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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 89*


 








Sobre as poéticas da representação

Em algum ponto do ano de 2025, no café Cantante no Bom Fim em Porto Alegre, ganhei uma obra do meu editor Luís Antônio Paim Gomes, traduzida pelo jornalista, professor e escritor gaúcho Juremir Machado da Silva.

Trata-se do livro: “Uma temporada no inferno” de Arthur Rimbaud. Publicação da Ed. Sulina em 2025. Juremir foi o primeiro jornalista gaúcho a entender e reconhecer a filosofia clínica como um novo paradigma, inclusive comentando em seu espaço no jornal 'Correio do povo' e divulgando o último colóquio nacional realizado na assembleia legislativa do RS.

O autor tradutor ou o tradutor autor descreve, nas palavras de apresentação do seu texto, suas razões e desrazões para traduzir Rimbaud. É possível sentir em suas páginas, aquilo que Schopenhauer ensina em sua obra ‘O mundo como vontade e representação’, ou seja, quando um de nós se expressa, seja por qual semiose for, indica, mais que um apontamento sobre o mundo, pessoas, lugares, circunstâncias, a sua versão singular das coisas.

Com Juremir Machado da Silva: “Por que traduzir Rimbaud? (...) pelo prazer estético de entrar na sua prosa poética ou na sua poesia vertiginosa. Como fiz em outro momento com Charles Baudelaire, minha tradução busca reescandalizar um maldito, mas não a ponto de negá-lo.”  (Uma temporada no inferno, 2025. Pág. 5)

Um escritor quando coloca seu talento e competência a serviço de uma tradução, muitas vezes contribui para compartilhar algumas facetas da obra original. Nas poéticas de Rimbaud, Juremir transcreve sua inquietude criativa, sensações, devaneios, de acordo com sua representação da representação do poeta.

A filosofia clínica não classifica ou engessa a percepção do autor, mas cuida de oferecer uma leitura afim com a singularidade do escritor. Não se trata de encontrar traumas, síndromes, transtornos, mas de desalojar a fonte de inspiração que levou a tradução a esgaçar seus limites para encontrar a interseção com o poeta.

Nesse convívio com um território de aspecto estranho, o autor-tradutor, ao conjugar suas páginas com prosa e poesia, desvenda novos territórios, afins com a obra original. Uma filosofia da tradução se esboça nesta apresentação, ao compartilhar sua percepção para reescandalizar conteúdos em nova versão.  

Juremir descreve o prazer de traduzir Rimbaud, uma das razões para sua atividade literária. Um convívio com autores da preferência de cada leitor, costuma indicar rotas para transcrição da realidade, como ela aparece e se desenvolve em cada um a partir de sua representação.

O autor indica: “Cometi anacronismos deliberadamente (...) Não me impedi nem mesmo de optar por alguns palavrões onde eles não existiam, mas pareciam implorar para ser ditos. Não me importei com a ordem erudita dos pronomes. Quis um Rimbaud jovem, universal, francês, mas também brasileiro, regional, com algumas marcas de jovem da periferia (...).” (Uma temporada no inferno, 2025. Pág. 5)

A tradução aparece comprometida com a epistemologia intuitiva do autor, ou seja, suas palavras, quase ao mesmo tempo em que compartilha a obra de Rimbaud, acrescenta a tez significativa e estilística do tradutor.

Acho que foi Umberto Eco que ensinou ser a tradução uma reescrita da obra original. Especialmente pelo fato de que o tradutor tem uma percepção singular do texto em que trabalha, deixando impressa a sua noção das expressões com as quais efetiva sua releitura.

A produção acadêmica, muitas vezes focada nas questões especializadas da forma, deixam de lado muitas facetas de uma obra, por não conseguir uma aproximação com a essência dos escritos diante de si. Essa tentativa de formatar textos produzidos numa frequência diferenciada, como as poéticas da singularidade, deixam entreabertas outras possibilidades para compreensão de suas ideias, mensagens e derivações.  

O professor Juremir parece preferir uma tradução em conexão com um Rimbaud atualizado, isto é, um poeta impregnado de vida, inclusive com contornos expressivos da nossa região e jeitos de ser, não-ser, conviver.  

O texto refere: “Traduzir Rimbaud não deixa de ser sintomático dessa vontade de partir, de sair por aí, de ir viver em outro mundo, em outros mundos, esse desejo de evasão que toma conta de cada um muitas vezes na vida.” (Uma temporada no inferno, 2025. Pág. 6)

Ernest Cassirer indica que para entender a representação de um texto, é necessário compreender a linguagem em que ele se redige, ou seja, para acessar as mensagens de Rimbaud, além de uma sintonia com sua representação de mundo, também é necessária uma interseção de qualidade com as menções que a obra proporciona ao tradutor.

O livro aborda uma questão íntima da filosofia clínica, isto é, como se dá uma abordagem, tendo em vista uma representação de mundo em interseção com outra representação. A escolha de uma obra para tradução, já delimita o ângulo de interesse do tradutor. A partir daí é possível antever as preferências de uma obra em outra, quando se reescreve aquilo que, para o escritor-tradutor, se destaca em sua estrutura de pensamento.

