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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 86*

Notas sobre a Felicidade Clandestina

Em 2022 estávamos renascendo dos distanciamentos da pandemia de Covid. Nessa época de incertezas, medos, promessas de dias melhores, devaneios e outras sensações estranhas, começávamos a sair de casa, transitar pela vida lá fora.  

Num desses passeios pelo centro histórico de Porto Alegre, visitando a livraria de livros raros: Nova Roma, fui encontrado pela “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector. Uma obra escrita em 1971, publicada em sua primeira edição em 1998 pela editora Rocco/RJ. Um livro classificado como contos, embora eu tenha restrições significativas com tipologias em qualquer de suas formas de apresentação. Mais por atrapalhar a fenomenologia das originalidades do que qualquer outro motivo.   

Penso se tratar de um constructo de textos - lindos textos - de uma escritora magnífica, sob muitos aspectos incompreendida por seu tempo. Nos dias de hoje, possivelmente, teria um diagnóstico de autismo, esquizofrenia, ou qualquer outro rótulo da moda, com base nas narrativas de especialistas.  

A obra oferece algumas pistas sobre a clínica filosófica, impregnada de autogenias e discursos existenciais de conotação singular. Algo irreconhecível aos reféns da bíblia DSM e coadjuvantes.     

Clarice Lispector compartilha: “Ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. Ovo por enquanto será sempre revolucionário.” (Felicidade clandestina, 1998. Pág. 51)

Trata-se de uma obra que acena e dialoga com a fenomenologia dos consultórios. Um endereço existencial onde terapeutas singulares exercem sua expressividade cuidadora num viés extraordinário. A emancipação dessas intervenções desafia o estreito limite das métricas generalistas.

A expressão: “O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época”, indica eventos intermináveis nas entrelinhas de um saber consagrado. Embora essas atividades já façam parte da vida de muita gente, seu discurso existencial ainda precisa de proteção e cuidado, por ser contraditório com as lógicas da generalização e as ideologias de senso comum. Os novos paradigmas, ao possuir uma expressividade diferenciada, reivindicam uma desconstrução do olhar, inacessível ao espírito de multidão.    

O conceito de ciência é amplo. Acolhe e investiga a formulação de hipóteses, experimentações, descrições e demais apontamentos de natureza estranha. A estrutura de pensamento do cientista não cabe em abordagens impregnadas de verdades cristalizadas. A especulação filosófica em sua tez de espanto, admiração e cogitações, convive com ânimos de descoberta e invenção. Antes mesmo de ser algo arrazoado, compreensível, seus eventos de protociência contém a matéria-prima de algo por chegar.  

A autora indica: “(...) sentimentos são água de um instante. Em breve, como a mesma água já é outra quando o sol a deixa muito leve, e já outra quando se enerva tentando morder uma pedra, e outra ainda no pé que mergulha (...)”. (Felicidade clandestina, 1998. Pág. 64)

Não é raro se encontrar, nos acolhimentos da hora-sessão, pessoas em seus momentos de ensaio consigo mesmas, isto é, quando se atrevem a investigar, questionar, cogitar sobre quase tudo. Assim, o filósofo clínico precisa acompanhar o zoom dos movimentos intelectivos do partilhante.

A dialética dos atendimentos, inacessível aos limites da régua tipológica, aprecia uma clínica peculiar entre filósofo e partilhante. Jung (1875-1962) em uma reflexão prognóstica, especulava sobre a necessidade de uma terapia para cada pessoa. Uma abordagem que teria de se adequar a cada realidade. Algo pensado e compartilhado - nos dias de hoje - pela metodologia da Filosofia Clínica.

Cabe destacar a dificuldade em se tratar de uma pessoa, tendo em vista um rol de classificações generalizantes, transformando um sujeito em objeto de investigação pelo saber especialista, recheado de significados e interpretações a priori. Noutras palavras, reivindica-se uma atenção com o desdobramento das crises, acolhendo as lógicas do desatino como uma manifestação em vias de não-ser. Assim sendo, numa distância segura da clausura interpretativa, diagnóstica, capturada por um saber que não sabe que não sabe, algo mais acontece em uma clínica compartilhada.  

O filósofo clínico tem como ponto de partida às suas intervenções, uma abertura fenomenológica capaz de acolher as lógicas da diferença, isto é, qualificar uma busca por compreender o outro sob seus cuidados.  

Uma aproximação com o território recheado de incógnitas do partilhante, numa expressão que pede estudo e aprendizado sob suas circunstâncias, requer a conjugação de método e borogodó para ser efetiva. Os exames categoriais, logo após o acolhimento preliminar, anunciam a atividade clínica. Esse momento, impregnado de acolhimento e sensibilidade, trata de conhecer aquilo que desconhece. Ao mesmo tempo o filósofo terá de vigiar sua própria estrutura de pensamento, para interferir minimamente na expressão do partilhante, sob pena de desvirtuar sua singularidade.

