiração para sua atividade clínica. Então, acompanhar, descrever, compreender, o caráter de ser ilegível, inacreditável, extraordinário, costuma ser a rotina da nova terapia com base na Filosofia. Sua plasticidade se constitui como um tango, por onde as evidências da vida diferente se encontram em uma conexão peculiar, nem sempre de acordo com os princípios de verdade. Seu significado está atrelado a uma conexão profunda com o discurso existencial do devir singular.  

Para entender a realidade de suas narrativas, é necessário encontrar esse lugar de onde se diz aquilo que aparece, muito próximo das poéticas da singularidade, uma aproximação com os eventos de aparente sem sentido, para localizar a epistemologia desses desencontros onde uma nova versão existencial se esboça.  

Jacques Derrida recorda: “Seria tentador aproximar o que dissemos de Artaud do que nos dizem Holderlin, Mallarmé: que a inspiração é em primeiro lugar esse ponto puro em que ela falta. Mas é preciso resistir a esta tentação das afirmações demasiado gerais. Cada poeta diz o mesmo, e não é, contudo, o mesmo, é o único, sentimo-lo bem.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 111).   

É possível associar a fenomenologia de Merleau-Ponty com a analítica da linguagem de Wittgenstein e a hermenêutica compreensiva de Gadamer, para dar conta desse estruturalismo que Derrida nos apresenta, como a pedra de toque para compreender as rotas de uma integração singular.

Talvez a tentação de ser aceito socialmente, a qualquer preço, possa estar na base dessa necessidade em se adaptar à realidade dos consensos, desprezando, muitas vezes, sua própria estrutura de pensamento, em desfavor das circunstâncias onde cada um se encontra. Paga-se caro por querer pertencer a um lugar onde não se cabe por inteiro, participando de uma normalidade que despreza a lógica das diferenças, discrimina as manifestações da expressividade como loucura e desrazão, redige leis e normas para sustentar a camisa de força social.

O novo paradigma da Filosofia Clínica se associa às iniciativas - ainda em seu estágio preliminar - para desconstruir as intervenções da generalização, as quais transformam um sujeito com raras habilidades existenciais em objeto de controle e submissão às drogas da moda.   

Derrida contribui: “Artaud teve igualmente cuidado em marcar a sua discordância em relação à psicanálise e sobretudo ao psicanalista, aquele que julga poder segurar o discurso na psicanálise, deter a sua iniciativa e poder de iniciação”. (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 164).

Ora, ora, ora, nos últimos anos, alguns incautos que se apresentam como filósofos clínicos, vão buscar na Psicanálise e outras metodologias, um suporte para sua atividade terapêutica. Além de mostrar que não aprenderam Filosofia Clínica, permanecendo na superfície de sua apresentação, boicotando seus estudos, a clínica pessoal, os estágios, ainda levam suas questões mal resolvidas para outra abordagem.    

Parece não existir uma reflexão crítica sobre o fato de que a Psicanálise, ao propor uma expressão do chamado inconsciente, coloca o paciente refém das interpretações do psicanalista. Troca uma cela por outra, transformando pessoas agendáveis - que cabem nessa metodologia - em cumplicidade (Estocolmo?) com os delírios da hermenêutica do analista.

Quem estudou Filosofia e Filosofia Clínica - pelo menos os conceitos básicos -, deveria saber que a metodologia da Psicanálise, trata as pessoas a partir de definições apriorísticas e suas classificações, quase sempre distorcendo a originalidade em vias de aparecimento, para se enquadrar em sua régua interpretativa, onde se destaca uma ideologia de saber-poder, disfarçada de libertação.    

A representação de mundo do alienista*, ao se aproveitar da fragilidade momentânea da pessoa em seus momentos de ressignificação existencial, se traduz como proposta para redirecionar a vida da pessoa para a vida normal, seja isso o que for. Ao querer transformar a inquietude criativa de Artaud em loucura, a Psiquiatria nada mais fez do que colocar à vista os estreitos limites de sua régua metodológica, em busca de transformar um sujeito singular (insubmisso, criativo, subversivo) numa extensão do seu entendimento das coisas.

