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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 79*

Sobre Filosofia Clínica e Literatura IV

Em outono de 2008, após os atendimentos na casa de cultura Laura Alvim em Ipanema, um pouco antes das aulas de Filosofia Clínica na faculdade Hélio Alonso em Botafogo no Rio de Janeiro, no meio do caminho encontrei a livraria Prefácio na rua Voluntários da Pátria. Numa tentação irresistível, em meio à miscelânia de livros recém editados e preciosidades distantes do grande público, encontrei a obra “O ritmo da vida – variações sobre o imaginário pós-moderno” de Michel Maffesoli, publicada pela editora Record/RJ em 2007. Um texto que possui intimidade com as referências do novo paradigma da Filosofia Clínica.

O pensador indica: “O pensamento só é interessante quando é perigoso. Perigoso para a opinião consagrada e ronronante que serve de fundamento a todos esses ‘pareceres de especialistas’ em que se refestela o poder. (...) São cada vez mais numerosos os que nada têm a dizer e o dizem em voz alta.” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 13)

Esse fragmento lembra as repercussões na década de 1990 no Brasil, quando do surgimento da nova abordagem clínica da Filosofia. Uma legião de incautos seguia alguns pretensos ilustrados (formadores de opinião?) a falar do que não sabiam em jornais, rádios, tvs, revistas, os quais davam a impressão de se sentir inseguros com a nova mensagem. Isso tudo está documentado pelas publicações da época.

Ainda nesse período, uma publicação no caderno mais da Folha de São Paulo, no ano de 1997 ou 1998 (não lembro bem), atiçou ainda mais o debate em torno da novidade, ao descrever o novo paradigma como uma iniciativa bem-vinda. As ameaças, dúvidas, censuras prévias, críticas maldosas, se multiplicavam, via de regra de quem se sentia ameaçado pela possibilidade de uma terapia distante das tipologias da bíblia DSM e seus seguidores.  

Nos dias de hoje (em 2026) ainda é possível encontrar alguns integrantes dessa tribo de desinformados, os quais insistem em perguntar como pode uma Filosofia ser clínica? Demonstrando os estreitos limites de sua régua epistemológica.   

A nova metodologia se reveste de ameaça há quem tem algum problema com o desenvolvimento da natureza humana, a qual esboça em seu cotidiano anúncios nem sempre possível de traduzir pelo que se tinha até então. É importante lembrar que a Filosofia tem a peculiaridade de transgredir um determinado senso comum em direção ao incomum de suas possibilidades investigativas.

Com Michel Maffesoli: “Busca perpétua de um ponto de Arquimedes que é o da dúvida, fugindo, como o diabo da cruz, das certezas definitivas e do conforto mortífero dos dogmas empedernidos.” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 25)

A metodologia da Filosofia Clínica tem características inéditas em sua fundamentação teórico-prática, dentre elas o fato de que sua abertura permite encontrar e acolher a estrutura de pensamento singular, num convívio em sintonia com seu endereço existencial.

Os métodos reconhecidos, em ciências humanas, costumam resvalar para a rigidez classificatória de suas verdades. Dessa forma dificultam aos seus profissionais romper com a cristalização do saber, estruturando suas atividades para manutenção do que já existe. Assim as realidades estranhas são significadas como crise, distorção, alguma forma de patologia.  

Com o conforto mortífero dos dogmas empedernidos, como refere o pensador, muito se perde. O estabelecimento de departamentos de pesquisa com seus generosos financiamentos, as disputas acadêmicas por medalhas, títulos, cátedras, publicações, compõem uma armadilha existencial difícil de romper. Quando uma mente brilhante desse círculo vicioso decide pensar e agir fora da curva, logo é defenestrado por seus pares, os quais não suportam contradições e divergências às suas verdades.

Michel Maffesoli indica: “Devo frisar que, desde sempre, o ato de pensamento esteve voltado para os que se fazem perguntas, e não para os que já têm as respostas.” (O ritmo da vida, 2007.Pág. 59)

Os procedimentos do novo paradigma incluem a oferta de um espaço de expressão ao partilhante, onde predominam os agendamentos mínimos, isto é, intervenções de abertura, por onde a pessoa em clínica consiga exercitar-se sem direcionamentos, interrupções, julgamentos, em direção à um si mesmo expressivo, em sintonia com seu melhor.  

A estrutura de pensamento aprecia se expressar em dialetos distantes do uso comum. Assim sendo, reivindica uma aproximação cuidadosa com seu território existencial, recheado de areias movediças, labirintos, deslizes de retórica, e outros refúgios preliminarmente desconhecidos pelo filósofo, o qual tem de conhecer o universo singular em vias de apresentação.

Com essa lógica de abertura e acolhimento, o filósofo clínico trata de efetivar uma pesquisa do outro lado da interseção, em sintonia fina com a estrutura de pensamento do partilhante, onde vai recolher subsídios para seu trabalho.

Os ajustes posteriores têm a ver com a qualidade da escuta preliminar, bem assim com a proximidade com a estrutura subjetiva sob os cuidados do filósofo, permitindo identificar as ocorrências de agendamentos indevidos, subtrações, ocultamentos, deslizes narrativos e outros eventos próprios da fenomenologia das sessões.

