O
conceito de singularidade integra a nova abordagem clínica da Filosofia. Tem
como fundamento e ponto de partida investigativo, uma redução fenomenológica e
a busca por interseção com o sujeito partilhante. Isso por si só, já deveria
bastar para demonstrar seu distanciamento das metodologias comuns, as quais tem
por base uma hermenêutica interpretativa, tipológica, classificadora,
universal.
Um
ser estranho se apresenta, a cada momento, desafiando as lógicas da definição tipológica.
Essas intervenções de protocolo para tratar gente desarrazoada, encontra aquilo
que elas mesmas colocam no outro sob seus cuidados. Uma tez de indefinição
precursora, própria da dialética humana em vias de não-ser, reivindica um algo
mais que essas abordagens não têm. Como realizar uma travessia singular - entre
um antes e um depois - superando a vertigem desses instantes, com uma camisa de
força interpretativa?
Talvez
pensadores como: Arthur Schopenhauer, Merleau-Ponty e Wittgenstein, pudessem
auxiliar o entendimento desse viés desconstrutivo das bases que se tinha, até
então. No entanto, quem está disposto a renunciar àquilo que pagou caro para
aprender? Como se proteger da teia ideológica das sanções de conselhos e
organismos profissionais, os quais limitam, direcionam, autorizam e
desautorizam estudos, olhares, sentires, percepções daquilo que ultrapassa as
fronteiras do dizível?
Essa
questão é antiga, um clássico, na verdade!
Fritjof
Capra, ao lembrar Werner Heisenberg: “Meu interesse pela mudança da nova visão
de mundo na ciência e na sociedade foi despertado quando eu, ainda um jovem
estudante de física de dezenove anos, li Física e Filosofia de Werner
Heisenberg. (...) Onde descreve e analisa o singular dilema enfrentado pelos
físicos (...) quando começaram a explorar a estrutura dos átomos e a natureza
dos fenômenos subatômicos. Essa exploração os colocou em contato com uma
estranha e inesperada realidade, que estilhaçou os alicerces da sua visão de
mundo e os forçou a pensar de maneira inteiramente nova. (...) Em suas
tentativas de compreender a natureza dos fenômenos subatômicos, os cientistas
tornaram-se dolorosamente cientes de que seus conceitos básicos, sua linguagem
e todo o seu modo de pensar eram inadequados para a descrição dessa nova
realidade.” (Sabedoria Incomum. Pág. 13.)
Em
Filosofia Clínica é comum a relação com o incomum. O conceito de singularidade e
o novo constructo metodológico, permitem acolher, transitar, interagir, e compreender
o sujeito partilhante em seu próprio território, reivindicando do filósofo uma
expressividade aprendiz, onde terá subsídios para conhecer uma estrutura de
pensamento em momentos de anúncio.
Nesse
sentido, o filósofo terá de exercitar-se em múltiplas expressividades, a partir
de seu encontro com o inédito de cada atendimento. Sem perder de vista seu
papel existencial cuidador e seu planejamento dinâmico, encontra uma referência
nesse ângulo de visão - algumas vezes escorregadio -, para compreender essa
escuta que se desloca para transcrever a epistemologia do estranho.
Como
lidar com essa tez de indeterminação, desrazão, singularidade, sem perder-se no
outro lado da relação clínica?
Talvez
Capra nos auxilie: “O grande feito de Heisenberg foi expressar essas limitações
dos conceitos clássicos de uma forma matematicamente precisa - que hoje leva
seu nome - e é conhecida como ‘princípio de indeterminação’. (...) O princípio
de indeterminação mede o grau em que o cientista influencia as propriedades dos
objetos observados pelo próprio processo de mensuração.” (Sabedoria incomum, pág. 15.)
Ao
pensarmos com esse subsídio teórico-prático, aplicado a nossa lógica aprendiz,
se pode entender o movimento intelectivo existencial do filósofo clínico, ao
deslocar-se em recíproca de inversão e inversão, na relação terapêutica. Com o
cuidado e a atenção necessários para encontrar e compreender a pessoa diante de
si mesma sendo outra.
Uma
redução fenomenológica auxilia o processo de acolhimento da matéria-prima com a
qual o filósofo irá trabalhar, com um mínimo de agendamentos, num território em
vias de investigação compartilhada. A epoché também vai ajudar na
percepção das intervenções clínicas, sua natureza e alcance na malha
intelectiva do partilhante, bem assim as elaborações na estrutura de pensamento
do filósofo, ao ser agendado pelas palavras e discurso existencial com os quais
trabalha.
Assim
é possível estar atento para uma realidade mutante, a qual assume, na
provisoriedade do instante precursor, uma tez de invisibilidade, a qual
reivindica uma abordagem cúmplice para se mostrar e insinuar alguma forma de
tradução ao filósofo clínico. Ao manter uma interseção com base em agendamentos
mínimos, dado padrão, literalidade, atualização discursiva, e outros, o
filósofo pode construir uma abordagem específica para cada pessoa em
atendimento, bem assim, as modificações que vão acontecendo em sua estrutura
pelas vivências da hora-sessão.
Fritjof
Capra recorda ‘O ponto de mutação’: Um paradigma, para mim, significaria a
totalidade de pensamentos, percepções e valores que formam uma determinada
visão de realidade, uma visão que é a base do modo como uma sociedade se
organiza.” (Sabedoria incomum, pág. 17.)
A
mudança de paradigma pressupõe pessoas (pesquisadores) diferenciados, precursores,
pensadores desacostumados com uma zona de conforto em sua área de trabalho. Noutras
palavras, reivindica uma inquietude curiosa e uma aptidão para navegar em mar
aberto, com os riscos que essa atitude oferece, a insegurança de adentrar em
águas desconhecidas, conviver e descrever suas nuances, desvios narrativos,
contradições, em busca de um eixo significativo de expressão onde outros
encontravam somente desatino ou desrazão.
As
mudanças resultantes na vida de cada pessoa, a partir de uma terapia, costuma
modificar seu meio social. Noutras palavras, uma transformação com base na
estrutura de pensamento, impactando a representação de mundo de cada um, soa
algo revolucionário, capaz de agendar e imprimir transformações - inicialmente invisíveis
- interferindo na realidade das ruas. Depois disso, na cumplicidade da
categoria tempo, os princípios de verdades estabelecem regras e normas para abraçar
e cristalizar as novas ideias em ciência normal.
Aquele
abraço,
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