Aquele abraço,

*hs

**Alienista no sentido de que muitos profissionais dessa área, alienam a pessoa de sua condição expressiva singular, mantendo a mesma subjugada às intervenções da Psiquiatria.  

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 64*


Notas do consultório do filósofo III 

A nova abordagem terapêutica com base na interseção da Filosofia com a prática clínica, traz consigo uma trama significativa de reflexões e contribuições para a vida e o papel existencial das pessoas com borogodó para a atividade cuidadora.

Existem nuances e desdobramentos a partir de um encontro terapêutico, por onde suas repercussões superam a hora-sessão para encontrar a luz do dia. Do lado a lado da relação clínica ocorrem fenômenos improváveis se distanciados da categoria lugar onde se realizam.  

Um desses eventos desconcertantes é uma resultante da terapia, conhecida por autogenia. Sua expressão trata de: interseção e suas derivações, transformação, mudança, ressignificação na estrutura de pensamento de uma pessoa. No que se refere ao partilhante, é possível trabalhar as autogenias que se apresentam nas dialéticas da hora-sessão, no entanto, também o filósofo clínico, tem sua expressividade impactada pelas circunstâncias de consultório.   

Em Fritjof Capra: “(...) elos de realimentação, ou seja, a ideia contida nessa expressão é a de algo que, tendo sido produzido, gerado ou modificado por outra coisa, afeta por sua vez essa outra coisa de modo a produzir modificações nela. É uma espécie de rede causal de mão dupla.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 28).

Assim é possível entender, numa forma de autoproteção, a defesa das tipologias, classificações, preservando uma distância significativa em relação aos atendimentos. Cabe lembrar a Psiquiatria e coadjuvantes, onde muitos eventos conhecidos como loucura, encontram sua origem em suas próprias intervenções, através dos agendamentos, enraizamentos, a distorcer a originalidade do sujeito em vias de não-ser.  

Em Filosofia Clínica, pela via da interseção, trata-se de um processo completamente outro, tendo por base a representação de mundo que vai aparecendo. Uma reconstrução compartilhada da historicidade partilhante, por si só, costuma ter um alcance terapêutico significativo. Assim, o filósofo em recíproca de inversão, oferece sua estrutura de pensamento ao partilhante, como ponto de apoio aos seus ensaios de atualização discursiva.

A partir desses movimentos da clínica, não é raro acontecer desconstruções estruturais e o surgimento de algo novo na estrutura de pensamento dos envolvidos na hora-sessão, ou seja, aquilo antes inacessível ou desconhecido, pode surgir como hipótese, experimentação, assumindo uma feição aprendiz da pessoa com ela mesma. Ao filósofo cabe acompanhar, interagir, compartilhar rotas significativas aos deslocamentos em processo.  

Algo mais aprecia surgir na terapia, oferecendo uma matéria-prima para as intervenções do filósofo. Como a circunstância - quase esquecida - de que o cuidador, ao compartilhar sua estrutura de pensamento com o partilhante, ajustando sua expressividade ao papel existencial, acrescenta uma fatia generosa de si mesmo aos eventos da hora-sessão.      

Com Fritjof Capra: “A experiência nasce da dinâmica não-linear complexa das redes neurais, e só poderá ser explicada se a nossa compreensão da neurobiologia for combinada a uma compreensão dessa dinâmica.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 56).

A descoberta da singularidade como um pressuposto para a atividade clínica, oferece uma nova rota para as relações humanas. A fenomenologia dos encontros reivindica uma abordagem diferenciada, plástica, dinâmica, apta a manter interseção com o zoom da expressividade em cada pessoa.  

