Em algum ponto do verão de 2010,
no café Odeon no centro histórico no Rio de Janeiro, encontrei com Roberto
Calvet, uma das referências afetivas e filosóficas da filosofia clínica naquela
cidade. Buscamos um lugar para dar continuidade às aulas da especialização.
Encontramos um espaço próximo de onde estávamos, com vista para a baía de
Guanabara. Ali formei minha última turma da filosofia clínica na capital
fluminense.
Nesse dia fui surpreendido com um
presente singular, o livro: “Van Gogh – o suicida da sociedade” de Antonin
Artaud, traduzido pelo poeta Ferreira Gullar para a editora José Olympio/RJ, em
sua segunda edição de 2007. Uma obra preciosa, desde a qualidade do papel, as
ilustrações, os textos cuidadosamente selecionados. A publicação se deu a
partir dos cadernos manuscritos do autor.
Antonin Artaud foi um poeta,
ator, dramaturgo, e pensador da cultura. O qual, devido aos tratamentos
psiquiátricos, teve dificuldades com a própria genialidade, isolando-se, sob
muitos aspectos, de uma sociedade que não conseguia compreendê-lo. Sua relação
tumultuada com as torturas que vivenciou e consigo mesmo - em busca de
sobrevida -, produziram textos de rara beleza e profundidade reflexiva,
crítica, analítica, sobre a metodologia psiquiátrica, e a busca incessante por
alguma tradução para sua inquietude criativa.
Após a visita a exposição de Van
Gogh no Museu de l’Orangerie, Artaud escreve um esboço do que seria, logo a
seguir, a base para essa obra.
Com o autor: “(...) conclamando a
nulidade definitiva do olhar clínico de toda a psiquiatria (...) o autor
vislumbra o braço armado de uma sociedade pronta a defender pela força ‘a saúde
de um mundo de deformados’. (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2002. Pág. 15 e
16)
O pensador indica com maestria,
sua percepção sobre a realidade das intervenções psiquiátricas, as quais seguem
oferecendo aquilo que seus estudos e práticas prescrevem: a produção da loucura
como subproduto de uma sociedade desigual, injusta, hipócrita, que submete os
melhores de sua espécie a tratamentos de conversão para uma normalidade distante
do ser singular, e muito íntima da lógica alienista.
Alguns filósofos clínicos vêm
aprofundando esses estudos, como Gustavo Bertoche, Fernando Fontoura, Miguel
Angelo Caruzo, a partir de muitos anos de atividade clínica com o novo
paradigma, o qual, longe de ser a resposta geral para todas as coisas, oferece
um acolhimento e atividades compartilhadas a partir da representação de mundo e
referências de cada partilhante.
A nova abordagem não propõe aconselhamentos,
ou tratamentos da singularidade a partir da classificação palatável aos moldes
de uma sociedade impregnada de psicopatologias, as quais oferecem
intervenções para levar a cabo a manutenção de suas estruturas institucionais,
jurídicas, familiares, para seguir identificando e internando suas vítimas diferenciadas,
brilhantes, sensíveis, indefesas. A filosofia clínica se inscreve no rol das
atividades libertárias, e, sendo assim, deverá constar no index das práticas
estabelecidas por força de lei.
O pensador refere: “Fora das
pequenas bruxarias das feiticeiras de província, há os grandes passes de
enfeitiçamentos globais dos quais toda consciência vigilante participa
periodicamente. (...) Foi assim que ocorreram enfeitiçamentos unânimes a
propósito de Baudelaire, de Edgar Poe, de Gérard de Nerval, de Nietzsche, de
Kierkegaard, de Holderlin, de Coleridge, o mesmo ocorreu com Van Gogh.” (Van
Gogh – o suicida da sociedade, 2002. Pág. 33)
Um contexto social que testemunha
o aparecimento de mentes brilhantes, divergentes, costuma ser o mesmo que as
tenta oprimir, sufocar, enquadrar em alguma de suas classificações como: normal
x patológico, possível x impossível, viável x inviável, adequado x inadequado.
Assim também nascem as tipologias psiquiátricas, aliadas da ideologia para normatização
social, desqualificando o que não é espelho.
Artaud - talvez como nenhum outro
- concebeu uma crítica social sobre o processo de alienação e exclusão de
pessoas singulares, que investiram radicalmente numa determinada forma de
expressividade, sem abrir mão de ser aquilo que poderiam ser. Possivelmente
esse fato lhes custou uma internação involuntária e toda sorte de experimentos
psiquiátricos (tudo dentro da lei). A resultante desse processo de submissão
das vontades aprecia transformar pessoas num vaso no canto da sala.
