Sobre a extraordinária Filosofia Clínica
No final do ano de 2005 dava
aulas, clinicava e flanava no Rio de Janeiro. Meu espaço de trabalho (atendimentos)
transitava entre Copacabana, Ipanema, Botafogo, Praça XV no centro histórico, e
outros. O consultório itinerante se deslocava entre o endereço físico na rua Miguel
Lemos, em Copacabana, a Casa de Cultura Laura Alvim e o Barril 1.800, no
Arpoador, os cafés em Botafogo, um pouco antes das aulas, ou na beira da praia,
em sintonia com a realidade dos partilhantes.
Esses espaços tinham a vantagem
de, ao final das clínicas, permitir longas caminhadas para vivenciar um trajeto
sem pressa, buscava colocar uma certa ordem em meus pensamentos. Num dia
desses, não recordo ao certo a data, cheguei à livraria da Travessa no Shopping
Leblon - uma das maiores livrarias do país - um refúgio em forma de paraíso dos
livros. Lá me abastecia com um café recém passado, fragmentos de leitura, percorria
estantes recheadas de guloseimas literárias. Subia e descia escadas, avançava
pelos corredores, remexia prateleiras e mesas, em busca do texto inesperado.
Em um desses dias, no espaço
reservado para os lançamentos da moda, me deparei com O Mito de Sísifo*
de Albert Camus. Uma publicação da Editora Record/RJ. Edição de 2005. Tradução
de Ari Roitman e Paulina Watch.
As páginas desse trabalho contêm
aspectos que interessam aos estudos da fundamentação teórico-prática do novo
paradigma, por descrever a ideia de absurdo numa perspectiva extraordinária, como um fio da navalha por onde o filósofo clínico transita.
O texto anuncia: “Só existe um
problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a
pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.” (O mito de
Sísifo, 2005. Pág. 17)
Essa provocação preliminar se
destaca ao dialogar com a expressividade do filósofo, ou seja, quando se
utiliza de um dado literal impregnado de vice conceito, o qual só se traduz na
construção compartilhada com o contexto narrativo de suas páginas. Antes disso,
pode-se ter uma série de equivocidades discursivas, oferecendo apreensões
diversas a leitores incautos, apressados. Algo comum em nossos dias!
A Filosofia teórica aprecia
recuperar a história da Filosofia, traduzir e estudar os textos dos pensadores
em cada época. Uma preparação às reflexões, análises, críticas por vir, em um convite
aos totens da trama conceitual, por onde a história se registrou, contribuindo
para sustentar arquiteturas empíricas das mais diversas.
Assim a nova abordagem
terapêutica, também encontra nesse território - repleto de originais - os subsídios
para sua estrutura de pensamento. É necessário lembrar as armadilhas do texto
filosófico, semelhante aos labirintos que conduzem a apreensão de uma
singularidade.
Com essas considerações de
aproximação, em uma escrita a reivindicar releituras, pode-se cogitar sobre o
alcance de sua mensagem, os desdobramentos e a estranha lógica que a abastece. O
absurdo aparece - fenomenologicamente - desde os primeiros instantes da sua narrativa
filosófica.
Albert Camus refere: “Matar-se,
em certo sentido, é como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos
superados pela vida ou que não a entendemos. (...) Viver, naturalmente, nunca é
fácil. Continuamos fazendo os gestos que a existência impõe por muitos motivos,
o primeiro dos quais é o costume. (...) ausência de qualquer motivo profundo
para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do
sofrimento.” (O mito de Sísifo, 2005. Pág. 19)
O fragmento - dentre outras
possibilidades - convida a pensar sobre a busca por sentido em meio ao devir
existencial, isto é, o que fazer, como fazer, a que pretexto viver. Onde reencontrar
a matriz dos sonhos em meio a tanto desvio de rota, com quem contar em busca de
algo ainda sem nome?
Em algum ponto do ano de 1999 na
linda cidade de Divinópolis/MG, ganhei um livro de autoria de Affonso Romano de
Sant’Ana, da querida filósofa e amiga Irene Amaral, fundadora da faculdade de
Filosofia. O título: Fizemos bem em resistir. Um constructo de textos de
um cronista do cotidiano. Para nós, da geração que ousou resistir,
transgredindo os freios existenciais de 20 anos de ditadura militar, a obra foi
um presente singular. Uma das propostas de suas páginas é evidenciar as belezas
da vida comum, os impactos da vida simples na alma das pessoas, em suas ideias,
costumes, formas de encontrar o sagrado em cada lugar ou nas dinâmicas da
interseção com o dia a dia.
Talvez uma das incógnitas dessa
forma de se pensar as coisas, tenha a ver com a possibilidade de se encontrar
um caminho singular em meio às tentações da propaganda, do meio onde se agendam
determinados costumes, modas, propondo a cada instante algo novo para sustentar
velhas formas de existir.
