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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 84*

Sobre acolhimento, princípios de verdade, construção compartilhada...

A garota ideal é um filme de 2007, produzido nos EUA e Canadá, com duração de 103 min. Escrito por Nancy Oliver e dirigido por Craig Gillespie, tendo Ryan Gosling no papel principal. Disponível no Prime.

Trata-se de uma obra de rara sensibilidade e compreensão do fenômeno humano em seus momentos de dor e sofrimento. O conteúdo aborda a singularidade de Lars Lindstrom (Ryan Gosling). Sua expressividade em relação a circunstância onde se encontra, compartilha algo inusitado ao adquirir uma boneca (Bianca), com a qual desenvolve um relacionamento romântico (sem ser sexual).

A partir daí, se inicia uma discussão familiar que envolve a comunidade inteira, a qual se reúne para decidir o que fazer com Lars e sua nova companheira. Inicialmente chega-se a cogitar uma internação psiquiátrica (de parte do seu irmão), ideia logo rechaçada pela cunhada e demais membros do lugar.

Com isso, a família decide procurar ajuda com um especialista. Encontram a Dra. Dagmar (Patrícia Clarkson), a qual, numa abordagem não convencional, acolhe e interage com Lars em seu próprio território existencial, ou seja, mantém uma interseção dialogada com a boneca, em busca de uma via de acesso a estrutura de pensamento de Lars, a qual, à primeira vista, se encontra em equilíbrio e feliz com a nova relação.

Os procedimentos da Dra. Dagmar, inicialmente, espantam a família, a qual, depois de algum tempo, trata de assumir comportamento semelhante, bem assim os moradores da cidade, os quais interagem com o casal peculiar - não sem uma estranheza inicial -, como se fossem namorados. Lars e Bianca passam a frequentar as festas comunitárias, vão à missa, atuam em eventos benemerentes.

O filme caminha para algo inédito em seu roteiro, ou seja, com o tratamento não convencional pela Dra. Dagmar, ao cuidar de Lars pela representação da boneca, bem assim seu crescente interesse por Margot (Kelli Garner), elabora um processo desconstrutivo que vai aparecendo de forma sutil. O espectador tem a oportunidade de presenciar - passo a passo - a transformação na vida de Lars.    

É interessante notar o envolvimento dos princípios de verdade com a situação de sua família, isto é, as pessoas da comunidade acolhe a realidade do personagem e cuidam de Bianca, levam-na ao cabeleireiro, as atividades da igreja, aos eventos do hospital, integrando a personagem em seu dia a dia. Algo raríssimo de se ver, em se tratando de um meio social distante das lógicas da diferença.

A trama destaca o papel existencial diferenciado das mulheres, as primeiras a compreender (instinto e sensibilidade?) o que se passa com Lars, a começar por sua cunhada Karin Lindstrom (Emily Mortimer), a qual, num primeiro momento, de forma intuitiva, acolhe e visita a realidade do cunhado, em busca de entender sua condição, bem antes de se cogitar uma especialista para o caso.

A obra lembra um evento clínico, por volta de 2005, na Casa de Saúde Esperança em Juiz de Fora, quando do atendimento de uma menina que carregava uma boneca (que chamava de filha), com a qual dialogávamos em busca de uma interseção clínica. A partilhante descrevia-se através da sua filha, a qual tinha sentimentos, dores existenciais, fazia escolhas, se emocionava, queria ir para casa. Esse atendimento - assim como outros - está registrado em dvd, iniciativa de colegas que acompanhavam as clínicas nessa época.    

É significativo notar que a sociedade, ao beber na fonte da esteticidade seletiva - como o cinema - pode aprender com seus agendamentos, emancipar seu cotidiano. O filme, com sua pesquisa, produção e roteiros de uma quase ficção, contribui para emancipar a compreensão do fenômeno humano, superando crenças como: normal x anormal, saúde x doença, tipologia x singularidade, bem assim os freios existenciais representados pela ideologia psiquiátrica e a indústria da psicofarmacologia. A questão que se apresenta, nesses casos, é sobre a proliferação de síndromes, espectros, desdobramentos de tipologias, para manutenção da ciência normal (Thomas Kuhn), seus interesses corporativos, econômicos, para sustentar - a qualquer preço - uma metodologia em vias de superação pelos novos paradigmas.   

