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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 69*


Notas do consultório do filósofo VIII

A atividade clínica do filósofo se relaciona com a pluralidade existencial descrita nos eventos da hora-sessão. Com isso seus apontamentos adquirem sentido, expressividade, significado, tendo por base uma percepção sobre a representação de mundo sob seus cuidados.  

Um acolhimento eficaz deve conter uma referência aprendiz sobre os termos agendados no intelecto, sua trama discursiva existencial, a semiose por onde o partilhante se diz, seu contexto de vida.   

Esse convívio de construção compartilhada encontra, na escuta fenomenológica, um ponto de partida, para, logo a seguir, localizar existencialmente sua circunstância e aprofundamento da estrutura de pensamento, numa associação com a analítica da linguagem, a hermenêutica compreensiva, compondo um eixo estruturante apto a encontrar os inéditos de uma narrativa existencial, lá onde refugia sua singularidade.     

Muitas vezes a pessoa - em seus momentos de crise - tem dificuldade em se reconhecer, devido a velocidade de suas transgressões, desde o desconcerto de suas ideias a atitudes desconexas. Nesses momentos é significativo um acolhimento com base na recíproca de inversão, onde o filósofo irá encontrar o partilhante em seu território existencial.   

Gilles Deleuze contribui: “Geralmente, só dá para ser estrangeiro numa outra língua. Aqui, ao contrário, trata-se de ser um estrangeiro em sua própria língua. Proust dizia que os belos livros forçosamente são escritos numa espécie de língua estrangeira.” (Conversações, 1998. Pág. 52).

Uma aproximação com as referências de cada pessoa pressupõe o entendimento da língua por onde se expressa, seja numa construção compartilhada na hora-sessão ou desdobramentos do seu cotidiano. Com essa sintonia - pela via da interseção - é possível visitar sua estrutura de pensamento em vias de ser estranha para si mesma.

Esse ser estrangeiro em sua própria língua, como refere o pensador, pode significar algo novo diante do espelho. Trata-se de decifrar a língua que se insinua na língua, isto é, conhecer os termos agendados no intelecto para acessar conteúdos existenciais em forma de projeto.

Nesses instantes a companhia que se apresenta é a insegurança, o medo, a relação com esse outro que vai se insinuando na vida de cada um. As autogenias costumam rascunhar seus originais por essas falas recheadas de incompletude, desestruturação discursiva, escritos estranhos, insinuando um território extraordinário em instantes de apresentação.   

Com Deleuze: “(...) quando ocorre uma inovação, ela pode vir de um lugar inesperado, numa circunstância excepcional (...)”. (Conversações, 1998. Pág. 94).

A condição para o aparecimento de uma novidade no mundo da vida, seja através de uma narrativa errática, um discurso existencial contraditório, se anunciam em poéticas da singularidade, onde um olhar inédito aponta improváveis amanhãs.   

Talvez a maior dificuldade da relação com uma ideia ou um novo constructo na vida prática, esteja relacionada ao espanto de sua apresentação. Um lugar onde o cotidiano se reapresenta em múltiplas formas, nem sempre com um vocabulário reconhecido. Assim as intervenções para adequação institucional, encontram na classificação e tipologias os moldes para conversão da singularidade em algo comum.  

A literatura, o mundo das artes, a poesia, a música, o teatro, cinema, contribuem com esses deslocamentos de travessia, onde essas pontes entre uma realidade e outra se oferecem para descrever e elaborar algo ainda sem tradução.

Em Gilles Deleuze: “(...) É que, no momento em que alguém dá um passo fora do que já foi pensado, quando se aventura para fora do reconhecível e do tranquilizador, quando precisa inventar novos conceitos para terras desconhecidas, caem os métodos e as morais, e pensar torna-se, como diz Foucault, um ‘ato arriscado’, uma violência que se exerce primeiro sobre si mesmo.” (Conversações, 1998. Pág. 128).

