A atividade clínica do filósofo
se relaciona com a pluralidade existencial descrita nos eventos da hora-sessão.
Com isso seus apontamentos adquirem sentido, expressividade, significado, tendo
por base uma percepção sobre a representação de mundo sob seus cuidados.
Um acolhimento eficaz deve conter
uma referência aprendiz sobre os termos agendados no intelecto, sua trama
discursiva existencial, a semiose por onde o partilhante se diz, seu contexto de
vida.
Esse convívio de construção
compartilhada encontra, na escuta fenomenológica, um ponto de partida, para,
logo a seguir, localizar existencialmente sua circunstância e aprofundamento da
estrutura de pensamento, numa associação com a analítica da linguagem, a hermenêutica
compreensiva, compondo um eixo estruturante apto a encontrar os inéditos de uma
narrativa existencial, lá onde refugia sua singularidade.
Muitas vezes a pessoa - em seus
momentos de crise - tem dificuldade em se reconhecer, devido a velocidade de
suas transgressões, desde o desconcerto de suas ideias a atitudes desconexas.
Nesses momentos é significativo um acolhimento com base na recíproca de
inversão, onde o filósofo irá encontrar o partilhante em seu território
existencial.
Gilles Deleuze contribui:
“Geralmente, só dá para ser estrangeiro numa outra língua. Aqui, ao contrário,
trata-se de ser um estrangeiro em sua própria língua. Proust dizia que os belos
livros forçosamente são escritos numa espécie de língua estrangeira.”
(Conversações, 1998. Pág. 52).
Uma aproximação com as
referências de cada pessoa pressupõe o entendimento da língua por onde se
expressa, seja numa construção compartilhada na hora-sessão ou desdobramentos
do seu cotidiano. Com essa sintonia - pela via da interseção - é possível
visitar sua estrutura de pensamento em vias de ser estranha para si mesma.
Esse ser estrangeiro em sua
própria língua, como refere o pensador, pode significar algo novo
diante do espelho. Trata-se de decifrar a língua que se insinua na língua, isto
é, conhecer os termos agendados no intelecto para acessar conteúdos existenciais
em forma de projeto.
Nesses instantes a companhia que
se apresenta é a insegurança, o medo, a relação com esse outro que vai se
insinuando na vida de cada um. As autogenias costumam rascunhar seus originais por
essas falas recheadas de incompletude, desestruturação discursiva, escritos
estranhos, insinuando um território extraordinário em instantes de apresentação.
Com Deleuze: “(...) quando ocorre
uma inovação, ela pode vir de um lugar inesperado, numa circunstância
excepcional (...)”. (Conversações, 1998. Pág. 94).
A condição para o aparecimento de
uma novidade no mundo da vida, seja através de uma narrativa errática, um
discurso existencial contraditório, se anunciam em poéticas da singularidade,
onde um olhar inédito aponta improváveis amanhãs.
Talvez a maior dificuldade da
relação com uma ideia ou um novo constructo na vida prática, esteja relacionada
ao espanto de sua apresentação. Um lugar onde o cotidiano se reapresenta em
múltiplas formas, nem sempre com um vocabulário reconhecido. Assim as
intervenções para adequação institucional, encontram na classificação e
tipologias os moldes para conversão da singularidade em algo comum.
A literatura, o mundo das artes,
a poesia, a música, o teatro, cinema, contribuem com esses deslocamentos de
travessia, onde essas pontes entre uma realidade e outra se oferecem para descrever
e elaborar algo ainda sem tradução.
Em Gilles Deleuze: “(...) É que,
no momento em que alguém dá um passo fora do que já foi pensado, quando se
aventura para fora do reconhecível e do tranquilizador, quando precisa inventar
novos conceitos para terras desconhecidas, caem os métodos e as morais, e
pensar torna-se, como diz Foucault, um ‘ato arriscado’, uma violência que se
exerce primeiro sobre si mesmo.” (Conversações, 1998. Pág. 128).