O novo paradigma da Filosofia Clínica possui características de proto e metaciência, ao acolher, recuperar, superar, antecipar, descobrir, traduzir, habilidades humanas, até então, improváveis, desconhecidas, inacessíveis pelas lentes festejadas da ciência normal. Seu referencial aprendiz se abastece da interseção, estudo, análise, acolhimento, ousadia para aventurar-se em territórios subjetivos outros, impregnados de incógnitas existenciais, armadilhas conceituais, rupturas com o mundo reconhecido da família, amigos, em direção aquilo sem voz e vez. Quando um fenômeno dessa natureza chega à lógica microscópio, a estrutura de pensamento há muito já efetivou seus movimentos subjetivos. 

As constatações da medicina do corpo, tem dificuldade em perceber essas origens estruturais e, quando consegue, teme a novidade diante de suas convicções, tratando de reduzir sua expressão aos moldes reconhecidos ou atribui seu aparecimento e responsabilidade à metafísica, como algo que não lhe pertence.    

Fritjof Capra contribui: “Numa organização humana, o acontecimento que desencadeia o processo de surgimento espontâneo de uma nova ordem pode ser um comentário informal, que, muito embora não pareça importante para quem o fez, pode ser significativo para algumas pessoas dentro de uma comunidade de prática.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 128).

Os eventos da intencionalidade apreciam surgir no discurso existencial do partilhante, ou seja, em suas menções na hora-sessão ou fora dela, incluindo a historicidade, os momentos de desconstrução mais significativa, os períodos de reconstrução, a vida cotidiana, onde as palavras possuem um sentido peculiar, o qual vai pedir ao filósofo uma aproximação com esse devir peculiar.

Uma nova estruturação na vida de cada pessoa, possui roteiros diferenciados, os quais reivindicam um estudo singularizado, distante das abordagens generalistas e seus protocolos. Tendo em vista uma crise precursora, a partir daí, costumam acontecer múltiplos eventos no cotidiano do partilhante, levando, muitas vezes, a própria pessoa a desconfiar de si mesmo. Nesses momentos a metodologia faz a diferença, pela natureza e alcance dos seus agendamentos, seja para acolher, compreender ou desvirtuar a lógica singular em seu estado de anúncio.   

Nesse sentido o filósofo precisa estar atento as especificidades da pessoa, isto é, compreender, interagir com as necessidades do instante aprendiz. As rotas da construção compartilhada, nesses momentos de desestruturação e incompletude discursiva, pede sensibilidade, acolhimento, interseção, cuidado e atenção a matéria-prima que vai aparecendo na estrutura dos encontros. A escuta fenomenológica, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, apreciam localizar existencialmente essas expressões em forma de broto.

Aquele abraço,

*hs  

segunda-feira, 23 de março de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 63*

Notas do consultório do filósofo II 

A apresentação da Filosofia Clínica como um novo paradigma terapêutico, tendo em vista sua fundamentação teórica e prática, recoloca a urgência em decifrar sua estrutura de pensamento. Trata-se de uma abordagem essencialmente brasileira, onde a partilha das novas ideias e atividades - desde os idos de 1990 -, quando recebia críticas de quem não sabia o que dizia - como alguns, ainda hoje, não sabem -, ao referir suas narrativas como algo que já existia.

Assim aparece uma dificuldade, por parte de muitos contemporâneos, em estabelecer uma interseção aprendiz com sua mensagem. A estranheza dos novos territórios diante do olhar, parece ofuscar quem estava acostumado a determinados tons de claridade. Talvez haja necessidade de ajustar o velho óculos, para enxergar o que desafia o alcance de suas lentes.

É o caso do conceito de singularidade, o qual se traduz - no dicionário comum - como: peculiaridade, esquisitice, particularidade, extravagância, excentricidade, destacar-se, sobressair. A expressão se inclui num rol de menções utilizadas no dia a dia entre as pessoas. Ao institucionalizar o uso de uma palavra, qualquer forma de expressão outra, que distorça seu significado para acolher a novidade em vias de apresentação, reivindica uma tradução a partir de suas bases discursivas existenciais, superando as definições de sua anterior_idade.   

