Notas do consultório do filósofo IX
Dialética para principiantes é de
autoria do filósofo Carlos Roberto Cirne-Lima (1931-2020) - um dos maiores
pensadores brasileiros -, publicada na coleção Idéias em 1996 pela
editora Unisinos/São Leopoldo/RS. Em 2005, na feira do livro de Porto
Alegre/RS, assim que a vi, tive a impressão de que essa obra aguardava - no
balaio dos livros desprezados - uma sintonia para ser encontrada.
O texto é significativo aos
estudos da Filosofia Clínica. Ao fundamentar o tema da autogenia, especificamente
os movimentos existenciais a partir das interseções da malha intelectiva, suas contradições,
adições, subtrações, multiplicações, descrevem uma matéria-prima nem sempre
acessível ao primeiro olhar.
Muitas vezes, mergulhados em um
cotidiano de trabalho, família, relações, não é raro passar despercebido as
inquietudes que integram os momentos de ressignificação existencial, bem assim,
as investidas para sustentação de uma forma de vida. Com a nova mensagem
terapêutica os estudos sobre a autogenia - em qualquer de suas formas de
apresentação - constituem um capítulo fundamental na formação clínica do
filósofo.
O pensador indica: “Filosofia é
um grande jogo de quebra-cabeça. (...) Fazer Filosofia significa jogar o jogo
até o fim, isto é, montar as peças, de sorte que se possa ver a imagem global.
(...) Na Filosofia não temos todas as peças. O universo ainda está em curso, a
História não terminou. Muitas coisas, que nem sabemos quais são, estão por
vir.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 15)
Um estudo com base na
singularidade, reivindica uma aproximação com a fenomenologia do partilhante,
ou seja, acolher sem classificar ou tipologizar para encontrar o outro sujeito
da relação em território próprio.
Ao lembrar o jogo de
quebra-cabeça, onde montar as peças de sorte que se possa ver a imagem
global, lembra um caminho para acessar a estrutura de pensamento de cada
pessoa, a qual se esboça numa grafia própria, incabível as lógicas de controle
e direcionamento de sua expressão. Um ponto de partida se anuncia num convívio
continuado, onde o filósofo e o partilhante se encontram numa clínica singular,
diferenciada, ora como ser, ora como não-ser, a redigir uma estética
compartilhada.
O filósofo nos indica que na
Filosofia não temos todas as peças, alerta para o fato de encontrarmos mais
espaços vazios do que recheios. Se pensarmos na fenomenologia do humano, essa
questão se atualiza num sujeito onde ser e não-ser são. Assim, o filósofo
clínico, nos eventos da hora-sessão, preliminarmente, sabe que não sabe. Com
isso se coloca à disposição para aprender com a pessoa, tratando de aproximar, não
interpretar ou controlar, mas descrever os territórios inesperados que vão
aparecendo, um pouco antes de saber mais e melhor sobre a versão
partilhante.
Em Cirne-Lima: “Ser e Não-Ser,
que à primeira vista se opõem e se excluem, na realidade constituem uma unidade
sintética, que é o Ser em Movimento, o Devir. No Devir existe um elemento que é
o Ser, mas existe por igual um outro elemento igualmente essencial que é o
Não-ser. Ser e Não-Ser, bem misturados, não mais se repelem e se excluem, mas
entram em amálgama e se fundem para constituir uma nova realidade.” (Dialética
para principiantes, 1996. Pág. 22)
Talvez a principal dificuldade em
se entender a movimentação existencial (subjetiva ou objetiva) conhecida como
autogenia, em Filosofia Clínica, tenha a ver com os componentes de aspecto
estático da tradição, a qual propõe uma via prioritariamente linear. Ao
desconhecer os altos e baixos da estrada, suas curvas e deslizes, os avanços e
recuos, as pontes que precisam ser construídas, o convívio com o inesperado, as
manutenções e as transgressões, o papel existencial do filósofo aprendiz pode ser
desafiado a superar seus freios existenciais.
Uma vida que desconheça suas
contradições e impermanências, pode conter, em si mesma, a peça faltante ao
quebra-cabeças da estrutura de pensamento. A clínica assim descrita, se insere
num diálogo com seus paradoxos, quando os deslocamentos estruturais anunciam
novas conformações existenciais.
Não se trata de emancipar uma
condição em detrimento da outra, mas de buscar uma integração das propostas de
aspecto excludente, isto é, a partir de uma construção compartilhada, encontrar
uma conexão onde uma e outra expressão tópica encontrem um novo sentido na
estrutura de pensamento. Semelhante àquilo que o pensador chama de amálgama
para constituir uma nova realidade, ou seja, o que se apresenta é um ponto
de vista diferenciado, onde uma e outra se reapresentam em autogenia.