Assim o mundo da cultura,
representado pelas belas artes, cinema, literatura, teatro, música, oferecem a
possibilidade de um direcionamento de raras habilidades e competências como algo
que represente uma singularidade em forma apreciável e que a proteja de ser
invadida, invalidada em seu jeito de ser.
Nesse território impregnado de
armadilhas existenciais, as pessoas que conseguem superar esses limites e propostas
de contenção, representados pela ideologia do consumo a qualquer preço,
costumam elaborar sua expressão com alguma forma de construção compartilhada. Em
casos radicais, quando não se encontra um espaço de ensaio singular, o que
aparece como recurso para domesticar insubmissos é a lógica do hospício, seus
rituais de coerção e submissão das vontades.
Antonin Artaud ensina: “Havia
muito tempo que a pintura linear pura me enlouquecia, até que encontrei Van
Gogh que pintava, não linhas ou formas, mas coisas da natureza inerte como se
estivessem em plena convulsão.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2002. Pág.
45)
Em um convívio com a
fenomenologia do estranho, não é raro encontrar obras de arte, publicações
literárias, as poéticas da singularidade, em íntima conexão com o olhar e o
sentir de pessoas afins. Esse fato tem ocorrido com quem encontra a filosofia
clínica, ou seja, tanto nos estudos da formação terapêutica como nas atividades
de consultório, seminários, palestras, são essas expressividades em processo de
devir que se abastecem com o novo paradigma.
A alternância da linearidade com
a não-linearidade, contribui para acolher a diversidade dos discursos
existenciais, longe de tentar enquadrá-los em algum rótulo psiquiátrico. O
pressuposto da redução fenomenológica (epoché), mais que aguardar uma
psicopatologia (olhar condicionado), deverá conter ingredientes de quase nada,
para acolher a originalidade da pessoa em formas de apresentação.
Quando Artaud refere o encontro
com Van Gogh, parece pacificar sua estrutura de pensamento, ao sentir em sua
obra uma mensagem que lhe representa por inteiro. Um achado dessa natureza
costuma acontecer nas interseções de consultório, quando o partilhante sente
ter encontrado um lugar, um profissional, um espaço de ensaios e liberdade em
busca de dias melhores.
Uma aptidão para se adaptar à
realidade da pessoa em clínica, constitui um pré-requisito para a atividade
terapêutica em filosofia clínica. Ao não praticar uma hermenêutica
interpretativa - dando explicações para uma expressão a partir de um olhar
diverso do que se mostra -, o filósofo deverá investigar compartilhando com seu
partilhante, os achados que vão surgindo na relação clínica.
O autor compartilha: “Porque a
realidade é terrivelmente superior a toda história, a toda fábula, a toda
divindade, a toda surrealidade. (...) quando se possui ouvido suficientemente
aberto para perceber o avanço da pororoca.” (Van Gogh – o suicida da sociedade,
2002. Pág. 50 e 51)
Esse fragmento retoma a indicação
de que a realidade, ou o ponto de vista da realidade, se constitui a partir de
uma singularidade, e não o contrário, em que pese a publicidade para regular as
percepções sobre a fenomenologia da existência, suas derivações,
multiplicações, desconstruções.
Considero incrível (para nossa
época impregnada de tipologias), o número de pessoas que estudam e se colocam
em terapia com a nova abordagem da filosofia clínica. São atendimentos em
consultórios, hospitais psiquiátricos, clínicas, associações de bairro e
morros, bem assim aulas em universidades, centros de formação, e outras
instituições, integrando-se a uma produção singular de matéria-prima,
compartilhada em publicações, seminários, congressos e colóquios.
Talvez a dificuldade de muitos
contemporâneos com os novos paradigmas, seja um espanto mal direcionado, uma
tentativa de interpretação e cristalização das novidades naquilo que já existe.
Bem assim aspectos como corporativismo, ideologias, questões econômicas. Parece
ser preciso uma singularidade pensadora, impregnada de um olhar diferenciado,
para se aproximar das novas mensagens em ciências humanas, sem distorcer sua
originalidade, formas de expressão, um devir em forma de broto.
Com Artaud: “Há em todo demente
um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma ideia assustadora, e que só no
delírio consegue encontrar uma saída para as coerções que a vida lhe preparou.”
