Notas do consultório do filósofo X
O livro A prosa do mundo,
de Maurice Merleau-Ponty (14/03/1908-03/05/1961), traduzida por Paulo Neves e
publicada pela editora Cosac & Naify/SP em 2002, com prefácio do filósofo
Claude Lefort (21/04/1924–03/10/2010), cuida de questões referentes a fenomenologia
da linguagem, suas expressões, derivações. No curso do texto é possível
vislumbrar uma intencionalidade da autoria em meio a sua proposta inicial.
É preciso lembrar que essa obra
ficou incompleta, pois o autor arrumou as malas e partiu em meio aos seus
esboços. O que se tem é uma parte redigida pelo filósofo, e, outra, por
especialistas. Alguém já escreveu por aí perguntando: como você gostaria que a
morte te encontrasse? E alguns respondem: fazendo aquilo que mais amo na vida!
No caso de Merleau-Ponty parece ser esse o caso, isto é, sua interseção
irresistível com ela, se deu em meio a projetos inacabados.
A nova abordagem da Filosofia
Clínica se abastece na teoria filosófica, literatura, poesia, a circunstância singular
de cada um e as atividades de consultório. Assim é possível realizar uma
aproximação com os eventos que a sustentam e desenvolvem há mais de 30 anos.
Trata-se de uma abordagem terapêutica brasileira.
Para se entender a fundamentação
teórica de base filosófica aplicada à clínica, reivindica-se uma abertura
significativa e uma plasticidade para acompanhar seus trajetos de aproximação e
interseção prática nas lidas de consultório.
Já no prefácio Claude Lefort compartilha:
“No escritor o pensamento não dirige de fora a linguagem: o escritor é ele
mesmo um novo idioma que se constrói, que inventa meios de expressão e se
diversifica segundo seu próprio sentido. (...) Toda grande prosa é também uma
recriação do instrumento significante, doravante manejado segundo uma sintaxe
nova.” (A prosa do mundo, 2002. Pág. 9)
O fragmento nos ajuda a pensar
sobre o constructo de possibilidades contidas numa estrutura de pensamento. Ao
encontrar na linguagem - em qualquer de suas semioses - um veículo de
expressão, esse achado qualifica a atividade clínica do filósofo, desde os
momentos preliminares à alta compartilhada.
A nova mensagem terapêutica
encontra sua base de sustentação no pressuposto da singularidade, onde cada
partilhante possui um território diferenciado, lugar onde seu discurso
existencial se realiza em tempo, lugar e interseção peculiares. É nesse
endereço existencial que o filósofo irá acessar a matéria-prima e transitar
pelo mundo como representação do outro sob seus cuidados.
Talvez seja o espanto (nada
filosófico) a matriz de onde uma pessoa em crise de ressignificação se
encontre, quando alguém de seu meio (família, trabalho, amigos) oferece uma
forma de terapia para normalizar as coisas. Esse momento costuma ser o
mais problemático, pois a maioria das pessoas desconhece metodologias clínicas,
permanecendo refém das modas, dos discursos do especialista na tv, publicações,
seminários, aulas, onde se enaltece uma ou outra metodologia, a maioria com
base na medicina do corpo. Assim sendo, dependendo do profissional ou da
abordagem que encontrar pela frente, a pessoa terá uma rota pré-determinada, a
partir de um diagnóstico e prognósticos.
O fato de uma expressão ser
inédita ao titular de uma circunstância singular, assusta e, muitas vezes, coloca
o próprio sujeito em formas de ser objeto numa investigação interpretativa,
onde se traduz essa espécie de coisa como: anormalidade, desatino, loucura.
O que, sob certo aspecto está correto, pois a pessoa em crise costuma oferecer
um discurso existencial recheado de incompletude narrativa, desconserto,
sensação de adentrar num território desconhecido, inclusive criando um
vocabulário - muitas vezes incompreensível para si mesmo - para dar conta da
avalanche de modificações em sua estrutura de pensamento.
Com Merleau-Ponty: “Na terra, já
se fala há muito tempo, e a maior parte do que se diz passa despercebido. (...)
uma língua é capaz de assinalar o que ainda nunca foi visto (...) nenhum
pensamento permanece nas palavras, nenhuma palavra no puro pensamento de alguma
coisa.” (A prosa do mundo, 2002. Pág. 23)
É interessante notar esse
fenômeno da interseção humana, onde muitas vezes se fala sem ser ouvido, se
ouve sem entender, se busca uma interação distanciada do contexto em que a
expressão se apresenta. Pode-se perguntar: quem ainda se ocupa para encontrar a
fonte de inspiração e desdobramentos de uma expressividade?
Por outro lado, essa fonte de
matéria-prima aprecia refugiar-se - pela via da intencionalidade - nos termos
agendados no intelecto, os quais se oferecem numa semiose singular,
reivindicando uma tradução compartilhada de seus conteúdos.
Existem anúncios que se expressam
pelas palavras, muitas vezes transgredindo a vontade preliminar da autoria.
Esse fenômeno costuma integrar eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, não
como uma constatação de um inconsciente, mas expressão de uma vontade em
devir.
Ao referir: nenhum pensamento
permanece nas palavras, o pensador compartilha essa percepção de que as
palavras, ao dizerem muito, ainda assim não esgotam a fonte de inspiração de
onde partiram.