Quando o novo paradigma se descreve em meio a vida contemporânea, se reveste de vocabulário próprio, impregnado de termos, conceitos, expressões que fazem sentido dentro de uma determinada representação de mundo, até então desconhecida, marginal, periférica. Em outras palavras, é preciso um estudo circunstanciado para acessar e compreender suas mensagens.

Em Ernst Cassirer: “Para determinar com precisão o caráter específico de toda e qualquer forma do espírito, faz-se necessário, antes de tudo, medi-la pelos seus próprios padrões. Os critérios segundo os quais ela é avaliada e que norteiam a apreciação de suas produções não lhe devem ser impostos de fora, sendo, ao invés, indispensável que derivemos estes critérios das próprias leis básicas que determinam as suas formações.” (A Filosofia das Formas Simbólicas – A linguagem. 2001. Pág. 173)

Nos dias de hoje, pouco mais de 30 anos do surgimento (no Brasil!) dessa nova abordagem terapêutica, se proclama a toda voz a necessidade de uma escuta. Mas, de que escuta se fala? A escuta da Medicina do corpo? Da Psicanálise e sua hermenêutica interpretativa? A escuta da Filosofia acadêmica? Em que momentos a escuta poderia ser um acolhimento aprendiz singularizado?  De quem escuta se fala?

A busca para superar equivocidades interpretativas reivindica uma lógica aprendiz, incluindo a interseção com uma estrutura de pensamento, numa dança entre a redução fenomenológica, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, e algo mais. Assim se pode acessar as possibilidades para estudo, compreensão, interação com um sujeito em seu endereço existencial.  

O conceito de singularidade - em Filosofia Clínica - encontra sua raiz na lógica de Aristóteles (384 – 322 a.C), de onde se origina seu sentido, isto é, como desenvolvimento de uma reflexão, onde se tem: termos universais (todo, nenhum...), particulares (estes, aqueles...), singulares (Maria, Pedro, João...). Assim é possível entender sua contradição com as percepções da tipologia, da classificação, das síndromes, espectros e demais narrativas generalistas para controle e medicalização do fenômeno humano.

A expressão singular reivindica um estudo diferenciado, tendo como ponto de partida um acolhimento pelos exames categoriais, ou seja, uma aproximação com a circunstância da pessoa que chega ao consultório. Noutras palavras, trata-se de alguém desconhecido, o qual, à primeira vista, coloca a estrutura de pensamento do filósofo em processo de redução fenomenológica, para acolher, descrever, interagir com sua representação das coisas. Questão de método!

Longe disso, a abordagem das terapias clássicas, apesar de, algumas vezes, usarem a expressão ‘singular’, parece desconhecer o que acontece com a estrutura de pensamento de seus profissionais, os quais, ao entender a pessoa diante de si com o olhar das tipologias e classificações da Psiquiatria e coadjuvantes, enquadra e distorce a expressividade em frente, transformando um sujeito em objeto de análise e interpretação. Direciona respostas, agenda ideias, comportamentos, sensações, sem dar-se conta de sua cumplicidade com aquilo que busca tratar.   

Ser singular inclui um nome, sobrenome, uma circunstância existencial, sua expressão, a relação com o mundo da vida. O filósofo clínico terá de aprender com o partilhante as rotas para sua estrutura de pensamento, sendo guiado por ele pelos escaninhos de sua subjetividade, muitas vezes impregnada de armadilhas, areia movediça, refúgios. Assim o papel existencial cuidador refere uma ontologia e uma antropologia, em seus estudos para compreender um território desconhecido, decifrar linguagens, rituais de vida, morte, renascimento, reconhecer a farmácia interna em cada pessoa.

