Sobre Filosofia Clínica e Literatura I
O livro de areia de Jorge
Luis Borges, traduzido por Davi Arrigucci Jr. e publicado na coleção da Folha
de São Paulo em 2012, se deixou encontrar no ano de 2021, em Porto Alegre, num
balaio de saldos na feira do livro.
Não sei ao certo se eu o encontrei
ou se foi ele quem me achou. De qualquer forma seus textos de altura e profundidade
desmedidas se prestam a múltiplas relações, nesse caso, um diálogo com a nova
abordagem terapêutica da Filosofia Clínica.
Em Borges: “Meu relato será fiel
à realidade ou, em todo caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que é a
mesma coisa.” (O livro de areia, 2012. Pág. 15)
O fragmento ajuda a entender o
conceito de representação de mundo de Schopenhauer, o qual ensina que nossa
percepção e entendimento das coisas tem a ver com a sintonia com sua estrutura
de pensamento.
Na mesma direção auxilia a
compreensão do conceito de autogenia, quando sugere a íntima relação entre a
realidade e sua lembrança pessoal da realidade, o evento em si e sua
recordação posterior, impregnada de edições, recortes, desvios narrativos, de
acordo com o desenvolvimento pessoal envolvido em sua descrição.
Esse fato, por si só, compartilha
uma possibilidade de desconstrução, manutenção ou reconstrução clínica em
Filosofia, efetivando uma continuidade ou uma via de acesso a novos roteiros,
emancipando àquilo que se tinha como insolúvel, cristalizado.
O autor-pensador destaca que a
realidade sem uma singularidade que a compreenda inexiste ou existe noutras
perspectivas, pontos de vista. Assim, reivindica uma relação aprendiz entre uma
e outra representação de mundo, incluindo o sentido das expressões envolvidas numa
conversação.
Com Borges: “Domino a escrita
secreta que defende nossa arte do indiscreto exame do vulgo”. (O livro de
areia, 2012. Pág. 57)
Outro dia, li algumas críticas
sobre a produção literária de alguns escritores e escritoras, os quais eram classificados
como uma leitura hermética, difícil, obtusa, dentre outros elogios. Nesse rol
entrava gente como: Clarice Lispector, Dostoiévski, Kafka, Nélida Piñon,
Derrida, Cassirer... Todos receberam a pecha de autores inacessíveis, segundo a
condição envolvida com sua leitura.
Uma aproximação com o teor discursivo
literário pressupõe a busca por uma chave de leitura, a qual irá permitir uma
via de acesso à representação do autor. Não se trata de uma leitura difícil,
fácil ou inacessível, mas um constructo literário singular, diferente da
obviedade das redes sociais, textos publicitários, as propostas para consumo a
qualquer preço.
A narrativa literária costuma
oferecer em suas páginas, conteúdos filosóficos, sociológicos, poéticos,
antropológicos, dentre outros, muitas vezes às margens e desvãos da mensagem
principal. Inexiste uma só mensagem num texto dessa natureza, suas páginas reivindicam
uma leitura de apropriação para suas verdades, muitas delas inacessíveis ao
vocabulário reconhecido.
Essa escrita secreta de
que fala Borges, parece conter uma mensagem à espera de uma leitura singular, por
onde se compartilham mensagens a um leitor em sintonia com as camadas de profundidade,
altitude, latitude, de seu texto. As práticas literárias, os estudos do
especialista, muitas vezes parecem afastá-lo de uma escrita acessível ao
primeiro olhar. A qualidade de uma obra assim costuma ser desmerecida, tratada
como inútil, impossível de traduzir pelos termos do dicionário comum.
O autor compartilha: “(...) cada
qual deve produzir por sua conta as ciências e as artes de que precisa. Nesse
caso, cada um deve ser seu próprio Bernard Shaw, seu próprio Jesus Cristo e seu
próprio Arquimedes.” (O livro de areia,
2012. Pág. 74)
Uma aproximação consigo mesmo reivindica
uma dedicação exclusiva, como um tempo para os exames periódicos (medicina do
corpo), a terapia, os exercícios somáticos e intelectuais, como investimento
nesse endereço existencial com prazo de validade. Talvez assim teríamos mais
qualidade de vida entre os residentes desta casa.
Um desses ambientes é a
hora-sessão com o filósofo clínico, onde um tempo subjetivo trata de acolher e
aprofundar estudos do partilhante sobre um si mesmo em processo. Assim cada um
poderia descobrir ou inventar sua singularidade, vivenciando seu endereço
existencial de acordo com suas possibilidades, como refere Borges.
Uma dificuldade nessa caminhada
de autodescoberta e investimento nas próprias habilidades e competências,
começa na escola tradicional, a qual aparece recheada de decoreba,
interpretação de textos e sujeição as verdades do mestre-escola, um desses
lugares onde se torce o pepino desde cedo, muitas vezes para qualificar mão
de obra barata a um sistema político injusto, desigual, excludente.
Mais tarde o trabalhador,
agendado de que deve dedicar sua vida ao trabalho (na maioria das vezes distante
de seu melhor), seja através dos ensinamentos familiares, escolares, religiosos
ou qualquer outra forma de submissão aos princípios de verdade onde se vê
inserido como peça substituível.
Borges indica: “No meu escritório
da rua México guardo a tela que alguém pintará, daqui a milhares de anos, com
materiais hoje dispersos no planeta.” (O livro de areia, 2012. Pág. 75)
É interessante notar que a
matéria-prima com a qual uma escritura se realiza, tem a ver com o cotidiano do
autor, isto é, as referências e os agendamentos de suas leituras, vídeos,
conversas, lugares que frequenta, as relações com os outros e consigo mesmo,
multiplicando seus territórios existenciais diante de um espelho que se move.
Os eventos da hora-sessão em
Filosofia Clínica, pela natureza de sua abordagem com base na singularidade
(Aristóteles), contribuem para ensaios expressivos em forma de broto. Neste
lugar privilegiado onde se pode desconstruir, desabilitar, reconstruir,
reabilitar um si mesmo noutras direções existenciais, se estabelece um convívio
com as curvas, avanços, retrocessos, de uma estrada recheada de incompletudes
discursivas, aguardando algo novo por chegar.
A singularidade costuma se
espantar ao descobrir-se em novas rotas existenciais, numa exploração
compartilhada com o filósofo clínico, semelhante a um Cristóvão Colombo, Fernão
de Magalhães, Américo Vespúcio, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Cabral e
outros, ao avistar terra nova, onde se ameaçava com o fim do mundo.
Jorge Luis Borges ensina: “Espero
que as notas apressadas que acabo de ditar não esgotem este livro e que seus
sonhos continuem se ramificando na hospitaleira imaginação daqueles que agora o
fecham.” (O livro de areia, 2012. Pág. 103)
As palavras do autor acenam uma epistemologia
aprendiz, isto é, deixar uma janela entreaberta para acolher a leitura que
ainda não veio, a escrita desconhecida, privilegiando uma ética do encontrar,
onde leitor e escritor qualifiquem uma interseção.
Uma obra - por melhor que seja
sua escrita - não se conclui por inteiro, parece aguardar aquele algo mais presente
nas autogenias do autor, em sintonia com sua atualização existencial.
Nesse sentido é possível uma
aproximação entre esses fenômenos da hora-leitura e as dialéticas da
hora-sessão em Filosofia Clínica, elaborando aquilo que se insinua quando duas
ou mais pessoas elaboram um espaço de construção compartilhada.
Aquele abraço,
hs
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