Interseções
Em algum ponto do inverno de
2006, na cidade de São Paulo, num seminário na universidade São Camilo, ganhei da
amiga e colega Maria Luiza Nascimento, a obra: “O Beijo e outras histórias” de
Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904), médico e escritor russo, traduzida em
2006 por Boris Schnaiderman para a Editora 34/SP. A recomendação era clara: ler
o conto: “Enfermaria n.6”.
Nesse esboço, de forma
introdutória, se destaca aspectos do texto em interseção com a Filosofia
Clínica. A ideia é realizar uma aproximação crítica-reflexiva das descrições do
médico escritor com as atividades do filósofo clínico, a partir de uma referência
- além do constructo teórico prático - com vivências de mais de 50 anos (ora num
papel existencial, ora noutro) em hospitais e clínicas psiquiátricas.
Tchekhov convida a pensar: “(...)
centenas de loucos passeiam em liberdade, porque a ignorância de vocês é
incapaz de distingui-los dos sãos. Por que então eu e estes infelizes devemos
ficar aqui, por todos, como bodes expiatórios? O senhor, o enfermeiro, o vigia
e toda esta canalha de hospital está, no sentido moral, muito abaixo de cada um
de nós, por que então nós estamos aqui, e não vocês? Onde está a lógica?” (O
beijo e outras histórias, 2006. Pág. 211)
A ideia de delimitar o convívio
entre aquilo conhecido como normalidade e loucura, nunca foi um
consenso, ou seja, trata-se, cada vez mais, de uma narrativa impregnada de
ideologia, sustentada pela junção da medicina psiquiátrica, a ignorância do
povo, os interesses da indústria de psicofármacos, as questões políticas cristalizadas
em leis, normas, decretos.
Por volta de 2007/2008, na Casa
de Saúde Esperança (hospital psiquiátrico de periferia) em Juiz de Fora, ocorreu
algo que merece registro. Nessa época oferecíamos atendimentos de Filosofia
Clínica na instituição. Em um dia de visita aos internos, o pátio ficava cheio
de familiares, amigos, enfermeiros, filósofos, técnicos de enfermagem... Entre
gritos, falas alteradas e tranquilas, sons diversos, era difícil saber quem era
interno e quem não. Nós, filósofos clínicos, aproveitávamos esses momentos para
transitar, conversar, ouvir, conhecer, os familiares e qualificar interseções.
Foi assim que a mãe de um interno
me abordou (eu não usava jaleco), perguntando como eram as coisas no hospital.
Percebi que ela estava me tratando como um interno, não desfiz o engano (se é
que existia!), pois queria aprender com sua visão das coisas. Infelizmente a
diretora da Casa percebeu e veio em meu socorro (segundo ela!). Dizia, quase
aos gritos: este não é um paciente, é o Professor Hélio - filósofo clínico!
Colocando um ponto final ao inusitado, que me agradava.
Esse fato de ser confundido com
os internos, coincide com o questionamento do fragmento acima, por onde
Tchekhov aborda uma questão clássica na área, isto é, quais os critérios para
distinguir normalidade e anormalidade? Louco e são? Quem interna quem? Quais
parâmetros para distinguir um e outro? Talvez a nomenclatura das tipologias e
classificações da bíblia DSM ajude a entender as tramas das ideologias da
exclusão.
O autor refere: “Quando a
sociedade se isola dos criminosos, dos doentes psíquicos e da gente incômoda em
geral, ela é inflexível. (...) quando, num futuro distante, tiverem terminado
sua existência as prisões e os manicômios, não existirão grades nas janelas,
nem roupões de internados. Está claro que essa época chegará cedo ou tarde.” (O
beijo e outras histórias, 2006. Pág. 212)
A concepção de uma vida normal,
carrega, inevitavelmente, sua contradição, especificamente ao entrar em dessintonia
com os princípios de verdade. Nesse sentido se pode entender a natureza e o
alcance das normas legais, as regras para regular o convívio social. Na ótica
de alguns pensadores, necessárias para equilibrar as expressões de uma
comunidade.