Existem abordagens terapêuticas nas margens e periferias do sistema universitário, jurídico e social admitidas por leis e normas, as quais, ao serem aprovadas e entrarem em vigor (pela lentidão legislativa), muitas vezes já estarão superadas. Nesse sentido, as propostas que tentam cristalizar a dialética da vida, vão sendo superadas pela inquietude criativa de mentes brilhantes, raras vezes reconhecidas em seu tempo.   

A Garota Ideal descreve um processo existencial a partir da crise de Lars, tendo a atividade terapêutica da Dra. Dagmar e o envolvimento da comunidade, como fundamento para sua superação. A abordagem da médica pressupõe uma singularidade, para qualificar a interseção com uma situação diferenciada. Algo que restaria inalcançável pelos manuais e práticas generalistas. Semelhante ao roteiro do filme, muitos desses profissionais andam por aí, refugiados na invisibilidade de seus consultórios. Seguem nas entrelinhas das retóricas oficiais, protegidos da vigilância institucional, suas normas e regras para contenção das novas abordagens terapêuticas.   

Nesse sentido, após algum tempo de terapia, a sequência do filme descreve o fato de Bianca - segundo Lars - começar a passar mal. O qual, num dia qualquer - que nunca é um dia qualquer - percebe que sua namorada não está bem. A família chama a ambulância para levar Bianca ao hospital, chegando lá ela é entubada e passa por tratamento.

Uma construção compartilhada se desenvolve no hospital, quando médicos e enfermeiros entram em cena, acolhendo e cuidando de Lars através da internação da boneca. Como traduz a Dra. Dagmar à família e demais membros da comunidade, o renascimento de Lars vai acontecer em tempo próprio, de dentro para fora, tendo por referência sua estrutura de pensamento, a qual se manifestava por sua interseção com Bianca.

Assim se inicia uma preparação para o desligamento do casal, com a contribuição de vários personagens da trama, especificamente o reaparecimento de Margot, a qual acolhe e é acolhida por Lars. Os dois ficam cada vez mais íntimos, coincidindo com a morte e sepultamento de Bianca.  

O cinema integra-se a vida social de forma significativa, ao oferecer um olhar ampliado e diferenciado, em forma de anúncio sobre questões emblemáticas, como a internação involuntária, a incompreensão do outro, tendo como referência o próprio umbigo epistemológico. Ao se vestir com verdades e soluções a priori para as questões cotidianas, o aparato institucional expõe suas dificuldades para responder às incógnitas do ser singular. Em uma sociedade que se transforma a cada momento, a fratura exposta dos princípios de verdade se apresenta em hospitais, escolas, universidades, presídios, e outros endereços existenciais, os quais poderiam oferecer práticas diferenciadas de estudo, acolhimento e intervenção.  

A garota ideal aborda - a pretexto de ficção - àquilo, sob muitos aspectos, ainda incompreendido nos dias de hoje. Antecipa algo que já acontece em muitos espaços compartilhados, com metodologias inéditas, periféricas, invisíveis, marginais, com sua tez de anúncio, distante das retóricas acadêmicas, do espírito de multidão. Possivelmente algo para depois de amanhã!

O roteiro, embora lembre a Filosofia Clínica, ainda assim, permanece distante do novo paradigma, talvez pela necessidade de edição de sua narrativa ou pelo desconhecimento do que já existe. O processo para a desconstrução dos choques estruturais do personagem principal, ao dialogar com os princípios de verdade, propõe uma mediação com a excessiva maquiagem das suas dores existenciais.     

Aquele abraço,

hs