Sobre “Música para Camaleões” I
Em um dia desses, saboreando o
silêncio das primeiras horas da manhã de sábado, pelas ruas do centro histórico
de Porto Alegre, logo após um café ao lado do “Beco dos Livros”, na rua dos
Andradas, encontrei a obra: “Ensaios” de Truman Capote, com tradução de Débora
Isidoro e publicada pela editora Leya/SP em 2010.
Um pouco antes de seus textos, o
autor compartilha a apresentação aos originais de 1980. Alguém já referiu ser o
prefácio uma antecipação do que o leitor irá encontrar no livro. Espécie de
antevisão, ou chave de leitura, para os aprofundamentos posteriores.
As páginas iniciais traduzem o
agridoce da expressão singular, por onde o autor se descreve sobre a
fenomenologia da escrita.
Em nosso caso, aprendizes da relação
da Filosofia Clínica com a Literatura, com suas múltiplas possibilidades de
leitura, releitura, derivações, ao ser contraditória com um espírito de
multidão, algo mais se oferece.
Com Truman Capote: “Comecei a
escrever quando tinha 8 anos – do nada, sem nenhuma inspiração de um exemplo
qualquer. Jamais conhecera alguém que escrevesse; de fato, conhecia poucas
pessoas que lessem. Mas o fato era que as únicas quatro coisas que me interessavam
eram: ler livros, ir ao cinema, sapatear e desenhar. (...) um dia, comecei a
escrever, sem saber que havia acorrentado minha vida a um mestre nobre, mas
implacável, destituído de misericórdia. (...)”. (Prefácio de ‘Música para
Camaleões’ in Ensaios, 2010. Pág. 579)
O fragmento torna possível
refletir sobre os eventos da vida singular, ou seja, como lembra Borges:
‘séculos e séculos e as coisas acontecem para alguém, exatamente agora, numa
circunstância específica’.
A percepção atualizada do autor
sobre sua condição de leitor e escritor, indica as origens de seu interesse
pela literatura. No seu caso, refere não ter tido nenhuma influência familiar,
de amigos, colegas... diz ele: “jamais conhecera alguém que escrevesse”.
Essa narrativa de um escritor
sobre as origens de sua paixão dominante, tem a ver com algo que se insinuou -
bem cedo - em sua estrutura de pensamento, isto é, a vontade irresistível de
ler e escrever, mesmo encontrando-se num contexto desfavorável a sua
expressividade.
Uma indagação poderia surgir: de
onde vem essa vontade? Como se anunciou, desenvolveu, se manteve? multiplicando
o foco e a disciplina para uma dedicação a algo que, até então, não fazia parte
de seu entorno existencial. Esse aspecto lembra o conto “O patinho feio” de
Hans Christian Andersen, de 1843, onde o autor descreve uma inadequação
singular, um processo de autodescoberta. Assim teríamos subsídios para especular
sobre a fonte de inspiração de Truman Capote, a superação do exílio na própria
vida.
Com o autor: “(...) a diferença
entre escrever muito bem e a verdadeira arte; é sutil, mas selvagem. (...) Era
preciso aprender muito e de muitas fontes: não só dos livros, mas da música, da
pintura e simplesmente da observação diária. (...) Aos 17 anos eu já era um
escritor. Se fosse pianista, esse teria sido o momento do meu primeiro concerto
público.” (Prefácio de ‘Música para Camaleões’ in Ensaios, 2010. Pág. 579 e
580)
A busca por desenvolver uma expressividade
afim com a paixão dominante pode significar uma vida inteira de dedicação,
estudos e pesquisas. Algo que Rainer Maria Rilke descreve em sua obra: “Cartas
a um jovem poeta”, quando sugere rotas para emancipar um papel existencial
imprescindível, tendo por referência uma vida de aprendiz.
Esse aspecto dialoga com a nova
abordagem da Filosofia Clínica, isto é, muita gente se aproxima de sua
mensagem, no entanto, é raro um desses candidatos ao ser filósofo clínico,
aprofundar sua compreensão, tanto no que diz respeito a fundamentação teórica
(mais acessível) ou a fundamentação prática (mais simples, mais complexa),
momentos em que muitos estudantes procuram encontrar-se noutras metodologias,
preferencialmente àquelas onde se tenha a ilusão de um território seguro, ao classificar,
tipologizar, universalizar pressupostos sobre a fenomenologia humana.
Algumas vezes, é possível
encontrar um candidato ao ser filósofo clínico, que carrega em sua bagagem
existencial, determinadas características singulares, que o indicam como
estudante da nova abordagem. Ter vivido e convivido em muitas circunstâncias
existenciais como: estudar, graduar-se, pós graduar-se, casar, separar, casar
de novo, ter filhos, mudar de casa, bairro, cidade, dentre outras... costuma
legitimar o encontro da pessoa com a Filosofia Clínica, bem depois que já foi
testada pelas adversidades cotidianas.