As dialéticas de consultório, numa
abordagem como a Filosofia Clínica, reivindicam um papel existencial
multifacetado, inacessível a maioria dos pretendentes a essa atividade. A
expressividade de um filósofo assim disposto, têm de dar conta da fenomenologia
do ser singular, isto é, acolher e transitar pela estrutura de pensamento de
cada interseção. Trata-se de um envolvimento distante das ilusões da tipologia
e da classificação, as quais acenam um território de aspecto seguro (suas
definições) para a atividade terapêutica.
O filósofo clínico terá de
reinventar sua abordagem a cada atendimento, respeitando a singularidade sob
seus cuidados. E isso tem se mostrado desafiador, numa cultura impregnada pela ideologia
das verdades apriorísticas do especialista.
A obra indica: “Um mundo que se
pode explicar, mesmo com raciocínios errôneos, é um mundo familiar. Mas num
universo repentinamente privado de ilusões e de luzes, pelo contrário, o homem
se sente um estrangeiro. (...) Esse divórcio entre o homem e sua vida, o ator e
seu cenário é propriamente o sentimento do absurdo. (O mito de Sísifo, 2005.
Pág. 20)
Uma abordagem clínica
deverá conter, necessariamente, como ponto de partida, um estudo aprofundado
sobre as circunstâncias existenciais do partilhante, ou seja, acolher,
aprender, transitar, compartilhar, para situar-se em meio ao mundo como vontade
e representação da pessoa sob seus cuidados.
Camus indica, no fragmento acima,
que alguém vivencia sua singularidade de acordo com uma forma de entender
as coisas. Independente de estar em conformidade com os princípios de verdade
onde se encontra. O mais significativo, quando se refere aos dados de valor em
sua vida, é o quanto de si mesmo consiga encontrar no endereço existencial onde
se desenvolve como sujeito de sua história.
Os eventos da autogenia, muitas
vezes anunciados por uma crise desconstrutiva, costumam embaralhar os conteúdos
da estrutura de pensamento. Trata-se de momentos em que a atualização de um
discurso existencial entra em contradição com suas anterior_idades.
A categoria tempo costuma se
associar a categoria lugar, para estruturar uma forma de existir, intimamente
relacionada ao sentir-se pertencente a um endereço existencial. Assim, os
termos agendados, raciocínio, incompletudes narrativas, a expressividade, se apresentam
como integrantes da singularidade. A ideia de absurdo, sustentada pelo
filósofo, dialoga com os processos de ressignificação existencial de uma
pessoa. Nesses momentos, a transição entre uma e outra sintonia, desaloja
sensações, ideias, relações, para encontrar outras referências.
Camus refere: “Pensar é
reaprender a ver, a ser atento, é dirigir a própria consciência, é fazer de
cada ideia e de cada imagem, à maneira de Proust, um lugar privilegiado.” (O
Mito de Sísifo, 2005. Pág. 40)
O constructo de pré-juízos acima
indica a possibilidade de alguém, sendo sujeito de sua história, investir em
sua expressividade, ou seja, encontrar um território existencial que o
represente. A base desses ensaios costuma acontecer nos eventos da
hora-sessão, onde a pessoa elabora rascunhos, cogitações, para algo mais.
Num cotidiano, muitas vezes
impregnado de contas a pagar, boletos, cobranças, dívidas intermináveis, relações
de trabalho injustas, ambientes de submissão, quando em relações predatórias de
patrões e empregados, suas propensões aparecem reféns dos princípios de verdade.
Em outras palavras, quanto mais carga de trabalho, tributos, gargalos de
aprisionamento da expressão, mais alguém leva vantagem em cima da miséria
alheia, transformando possibilidades existenciais em objeto de manipulação,
controle, desvirtuamento.
Nesse sentido não é de estranhar
o processo acelerado de desestruturação pelo qual passam muitas pessoas, a
maioria testemunhando - num cotidiano adverso - a destruição de seus sonhos,
buscas, expressividade, submetidos à lógica perversa do deus dinheiro. É uma
raridade ainda se encontrar alguém disposto a investir nos seus sonhos,
oferecer novas ideias, qualificar a vida ao seu redor.
O filósofo ensina: “Mas, ao mesmo
tempo, o homem absurdo compreende que estava ligado até aqui ao postulado de
liberdade em cuja ilusão vivia. Em certo sentido, isto era uma trava. Na medida
em que imaginava uma meta para sua vida, ele se conformava com as exigências da
meta a ser atingida e se tornava escravo de sua liberdade.” (O Mito de Sísifo,
2005. Pág. 69)
Talvez a questão filosófica
apontada pelo fragmento tenha a ver com a vida de muita gente, isto é, quando sua
expressividade se vê violentada pelo meio onde se desencontra. O alerta
do pensador também se refere ao fato de que a estrutura de pensamento - dos
princípios de verdade - manipula os dados da realidade, sugerindo a crença numa
liberdade que não chega.
