Notas sobre o consultório do filósofo I
A prática da Filosofia Clínica se
relaciona com as lógicas do inesperado. Existem tantas possibilidades para esses
relatos quantos sejam os envolvidos nessa atividade. Essa evidência
metodológica acrescenta uma distância significativa com o que se tinha - como
opção terapêutica - até então.
Tendo em vista uma representação
de mundo, de onde fala o que se diz, essa característica envolve os integrantes
desses encontros compartilhados. Um endereço existencial para acessar,
reconhecer, descrever, interagir, com tópicos de uma estrutura de pensamento em
vias de apresentação. Um refúgio de onde o partilhante encontra meios para traduzir-se
ao filósofo clínico.
Schopenhauer ensina: “(...)
possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas
apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra, ele
sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação
com um ser que percebe, que é o próprio homem.” (O mundo como vontade e
representação. 2001. Pág. 9)
A Psiquiatria derivada da medicina
do corpo, defende suas verdades e intervenções a qualquer preço. Ao oferecer promessas
de controle e submissão da chamada doença mental, através da medicalização
do fenômeno humano, transforma eventos de origem subjetiva em uma panaceia
refém de uma cura que não chega. Essa abordagem passa longe das causas
dos desajustes somáticos, os quais podem ser localizados nas contradições da
estrutura subjetiva, na circunstância de vida de cada um, dentre outros.
Questão de método!
Os pressupostos da medicina, ao
emancipar sua metodologia bem-sucedida em consertar ossos quebrados, permite verificar
como a Psiquiatria permanece refém da indústria de psicofármacos, com
narrativas próprias de uma ideologia comercial. Tendo como referência essa crença,
resta internar a nascente extraordinária com a camisa de força dos protocolos
de alcance universal. Seu aceno com promessa de cura, concede o
tempo necessário para medicalizar as contradições próprias de uma travessia,
iniciando um processo de cristalização comportamental. A droga da Psiquiatria
se sustenta na ideologia da desinformação, controle social, os lucros
faraônicos da indústria de psicofármacos. A produção da loucura é íntima
do olhar alienista e seus cúmplices.
Nesse sentido, a lógica para
domínio e submissão da expressividade se divulga - com o apoio dos incautos e
desinformados - como uma forma travestida de ciência. A substituição da
expressão: doença mental por distúrbios, espectros, transtornos,
são um exemplo dessa tentativa de se manter a qualquer custo uma narrativa maquiada
de práticas perversas, que passam longe de acolher, compreender, cuidar, sustentadas
por crenças antigas disfarçadas de inovação.
Com Thomas Szasz: “(...) a visão
de que as chamadas doenças mentais são mais idiomas do que doenças não foi
ainda adequadamente articulada, nem suas implicações totalmente apreciadas.” (O
mito da doença mental, 1974. Pág. 142)
Os princípios de verdade
estruturam formas de viver com base em determinadas retóricas existenciais, semelhante
ao fundo da caverna de Platão. Nos dias de hoje, com a fartura de psicofármacos
à disposição, não é raro a defesa intransigente de seu uso, muitas vezes impregnada
de boas intenções. A fabricação da loucura oferece uma imagem diante do espelho
como resultante de suas drogas: pessoa nenhuma!
A intervenção da medicina do
corpo, hábil e competente para consertar ou substituir peças em uma
máquina - com prazo de validade desconhecida -, ao querer usar essa mesma
abordagem nas origens subjetivas da somatização, se vê num impasse, isto é, se coloca
a procura de uma cura para algo que não é doença. Noutras palavras, o
uso de uma tecnologia bem-sucedida para tratar avarias somáticas, não permite
acessar suas causas, passando longe de compreender seus sinais de anúncio.
O ponto de vista dos novos
paradigmas, em sua estruturação preliminar, ao enxergar os eventos do cotidiano
sob outra perspectiva, aponta verdades em forma de protociência. É o caso da abordagem
clínica da Filosofia (principalmente nos anos 1990) ao se apresentar como uma
alternativa a forma de pensar a fenomenologia do humano. O filósofo, ao sair da
zona de conforto conceitual, bibliográfica, via de regra representada pela
estrutura escolar e acadêmica, assumindo uma atividade terapêutica em consultório,
se coloca num processo de abertura e risco para acolher e interagir com a
singularidade.
Ian Hacking no prefácio de Thomas
Kuhn: “Nós temos a tendência de ver o que esperamos, mesmo quando a coisa não
está lá. Amiúde leva muito tempo para que uma anomalia seja vista pelo que ela
é: algo contrário à ordem estabelecida.” (A estrutura das revoluções
científicas. 2013. Pág. 33)
As lógicas do inesperado reivindicam
uma interseção peculiar, um borogodó apto a conhecer e transitar por sua
representação de mundo. Os desdobramentos compartilhados na hora-sessão se
espraiam no dia a dia do partilhante em ensaios para uma nova cognição.