Existe uma interseção - nem sempre positiva - entre as propostas da pesquisa científica (seja como proto ou metaciência) e a vida como ela é. Ponto de encontro para lidar com eventos inesperados, muitas vezes numa abordagem de controle e submissão do devir existencial. Assim se pode entender a desestrutura de uma pessoa no espelho irreconhecível dos seus dias.  

Ao inventar novos conceitos para terras desconhecidas, como indica o pensador, tem a ver com as propostas de ressignificação existencial, os deslocamentos, as idas e vindas, como ensaios de aproximação com uma estrutura de pensamento em vias de tornar-se.  

Um aspecto que se destaca, tem a ver com a maneira como são tratados esses instantes de estranheza, quando algo novo surge no horizonte de cada um. No caso de novos paradigmas, se destacam as resistências mercadológicas, corporativas, para sustentar um eixo de saber-poder hegemônico. Quando se refere a uma pessoa, seja na vida familiar, no mundo do trabalho, amigos, o que se apresenta é o significado desses comportamentos como anomalia, doença, algo a ser tratado pela farmácia alienista.

Para uma pessoa em busca de si mesma sendo outra, a natureza e o alcance das intervenções clínicas podem significar uma acomodação com algo que busca superar. A exploração de novas possibilidades estruturais - autogenias - tem a ver com uma disposição pessoal em compartilhar ensaios de ressignificação e descoberta, um convívio com territórios integrantes da própria estrutura, embora, até então, desconhecidos ou inacessíveis.      

Nesse sentido, não é raro uma pessoa ter de lidar com as circunstâncias ao seu redor, seja como desdobramento de estudos e pesquisas ou na vida corporativa, familiar, num aprendizado sobre a estrutura de pensamento em processo de autogenia, com base nos indícios presentes numa linguagem recheada de incompletude discursiva e raciocínio desestruturado.   

Deleuze auxilia: “Nietzsche dizia que um pensador sempre atira uma flecha, como no vazio, e que um outro pensador a recolhe, para enviá-la numa outra direção. É o caso de Foucault. O que recebe, Foucault o transforma profundamente. Ele não para de criar.” (Conversações, 1998. Págs. 146/147).   

A Filosofia Clínica nasce em um momento histórico peculiar, quando se acenam múltiplas novidades, especificamente na área tecnológica, onde a maioria das pessoas saboreia as inovações para melhorar seu dia a dia como uma coisa entre outras coisas. Enquanto isso, o fenômeno humano segue refém de velhas fórmulas para contenção, controle, submissão de sua expressividade, cercado pelos muros e freios existenciais de cada época.

O novo paradigma cuidador encontra sua fonte de inspiração nas reflexões e análises da Filosofia, a qual, associada as dinâmicas de consultório, compõe uma nova direção ao acolhimento e cuidados com a pessoa em seus momentos de autodescoberta.

Aquilo que se pensava existir somente na esfera das ideias, adquire um contorno objetivo nos procedimentos clínicos da nova mensagem terapêutica. Seu olhar de escuta e demais procedimentos, se associam as metodologias libertárias, contraditórias com as práticas para classificar e domesticar a expressividade humana.

Os eventos da singularidade reivindicam método e borogodó, destituindo, sob muitos aspectos, um saber-poder que tenta se manter a qualquer custo. A Filosofia Clínica existe há pouco mais de 30 anos, e é uma elaboração crítica, reflexiva, analítica, prática, voltada para a interseção com a fenomenologia do humano em suas buscas de reelaboração, seja para manter ou desconstruir sua autogenia.  

Talvez os rituais de ensino, pesquisa, publicações acadêmicas tenham algo a aprender com as contradições que insistem em bater à sua porta, compartilhando algo que os artigos científicos e notas de rodapé não alcançam. A novidade costuma se insinuar - um pouco antes de ser cooptada pelos princípios de verdade - nos convívios com o inesperado, nas entrelinhas e desvãos da cristalização institucional, no extraordinário refugiado na invisibilidade dos recomeços.   

Aquele abraço,

hs

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