Cirne-Lima auxilia: “São os
sofistas que primeiro transplantaram o jogo dos opostos de Heráclito do plano
da Filosofia da Natureza para o plano das relações sociais.” (Dialética para
principiantes, 1996. Pág. 34)
A apropriação de determinados
ensinamentos filosóficos para aplicação cotidiana não é nova. O que se destaca
em Filosofia Clínica, é o fato de se realizar uma interseção da fundamentação
teórica com a atividade prática de consultório, isto é, não se trata de ensinar
História da Filosofia ou filosofar, mas uma abordagem terapêutica apta a compor
os ensinamentos da tradição filosófica com a clínica, acolhendo a dialética das
contradições para novas propostas de cuidado e atenção à vida.
O novo paradigma da Filosofia
Clínica, denota suas origens na Filosofia e na Medicina. O pensador
precursor do novo método - Lúcio Packter -, em razão de suas origens pessoais e
profissionais, elaborou uma interseção entre as duas abordagens, inaugurando uma
terapia diferenciada.
A busca por superação de
paradoxos existenciais, se contrapõe à prisão onde muita gente permanece refém,
sustentando os diagnósticos e prognósticos do Psiquiatra, os traumas
fabricados por intervenções e agendamentos indevidos... Assim é importante
lembrar a natureza e o significado de certas correspondências contraditórias,
as quais, algumas vezes, abastecem um devir de transformação.
Ao se propor uma desconstrução desses
pressupostos, se inicia uma busca por acolher o fenômeno do ser singular, o
qual se estrutura de um jeito próprio, distante das verdades festejadas pelos
holofotes, com narrativas impregnadas de retórica, como: você sabe com quem
está falando? Essa é uma prática científica! Para vender a ideia de que as
coisas são de uma só maneira e não podem ser de outra. Destituindo a pessoa de
meios para superar as metodologias da cristalização existencial.
Com o pensador: “(...) embora
sejam pólos mutuamente excludentes, tese e antítese, se conciliam como Ser num
nível mais alto e mais nobre. (...) Ser é a síntese dos dois pares de opostos
que regem a construção do universo. (...) Dentro do Ser polarizam-se repouso e
movimento, mesmice e alteridade.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 86)
Tendo em vista um movimento
desconstrutivo do assunto último (aquilo que estrutura a dor existencial,
muitas vezes traduzida como doença!), onde tópicos de aspecto excludentes
interferem na expressividade do partilhante, é possível encontrar um novo lugar
de convívio para propostas contraditórias, as quais, com as intervenções da
terapia filosófica, podem ressignificar a natureza e o alcance de uma estrutura
de pensamento.
Um processo assim deve vislumbrar
uma aproximação com o funcionamento e possibilidades de mudança ao partilhante,
ainda quando escolha se manter em determinado constructo estrutural. Muitas
vezes, para sustentar ou modificar uma determinada autogenia, poderá testar escolhas,
experienciar hipóteses, investigar as origens, a propriedade de suas convicções.
O filósofo, ao referir “dentro
do Ser polarizam-se repouso e movimento, mesmice e alteridade”, nos oferece
um ensinamento sobre a representação de mundo - entre ficar ou partir -, numa
estrutura de pensamento, a alteridade pode significar remédio ou veneno, tendo
por base uma realidade singular.
Nesse sentido se pode pensar
sobre o alcance dos relacionamentos em sociedade, onde a pluralidade
existencial tenta conviver com a lógica das diferenças, muitas vezes num mesmo endereço
existencial (em casa, no trabalho, na pracinha, transporte coletivo...).
Aprender a semiose dessas interseções constitui um fundamento da nova
abordagem, por onde se busca compreender a estrutura de pensamento, para
verificar as possibilidades de convívio das pessoas consigo mesmas e com suas
circunstâncias existenciais.
Cirne-Lima ensina: “Quando as
pessoas falam e, apesar da boa vontade, não conseguem se entender, é que estão
falando línguas diferentes.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 102)
O fragmento aponta para a
necessidade de um aprendizado sobre a forma como uma e outra pessoa se
expressam, em busca de uma ponte para entendimento dos termos agendados no
intelecto, estruturação ou desestruturação de raciocínio, completude ou
incompletude discursiva, os quais indicam rotas a geografia subjetiva do
outro.
Ainda assim, existem muitos
componentes dessa proposta por interseção, como uma abertura ao conviver, como
base para um entendimento compartilhado. Noutras palavras, trata-se de ajustar
a linguagem a uma sintonia compreensiva.
Cada pessoa, ainda quando utilize
o vocabulário comum, se diz em linguagem própria, pois existe um sentido
singular, nem sempre ao alcance do outro em vias de querer entender a partir de
suas próprias referências. O movimento intelectivo conhecido como recíproca de
inversão, costuma favorecer a compreensão dos eventos da hora-sessão, onde o
filósofo busca encontrar o partilhante em seu território.
O lugar privilegiado onde se
refugia a matéria-prima da pessoa, com a qual o filósofo clínico irá trabalhar,
acontece num endereço existencial - inicialmente - desconhecido, com uma expressividade
incomum, onde o terapeuta - semelhante ao antropólogo - vai conviver com as
lógicas da diferença, decifrar as incógnitas do seu devir.
Aquele abraço,
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