Existe uma interseção - nem
sempre positiva - entre as propostas da pesquisa científica (seja como proto ou
metaciência) e a vida como ela é. Ponto de encontro para lidar com eventos
inesperados, muitas vezes numa abordagem de controle e submissão do devir
existencial. Assim se pode entender a desestrutura de uma pessoa no espelho irreconhecível
dos seus dias.
Ao inventar novos conceitos
para terras desconhecidas, como indica o pensador, tem a ver com as
propostas de ressignificação existencial, os deslocamentos, as idas e vindas,
como ensaios de aproximação com uma estrutura de pensamento em vias de
tornar-se.
Um aspecto que se destaca, tem a
ver com a maneira como são tratados esses instantes de estranheza, quando algo
novo surge no horizonte de cada um. No caso de novos paradigmas, se destacam as
resistências mercadológicas, corporativas, para sustentar um eixo de
saber-poder hegemônico. Quando se refere a uma pessoa, seja na vida familiar,
no mundo do trabalho, amigos, o que se apresenta é o significado desses
comportamentos como anomalia, doença, algo a ser tratado pela farmácia
alienista.
Para uma pessoa em busca de si
mesma sendo outra, a natureza e o alcance das intervenções clínicas podem
significar uma acomodação com algo que busca superar. A exploração de novas
possibilidades estruturais - autogenias - tem a ver com uma disposição pessoal
em compartilhar ensaios de ressignificação e descoberta, um convívio com territórios
integrantes da própria estrutura, embora, até então, desconhecidos ou
inacessíveis.
Nesse sentido, não é raro uma
pessoa ter de lidar com as circunstâncias ao seu redor, seja como desdobramento
de estudos e pesquisas ou na vida corporativa, familiar, num aprendizado sobre a
estrutura de pensamento em processo de autogenia, com base nos indícios
presentes numa linguagem recheada de incompletude discursiva e raciocínio
desestruturado.
Deleuze auxilia: “Nietzsche dizia
que um pensador sempre atira uma flecha, como no vazio, e que um outro pensador
a recolhe, para enviá-la numa outra direção. É o caso de Foucault. O que
recebe, Foucault o transforma profundamente. Ele não para de criar.”
(Conversações, 1998. Págs. 146/147).
A Filosofia Clínica nasce em um
momento histórico peculiar, quando se acenam múltiplas novidades,
especificamente na área tecnológica, onde a maioria das pessoas saboreia as inovações
para melhorar seu dia a dia como uma coisa entre outras coisas. Enquanto isso, o
fenômeno humano segue refém de velhas fórmulas para contenção, controle,
submissão de sua expressividade, cercado pelos muros e freios existenciais de
cada época.
O novo paradigma cuidador
encontra sua fonte de inspiração nas reflexões e análises da Filosofia, a qual,
associada as dinâmicas de consultório, compõe uma nova direção ao acolhimento e
cuidados com a pessoa em seus momentos de autodescoberta.
Aquilo que se pensava existir
somente na esfera das ideias, adquire um contorno objetivo nos procedimentos
clínicos da nova mensagem terapêutica. Seu olhar de escuta e demais
procedimentos, se associam as metodologias libertárias, contraditórias com as
práticas para classificar e domesticar a expressividade humana.
Os eventos da singularidade
reivindicam método e borogodó, destituindo, sob muitos aspectos, um saber-poder
que tenta se manter a qualquer custo. A Filosofia Clínica existe há pouco mais
de 30 anos, e é uma elaboração crítica, reflexiva, analítica, prática, voltada
para a interseção com a fenomenologia do humano em suas buscas de reelaboração,
seja para manter ou desconstruir sua autogenia.
Talvez os rituais de ensino,
pesquisa, publicações acadêmicas tenham algo a aprender com as contradições que
insistem em bater à sua porta, compartilhando algo que os artigos científicos e
notas de rodapé não alcançam. A novidade costuma se insinuar - um pouco antes
de ser cooptada pelos princípios de verdade - nos convívios com o inesperado, nas
entrelinhas e desvãos da cristalização institucional, no extraordinário
refugiado na invisibilidade dos recomeços.
Aquele abraço,
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