Nesse sentido a Literatura de cada um oferece uma interseção favorável com a reflexão sobre esse outro que se apresenta, isto é, o lugar de onde se diz o que fala: a estrutura de pensamento singular. Essa aproximação do leitor com o autor, a partir da descrição de seus originais, costuma significar uma tradução peculiar sobre sua fonte de inspiração. Ainda quando se trata de uma releitura, um ser irrepetível se apresenta, imprimindo seus rastros pelo dado padrão, intencionalidade, no contato com suas páginas e capítulos existenciais. Talvez o rio de Heráclito (500 - 450 a.C.), em seus deslocamentos, consiga decifrar a inquietude dessas águas sempre outras.     

Os eventos de construção compartilhada realizam um estudo sobre o fenômeno multifacetado de uma obra. Assim se pode ampliar o entendimento sobre a literalidade e os transbordamentos de um texto. Semelhante aos eventos da hora-sessão e seus desdobramentos existenciais.   

Ricardo Piglia auxilia: “Ler a partir do lugar em que se escreveu não define o leitor ideal como aquele que lê melhor, mas como aquele que lê a partir de uma posição próxima à composição em si. Nabokov aponta isso com clareza: ‘O bom leitor, o leitor admirável não se identifica com os personagens do livro, mas com o escritor que compôs o livro’”. (O último leitor, 2017. Pág. 158)

Essa aproximação cuidadosa, a partir de uma redução fenomenológica, possibilita ao filósofo clínico leitor encontrar o outro em sua expressão peculiar. Aqui não se trata de uma abordagem de base apriorística, onde as páginas existenciais de uma pessoa poderiam ser traduzíveis pela lógica apertadinha da hermenêutica dos protocolos.   

O termo singular pode apresentar muitos sentidos, de acordo com seu uso. Aqui é preciso fazer um alerta sobre a areia movediça das palavras comuns, as quais possuem nuances e significados outros, nem sempre alcançável pela literalidade de suas menções. O convívio do dia a dia, no mundo do trabalho, na família, com amigos, colegas, pode qualificar o entendimento das expressões e seu significado, no entanto, basta um processo desconstrutivo para modificar sua direção, desarmonizando algo até então reconhecível.   

A atividade dos princípios de verdade, com base nas ideologias da vida normal, multiplica seus recessos, desvãos. Trata-se de endereços existenciais onde se abrigam os esquisitos, atípicos, sem nome, desprovidos de um acolhimento compreensivo. Refúgios que a lógica protocolo não imagina existir, em sua sanha de controle e submissão do fenômeno humano. Nesse sentido, para acessar a singularidade, reivindica-se uma aproximação compartilhada com seu discurso existencial, em busca da fonte de inspiração de onde fala o que se diz.

Aquele abraço,

hs     

domingo, 1 de março de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 62*








                         


Notas do consultório do filósofo I 

A prática da Filosofia Clínica se relaciona com as lógicas do inesperado. Existem tantas possibilidades para esses relatos quantos sejam os envolvidos nessa atividade. Essa evidência metodológica acrescenta uma distância significativa com o que se tinha - como opção terapêutica - até então.

Tendo em vista uma representação de mundo, de onde fala o que se diz, essa característica envolve os integrantes desses encontros compartilhados. Um endereço existencial para acessar, reconhecer, descrever, interagir, com tópicos de uma estrutura de pensamento em vias de apresentação. Um refúgio de onde o partilhante encontra meios para traduzir-se ao filósofo clínico.

Schopenhauer ensina: “(...) possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem.” (O mundo como vontade e representação. 2001. Pág. 9)     

A Psiquiatria derivada da medicina do corpo, defende suas verdades e intervenções a qualquer preço. Ao oferecer promessas de controle e submissão da chamada doença mental, através da medicalização do fenômeno humano, transforma eventos de origem subjetiva em uma panaceia refém de uma cura que não chega. Essa abordagem passa longe das causas dos desajustes somáticos, os quais podem ser localizados nas contradições da estrutura subjetiva, na circunstância de vida de cada um, dentre outros. Questão de método!

