Sobre as poéticas da representação
Em algum ponto do ano de 2025, no
café Cantante no Bom Fim em Porto Alegre, ganhei uma obra do meu editor Luís Antônio
Paim Gomes, traduzida pelo jornalista, professor e escritor gaúcho Juremir
Machado da Silva.
Trata-se do livro: “Uma temporada
no inferno” de Arthur Rimbaud. Publicação da Ed. Sulina em 2025. Juremir foi o
primeiro jornalista gaúcho a entender e reconhecer a filosofia clínica como um
novo paradigma, inclusive comentando em seu espaço no jornal 'Correio do povo' e divulgando o último colóquio nacional realizado
na assembleia legislativa do RS.
O autor tradutor ou o tradutor
autor descreve, nas palavras de apresentação do seu texto, suas razões e
desrazões para traduzir Rimbaud. É possível sentir em suas páginas, aquilo que
Schopenhauer ensina em sua obra ‘O mundo como vontade e representação’, ou
seja, quando um de nós se expressa, seja por qual semiose for, indica, mais que
um apontamento sobre o mundo, pessoas, lugares, circunstâncias, a sua versão
singular das coisas.
Com Juremir Machado da Silva:
“Por que traduzir Rimbaud? (...) pelo prazer estético de entrar na sua prosa
poética ou na sua poesia vertiginosa. Como fiz em outro momento com Charles
Baudelaire, minha tradução busca reescandalizar um maldito, mas não a ponto de
negá-lo.” (Uma temporada no inferno,
2025. Pág. 5)
Um escritor quando coloca seu
talento e competência a serviço de uma tradução, muitas vezes contribui para
compartilhar algumas facetas da obra original. Nas poéticas de Rimbaud, Juremir
transcreve sua inquietude criativa, sensações, devaneios, de acordo com sua
representação da representação do poeta.
A filosofia clínica não
classifica ou engessa a percepção do autor, mas cuida de oferecer uma leitura
afim com a singularidade do escritor. Não se trata de encontrar traumas,
síndromes, transtornos, mas de desalojar a fonte de inspiração que levou a
tradução a esgaçar seus limites para encontrar a interseção com o poeta.
Nesse convívio com um território
de aspecto estranho, o autor-tradutor, ao conjugar suas páginas com prosa e
poesia, desvenda novos territórios, afins com a obra original. Uma filosofia da
tradução se esboça nesta apresentação, ao compartilhar sua percepção para reescandalizar
conteúdos em nova versão.
Juremir descreve o prazer de
traduzir Rimbaud, uma das razões para sua atividade literária. Um convívio com
autores da preferência de cada leitor, costuma indicar rotas para transcrição
da realidade, como ela aparece e se desenvolve em cada um a partir de sua
representação.
O autor indica: “Cometi
anacronismos deliberadamente (...) Não me impedi nem mesmo de optar por alguns
palavrões onde eles não existiam, mas pareciam implorar para ser ditos. Não me
importei com a ordem erudita dos pronomes. Quis um Rimbaud jovem, universal,
francês, mas também brasileiro, regional, com algumas marcas de jovem da
periferia (...).” (Uma temporada no inferno, 2025. Pág. 5)
A tradução aparece comprometida
com a epistemologia intuitiva do autor, ou seja, suas palavras, quase ao mesmo
tempo em que compartilha a obra de Rimbaud, acrescenta a tez significativa e
estilística do tradutor.
Acho que foi Umberto Eco que
ensinou ser a tradução uma reescrita da obra original. Especialmente pelo fato
de que o tradutor tem uma percepção singular do texto em que trabalha, deixando
impressa a sua noção das expressões com as quais efetiva sua releitura.
A produção acadêmica, muitas
vezes focada nas questões especializadas da forma, deixam de lado muitas
facetas de uma obra, por não conseguir uma aproximação com a essência dos
escritos diante de si. Essa tentativa de formatar textos produzidos numa frequência
diferenciada, como as poéticas da singularidade, deixam entreabertas outras
possibilidades para compreensão de suas ideias, mensagens e derivações.
O professor Juremir parece
preferir uma tradução em conexão com um Rimbaud atualizado, isto é, um poeta
impregnado de vida, inclusive com contornos expressivos da nossa região e
jeitos de ser, não-ser, conviver.
O texto refere: “Traduzir Rimbaud
não deixa de ser sintomático dessa vontade de partir, de sair por aí, de ir
viver em outro mundo, em outros mundos, esse desejo de evasão que toma conta de
cada um muitas vezes na vida.” (Uma temporada no inferno, 2025. Pág. 6)
Ernest Cassirer indica que para
entender a representação de um texto, é necessário compreender a linguagem em
que ele se redige, ou seja, para acessar as mensagens de Rimbaud, além de uma
sintonia com sua representação de mundo, também é necessária uma interseção de
qualidade com as menções que a obra proporciona ao tradutor.
O livro aborda uma questão íntima
da filosofia clínica, isto é, como se dá uma abordagem, tendo em vista uma
representação de mundo em interseção com outra representação. A escolha de uma
obra para tradução, já delimita o ângulo de interesse do tradutor. A partir daí
é possível antever as preferências de uma obra em outra, quando se reescreve
aquilo que, para o escritor-tradutor, se destaca em sua estrutura de
pensamento.
