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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 80*

Filosofia Clínica e Literatura V

Em 2009, logo depois dos atendimentos no café do antigo espaço Itaú de cinema, na praia de Botafogo, numa revisita a Blooks Livraria, encontrei a obra “Um mapa da desleitura” de Harold Bloom, crítico literário americano, publicada em 2003 pela editora Imago/RJ.

Sabe quando você se depara, nas páginas de um livro, com aquilo que sabia existir, mas ainda não tinha palavras para se dizer? Pois é, foi assim com esse texto de base crítica, historicista, analítica, ao alcançar subsídios para algo que já vinha se delineando nas clínicas, leituras, pesquisas, com o novo paradigma da Filosofia Clínica.

O escritor-pensador refere: “A leitura, como o título indica, é um ato tardio e inteiramente impossível que, quando forte, trata-se sempre de uma desleitura. O sentido literário tende a se tornar mais indeterminado à medida que a linguagem literária se torna mais sobredeterminada.” (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 23).

A aproximação com as palavras do autor, revela - dentre outros aspectos - possibilidades de ressignificação ao partilhante. Desde as palavras iniciais, com a narrativa de sua história de vida, a estrutura de pensamento, aos procedimentos de maior alcance em sua malha intelectiva, a pessoa efetiva uma reinscrição para si mesma. Uma caminhada de aproximação compartilhada com as tramas desse território inédito, oferece um olhar sobre a originalidade dos eventos, até então, desconsiderados.  

Com essa percepção atualizada sobre os desdobramentos que o trouxeram até aqui, esses registros da memória podem reescrever conteúdos que restariam cristalizados em forma de trauma, armadilha conceitual, ou sustentar tipologias e classificações.     

A leitura de uma obra carrega consigo a possibilidade de uma desleitura pelo leitor, o qual, ao ler e reler uma obra, pode significar suas páginas como uma fonte de inspiração de algo para chamar de seu.  

Talvez a indeterminação de que fala o escritor, possa acolher a inquietude criativa do leitor, onde sua sintonia, ao estabelecer uma interseção derivada da intencionalidade do autor, descubra uma matriz refugiada em sua própria estrutura de pensamento, ampliando horizontes de sentido pelos desvãos da palavra.   

Os eventos da desleitura se assemelham aos deslocamentos da estrutura subjetiva do partilhante em sua terapia, ou seja, quando a pessoa descobre em si mesma ingredientes para desconstruir limites estruturais plantados pelo mundo da cultura, agendamentos dos princípios de verdade onde, até então, a pessoa se desencontrava.    

Com Harold Bloom: “Para que uma leitura (desleitura) seja ela mesma produtora de outros textos, é obrigatório que afirme sua singularidade, sua totalidade, sua verdade.” (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 85)

As questões envolvendo a expressividade de uma pessoa podem ser acessadas e significadas sob diferentes ângulos, compreendidas a partir da representação de mundo, interseções, papel existencial, recursos metodológicos que disponha ao seu redor.  

Assim uma desleitura como produtora de novos sentidos, seja através de uma distorção para outras possibilidades de escritura, sustentação de suas páginas com acréscimos, derivações, ou num esboço de novas versões, elaboram um roteiro para qualificação existencial, a partir de um texto literário precursor.

Os apontamentos para uma fenomenologia da hora-sessão também se descrevem nessa relação do leitor com suas leituras. Noutras palavras, os encontros que podem ser semanais entre o filósofo e seu partilhante, onde elaboram um espaço investigativo compartilhado, apreciam encontrar uma matéria-prima impregnada de originalidade em meio a um caos precursor.  

O autor indica: “(...), mas atos, pessoas e lugares, para que sejam utilizados por poemas, devem eles próprios ser tratados antes como se já fossem poemas, ou partes de poemas.” (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 86)

Pode ser inacessível entender uma desestruturação pessoal num determinado ambiente, restando a sua expressividade em desacordo com a categoria circunstância, refugiar-se em algum ponto da própria subjetividade.

Uma expressão singular socialmente distante, muitas vezes se deve a uma inadequação a determinada realidade, isto é, a pessoa não encontra meios para se integrar ao jogo social, suas normas e regras pré-estabelecidas. Quando isso acontece, é preciso buscar novos roteiros em sua estrutura de pensamento, dialogando com um endereço existencial em vias de reescrita.   

Para sustentar uma determinada autogenia, a relação tópica usual, ao se sentir ameaçada por uma desconstrução, costuma oferecer a crise como forma de defesa. Acolher a poesia existencial de cada um, ainda quando esta esteja desajustada e distante da pessoa com ela mesma, pode significar uma via de acesso para novas interseções.   

O distanciamento de uma abordagem clínica (pretenso saber-poder) em relação ao devir singular da pessoa, ao desmerecer a titularidade de seu jeito de ser, poderia aprender mais e melhor se tivesse meios (metodologia) para compreendê-la em seu próprio território existencial. Tal abertura poderia significar mais que mil manuais psiquiátricos, os quais permanecem reféns da proliferação de síndromes, transtornos, espectros, para tentar dar conta da natureza humana multifacetada.   

O crítico lembra Marcuse e Hegel: “(...) quando este insiste que o pensamento dialético deve tornar presente o que é ausente ‘porque a maior parte da verdade encontra-se naquilo que está ausente’”. (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 185)

Em Filosofia Clínica existem procedimentos - como a escuta fenomenológica e agendamentos singularizados - que favorecem a manifestação de conteúdos da estrutura de pensamento do partilhante, até então considerados inacessíveis, desconhecidos, desmerecidos. As possibilidades contidas em um discurso existencial exilado de si mesmo, costumam se insinuar numa trama narrativa própria, que reivindica uma tradução compartilhada para se contar.  

Um desses momentos em clínica é a recuperação - em versão própria e sem interpretação pelo filósofo - da historicidade pela pessoa, outro são as intervenções submodais nos estágios avançados da terapia, onde o partilhante pode reconhecer e utilizar procedimentos que tenham a ver consigo mesmo, até então, inacessíveis na própria farmácia.   

As contradições apreciam oferecer uma matéria-prima irreconhecível em uma determinada expressão, os eventos da hora-sessão favorecem uma tradução compartilhada. Nesse ambiente seguro da clínica, o partilhante pode exercitar-se pelos recantos desconsiderados de sua estrutura de pensamento.

Conceitos como verdade, mentira, simulacros, jogo de cena, somente fazem sentido dentro de um processo terapêutico, onde será possível compreender seu aparecimento como integrante das dialéticas da terapia. Aqui trata-se de uma aproximação investigativa pela via da interseção, longe da qual restarão equivocidades e incompletudes interpretativas de quem se aventurar em territórios desconhecidos as definições de manual.  

Uma abordagem com base no acolhimento e convívio com as lógicas do desatino, terá, necessariamente de contar com um estudo compartilhado de uma estrutura de pensamento, sem o qual o filósofo ficará refém de hermenêuticas impregnadas de retórica e definições propícias a desvirtuar a fenomenologia da clínica.

Em outras palavras, a cada nova representação de mundo, ao se tentar defini-la em moldes pré-fabricados, o que vai ficar à vista é aquilo que seus intérpretes conseguem enxergar, distantes de uma lógica aprendiz compartilhada, onde seria possível uma descrição a partir de uma recíproca de inversão.     

Aquele abraço,

hs  

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