Notas de um consultório XIII
Uma obra chega às mãos de alguém em
tempo próprio, importa menos a data de sua publicação, mas o instante desse
encontro onde o leitor e a leitura se reconhecem. A natureza desses achados se
oferece numa incerta frequência a refúgios que aguardam sem pressa. As
livrarias, cafés, escolas, bibliotecas, são alguns endereços onde se pode
encontrar essas raridades, quase sempre à espera de um visar, uma escuta, um
cheiro, um sentir capaz de acolher uma interseção diferenciada.
A Estrutura das Revoluções
Científicas, de Thomas Kuhn, é um desses livros que você lê muitas
vezes, seja por seu conteúdo ou pela sintonia existencial com suas páginas, por
onde se pode evidenciar o desenvolvimento de uma estrutura de pensamento. Uma
autogenia se insinua pelas releituras (algo raro nos dias de hoje) de um bom
texto, quase como um espelho onde o leitor pode testemunhar sua caminhada
existencial.
O filósofo compartilha sua
pesquisa, no que se refere ao aparecimento dos novos paradigmas. Lembrando a
necessidade de uma lógica aprendiz, uma postura crítica e reflexiva dos
profissionais de qualquer área do conhecimento. Trata da relação daquilo que
denomina ciência normal e suas anomalias, consideradas insolúveis com as
crenças e procedimentos que detinha até então.
Em Thomas Kuhn: “Considero
‘paradigmas’ as realizações científicas universalmente reconhecidas que,
durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma
comunidade de praticantes de uma ciência.” (A estrutura das revoluções
científicas, 2013. Pág. 53)
O fragmento destaca a categoria
tempo, como um ingrediente apto a sustentar uma prática científica. Embora o
pesquisador tenha em sua bagagem pessoal a ética e o bom senso, nem sempre
essas características são respeitadas, prevalecendo interesses de natureza
econômica, ideológica, onde os princípios de verdade tentam manter sua
hegemonia a qualquer preço.
Talvez por isso a dificuldade de muita
gente em se atrever a estudar e desenvolver uma nova proposta no campo das
ciências humanas, quase sempre vinculada a persistência de um pequeno grupo de
pensadores (muitas vezes sem recursos em sua época) aptos a enfrentar as
adversidades esparramadas pelo caminho.
Paradigmas são modelos, crenças,
padrões, onde se articulam e sustentam ideias e práticas no mundo da ciência.
Assim é possível vislumbrar o papel da pesquisa acadêmica como um suporte
poderoso para sustentação da ciência normal. Seja através da oferta
generosa de bolsas de pesquisa, publicações, cátedras onde eminentes oradores prescrevem
suas verdades, implementam sua pesquisa, sustentam um status quo
institucional.
O pensador compartilha: “Algumas
vezes um problema comum, que deveria ser resolvido por meio de regras e
procedimentos conhecidos, resiste ao ataque violento e reiterado dos membros
mais hábeis do grupo em cuja área de competência ele ocorre. (...) Dessa e de
outras maneiras, a ciência normal desorienta-se seguidamente. (...) quando os
membros da profissão não podem mais esquivar-se das anomalias que subvertem a
tradição existente da prática científica, então começam as investigações
extraordinárias (...)” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 65)
Se excluirmos o interesse
econômico e ideológico de alguns campos de atuação em ciências humanas, como a
rede de consumo de psicofármacos, internação involuntária (manicômios),
eletrochoques... é possível realizar um diálogo inter e transdisciplinar de
qualidade, com pensadores abertos a uma lógica aprendiz com os eventos de
natureza desconhecida.
No que se refere às questões da
chamada saúde mental, ainda estamos numa fase em que a maioria dos
profissionais, insistem em apresentar novas patologias, disfarçadas de
expressões como: síndrome, espectro, transtorno, tentando sustentar as
intervenções - praticadas e festejadas - de submissão e controle do fenômeno
humano em vias de não-ser. Questão de método!
Suspeita-se que enquanto a
indústria de psicofármacos e a medicina do corpo detiverem a propriedade (direta
ou indireta) das pesquisas na área, as coisas vão prosseguir nessa direção,
mesmo quando as contradições e percepções indicarem outras possibilidades para
abordagem das pessoas em seus momentos de travessia existencial.