Merleau-Ponty indica: “(...) o
livro não me interessaria tanto se me falasse apenas do que conheço. De tudo
que eu trazia, ele serviu-se para atrair-me para mais além. (...) Ele se
instalou no meu mundo. Depois, imperceptivelmente, desviou os signos de seu
sentido ordinário, e estes me arrastam como um turbilhão para um outro sentido
que vou encontrar. (...)”. (A prosa do mundo, 2002. Pág. 33)
A relação de um leitor com um
livro se assemelha à interseção do filósofo clínico com o partilhante, ou seja,
os eventos de compartilhamento na hora-sessão atribuem a um e outro, conteúdos
significativos resultantes das construções compartilhadas. Se é verdade que o
sujeito em terapia se modifica com a continuidade dos encontros, também o
filósofo acrescenta - de um jeito próprio - conteúdos à sua malha intelectiva.
Uma vivência dessa natureza, onde
se reapresentam territórios subjetivos, até então desmerecidos pelo partilhante,
costuma abrir janelas e portas epistemológicas, intuitivas, transgressivas, por
onde a pessoa pode experienciar algo novo, um desses lugares onde a fonte de
inspiração atualiza seu discurso existencial.
Os eventos de releitura -
integrantes da lógica das sessões - oferecem uma fenomenologia da descoberta,
semelhante a revisita a lugares, pontos de vista, obras de arte, eventos da
clínica filosófica, onde a matéria-prima se apresenta pela via da interseção e se
descreve pelas construções compartilhadas, distante de um saber-poder
interpretativo - exclusivo - do terapeuta.
Há um processo integrativo e libertário
do partilhante na abordagem da Filosofia Clínica. Ao superar a lógica da
dependência de um suposto inconsciente, se esboça um encontro singular
impregnado de desconstruções, reconstruções, autogenias.
Com o pensador: “(...) é o preço
que se deve pagar para ter uma linguagem conquistadora, que não se limite a
enunciar o que já sabíamos, mas nos introduza a experiências estranhas, a
perspectivas que nunca serão as nossas, e nos desfaça enfim de nossos
preconceitos. Jamais veríamos uma paisagem nova se não tivéssemos, com nossos
olhos, o meio de surpreender, de interrogar e de dar forma a configurações de
espaço e de cor jamais vistas até então.” (A prosa do mundo, 2002. Pág. 119)
É possível pensar sobre o que
leva tanta gente a buscar uma metodologia - para trabalhar com pessoas - com
base em definições cartesianas, cristalizadas, excessivamente bem ajustadas, de
aspecto controlador, em tentativas de manipulação, reféns das percepções da
medicina do corpo, instituindo aquilo conhecido como doença mental, síndromes,
espectros, trauma, psicopatologias...
Uma suspeita, resultante dessas
reflexões, é de que o território existencial do outro, muitas vezes insubmisso
aos tratamentos da tradição, apresenta realidades distantes da percepção
engessada das abordagens para contenção e direcionamento de sua expressão,
oferecendo curas para doenças inexistentes. Essa noção, de
aspecto científico, na verdade trata-se de uma abordagem ideológica, política,
ao acenar com uma cura que não chega. O que ocorre são desvios de rota
de uma expressividade singular, como proposta para contenção de seu devir, ora
em vias de não-ser. A partir daí, se instalam intervenções para controle do
outro, através da instituição psiquiátrica, a qual irá internar e medicalizar a
singularidade como proposta de recondução da pessoa às verdades da lógica
comum.
Esse dado ajuda a pensar sobre a
desistência de ex-alunos em se envolver com a metodologia da Filosofia Clínica,
a qual exige uma lógica aprendiz, um estudo permanente sobre o outro e sobre si
mesmo, em busca de conhecer as circunstâncias de um e outro nos eventos da
hora-sessão.
Para muitos, parece ser difícil
renunciar a um pretenso saber-poder que instalaria o terapeuta num lugar de
destaque na relação clínica. Com a nova abordagem terapêutica, preliminarmente,
o filósofo irá aprender com o partilhante os meios para acessar sua farmácia
interior, qualificar a interseção, aprender sua linguagem e algo mais, passando
longe das retóricas acadêmicas e não acadêmicas para a manutenção de princípios
de verdade.
Assim se colocam, esses incautos,
numa busca por métodos que prometem a sustentação de um lugar de saber-poder do
profissional, tendo por base - exclusivamente - sua experiência profissional e
suas leituras, as narrativas a priori sobre cada caso. Esse ponto de
vista se mantém numa proposta generalista, classificadora, onde se acena uma
segurança (ilusória!) que não encontra reciprocidade nas intervenções clínicas.
Quando algo escapa a essa lógica
cristalizada e cristalizante, resta o encaminhamento ao Alienista, o qual
também não sabe o que fazer com esses desdobramentos da existência, restando a
medicalização e, não raras vezes, a produção daquilo que promete curar.
A formação do filósofo clínico
inclui, além dos encontros com a fundamentação teórica, o estudo de casos
clínicos singulares (que não podem ser compreendidos como uma fórmula mágica
que sirva a todo mundo!), seminários, aulas complementares, clínica pessoal,
supervisão, formação continuada. Esse fato, por si só, evidencia um caráter de
seleção - rigoroso - aos candidatos ao ser filósofo clínico.
O estranhamento diante do novo, das
lógicas da diferença, compartilha uma percepção filosófica que vem de longe,
dos primeiros pensadores, os quais encontravam no espanto as origens do
filosofar. Com isso se pode compreender o papel existencial e a expressividade
do filósofo clínico em consultório, o qual tem por bússola uma relação aprendiz
para seus deslocamentos e partilhas pelo endereço existencial inédito,
singular, do partilhante.
Aquele abraço,
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