Sobre escritores, fantasmas e mortos,
Algo encantador em eventos como a
feira do livro de Porto Alegre é a possibilidade de flanar - quase invisível - por
suas estantes, balaios de saldo, conviver com a impermanência dos acasos e
coincidências, os quais, nem sempre são acasos ou coincidências. Trata-se de
momentos de uma quase terapia, por onde é possível descobrir raridades
distantes da sintonia existencial das modas e acenos da publicidade de autores em
busca de ser multidão.
Foi assim que descobri - num
balaio de saldos a R$ 5,00 - a obra: “De escritores, fantasmas e mortos”, de
Paul Lodd, publicada pela editora Livre Expressão/RJ em 2010. Um texto
diferenciado do começo ao fim, que lembra clássicos através dos protagonistas
Jean Pierre e Jerôme, em passeios pelas cidades de Nova York, Buenos Aires, La Paz
e Rio de Janeiro. Recorda um estilo que surgiu com Baudelaire no século XIX.
Trata-se de uma obra para
dialogar - sem agendar traumas e outros imbróglios - com a representação da
Filosofia Clínica. Suas páginas convidam a descobrir a raridade dos eventos
desconsiderados pelas modas e eventos de massa, tão comuns em nosso tempo de
lógicas da multidão.
Com o autor: “A sua alma de flâneur
se contenta com os pequenos detalhes que costuma observar nesses passeios.
(...) Nunca precisou de grandes templos, praças ou santuários para ingressar
nas abstrações do caminhante.” (De escritores, fantasmas e mortos. 2010. Pág.
7)
É possível cogitar-se sobre o
alcance, na malha intelectiva do escritor, desses momentos desconsiderados,
menores, irrelevantes, pela maioria das pessoas, as quais seguem embriagadas
pelas luzes, deixando escapar a originalidade dos desvãos, dos becos em tons e
sobretons de raridade, lá onde a vida se insinua como singularidade.
Um exercício dessa natureza pode
auxiliar a desintoxicação dessas tecnologias do homem máquina, resultante de
tanta ideologia para consumo material, impulsionar a supervelocidade cognitiva em
busca de novos muros para conter a expressividade humana. Verdadeira fábrica de
ansiedades e outros monstrinhos intelectivos a direcionar a vida para longe
dela mesma.
As caminhadas pelas ruas da
cidade, visitando bairros, jardins, praças, cafés, como apontava um ilustre
caminhante como João do Rio, pode contribuir para que a pessoa reencontre um si
mesmo, em meio a tanta distração, a propostas insidiosas para ser o que não se
é, a perseguir metas que não chegam (armadilhas conceituais).
O autor descreve os devaneios do
caminhante como um ir e vir entre inversão e recíproca de inversão, por onde se
pode experienciar dados sensoriais em sintonia com as percepções do autor em
suas possibilidades de ação pelos trânsitos por onde se desloca.
Em Paul Lodd: “Imagino o twitter
sendo apresentado a Proust, que inaugurou um tempo narrativo onde a pressa não
tem vez. Fábrica de escritores sem literatura, diria ele, não é mesmo?” (De
escritores, fantasmas e mortos, 2010. Pág. 83)
É possível sentir a relação da
pressa com as lógicas do consumo, ou seja, práticas impregnadas daquilo que se
batizou de obsolescência programada, onde tudo tem prazo de validade.
Nesse sentido, o fenômeno humano significa
algo provisório. Passa a fazer parte da vertigem descartável dos dias. Assim quase
não se encontra mais, a perseguir-se na distância - cada vez maior - para um si
mesmo que escapa.
O tempo, em um discurso
existencial, reivindica uma conexão com sua singularidade. Aparece em sintonia
com o andarilho a impulsionar seus ponteiros com suas caminhadas.
Talvez esse fato ajude a entender
a dificuldade em se deixar de lado - por algum tempo - as redes sociais para
pegar um livro e saborear suas páginas, se deliciar com seus roteiros e
personagens, participar e interagir com suas circunstâncias.
O texto refere: “Vale aqui
lembrar Proust (...) o nosso escritor de em Busca do tempo perdido nos
dizia que o leitor almeja compreender mais a si mesmo através do livro do que o
próprio livro e que ele não pode entender um livro se não se entender a si
próprio através desse livro.” (De escritores, fantasmas e mortos, 2010. Pág.