A ideia dos deslocamentos existenciais tem a ver com a autogenia contida nos textos de Rimbaud, destacados por Juremir. A preferência por esta obra das poéticas delimita um ângulo singular para a expressividade da tradução. Uma reescrita se esboça com base nas palavras do poeta francês.

Com Juremir: “Agora posso dizer ‘o meu Rimbaud’, com meus defeitos, falhas, incertezas, hesitações e perdas. (...) Fiz escolhas. Só fui fiel à minha paixão. Nessa temporada no paraíso da poesia, vivi o inferno das buscas, iluminado pelo desejo de ir mais fundo, desenhando ilustrações na página branca da mente.” (Uma temporada no inferno, 2025. Pág.6)

Uma expressão de base inversiva, como a escrita da tradução, permite encontrar o objeto de sua leitura (o livro, suas mensagens e possibilidades). Assim o tradutor se envolve numa mescla de sentidos, por onde se encontra nas palavras do autor.

O professor Juremir, ao experienciar uma temporada no paraíso da poesia, exercita um deslocamento intelectivo de recíproca de inversão, para abastecer sua versão das coisas, ou seja, faz uma leitura dos originais e traz consigo uma matéria-prima para reelaborar sua versão em forma de escritura.   

A atividade do autor tradutor, significa uma afinidade com a estrutura de pensamento do poeta francês. Essa identificação que acontece quando se encontra um livro, um texto, onde suas páginas dialogam com o que se tem de mais íntimo, oferece a oportunidade de qualificar derivações sobre sua fonte de inspiração, emancipando a leitura em outras direções, elaborando uma representação da representação.

O escritor compartilha: “Num mundo pragmático talvez a poesia de Rimbaud não faça qualquer sentido. Daí a sua enorme validade. Precisamos de poesia desse nível para fugir da prosa cinza do cotidiano, da rotina feita de cifras e de metas, da competição travada em torno de tudo que não produz o sublime nem arte.” (Uma temporada no inferno, 2025. Pág. 6 e 7)

Em uma percepção singular, o autor da apresentação indica a contradição da obra poética com as lógicas do consumo a qualquer preço.  

A obra de Rimbaud e a tradução de Juremir encontram esse espaço imaterial onde a alma pode deslocar-se livremente, sem as algemas do consumismo, da deformação do fenômeno humano em forma de máquina produtiva de qualquer coisa, que não seja a fonte de onde tudo brota: a estrutura de pensamento singular, protegida pela invisibilidade inalcançável das tipologias e generalizações.

Uma compreensão dessa natureza indica - para quem tem olhos de ver - a rota para o refúgio onde ser e não-ser são. A origem da obra de arte, em qualquer de suas expressões, é contraditória com a ideologia das cifras e metas, como indica o texto de apresentação.

Ao não fazer qualquer sentido, no que se refere à estética de Rimbaud, nas palavras de Juremir, se traduz como um caminho para um lugar onde a singularidade mantém a integridade com seu titular. Talvez aquela loucura aprisionada em hospícios e submetida aos tratamentos de choque da psiquiatria, possa significar uma busca por não-ser integrante de um mundo pragmático, onde pessoas se transformam deliberadamente em coisas. Um dos principais critérios da psiquiatria para considerar alguém normal é ter um papel produtivo na sociedade.   

Juremir refere: “Com Rimbaud nunca se está onde se pode ser procurado. (...) A vida é uma zona de transição. (...) A inteligência artificial traduz Rimbaud. Traduz qualquer um em segundos. Só não pode sentir a emoção do humano traduzindo o que não tem limite, nem nunca terá, o que veio da inspiração suprema.” (Uma temporada no inferno, 2025. Pág. 7)

As palavras preliminares indicam uma via de acesso a poética de Rimbaud, um convite para superar as métricas lineares para uma leitura. Em suas páginas se encontram outras versões para a vida lá fora, tendo como referência uma fenomenologia da singularidade.

Ao destacar a vida como uma zona de transição, Juremir convida a superar as regras predeterminadas de um cotidiano refém das lógicas do lucro e benefícios materiais. Platão ensinava que a vida é um zoom. Pode ser por isso que a disciplina de filosofia deva ser impedida de compartilhar suas reflexões e análises com as pessoas de qualquer idade, isto é, convida a refletir criticamente sobre aquilo que se oferece sem pensar.

Uma noção sobre o fato de que a inteligência artificial traduz a poesia e a literatura com base na literalidade, convida a pensar sobre o alcance limitado das tecnologias em detrimento do humano. Embora a tecnologia médica, por exemplo, ofereça avanços significativos em relação à medicina do corpo, ainda assim, a subjetividade do ser singular permanece inatingível pelas métricas da lógica robô.

A filosofia clínica é uma abordagem cúmplice com o processo libertário do fenômeno humano, contraditória com a forma de pensar e atuar ideologizada numa pretensa vida normal. Busca oferecer outras rotas existenciais para encontrar o sujeito num endereço existencial que o represente. Essa proposta para encarar a vida contradiz as lógicas da mesmice, onde se tenta enquadrar o humano em autismos, esquizofrenias, histrionias, TDHs, e outras definições para sustentar metodologias aliadas a indústria - trilionária - de psicofármacos e coadjuvantes.

Aquele abraço,

hs 

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