Os pressupostos da medicina, ao emancipar sua metodologia bem-sucedida em consertar ossos quebrados, permite verificar como a Psiquiatria permanece refém da indústria de psicofármacos, com narrativas próprias de uma ideologia comercial. Tendo como referência essa crença, resta internar a nascente extraordinária com a camisa de força dos protocolos de alcance universal. Seu aceno com promessa de cura, concede o tempo necessário para medicalizar as contradições próprias de uma travessia, iniciando um processo de cristalização comportamental. A droga da Psiquiatria se sustenta na ideologia da desinformação, controle social, os lucros faraônicos da indústria de psicofármacos. A produção da loucura é íntima do olhar alienista e seus cúmplices.  

Nesse sentido, a lógica para domínio e submissão da expressividade se divulga - com o apoio dos incautos e desinformados - como uma forma travestida de ciência. A substituição da expressão: doença mental por distúrbios, espectros, transtornos, são um exemplo dessa tentativa de se manter a qualquer custo uma narrativa maquiada de práticas perversas, que passam longe de acolher, compreender, cuidar, sustentadas por crenças antigas disfarçadas de inovação.  

Com Thomas Szasz: “(...) a visão de que as chamadas doenças mentais são mais idiomas do que doenças não foi ainda adequadamente articulada, nem suas implicações totalmente apreciadas.” (O mito da doença mental, 1974. Pág. 142)

Os princípios de verdade estruturam formas de viver com base em determinadas retóricas existenciais, semelhante ao fundo da caverna de Platão. Nos dias de hoje, com a fartura de psicofármacos à disposição, não é raro a defesa intransigente de seu uso, muitas vezes impregnada de boas intenções. A fabricação da loucura oferece uma imagem diante do espelho como resultante de suas drogas: pessoa nenhuma!    

A intervenção da medicina do corpo, hábil e competente para consertar ou substituir peças em uma máquina - com prazo de validade desconhecida -, ao querer usar essa mesma abordagem nas origens subjetivas da somatização, se vê num impasse, isto é, se coloca a procura de uma cura para algo que não é doença. Noutras palavras, o uso de uma tecnologia bem-sucedida para tratar avarias somáticas, não permite acessar suas causas, passando longe de compreender seus sinais de anúncio.        

O ponto de vista dos novos paradigmas, em sua estruturação preliminar, ao enxergar os eventos do cotidiano sob outra perspectiva, aponta verdades em forma de protociência. É o caso da abordagem clínica da Filosofia (principalmente nos anos 1990) ao se apresentar como uma alternativa a forma de pensar a fenomenologia do humano. O filósofo, ao sair da zona de conforto conceitual, bibliográfica, via de regra representada pela estrutura escolar e acadêmica, assumindo uma atividade terapêutica em consultório, se coloca num processo de abertura e risco para acolher e interagir com a singularidade.  

Ian Hacking no prefácio de Thomas Kuhn: “Nós temos a tendência de ver o que esperamos, mesmo quando a coisa não está lá. Amiúde leva muito tempo para que uma anomalia seja vista pelo que ela é: algo contrário à ordem estabelecida.” (A estrutura das revoluções científicas. 2013. Pág. 33) 

As lógicas do inesperado reivindicam uma interseção peculiar, um borogodó apto a conhecer e transitar por sua representação de mundo. Os desdobramentos compartilhados na hora-sessão se espraiam no dia a dia do partilhante em ensaios para uma nova cognição.

Uma realidade em vias de apresentação rascunha seus originais em busca de novos discursos existenciais. O papel existencial cuidador do filósofo não deve ser confundido com uma imersão sem volta em direção ao partilhante, mas como uma base flexível aos seus deslocamentos intelectivos.      