Em Clarice: “A agonia de seu nascimento. Até então eu nunca vira a coragem. A coragem de ser o outro que se é, a de nascer do próprio parto, e de largar no chão o corpo antigo. (...) Suas núpcias consigo mesma.” (Felicidade clandestina, 1998. Pág. 75)

Uma terapia que não inclua uma autogenia, e esteja fundada somente em dados axiológicos, pré-juízos, princípios de verdade, se apresentará como algo retilíneo, distante dos ajustes - necessários - com a realidade de cada um.    

Em um texto escrito numa data incerta, publicada não lembro onde, com o título: De quantas mortes você já ressuscitou? - nessa época ainda não tinha lido Clarice -, abordei algo semelhante, referente ao processo de desconstrução e reconstrução possível na vida de uma terapia.

Para uma caminhada dessa natureza, existem quesitos que reivindicam dedicação, coragem transformadora, interseção qualificada, disponibilidade e abertura de alma, dentre outros aspectos para se realizar uma redescoberta de si mesmo sendo outro.

Se tem algo que incomoda é o fato da maioria das pessoas ter uma certa preguiça mental, uma disposição para serem submissas a opinião alheia, não pensar por si mesmas. Ter como fonte de credibilidade um princípio de autoridade, seja de natureza religiosa, médica psiquiátrica, psicanalítica, filosófico clínica, ou qualquer de suas manifestações de tez disfarçada, ideologizada em palestras, livros, púlpitos, jornais, programas de tv, sites, blogs da internet.

Nesse sentido, é possível perceber - dentre outros aspectos - a natureza libertária de uma terapia voltada para um encontro da pessoa com ela mesma, numa interseção aprendiz com sua própria estrutura de pensamento e os recursos que possui, ainda quando inacreditáveis aos totens para onde, até então, dirigia suas preces. Uma lógica de plantio e colheita aparece como cúmplice de um processo pessoal transformador.  

A autora refere: “E pessoas precisam tanto poder contar a história delas mesmas.” (Felicidade clandestina, 1998. Pág. 83)

Um dado que pode passar despercebido, nos eventos da terapia, é o alcance dos relatos atualizados da história de vida (circunstanciada), por onde o partilhante executa avanços e recuos, devaneios, incompletudes narrativas, e algo mais, inacessíveis longe da estrutura de pensamento onde o discurso existencial se elabora.  

Talvez por isso a confissão religiosa se mantenha por tanto tempo, isto é, ao confessar seus pecados e receber uma penitência, muita gente se sente melhor. Por outro lado, esse procedimento contribui - dentre outras facetas - para perpetuar uma armadilha conceitual, quando o penitente se sente liberado para seguir pecando. Dessa forma contribui com os princípios de verdade onde abastece seus dias.  

Em clínica esse processo tem outra natureza, ao elaborar algo novo com base nas construções compartilhadas, sendo possível testemunhar um desenvolvimento pessoal singular. Uma superação em busca de fortalecimento da própria estrutura subjetiva, seja como proposta aos novos endereços existenciais ou atualização de reformas.

Uma lógica dialética costuma se apresentar nas narrativas da história de vida, por onde a pessoa possa efetivar releituras de si para si mesma em tempos, lugares, relações outras, como subsídio para entender e transitar por sua estrutura de pensamento nos dias de hoje.     

Com Clarice: “Eles também achavam que os outros queriam caçá-los não para o sexo, mas para a normalidade. Eles eram medrosos, científicos, exaustos de experiência.” Felicidade clandestina, 1998. Pág. 125)      

Pode ser incabível, para muita gente, uma existência distante de sua representação das coisas. Abordagens com pessoas consideradas desajustadas, anormais, tem dificuldade em compreender essas expressões da vida singular, seu olhar enxerga algo que precisa ser tratado, normalizado pelos princípios de verdade, seja isto lá o que for.

Não é raro, em asilos psiquiátricos, alguns internos terem a sensação de uma ameaça constante a si mesmos, desconfiam do lugar onde se encontram, com quem se relacionam, os objetos, sons, cheiros... Isso costuma traduzir - em linguagem própria - o distanciamento delas mesmas com sua circunstância existencial.  

Assim, querer tratar a expressividade sem compreender as funções que a sustentam, costuma se traduzir em abordagens de superfície, tangenciando a essência das contradições estruturais. Com isso elabora-se um território fértil às intervenções do alienista, o qual permanece refém de práticas ideologizadas por seus antecessores. Não supõe ser sua postura acrítica, alienada, àquela a produzir a loucura que jura debelar.      

Aquele abraço,

*hs  

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