(Van Gogh – o suicida da sociedade, 2002. Pág. 53)
O fragmento indica uma
representação da realidade do pensador, isto é, Artaud tem clareza quanto a sua
condição de incompreendido, bem assim os eventos delirantes de sua estrutura de
pensamento, os mesmos que criaram tantos roteiros e manifestações artísticas
ininteligíveis para sua época. Hoje em dia são festejados, pesquisados,
servindo de base para outros saltos de produção criativa.
Schopenhauer nos auxilia na
compreensão dessas palavras, onde o autor descreve - universalizando - que “Há
em todo demente um gênio incompreendido”. Os termos agendados no intelecto
contribuem para uma leitura sobre as origens de sua narrativa, seja ela sobre
algum aspecto da vida que se diz, bem como sua circunstância existencial,
relações, tempo, lugar por onde se desloca e vivencia sua condição para ser
singular.
A característica de significar
eventos do cotidiano como algo persecutório, pode estar associada a condição de
não ser acolhido, escutado, compreendido numa relação vertical onde o alienista
desvaloriza as palavras e demais expressões da pessoa sob seus cuidados,
privilegiando intervenções medicamentosas em detrimento de uma aproximação com
o sujeito em vias de desconstrução.
Artaud fala de si ao falar de
todo mundo, como se sua visão abrangesse todas as pessoas, no entanto, apesar
de sua genialidade e inquietude expressiva, não consegue se desprender daquilo
que a obra “o mundo como vontade e representação” ensina. Um ponto de atenção
nessa situação, se refere a medicalização (e outras formas de tortura
psiquiátrica) da expressividade do pensador/artista, o qual pode enfrentar
ainda dificuldades maiores em querer entender seu próprio contexto de vida em
momentos de não-ser.
As drogas da psiquiatria transformam
a pessoa num bibelô, ou seja, o sujeito é significado como um objeto de avaliação
e tratamento, e, quanto mais resistir a essas intervenções, maior será sua
contribuição para os diagnósticos e prognósticos da metodologia a qual está
submetido. Noutras palavras, o alienista terá a resultante ótima de suas
intervenções: a extinção do sujeito e suas possibilidades para superar momentos
de travessia existencial.
O autor diz assim: “(...) em todo
psiquiatra vivo há um repugnante e sórdido atavismo que lhe faz ver em cada
artista, em todo gênio, diante dele, um inimigo. (...) Van Gogh era uma dessas
naturezas de lucidez superior que lhes permite, em todas as circunstâncias,
enxergar mais longe infinita e perigosamente mais longe do que o real imediato
e aparente dos fatos.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2002. Pág. 55)
O difícil acesso da psiquiatria
para com as lógicas da diferença, tem a ver com a própria metodologia, baseada
na medicina do corpo. O real imediato e aparente dos fatos, como
descreve o autor, se apropria do olhar alienista para descrever sua atitude
repleta de incompreensão. Sua abordagem não contempla a possibilidade de
acolhimento das manifestações estranhas com as quais está lidando, tentando
condicioná-las numa perspectiva entendível a sua representação de mundo.
É preciso muita coragem, audácia,
genialidade para pensar, escrever, criar as peças de teatro que Artaud criou,
dentre outras obras. Textos que hoje em dia são uma referência para o mundo das
artes cênicas, apesar dos tratamentos da psiquiatria a que o autor foi
submetido, com suas intervenções biológicas avançadas (medicina do corpo),
sessões de eletrochoque (hoje em dia chamada de eletroconvulsoterapia, aplicada
com anestesia geral), choque insulínico, EMT – estimulação magnética
transcraniana, sonoterapias, e as variações da psicofarmacologia, as contenções
em caso de resistência, como: contenção química, contenção física, contenção
mecânica. Talvez não seja somente uma questão de método!
A filosofia clínica se associa às
intervenções que privilegiam o sujeito em seus momentos de dor existencial. Em
alguns casos raros - dependência química, por exemplo -, pode atuar em
interseção com profissionais da medicina, para processos de desintoxicação,
enquanto a clínica existencial acontece.
No entanto, não se pode confundir
essas exceções raríssimas, com a parafernália que prescreve o uso e abuso da
medicalização psiquiátrica, internação involuntária para fins escusos (questões
de herança, conflitos familiares, incompreensão metodológica...). Existem
muitas formas de cuidado e prevenção da qualidade de vida, a filosofia clínica
é uma delas. A aproximação e o convívio entre especialistas de várias áreas de
atuação, pode qualificar o diálogo inter e transdisciplinar.
Aquele abraço,
hs
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