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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 87*

Notas sobre “O mundo como vontade e representação”

Na primavera de 2002, enquanto aguardava a conexão para seguir para Minas Gerais, percorria os corredores do aeroporto de Congonhas/SP, nessa época o lugar ainda tinha ares de outros tempos, com a preservação de uma estrutura vintage. Em um desses espaços havia a livraria Laselva, próximo ao café do saguão de entrada.

Nesse endereço reencontrei uma obra: O mundo como vontade e representação de Arthur Schopenhauer. A edição é de setembro de 2001, publicada pela editora Contraponto/RJ, com tradução de M.F. Sá Correia. Desde essa época venho atualizando sua leitura, de acordo com as sintonias da vida e as atividades da filosofia clínica.

Foi Borges que alertou sobre a importância da leitura de Schopenhauer, isto é, diz ele: “se tivesse de ler apenas uma obra durante toda a minha vida, essa seria ‘o mundo como vontade e representação’”. Isso, por si só, deveria servir de alerta para nós estudantes. Mais que uma referência a fundamentação teórica da filosofia clínica, é leitura de base para a compreensão da fenomenologia do humano.

O pensador indica: “O mundo é a minha representação. Esta proposição é uma verdade para todo ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. (...) pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra (...) ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação.” (O mundo como vontade e representação, 2001. Pág. 9)

A conjugação da fundamentação teórica com as práticas de consultório, elevam a potência máxima esses ensinamentos, ou seja, o próprio conceito estruturante das intervenções clínicas - a singularidade -, por onde cada pessoa apresenta uma expressividade de acordo com sua condição existencial peculiar.  

Por outro lado, a reflexão pela reflexão pode nada indicar, é necessária uma aplicação dessas ideias e ensinamentos, como o caso da filosofia clínica, um novo paradigma que desconstrói muitas definições anteriores em ciências humanas, como as referências da tipologia, das classificações das doenças mentais, como se as representações do fenômeno humano pudessem ser concebidas a partir das leituras da medicina do corpo, das generalizações, uma derivação das constatações da tecnologia médica.

Ora, existem tantas circunstâncias que escapam a lógica da medicina do corpo que, se a pesquisa não-tecnológica fosse acolhida como um indicativo de ampliação do olhar, teríamos que atualizar a história das terapias que encontram seus subsídios em eventos distantes das constatações de laboratório.

A retórica com base na autoridade médica, quando se atreve a querer tratar questões subjetivas, deixa de lado um fundamento da própria medicina, ou seja, aquilo que desconheço, preciso investigar, analisar, pesquisar. Quando esses estudos se deparam com as dificuldades e os limites de sua área, é preciso encontrar outras referências teórico-práticas para qualificar as relações de cuidado e atenção com a vida.

Em outras palavras, a mesma filosofia de Schopenhauer, ao conceder uma leitura sobre os limites de representação na vida de uma pessoa, também contribui para se entender as dificuldades para refletir, estudar, partilhar conhecimentos em espaços inter e transdisciplinares, num convívio multifacetado de representações de mundo.  

Schopenhauer ensina: “(...) um único sujeito, mais o objeto, chegariam para constituir o mundo considerado como representação, tão completamente como os milhões de sujeitos que existem; mas, se este único sujeito que percebe desaparecer, ao mesmo tempo, o mundo concebido como representação desaparecerá também.” (O mundo como vontade e representação, 2001. Pág. 11)

O novo paradigma terapêutico da filosofia clínica, encontra no pressuposto da singularidade, a pedra de toque para um constructo teórico-prático de longo alcance, ou seja, acolhe o princípio da representação de mundo, como uma de suas referências para compreender o discurso existencial da pessoa sob seus cuidados.

Sua mensagem se destaca por acolher as lógicas da diferença, isto é, partindo do princípio de que, a priori sabe que não sabe (Sócrates), se propõe a uma investigação compartilhada, em busca de conhecer e verificar as possibilidades de uma clínica para cada pessoa.

A categoria circunstância, por exemplo, uma etapa do novo constructo terapêutico, busca estudar a realidade do partilhante, o lugar onde nasceu, cresceu, as coisas que acredita, seus temores, alegrias, sonhos, e o que mais possa aparecer (fenomenologicamente).

O filósofo clínico não planta palavras, ideias, ou qualquer outra forma de agendamento, na estrutura de pensamento do partilhante, sob pena de desvirtuar a originalidade diante de si. No entanto, isso costuma ocorrer em abordagens da tradição, as quais oferecem narrativas ao outro sob seus cuidados, para depois tratar as patologias plantadas diante do espelho.  

Com o pensador: “Mas a verdadeira essência da realidade é precisamente simultaneidade de vários estados, simultaneidade que produz, antes de mais nada, a duração; esta, com efeito, apenas é inteligível pelo contraste entre aquilo que muda e aquilo que permanece; do mesmo modo, é a antítese do permanente e do variável que caracteriza a mudança ou modificação na qualidade e na forma, ao mesmo tempo que a fixidez na substância, que é a matéria.” (O mundo como vontade e representação, 2001. Pág. 16 e 17)

A plasticidade da nova abordagem terapêutica, sua aptidão em se moldar as especificidades do ser singular, dentre outros aspectos, evidencia uma estrutura de pensamento apta a acolher e interagir com a diversidade existencial sob seus cuidados. Assim supera-se a lógica das intervenções do especialista em hermenêutica interpretativa, seus diagnósticos e prognósticos, suas leituras recheadas de notas de rodapé, distante dos eventos da hora-sessão, os quais propõe o gesso de suas narrativas.