90)
As buscas - quando existentes -
podem ser tantas quantas forem as possibilidades em cada pessoa a exercitar-se
em projetos, sonhos, devaneios, para a redação de seus originais.
Uma proposta de compreensão a
partir do convívio com uma obra, pode não esgotar as possibilidades do fenômeno
humano. Em cada pessoa existe um rol de expressividades à espera. Algo que a
Filosofia Clínica descreve e compartilha com o devir singular, desconstruindo
as definições a priori, generalistas, tipológicas.
A percepção e sintonia com um
livro costuma relacionar-se com a autogenia do leitor, isto é, as páginas que
não façam sentido num momento da vida de uma pessoa, pode significar algo mais
em outro ponto de sua história.
Uma obra, ainda pode servir como
pedra de toque para uma percepção da pessoa com sua singularidade. Nessa interseção
do leitor com a obra, algo pode se acrescentar à sua própria história. Uma
fenomenologia do estranho aprecia as narrativas desses desvãos.
Paul Lodd compartilha: Não sei se
o seu ponto de vista coincide com o meu, mas não importa; porque os distintos
pontos de vista não se excluem, eles se complementam para formar a verdade.”
(De escritores, fantasmas e mortos, 2010. Pág. 98)
A versão do autor sugere
múltiplas possibilidades às construções compartilhadas da hora-sessão, quando
partilhante e filósofo clínico encontram uma perspectiva, um ponto de vista, para
colocar as dialéticas da terapia a seu favor. Essa ideia de acréscimo pode
significar um achado para a pessoa em seus dias de transição entre uma e outra
realidade.
Muitas vezes, ao mudar o ângulo do
olhar, o mundo inteiro se modifica, experienciando a possibilidade de ressignificar-se
na companhia de um outro que o acolhe sem julgar, classificar, interpretar ou
desvirtuar seu processo existencial.
Uma epistemologia do diálogo, dos
encontros refugiados numa interseção entre representações de mundo, costuma ampliar
o horizonte de seus integrantes. Talvez seja essa faceta um dos aspectos de
maior significado nas práticas terapêuticas não ortodoxas.
Jung cogitava a necessidade de se
encontrar uma terapia para cada pessoa. Rogers enfatizava o caráter expressivo
e libertário desses encontros terapêuticos... Packter encontra subsídios na
Filosofia para desenvolver uma metodologia que contempla (dentre outras) essas
duas propostas clínicas. Uma referência de mentes brilhantes e instigantes nas pesquisas
e evidências terapêuticas dos novos paradigmas.
Com a publicação da obra
“Poéticas da singularidade”, pela editora E-Papers/RJ em 2007, o tema da singularidade
ganhou destaque. Até então esse dado aparecia como algo complementar a terapia,
sem ter o alcance e significado que tem hoje em dia. Algo que foi
desenvolvendo-se com as práticas de consultório em suas múltiplas versões
(hospital, consultório, associações de bairro e morros de periferia, empresas,
escolas...).
O escritor indica: “Alice no
país das maravilhas – é um conto fantástico (...) a importância de Alice
resulta da dupla originalidade: a de ser um conto em que o mais importante não
é o que acontece e sim o que se fala; um conto em que o autor-poeta é superado,
ou melhor, auxiliado pelo professor matemático, interessado na metalinguagem,
que utiliza a transgressão lógica como uma terapia hipnótica. Alice pretende
chegar à lógica por meio da incoerência e do absurdo.” (De escritores, fantasmas e mortos, 2010. Pág.
103)
A informação dirigida pode conter
ingredientes diferenciados para uma estrutura de pensamento, desde que esteja
vinculada às suas necessidades subjetivas, existenciais. O convívio com um
livro, que ofereça em suas páginas mensagens a singularidade, pode conter a
medicação de que uma pessoa necessita.
Noutras palavras, ler, conviver,
dialogar com a estrutura de pensamento de um texto, costuma oferecer uma
pluralidade de opções, para quem, até então, tinha somente um caminho a
perseguir-se.
A singularidade aprecia se
oferecer em narrativas de aspecto comum, contendo versões fantásticas,
delirantes, extraordinárias, em linguagem própria. Essa referência reivindica uma
abordagem capaz de acolher fenomenologicamente (sem tipologias, distorções) o
contexto de vida contido nas descrições do partilhante, desde os instantes
preliminares da terapia à alta compartilhada.
Aquele abraço,
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