No entanto, qual a mão que
balança o berço? Quem elabora esse constructo de verdades? De onde vem essas certezas
sobre a natureza humana? As quais, pelas vias do agendamento social, se
transformam em itens de uma cesta básica para identificar e amordaçar pessoas
em atitude suspeita. Franz Kafka aborda essa complexidade institucional,
repleta de labirintos e desvãos incompreensíveis em sua obra: “O processo”, onde
descreve as dificuldades de alguém ao se ver processado, sem saber do que se
trata, sem ter a quem recorrer, num lugar de difícil acesso para defender-se das
acusações.
Alguns terapeutas da
não-psiquiatria, nos anos 1960/70, como David Cooper e Ronald David Laing, em
projetos como: Villa 21 (anti-hospital) e Kingsley Hall, comunidades
terapêuticas onde médicos e pacientes viviam juntos, sem tratamentos forçados
ou trancas, tentaram elaborar intervenções clínicas libertárias.
Nesses casos, costuma acontecer
algo semelhante as intervenções da Filosofia Clínica em hospitais
psiquiátricos, ou seja, quando começam a surgir resultados animadores na
terapia, o alienista retoma os tratamentos de submissão com as drogas que
conhece, destituindo os filósofos clínicos e quem mais vier, de qualquer
possibilidade terapêutica. Assim, com a caneta e a lei ao seu lado, ainda hoje
(séc. XXI) o psiquiatra detém as chaves do hospício, a palavra final sobre a
camisa de força de seus tratamentos.
Com Tchekhov: “O senhor é um
homem que pensa, que reflete. Em qualquer circunstância, pode encontrar em si
mesmo um meio de se tranquilizar. O pensamento livre e profundo (...) um
desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo – eis os dois bens mais elevados
que o homem jamais conheceu. E o senhor pode possuí-los, ainda que viva atrás
de três grades. Diógenes viveu num barril, embora fosse mais feliz que todos os
reis da terra.” (O beijo e outras histórias, 2006. Pág. 214)
Talvez uma das maiores questões
envolvendo a abordagem da Psiquiatria é sua entrevista preliminar com o
paciente, isto é, quando a pessoa chega ao pronto atendimento do hospital e,
quase sempre, além de uma manifestação desestruturada, agressiva, já carrega
consigo um pré-diagnóstico da família, amigos, colegas, os quais, sob muitos
aspectos, agendam o olhar do alienista.
A partir daí, em uma sucessão de
medicalização conhecida como: sossega leão, se tem a oferta
inicial dos tratamentos psiquiátricos. Essa intervenção preliminar
(psicofármacos) costuma estar na origem e produção das chamadas doenças
mentais. Não antes! Antes disso, encontra-se um sujeito em sofrimento por
circunstâncias, as quais são desconhecidas da Psiquiatria. Na base dessa
reflexão se encontra algo, muitas vezes despercebido, isto é, a tez ideológica oculta
nesses tratamentos.
Em outras palavras, com a
intervenção dos psicofármacos, até quem não ouvia vozes, não enxergava vultos,
passa a enxergar e ouvir coisas em seu dia a dia. O hospital psiquiátrico
produz personagens alheios à estrutura de pensamento singular, os quais passam
a integrar a vida da pessoa após a alta clínica. Assim se pode entender a
crítica clássica da Antipsiquiatria: “Quem deveria tratar as problemáticas
existenciais, na verdade, são os agentes precursores da loucura”.
Nos tempos de atividade na cidade
baixa em Porto Alegre, uma amiga da área da Psicologia referia: ‘eu não sei mais
o que fazer, mesmo não gostando, encaminhei minha paciente ao Psiquiatra’.
Veja-se que, ao não saber o que fazer, encaminha-se ao outro profissional, o
qual também não saberá o que fazer, no entanto, irá internar, medicar, fazer
com ele uma série de experiências para reconduzi-lo à vida normal, seja isso o
que for!
A história da fabricação da
loucura pela Psiquiatria não é nova, veja-se os escritos de autores da antipsiquiatria
como: Thomas Szasz, David Cooper, Ronald Laing e outros. Em Buenos Aires existe
um grupo de filósofos e psicanalistas, trabalhando numa crítica social, onde,
segundo eles, a sociedade capitalista é a produtora de desajustes e
contradições pessoais. A manutenção dessa espécie de coisa passa pela figura do
psiquiatra e suas drogas para normatizar condutas. O recente livro de Emiliano
Exposto: “Las máquinas psíquicas”, aborda o tema.
Aquele abraço,
hs
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