As anomalias que subvertem a
tradição, costumam ser sufocadas ou direcionadas para um lugar de menos
valia pela ciência normal, onde se destacam: as questões econômicas,
ideologia, saber-poder de mestres e doutores conformados aos ensinamentos da
tradição, dissertações e teses afins para manter interesses diversos como a
manutenção de bolsas de pesquisa, parcerias, intercâmbios, patrocínios...
Com Thomas Kuhn: “A ciência
normal não se propõe descobrir novidades no terreno dos fatos ou da teoria;
quando é bem-sucedida, não os encontra.” (A estrutura das revoluções
científicas, 2013. Pág. 127)
Um novo paradigma tem de
conviver, em sua época, com toda sorte de contrariedades, ameaças, críticas
(muitas vezes de quem nada sabe do que fala ou escreve), o espanto da classe
científica com as possibilidades (ameaçadoras) que se apresentam com os novos
olhares e percepções no mundo da ciência.
As novas ideias costumam se
apresentar numa forma subversiva, ameaçadora, contraditória ao que se tinha até
então, ou seja, trata-se de seminários, publicações, práticas que propõe algo
até então desmerecido, distante do que se tinha como metodologia consagrada.
Como a ciência normal se
comporta com esses esboços de alma nova que vão surgindo? A história é repleta
de exemplos dos tratamentos oferecidos aos precursores em vários campos do
conhecimento, poderíamos lembrar as fogueiras patrocinadas pelo índex da igreja
católica e seus adeptos, quando mentes brilhantes (homens e mulheres) foram
condenadas à fogueira por suas ideias e práticas diferenciadas. Nos dias de
hoje as fogueiras são de outra natureza - ideologicamente dissimuladas -, ainda
assim, o movimento da vida prossegue para superar os limites, amarras e freios
existenciais esparramados pelo caminho.
O pensador contribui: “(...)
alguns homens foram levados a abandonar a ciência devido à sua inabilidade para
tolerar crises. Tal como os artistas, os cientistas criadores precisam, em
determinadas ocasiões, ser capazes de viver em um mundo desordenado.” (A
estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 161)
Uma rotina de convívio com a vida
desestruturada, recheada de incompletudes discursivas, como tradução dos
instantes de travessia entre uma e outra realidade, reivindica uma espécie de
profissional diferenciado, apto a conviver e suportar as ameaças ao velho
território, num tempo subjetivo, por onde se testam múltiplas variáveis, em
busca de um lugar seguro para sua expressividade.
Em Filosofia Clínica, além de se
tratar de um novo paradigma terapêutico, onde seus profissionais têm de
conviver com a insegurança dos primeiros tempos, da própria natureza da nova
abordagem clínica, a qual não trabalha com pressupostos a priori, refém
de uma metodologia libertária, onde inexiste um objeto de pesquisa ou
tratamento distante da realidade partilhante, mas um sujeito em vias de
reconhecer-se numa estrada que lhe pertence.
Talvez o fato de ser uma novidade
radical - a Filosofia Clínica - ofereça um território plástico para a atuação terapêutica,
numa interseção entre o filósofo e seu partilhante, apta a oferecer a
matéria-prima para a qualidade das intervenções, possa se traduzir em insegurança
a alguns estudantes, embora sua estruturação tenha uma fundamentação teórica e
prática - muitas vezes de aparência inacreditável - robusta, muitos vão
procurar metodologias que deem a ilusão de segurança, com suas retóricas de
aspecto infalível, exemplos de casos bem sucedidos, etc. etc.
Em Thomas Kuhn: “Paradigmas não
podem, de modo algum, ser corrigidos pela ciência normal. Em lugar disso, (...)
a ciência normal leva, ao fim e ao cabo, apenas ao reconhecimento de anomalias
e crises. (...) Os cientistas falam
frequentemente de ‘vendas que caem dos olhos’ ou de uma ‘iluminação repentina’ que
‘inunda’ um quebra-cabeça que antes era obscuro, possibilitando que seus
componentes sejam vistos de uma nova maneira”. (A estrutura das revoluções
científicas, 2013. Pág. 215)
A correção oferecida pela ciência
normal diante de um desvio de rota, uma nova percepção, um desvario de seu
ponto de vista, é a constatação de um caos, uma anomalia que precisa ser ajustada,
desconstruída. No entanto, como nenhuma dessas possibilidades acontece, e o
fenômeno se repete, inaugurando um padrão, essa característica reivindica uma abordagem
diferenciada, inexistente a priori, específica a singularidade dos
encontros.