A incompletude discursiva e o raciocínio desestruturado não constituem uma patologia, em que pese as narrativas, agendamentos e a propaganda em contrário, tratando-se de uma publicidade para manutenção da supremacia psiquiátrica, intervindo nos eventos de base subjetiva como se fora uma consequência da medicina do corpo. A loucura não aparece em exames de sangue ou qualquer outra forma de identificação laboratorial, trata-se de uma hermenêutica política, ideológica.   

Em Roland Barthes: “(...) não colaboram para que minha leitura resvale? Um ângulo obtuso é maior do que um ângulo reto: ângulo obtuso de 100 graus, diz o dicionário: também o terceiro sentido me parece maior do que a perpendicular pura, reta, cortante, legal, da narrativa: parece-me que o terceiro sentido abre o campo do sentido totalmente, isto é, infinitamente (...) o sentido obtuso parece desdobrar suas asas fora da cultura (...)”. (O óbvio e o obtuso, 1990. Págs. 47 e 48)

Assim é possível entender a chegada da Filosofia Clínica como um novo olhar, uma compreensão do ser singular. Em meio aos presságios de vida nova, sua abordagem acolhe a singularidade, a qual reivindica uma metodologia diferenciada para encontrar seu titular. Até então não se tinha algo assim, apto a entender a desestrutura pessoal como travessia entre um antes e um depois de qualquer coisa.

Veja-se a realidade dos hospícios, com seus protocolos e práticas alienadas, submissas, inquestionáveis, ao saber-poder da Psiquiatria, isto é, a última palavra sobre baixa ou alta no hospital psiquiátrico é de uma só pessoa. Ainda quando simula ouvir o ponto de vista de outras áreas de atuação, a versão alienista prevalece.

Nesse sentido, como não entender a clausura de muitos internos, ao elaborar uma teia subjetiva própria, para se proteger de um mundo que não o compreende, desmerece sua versão das coisas, não entende sua circunstância existencial, sua contradição como tentativa de ser sujeito na própria história.  

Com Antonin Artaud: “Entre a personagem que se agita em mim quando, ator, avanço em cena e aquele que sou quando avanço na realidade, há, sem dúvida, uma diferença de grau, mas em proveito da realidade teatral. Quando vivo não me sinto viver. Mas quando represento, então sinto que existo. Quem me proibiria de acreditar no sonho do teatro quando acredito no sonho da realidade?” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 102)

Esse estranho que se oferece em linguagem própria, reivindica uma parceria capaz de acolher e qualificar construções compartilhadas, numa lógica aprendiz, onde se pode compreender aquilo que - a princípio - é desconhecido. Em cada um se insinua um ser extraordinário, sua expressão aprecia uma tradução compartilhada, distante de uma abordagem vertical, do tipo: “você sabe com quem está falando?”.

O script pré-determinado das abordagens da tradição, muitas vezes transforma profissionais diferenciados em sua área de atuação, em reféns da clausura metodológica vigiada pelos conselhos de classe, os quais supervisionam, multam, suspendem, excluem quem ousar estudos ou práticas em desconformidade com a rigidez cadavérica de suas normas.   

É interessante descrever uma estrutura de pensamento, em sua irregularidade discursiva, quando busca dizer mais do que consegue. Assim o filósofo clínico terá de aprender, como fundamento de sua atuação em consultório, a conviver com as formas do inacreditável. Talvez recuperando a admiração e o espanto dos primeiros pensadores.  

A descrição multifacetada da singularidade humana, reivindica uma abordagem cúmplice para estudar, transitar, conviver com sua expressão inédita. Pela via da interseção, será possível conhecer aquilo que não se sabe, em aproximações da teoria com uma abordagem adequada a cada pessoa.

Mais que explicar ideias, ensinar história da Filosofia, desenvolver críticas, análises, reflexões, cabe ao filósofo clínico se colocar em risco ao se aproximar do outro na relação terapêutica. Trata-se de encontrar a vida como se apresenta, semelhante ao equilibrista em suas travessias pelo arame, sem rede de proteção.  

Aquele abraço,

hs