Para apreender a fenomenologia da singularidade, a nova metodologia da filosofia clínica, oferece um constructo de fundamentação teórico-prática a partir de referências da fenomenologia, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, para começo de conversa, os quais, conjugados nas dinâmicas de consultório, permitem transitar pela diversidade incomum dos atendimentos.

Se é verdade que esses mesmos fundamentos - na teoria filosófica-, em alguns momentos, possam ser contraditórios, na aplicação do novo paradigma se tornam cúmplices para conviver e dialogar com a estrutura de pensamento singular, a qual se manifesta ora numa possibilidade existencial, ora noutra, permitindo integrar pressupostos teóricos de forma a apreender e transitar pela realidade mutante das múltiplas facetas existenciais.    

A obra refere: “Por isso vemos já que não é de fora que devemos partir para chegar à essência das coisas; procurar-se-á em vão, só se chegará a fantasmas ou fórmulas; pareceremos alguém que dá a volta a um castelo, para encontrar a entrada, e que, não a encontrando, desenhará a fachada. Foi, no entanto, o caminho que seguiram todos os filósofos antes de mim.” (O mundo como vontade e representação, 2001. Pág. 109)

Em filosofia clínica o acolhimento preliminar, busca colocar o filósofo numa situação de investigação compartilhada, ou seja, num processo de interação com o partilhante, tendo como pressuposto uma queixa inicial. Esse fato, dito assim, poderia nada acrescentar, não fora a fenomenologia da hora-sessão, a qual se apresenta multifacetada, pelo aparecimento do sujeito singular.  

O método do novo paradigma oferece a oportunidade de se qualificar construções compartilhadas, tendo como referência a circunstância do partilhante, o lugar onde desenvolve seu discurso existencial, a categoria tempo subjetivo e objetivo por onde se desdobram seus dias, suas relações, significados, e algo mais.

A ideia de Schopenhauer de se encontrar apenas fantasmas e fórmulas, tem a ver com muitas metodologias que tem como ponto de partida o saber-poder especialista, o qual se utiliza de pretensas verdades, para enquadrar seus pacientes, seja através dos seus agendamentos, conselhos, interpretações, ou com a insegurança e desinformação cúmplice das pessoas sob seus cuidados.  

O pensador se refere aos filósofos, eu penso nos profissionais da chamada saúde mental, os quais se encontram reféns de seus clubes, associações, corporativismos, onde suas verdades multiplicam fórmulas prontas, incabíveis à singularidade em rotas de não-ser.

Em algum lugar das ‘Folhas das folhas de relva’, Walt Whitman diz algo mais com sua poesia: “Tenho dito que a alma não é mais do que o corpo e tenho dito que o corpo não é mais do que a alma, e que nada, nem Deus, para ninguém é mais do que a própria pessoa”. Nesse sentido, o conceito de representação de mundo se aplica a toda e qualquer ser vivo nesse planeta, quer se dê conta ou não. Lembrando de que o ser humano poderia ter acesso a uma pluralidade de habilidades e competências, se começasse por investigar sua própria condição existencial.     

Em Schopenhauer: “Cada um tem consciência de que ele mesmo é essa vontade, vontade constitutiva do ser íntimo do mundo; cada um, também, tem consciência de que ele próprio é o sujeito que conhece, de que o mundo inteiro é a representação (...). Assim (...) cada um é ele próprio o mundo inteiro, o microcosmo; cada um encontra as duas faces do mundo completas e inteiras em si.” (O mundo como vontade e representação, 2001. Pág. 171)

Com essa noção de que o mundo se constitui - ao visar de cada sujeito - a partir de uma interseção entre vontade e representação, é possível compreender a expressividade de cada um como algo único.

A filosofia possui essa característica de abrir portas ao processo investigativo em múltiplas direções, talvez por isso se adeque a fundamentação teórica de várias metodologias, algumas contraditórias inclusive. No que se refere a filosofia clínica, o texto de Schopenhauer deixa evidente a percepção de que cada pessoa constitui um universo singular em si mesma.  

Mesmo quando a pessoa não se dê conta de que sua representação não abarca o mundo inteiro, ainda assim, suas verdades integram uma circunstância existencial única, no sentido de que os eventos da vida costumam ter um significado especial, apresentando o mundo inteiro como parte de si mesmo.   

Nesse território singular - partilhante - se desenvolvem os eventos da vida de cada pessoa, ponto de partida para o acolhimento e cuidados do filósofo clínico. A investigação compartilhada se desdobra em íntima conexão com a matéria-prima da estrutura de pensamento do partilhante, a qual aparece de acordo com sua autogenia, resultante das idas e vindas de consultório.

Aquele abraço,

*hs

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