A ideia dos deslocamentos
existenciais tem a ver com a autogenia contida nos textos de Rimbaud,
destacados por Juremir. A preferência por esta obra das poéticas delimita um
ângulo singular para a expressividade da tradução. Uma reescrita se esboça com
base nas palavras do poeta francês.
Com Juremir: “Agora posso dizer
‘o meu Rimbaud’, com meus defeitos, falhas, incertezas, hesitações e perdas. (...)
Fiz escolhas. Só fui fiel à minha paixão. Nessa temporada no paraíso da poesia,
vivi o inferno das buscas, iluminado pelo desejo de ir mais fundo, desenhando
ilustrações na página branca da mente.” (Uma temporada no inferno, 2025. Pág.6)
Uma expressão de base inversiva,
como a escrita da tradução, permite encontrar o objeto de sua leitura (o livro,
suas mensagens e possibilidades). Assim o tradutor se envolve numa mescla de
sentidos, por onde se encontra nas palavras do autor.
O professor Juremir, ao
experienciar uma temporada no paraíso da poesia, exercita um deslocamento
intelectivo de recíproca de inversão, para abastecer sua versão das coisas, ou
seja, faz uma leitura dos originais e traz consigo uma matéria-prima para
reelaborar sua versão em forma de escritura.
A atividade do autor tradutor,
significa uma afinidade com a estrutura de pensamento do poeta francês. Essa
identificação que acontece quando se encontra um livro, um texto, onde suas
páginas dialogam com o que se tem de mais íntimo, oferece a oportunidade de
qualificar derivações sobre sua fonte de inspiração, emancipando a leitura em
outras direções, elaborando uma representação da representação.
O escritor compartilha: “Num
mundo pragmático talvez a poesia de Rimbaud não faça qualquer sentido. Daí a
sua enorme validade. Precisamos de poesia desse nível para fugir da prosa cinza
do cotidiano, da rotina feita de cifras e de metas, da competição travada em
torno de tudo que não produz o sublime nem arte.” (Uma temporada no inferno,
2025. Pág. 6 e 7)
Em uma percepção singular, o
autor da apresentação indica a contradição da obra poética com as lógicas do
consumo a qualquer preço.
A obra de Rimbaud e a tradução de
Juremir encontram esse espaço imaterial onde a alma pode deslocar-se
livremente, sem as algemas do consumismo, da deformação do fenômeno humano em
forma de máquina produtiva de qualquer coisa, que não seja a fonte de onde tudo
brota: a estrutura de pensamento singular, protegida pela invisibilidade
inalcançável das tipologias e generalizações.
Uma compreensão dessa natureza
indica - para quem tem olhos de ver - a rota para o refúgio onde ser e não-ser
são. A origem da obra de arte, em qualquer de suas expressões, é contraditória
com a ideologia das cifras e metas, como indica o texto de apresentação.
Ao não fazer qualquer sentido, no
que se refere à estética de Rimbaud, nas palavras de Juremir, se traduz como um
caminho para um lugar onde a singularidade mantém a integridade com seu
titular. Talvez aquela loucura aprisionada em hospícios e submetida aos
tratamentos de choque da psiquiatria, possa significar uma busca por não-ser
integrante de um mundo pragmático, onde pessoas se transformam deliberadamente
em coisas. Um dos principais critérios da psiquiatria para considerar alguém
normal é ter um papel produtivo na sociedade.
Juremir refere: “Com Rimbaud
nunca se está onde se pode ser procurado. (...) A vida é uma zona de transição.
(...) A inteligência artificial traduz Rimbaud. Traduz qualquer um em segundos.
Só não pode sentir a emoção do humano traduzindo o que não tem limite, nem
nunca terá, o que veio da inspiração suprema.” (Uma temporada no inferno, 2025.
Pág. 7)
As palavras preliminares indicam
uma via de acesso a poética de Rimbaud, um convite para superar as métricas
lineares para uma leitura. Em suas páginas se encontram outras versões para a
vida lá fora, tendo como referência uma fenomenologia da singularidade.
Ao destacar a vida como uma zona
de transição, Juremir convida a superar as regras predeterminadas de um
cotidiano refém das lógicas do lucro e benefícios materiais. Platão ensinava
que a vida é um zoom. Pode ser por isso que a disciplina de filosofia deva ser
impedida de compartilhar suas reflexões e análises com as pessoas de qualquer
idade, isto é, convida a refletir criticamente sobre aquilo que se oferece sem
pensar.
Uma noção sobre o fato de que a
inteligência artificial traduz a poesia e a literatura com base na
literalidade, convida a pensar sobre o alcance limitado das tecnologias em
detrimento do humano. Embora a tecnologia médica, por exemplo, ofereça avanços
significativos em relação à medicina do corpo, ainda assim, a subjetividade do
ser singular permanece inatingível pelas métricas da lógica robô.
A filosofia clínica é uma
abordagem cúmplice com o processo libertário do fenômeno humano, contraditória
com a forma de pensar e atuar ideologizada numa pretensa vida normal. Busca oferecer
outras rotas existenciais para encontrar o sujeito num endereço existencial que
o represente. Essa proposta para encarar a vida contradiz as lógicas da mesmice,
onde se tenta enquadrar o humano em autismos, esquizofrenias, histrionias,
TDHs, e outras definições para sustentar metodologias aliadas a indústria - trilionária
- de psicofármacos e coadjuvantes.
Aquele abraço,
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