Esse ser absurdo tratado pelo
filósofo lembra os momentos em que o partilhante refaz sua leitura de mundo,
atualizando sua condição para ser livre ou seguir nalguma zona de conforto e
submissão. O confronto das opções atua para descrever a noção de absurdo de
Camus, semelhante aos instantes de crise de ressignificação traduzíveis pelo
assunto imediato que leva a pessoa à terapia.
Albert Camus compartilha:
“Sabendo que não há causas vitoriosas, gosto das causas perdidas: elas exigem
uma alma inteira, tanto na derrota quanto nas vitórias passageiras.” (O Mito de
Sísifo, 2005. Pág. 100)
Nas dinâmicas de consultório é
interessante notar quando uma pessoa se apresenta em seus momentos de crise
existencial. Assim oferece a possibilidade para qualificar a interseção com sua
circunstância, destituída de rótulos, titulações, medalhas, jogo de cena
institucional e familiar, em diálogos com seu devir existencial recheado de
incompletudes em forma de broto.
Em determinados momentos num
sistema social, uma lógica da derrota pode se apresentar como a pedra de toque
para alguém readquirir sua condição de sujeito na própria história. O filósofo
clínico também atua nesse contexto recheado de perdas e danos, quando os partilhantes
se apresentam em vias de transbordamento expressivo.
Essa ideia de uma alma inteira,
como refere Camus, serve para se pensar sobre os ensaios na terapia filosófica,
quando a pessoa se encontra com aquilo desmerecido socialmente, mas que se
refere a sua condição de maior intimidade. Nesses momentos um esboço autogênico
pode auxiliar as buscas em estágio de experimentação.
O filósofo diz assim: “O artista,
tanto quanto o pensador, compromete-se com sua obra e se transforma dentro
dela.” (O mito de Sísifo, 2005. Pág, 112)
Um papel existencial - o ser
filósofo clínico - em sua interseção com as questões do partilhante, pode
significar um distanciamento das teses de coerência social, quando estas
oferecem ingredientes tóxicos ao devir singular.
É comum o mundo do trabalho oferecer
esses componentes para manter a pessoa exilada de seu melhor, ao dar seu
sangue, suor e lágrimas, para produzir uma riqueza que não vai usufruir. Quando
a terapia busca um melhor endereço existencial ao partilhante, um pouco antes, pode
ser necessário - como pré-requisito - fortalecer sua estrutura de pensamento,
para suportar os momentos de travessia entre uma e outra realidade.
Em Filosofia Clínica, a relação
cuidadora reivindica um processo de qualificação existencial em direção ao ser
terapeuta, ou seja, em tempo próprio, o filósofo clínico pode associar a seu
favor ingredientes como: a representação de mundo, o que acha de si, pré-juízos,
axiologia, papel existencial, para dar conta da diversidade clínica em sua rotina
incomum.
O pensador descreve: “Já devem
ter notado que Sísifo é o herói absurdo. (...) Na condição humana, e isto é o
lugar-comum de todas as literaturas, há uma absurdidade fundamental ao mesmo
tempo que uma implacável grandeza.” (O mito de Sísifo, 2005. Págs. 138 e 148)
A essência da nova abordagem
clínica, com base na Filosofia, encontra na singularidade uma possibilidade de
interseção. Muitas vezes o partilhante se apresenta na terapia, impregnado de contradições,
dúvidas, inseguranças, medos, sobre sua condição excepcional.
Num contexto de vida onde parece
que todo mundo está bem resolvido, ter receios, devaneios, questionamentos, ou querer
ficar isolado, ter dificuldades com a semiose verbal (embora a pessoa tenha outras
formas de expressão), pode significar alguma forma de loucura, mesmo que
dissimulada como: síndrome, espectro, transtorno, em busca de um controle
que não vai chegar. Um pouco pior, se a lógica da manipulação der certo,
aumentam as chances de distorção para uma originalidade em busca do ser
singular. Questão de método!
Algo que parece não ter fim, é a índole
- sempre renovada por algumas igrejinhas ideológicas - para criar tipologias e
classificações ao extraordinário da condição humana. Momentos em que se manifesta
uma proposta desesperada para catalogar, direcionar, cristalizar as lógicas da
diferença como algo que, a partir de então terá um nome, uma discriminação,
passível de ser tratada pela psicofarmacologia e demais coadjuvantes da bíblia
DSM (calhamaço tipológico norte americano)
Não seria um despropósito compreender
o herói absurdo como àquele em busca de um si mesmo que lhe pertença por
inteiro. Nesse instante, ao desvestir a roupa da moda, algo novo pode se
insinuar em sua percepção - até então embaçada - num espelho existencial
distante de seu melhor.
Aquele abraço,
*hs
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