Uma realidade em vias de
apresentação rascunha seus originais em busca de novos discursos existenciais. O
papel existencial cuidador do filósofo não deve ser confundido com uma imersão
sem volta em direção ao partilhante, mas como uma base flexível aos seus
deslocamentos intelectivos.
A incompletude discursiva e o
raciocínio desestruturado não constituem uma patologia, em que pese as
narrativas, agendamentos e a propaganda em contrário, tratando-se de uma
publicidade para manutenção da supremacia psiquiátrica, intervindo nos eventos de
base subjetiva como se fora uma consequência da medicina do corpo. A loucura
não aparece em exames de sangue ou qualquer outra forma de identificação
laboratorial, trata-se de uma hermenêutica política, ideológica.
Em Roland Barthes: “(...) não
colaboram para que minha leitura resvale? Um ângulo obtuso é maior do que um
ângulo reto: ângulo obtuso de 100 graus, diz o dicionário: também o terceiro
sentido me parece maior do que a perpendicular pura, reta, cortante, legal, da
narrativa: parece-me que o terceiro sentido abre o campo do sentido totalmente,
isto é, infinitamente (...) o sentido obtuso parece desdobrar suas asas fora da
cultura (...)”. (O óbvio e o obtuso, 1990. Págs. 47 e 48)
Assim é possível entender a chegada da Filosofia Clínica como um novo olhar, uma compreensão do ser singular. Em meio aos presságios de vida nova, sua abordagem acolhe a singularidade, a qual reivindica uma metodologia diferenciada para encontrar seu titular. Até então não se tinha algo assim, apto a entender a desestrutura pessoal como travessia entre um antes e um depois de qualquer coisa.
Veja-se a realidade dos
hospícios, com seus protocolos e práticas alienadas, submissas,
inquestionáveis, ao saber-poder da Psiquiatria, isto é, a última palavra sobre
baixa ou alta no hospital psiquiátrico é de uma só pessoa. Ainda quando simula ouvir
o ponto de vista de outras áreas de atuação, a versão alienista prevalece.
Nesse sentido, como não entender
a clausura de muitos internos, ao elaborar uma teia subjetiva própria, para se proteger
de um mundo que não o compreende, desmerece sua versão das coisas, não entende
sua circunstância existencial, sua contradição como tentativa de ser sujeito na
própria história.
Com Antonin Artaud: “Entre a
personagem que se agita em mim quando, ator, avanço em cena e aquele que sou
quando avanço na realidade, há, sem dúvida, uma diferença de grau, mas em
proveito da realidade teatral. Quando vivo não me sinto viver. Mas quando represento,
então sinto que existo. Quem me proibiria de acreditar no sonho do teatro
quando acredito no sonho da realidade?” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág.
102)
Esse estranho que se oferece em
linguagem própria, reivindica uma parceria capaz de acolher e qualificar
construções compartilhadas, numa lógica aprendiz, onde se pode compreender
aquilo que - a princípio - é desconhecido. Em cada um se insinua um ser
extraordinário, sua expressão aprecia uma tradução compartilhada, distante de
uma abordagem vertical, do tipo: “você sabe com quem está falando?”.
O script pré-determinado
das abordagens da tradição, muitas vezes transforma profissionais diferenciados
em sua área de atuação, em reféns da clausura metodológica vigiada pelos
conselhos de classe, os quais supervisionam, multam, suspendem, excluem quem ousar
estudos ou práticas em desconformidade com a rigidez cadavérica de suas normas.
É interessante descrever uma
estrutura de pensamento, em sua irregularidade discursiva, quando busca dizer
mais do que consegue. Assim o filósofo clínico terá de aprender, como
fundamento de sua atuação em consultório, a conviver com as formas do
inacreditável. Talvez recuperando a admiração e o espanto dos primeiros pensadores.
A descrição multifacetada da
singularidade humana, reivindica uma abordagem cúmplice para estudar, transitar,
conviver com sua expressão inédita. Pela via da interseção, será possível
conhecer aquilo que não se sabe, em aproximações da teoria com uma abordagem adequada
a cada pessoa.
Mais que explicar ideias, ensinar
história da Filosofia, desenvolver críticas, análises, reflexões, cabe ao
filósofo clínico se colocar em risco ao se aproximar do outro na relação terapêutica.
Trata-se de encontrar a vida como se apresenta, semelhante ao equilibrista em suas
travessias pelo arame, sem rede de proteção.
Aquele abraço,
hs
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