O pensador ensina: “Fazer o pensamento reverdecer. Tratar de reanimá-lo, com constância, e também com audácia, mantendo o contato com a vida. O que leva a relativizar a ciência. A fazer com que ela não se leve a sério. Pois a ciência não deixa de ser ciência a partir do momento em que se torna uma regra dogmática que não podemos transgredir?” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 105)

Uma abordagem fundamentada numa lógica aprendiz, precisa conter em seu constructo metodológico fundamentos que possibilitem uma plasticidade expressiva do terapeuta em relação a circunstância de seu papel existencial.  

Talvez o melhor conceito de ciência esteja relacionado a atividade do cientista, a mente brilhante envolvida com seus estudos efetivar seu trabalho num convívio com os inéditos aparecimentos em seu cotidiano, impulsionando reflexões, análises, partilhas com os demais integrantes de sua tribo. 

O fato de uma pesquisa estar relacionada com ânimos de vida nova, tem a ver com a estrutura de pensamento do pesquisador, o meio onde exercita suas habilidades e competências, a rede de colaboração em um trabalho recheado de construções compartilhadas.

A busca por superação dos dogmas e verdades cristalizadas e cristalizantes na ciência, vincula-se a determinadas singularidades, as quais aparecem de tempos em tempos, para impulsionar a descoberta de novos paradigmas, recheando seu cotidiano com interrogações reflexivas, descobrindo territórios que estavam à espera de um olhar.     

Em Michel Maffesoli: “É efetivamente esse aspecto inacabado que, de forma desenvolta, é vivenciado nos ajuntamentos precários de todos os tipos que pontuam a vida social. (...) esse perpétuo adolescente que não se decide a tornar-se um ser acabado, comprazendo-se num constante devir. (...) a conexão social é feita mais de ‘afinidades eletivas’ que de contratos racionais. Ter ou não o ‘feeling’ será o critério essencial para julgar a qualidade de uma relação. E é nesse aspecto no mínimo evanescente que repousará sua durabilidade.” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 162)

Uma incompletude discursiva existencial pode ter tantos significados quantos sejam os envolvidos com sua manifestação. Assim não se deve classificar as formas múltiplas e desconhecidas de expressão, nalguma fôrma tipológica, sob o risco de engavetar, engessar um processo existencial em vias de não-ser.

A inquietude singular criativa reivindica um acolhimento e uma aproximação com sua expressividade, ou seja, um cuidado e atenção específicos a uma determinada tez fenomenológica, a qual vai se apresentar - se assim decidir - no tempo próprio de sua autogenia.  

Pode ser esse constante devir, a pedra de toque para compreender singularidades incompreendidas. Nesse sentido, trata-se de uma interseção afim com as tramas de um contexto existencial, onde o filósofo clínico terá de adequar sua expressividade e papel existencial.

As afinidades eletivas e o feeling de que trata Maffesoli ajudam a entender a qualidade dos encontros e desencontros pela vida. Nas lidas de consultório não é diferente, pois a natureza das interseções e a resultante da terapia, encontram-se afinadas com uma sensação de pertencimento àquele lugar onde o partilhante e o filósofo estabelecem um lugar para suas expressões. A característica de ser evanescente costuma significar algo mais às lógicas da hora-sessão.

Com o autor: “O imaginário societal tem uma autonomia específica. É móvel, fugidio, polimorfo, mas não menos eficaz. E somente um politeísmo epistemológico pode levar a entender o advento das figuras em torno das quais se estrutura a ligação social.” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 193)

Maffesoli lembra que para uma aproximação eficaz com determinada realidade, é necessário aprender seus ritmos, sua linguagem, o tempo por onde se desloca, como se desloca, os momentos em que se diz, por onde se diz, ou seja, superar as métricas estabelecidas a priori, para encontrar a originalidade singular.    

Uma aproximação com os princípios de verdade reivindica a transcrição desse imaginário societal descrito pelo autor. Sua mobilidade fugaz, polimorfa, indica algo que se move em múltiplas direções. Para detectar sua autogenia é preciso uma abordagem apta a sintonizar com seus deslocamentos.   

Assim como a própria estrutura de pensamento permite um convívio aprendiz com esse fenômeno social, também se pode cogitar sobre as formas do estranho, refugiadas nas entrelinhas de uma narrativa oficial, autenticada pela cultura que a desmerece.  

Maffesoli indica: “O filósofo americano Thoreau fala em algum momento de um quarto estado. Ao lado da Igreja, do Estado e do povo, o estado do ‘andarilho errante’. Que podemos entender através de todas essas figuras nômades que recusam a estabilidade sexual, ideológica ou profissional.” (O ritmo da vida, 2007. Pág. 196)

Uma metodologia apta a captar as nuances dessa expressão, precisa estar em sintonia com sua dialética, ou seja, mover-se em conexão com uma realidade fugaz. Para aprender sobre a natureza dessa errância que se desloca, muitas vezes sem deixar rastros visíveis de sua existência, é necessária uma relação aprendiz com a estrutura de pensamento de sua geografia subjetiva, identificar as tramas significativas de sua singularidade.

O andarilho errante elabora um discurso existencial próprio, desconhecido as regras do convívio societal, sua apresentação se reveste de um assombro capaz de modificar o meio por onde passa. As formas de sua descrição contém cores e sabores que afrontam os nichos existenciais por onde transita.

A descrição de suas narrativas contém ingredientes aptos a desestabilização daquilo que se encontra frágil, do ponto de vista de uma sustentação estrutural, isto é, a expressividade do andarilho errante convida a reflexão crítica dos pressupostos de aparência firme, recheados de convicção, como se fora uma investigação sobre o território existencial ser aquilo mesmo que indica a primeira vista.  

Aquele abraço,

hs