Singularidade
O filme: “Os homens que não amavam as mulheres”, em sua versão americana, é de 2011. Dirigido por David Fincher e roteiro de Steven Zaillian, com duração de 2h38min. Pode ser encontrado no Prime e Netflix.
Trata-se de uma adaptação para o cinema da obra precursora da trilogia literária Millennium do sueco Stieg Larsson, publicada (mais de 500 págs. cada uma) originalmente em 2005, traduzida no Brasil em 2010 pela Cia das Letras/SP. Coincidência ou não, o escritor morreu aos 50 anos de idade, após entregar o último manuscrito, não chegou a ver sua publicação.
Esse esboço trata (de forma introdutória) a íntima sintonia da extraordinária Rooney Mara, ao interpretar a singular Lisbeth Salander. Após a leitura das três obras e assistir ao filme, você pode se perguntar várias coisas, dentre elas a conexão profunda da atriz com a personagem, incluindo uma espécie de autorretrato (em sua versão feminina) do autor da trilogia.
É interessante verificar a pluralidade de leituras sobre uma obra, com isso é possível detectar abordagens, crenças, diferentes fundamentos e representações de mundo, algo caro à Filosofia Clínica. Um dos quesitos da nova abordagem terapêutica é a necessidade de uma epistemologia aprendiz, para estabelecer uma interseção com as lógicas da diferença sob seus cuidados.
O ser peculiar de Rooney Salander se destaca no filme e nos textos da trilogia, ou seja, além de uma investigadora sensível e repleta de habilidades, também revela a expressividade radical que a constitui.
Para encontrar a via de acesso a singularidade de cada um, é pré-requisito uma aproximação com seu território existencial, tendo como referência a espacialidade intelectiva - prioritariamente a recíproca de inversão -, como ponto de apoio para uma investigação compartilhada. No caso de Rooney Salander, é possível identificar sua auto reclusão, o distanciamento de um convívio social comum, seu trânsito com desenvoltura pelos labirintos do mundo, submundo, por aquilo que lhe interessa.
Para localizar seus padrões estruturais atualizados (a causa dos desajustes, contradições), é necessário acolher sua historicidade por uma descrição fenomenológica compartilhada. Assim também será possível vislumbrar a natureza e condições de seu papel existencial extraordinário. Uma rara aptidão para reelaboração pessoal se destaca na personagem, isto é, quando muitos deixariam de lado suas buscas em razão de dificuldades, Rooney-Salander desenvolve uma criatividade para incrementar planos de ação inéditos.
A atividade clínica da Filosofia permite encontrar pessoas assim estruturadas, isto é, sem o rótulo e a pecha das tipologias psiquiátricas. Dessa maneira, tendo por fundamento um território singular, em vias de apresentação, qualifica uma interseção para um acolhimento diferenciado com o outro da relação.
Uma dificuldade das metodologias com critérios da bíblia DSM é realizar um trabalho de base fenomenológica, analítica, hermenêutica compreensiva, ou seja, com uma redução apta para evitar os agendamentos, desvios e direcionamentos da terapia. Dessa forma é quase impossível sentir e perceber a pessoa em seu próprio território, a qual, em muitas abordagens, permanece refém da autoridade e interpretações do analista, traduzindo e significando os eventos na vida da pessoa de acordo com sua cartilha e representação das coisas.
O novo paradigma da Filosofia Clínica atualiza os estudos de mentes brilhantes como: Mesmer, Mary Baker Eddy, Freud, Jung, Lacan, e seus seguidores, ou seja, em ciências humanas a emancipação de uma metodologia encontra um ponto de partida nas atividades de seus precursores.
Nesse sentido, conviver com a atriz-personagem Rooney Salander se apresenta como um privilégio aos estudos do novo paradigma, uma vez que não se tem moldes apriorísticos para enquadrá-la em alguma neurose, psicose, trauma, espectro, transtorno, os quais condicionariam o ângulo de percepção para seu devir singular.
Trata-se, isso sim, de encontrar o ser humano em seu próprio território existencial, onde desenvolve sua expressão de acordo com sua estrutura de pensamento. Os deslocamentos existenciais de uma pessoa assim descrita, apresenta um constructo de referências e desenvoltura inacessíveis há quem não tenha olhos de ver. Uma vida estranha às interpretações de base cristalizante, as quais não conseguem interagir com as dinâmicas da singularidade em ação, necessitando definir tipos para tentar classificar e controlar comportamentos com diagnósticos, prognósticos. Dessa forma não é raro passar despercebida uma medicação disponível na própria farmácia subjetiva da pessoa.
Com uma percepção de natureza instintiva e habilidade extraordinária em relação a computadores, incrementadas por uma perspicácia vivencial com tudo que a cerca, Rooney Salander consegue acessar tópicos e lugares desconsiderados, desmerecidos pelas avaliações da prática criminal, ou seja, consegue chegar aonde outros não chegam. Por essa razão é contratada pelo jornalista investigativo (Daniel Craig) para auxiliar na investigação de uma pessoa desaparecida.
A manutenção de sua atividade só é possível por ser uma perita diferenciada em sua equipe, os quais detém um status quo em função de trabalhos anteriores. Ainda assim, o convívio do jornalista com Rooney Salander se descreve como uma relação mista, algumas vezes indeterminada.
Em razão dessas mesmas características a personagem principal dos livros e do filme é perseguida o tempo todo, seja para cooptá-la para um trabalho ou outro. Talvez por isso tenha uma residência desconhecida, sem contar que Rooney se desloca para ser encontrada apenas por quem deseja. As obras da trilogia contêm narrativas impregnadas de mistério, aventura, estranheza, sem contar as inúmeras possibilidades de leitura (analítica, hermenêutica, fenomenológica, psicanalítica, psiquiátrica, filosófico-clínica...), de acordo com a autogenia de cada leitor.
Nos dias de hoje, em meio à miríade - barulhenta - de métodos terapêuticos, a Filosofia Clínica, se apresenta numa proposta silenciosa, distante das modas, consensos, unanimidades. Nesse sentido, costuma ser parte da terapia, a busca pelo endereço existencial de um filósofo clínico. Sendo inacessível ao visar comum, assemelha-se a personagem incomum da trama, reivindicando uma sintonia para se deixar encontrar.
Muitas vezes se traduz Rooney Salander, nos livros e em alguns momentos do filme, através de delegados de polícia, psicólogos, detetives, jornalistas..., como estranha, maluca, antissocial etc. Também poderia ser catalogada como autista, de acordo com as narrativas da moda atual, agendadas e festejadas - em quase desespero! - por todo lugar. Esse fato lembra as práticas de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista: “Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade!”
Singularidade, por onde andas? Por que não apareces para mim? Dediquei tanto tempo em graduações, mestrados, doutorados, seminários, congressos e intercâmbios. Fui tão longe em busca de especialistas, sábios, gurus, ficando cada vez mais distante da tua versão... até hoje.
Aquele abraço,
hs
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