O ensaísta compartilha: “O texto:
‘Ouvindo as musas’ me fez pensar em linhas totalmente diferentes: eu
queria produzir uma novela jornalística, alguma coisa em grande escala que
teria a credibilidade do fato, a rapidez imediata do filme, a profundidade e a
liberdade da prosa e a precisão da poesia.” (Prefácio de “Música para
Camaleões” in Ensaios, 2010. Pág. 582)
A busca de Truman Capote por algo
inexistente, parece afim com sua expressão literária em desenvolvimento, ou
seja, semelhante ao devir da hora-sessão, onde o partilhante experiencia recursos
estruturais no espaço da terapia.
Nesse sentido, pode ser
desafiador encontrar uma representação para a singularidade. Costuma pagar-se um
alto preço pelas vivências da transição, suas contradições e desafios, até localizar
um endereço existencial para chamar de seu. O constructo mencionado pelo
escritor descreve um alto grau de dificuldade, acessível a candidatos
diferenciados em seus devaneios de esboço.
Recordo um partilhante em crise
existencial, após concluir seu terceiro pós-doutorado - o primeiro nos EUA, o
segundo na Alemanha e o terceiro na UFRGS (universidade federal do RS) - quando
se deu conta que viveu, a maior parte de seus dias, de bolsas de pesquisa,
sem nenhum convívio com a vida lá fora (palavras dele).
Aos 44 anos de idade, tinha
dificuldades de relacionamento com os outros e consigo mesmo, encontrava nos
pais uma casa segura para morar. Depois disso (no tempo do partilhante)
descobriu-se que ele passara a maior parte da vida fazendo escolhas que não
tinham a ver consigo mesmo. Tinha jogado para a torcida, como gostava de
dizer, ao entender que suas opções não eram suas, mas dos outros.
A partir desse ponto, foi
possível qualificar as buscas por uma expressividade singular, algo contraditório
com o que havia até então. Com isso foi possível aproveitar os deslizes de sua
trajetória, como matéria-prima aos projetos e sonhos, até então, desmerecidos.
O ensaio indica: “Escritores,
pelo menos aqueles que assumem riscos genuínos, que se dispõe a abrir o peito e
caminhar na prancha, têm muito em comum com outro grupo de homens solitários –
aqueles que ganham a vida em uma mesa de bilhar ou carteado.” (Prefácio de
“Música para Camaleões”, 2010. Pág. 582)
Ao usar um vice conceito para
descrever a integridade do escritor, é possível encontrar referências comuns ao
ser filósofo clínico. Não sendo uma abordagem consagrada como as
modalidades da Psicanálise, Psicologia, Psiquiatria; o que se vislumbra é que,
além das dificuldades teórico-práticas que a preparação ao novo paradigma
oferece, ainda se tem de lidar, num país de forte vocação colonial como o
Brasil, com a prevalência de narrativas distantes da nossa realidade.
Ser filósofo clínico, ser
escritor, ou outra atividade, reivindica peculiaridades inacessíveis a maioria dos
candidatos. Assim se pode entender o elevado número de pessoas reféns da lógica
contracheque.
Talvez a solidão de quem encontrou-se
nesse borogodó - de ser filósofo clínico – possa se traduzir nas páginas
escritas com sangue, suor e lágrimas, onde a singularidade se apresenta num encontro
das marés com as ilhas da impermanência.
Em Truman Capote: “Um escritor
precisa ter todas as cores, toda a sua habilidade disponível na mesma paleta
para misturar (e, em casos apropriados, aplicar simultaneamente). (...) Depois
de escrever centenas de páginas (...) consegui desenvolver um estilo. Havia
encontrado uma moldura dentro da qual era capaz de assimilar tudo o que sabia
sobre escrever.” (Prefácio de “Música para Camaleões”, 2010. Pág. 585)
Para desenvolver uma aptidão ao
ser filósofo clínico, como indica o lindo texto do prof. Miguel Angelo Caruzo
sobre o tema, publicado na edição primavera da revista da Casa da Filosofia
Clínica, é necessária uma trajetória de estudos que envolve escolas,
universidades, e o cotidiano do candidato, impregnando de vida uma busca por algo
ainda sem nome.
Uma aproximação do prefácio com o
papel existencial em desenvolvimento, pode conferir aos estudantes e
profissionais da Filosofia Clínica, um encontro com a aptidão singular.
A clínica pessoal, as leituras de
base com a orientação de especialistas, a supervisão e a formação continuada,
compõem uma trajetória incomum. A maioria, em nossos dias, busca respostas
rápidas, cursos de finais de semana, retóricas fartas de promessas em sites,
blogs, podcasts, a cumplicidade da farmácia da esquina e as prescrições do
alienista, seus coadjuvantes, diante da multidão de incautos. Em quem confiar?
Nesses dias de tanta fake News, narrativas apressadas, distantes da singularidade
exilada em cada pessoa.
O desenvolvimento de um estilo
reivindica dedicação exclusiva, tempo, pesquisa, práticas de atendimento e
escrita - no caso dos ensinamentos de Truman Capote - e bem depois disso, é
possível encontrar algo semelhante a essência sartreana, mencionada no ‘O
existencialismo é um humanismo’, isto é, primeiro você vive e, depois disso,
aparece uma essência, como desdobramento de um si mesmo na estrutura de
pensamento singular.
Aquele abraço,
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