Nesse processo com a
fenomenologia das crises, algo novo acontece, alcançando rotas de tradução pela
via de uma interseção compartilhada, por onde se descrevem rascunhos de anúncio
sobre algo, até então, desconsiderado.
A mudança de perspectiva concede
a fenomenologia do estranho uma proximidade apta a traduzir suas verdades, seu
ponto de vista, e com ele dialogar, numa proposta para emancipar sua geografia
subjetiva.
Um novo olhar sobre velhas problemáticas
aparece para qualificar um convívio aprendiz com realidades, até então, significadas
como anomalia. Para que esse processo de descobrimento aconteça é preciso um
pesquisador apto a conviver com as ameaças de um território desconhecido, em
busca de uma matéria-prima em vias de se mostrar.
O filósofo indica: “Creio que
existem excelentes razões para que as revoluções sejam quase totalmente
invisíveis. Grande parte da imagem que cientistas e leigos têm da atividade
científica criadora provém de uma fonte autorizada que disfarça
sistematicamente - em parte devido a razões funcionais importantes - a
existência e o significado das revoluções científicas”. (A estrutura das
revoluções científicas, 2013. Págs. 231/232)
Existem múltiplas percepções
sobre a invisibilidade preliminar das revoluções científicas. Gostaria de
destacar que é comum, em países de vocação colonial (dependência econômica,
ideológica, educacional, linguística), uma camada de proteção às novas ideias e
práticas científicas, especificamente àquelas oriundas de seu meio, usualmente
desmerecidas por grande parte dos próprios nativos.
Assim, não é de estranhar que se
forme uma rede de proteção ao redor das novas propostas e estudos no campo das
ciências humanas. Distanciando a curiosidade comum dos novos territórios
existenciais em vias de aparecimento. Não apenas um novo vocabulário está em
curso, mas intervenções de acolhimento, interseção, tradução compartilhada e
outros, constituem uma linguagem inacessível há quem não se dispõe percorrer um
caminho (recheado de desafios e armadilhas) de estudos e desenvolvimento
pessoal em direção ao novo paradigma.
Thomas Kuhn ensina: “Dado que os novos
paradigmas nascem dos antigos, incorporam comumente grande parte do vocabulário
e dos aparatos, tanto conceituais como de manipulação, que o paradigma
tradicional já empregara. Mas raramente utilizam esses elementos emprestados de
uma maneira tradicional. Dentro do novo paradigma, termos, conceitos e
experiências antigos estabelecem novas relações entre si.” (A estrutura das
revoluções científicas, 2013. Pág. 247)
Na pesquisa científica se
desenvolvem estudos e práticas com base num chão reconhecido, seja para
sustentar suas verdades ou para contraditar suas percepções com novas janelas
epistemológicas, intuitivas, ao descrever, sugerir, apontar caminhos alternativos
ao que se tinha.
Não é apenas o sentido de algumas
expressões que se modificam com a superação de modelos científicos, mas também
a conexão do que vai surgindo com termos aptos a descrever os inéditos
aparecimentos.
Outra dificuldade na
implementação das novas propostas de ciência é a resistência institucional, em
experienciar novas rotas em seu campo dos estudos, as quais costumam surgir em
contradição com as ideologias da tradição.
Esses apontamentos preliminares
buscam oferecer subsídios ao desenvolvimento dos estudos em Filosofia Clínica,
como um novo paradigma em ciências humanas, o qual se mostra apto a dialogar e
compartilhar subsídios a diferentes segmentos no campo da pesquisa teórica,
estudos de aprofundamento, práticas de consultório, sem perder de vista suas
referências filosófico-clínicas.
Aquele abraço,
hs
.jpg)


.jpg)



