Filosofia Clínica e Literatura V
Em 2009, logo depois dos atendimentos
no café do antigo espaço Itaú de cinema, na praia de Botafogo, numa revisita a
Blooks Livraria, encontrei a obra “Um mapa da desleitura” de Harold Bloom,
crítico literário americano, publicada em 2003 pela editora Imago/RJ.
Sabe quando você se depara, nas
páginas de um livro, com aquilo que sabia existir, mas ainda não tinha palavras
para se dizer? Pois é, foi assim com esse texto de base crítica, historicista, analítica,
ao alcançar subsídios para algo que já vinha se delineando nas clínicas,
leituras, pesquisas, com o novo paradigma da Filosofia Clínica.
O escritor-pensador refere: “A
leitura, como o título indica, é um ato tardio e inteiramente impossível que,
quando forte, trata-se sempre de uma desleitura. O sentido literário tende a se
tornar mais indeterminado à medida que a linguagem literária se torna mais
sobredeterminada.” (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 23).
A aproximação com as palavras do
autor, revela - dentre outros aspectos - possibilidades de ressignificação ao partilhante.
Desde as palavras iniciais, com a narrativa de sua história de vida, a
estrutura de pensamento, aos procedimentos de maior alcance em sua malha
intelectiva, a pessoa efetiva uma reinscrição para si mesma. Uma caminhada de
aproximação compartilhada com as tramas desse território inédito, oferece um
olhar sobre a originalidade dos eventos, até então, desconsiderados.
Com essa percepção atualizada sobre
os desdobramentos que o trouxeram até aqui, esses registros da memória podem
reescrever conteúdos que restariam cristalizados em forma de trauma, armadilha
conceitual, ou sustentar tipologias e classificações.
A leitura de uma obra carrega
consigo a possibilidade de uma desleitura pelo leitor, o qual, ao ler e reler uma
obra, pode significar suas páginas como uma fonte de inspiração de algo para
chamar de seu.
Talvez a indeterminação de que
fala o escritor, possa acolher a inquietude criativa do leitor, onde sua sintonia,
ao estabelecer uma interseção derivada da intencionalidade do autor, descubra uma
matriz refugiada em sua própria estrutura de pensamento, ampliando horizontes de
sentido pelos desvãos da palavra.
Os eventos da desleitura se
assemelham aos deslocamentos da estrutura subjetiva do partilhante em sua
terapia, ou seja, quando a pessoa descobre em si mesma ingredientes para desconstruir
limites estruturais plantados pelo mundo da cultura, agendamentos dos princípios
de verdade onde, até então, a pessoa se desencontrava.
Com Harold Bloom: “Para que uma
leitura (desleitura) seja ela mesma produtora de outros textos, é obrigatório
que afirme sua singularidade, sua totalidade, sua verdade.” (Um mapa da
desleitura, 2003. Pág. 85)
As questões envolvendo a
expressividade de uma pessoa podem ser acessadas e significadas sob diferentes
ângulos, compreendidas a partir da representação de mundo, interseções, papel
existencial, recursos metodológicos que disponha ao seu redor.
Assim uma desleitura como
produtora de novos sentidos, seja através de uma distorção para outras
possibilidades de escritura, sustentação de suas páginas com acréscimos,
derivações, ou num esboço de novas versões, elaboram um roteiro para qualificação
existencial, a partir de um texto literário precursor.
Os apontamentos para uma
fenomenologia da hora-sessão também se descrevem nessa relação do leitor com
suas leituras. Noutras palavras, os encontros que podem ser semanais entre o
filósofo e seu partilhante, onde elaboram um espaço investigativo compartilhado,
apreciam encontrar uma matéria-prima impregnada de originalidade em meio a um
caos precursor.
O autor indica: “(...), mas atos,
pessoas e lugares, para que sejam utilizados por poemas, devem eles próprios
ser tratados antes como se já fossem poemas, ou partes de poemas.” (Um mapa da
desleitura, 2003. Pág. 86)
Pode ser inacessível entender uma
desestruturação pessoal num determinado ambiente, restando a sua expressividade
em desacordo com a categoria circunstância, refugiar-se em algum ponto da
própria subjetividade.
Uma expressão singular
socialmente distante, muitas vezes se deve a uma inadequação a determinada
realidade, isto é, a pessoa não encontra meios para se integrar ao jogo social,
suas normas e regras pré-estabelecidas. Quando isso acontece, é preciso buscar novos
roteiros em sua estrutura de pensamento, dialogando com um endereço existencial
em vias de reescrita.
Para sustentar uma determinada
autogenia, a relação tópica usual, ao se sentir ameaçada por uma desconstrução,
costuma oferecer a crise como forma de defesa. Acolher a poesia existencial de
cada um, ainda quando esta esteja desajustada e distante da pessoa com ela
mesma, pode significar uma via de acesso para novas interseções.
O distanciamento de uma abordagem
clínica (pretenso saber-poder) em relação ao devir singular da pessoa, ao
desmerecer a titularidade de seu jeito de ser, poderia aprender mais e melhor se
tivesse meios (metodologia) para compreendê-la em seu próprio território
existencial. Tal abertura poderia significar mais que mil manuais
psiquiátricos, os quais permanecem reféns da proliferação de síndromes,
transtornos, espectros, para tentar dar conta da natureza humana multifacetada.
O crítico lembra Marcuse e Hegel:
“(...) quando este insiste que o pensamento dialético deve tornar presente o
que é ausente ‘porque a maior parte da verdade encontra-se naquilo que está
ausente’”. (Um mapa da desleitura, 2003. Pág. 185)
Em Filosofia Clínica existem procedimentos
- como a escuta fenomenológica e agendamentos singularizados - que favorecem a
manifestação de conteúdos da estrutura de pensamento do partilhante, até então considerados
inacessíveis, desconhecidos, desmerecidos. As possibilidades contidas em um
discurso existencial exilado de si mesmo, costumam se insinuar numa trama
narrativa própria, que reivindica uma tradução compartilhada para se
contar.
Um desses momentos em clínica é a
recuperação - em versão própria e sem interpretação pelo filósofo - da
historicidade pela pessoa, outro são as intervenções submodais nos estágios
avançados da terapia, onde o partilhante pode reconhecer e utilizar
procedimentos que tenham a ver consigo mesmo, até então, inacessíveis na
própria farmácia.
As contradições apreciam oferecer
uma matéria-prima irreconhecível em uma determinada expressão, os eventos da
hora-sessão favorecem uma tradução compartilhada. Nesse ambiente seguro da
clínica, o partilhante pode exercitar-se pelos recantos desconsiderados de sua
estrutura de pensamento.
Conceitos como verdade, mentira,
simulacros, jogo de cena, somente fazem sentido dentro de um processo
terapêutico, onde será possível compreender seu aparecimento como integrante
das dialéticas da terapia. Aqui trata-se de uma aproximação investigativa pela via
da interseção, longe da qual restarão equivocidades e incompletudes
interpretativas de quem se aventurar em territórios desconhecidos as
definições de manual.
Uma abordagem com base no
acolhimento e convívio com as lógicas do desatino, terá, necessariamente de
contar com um estudo compartilhado de uma estrutura de pensamento, sem o qual o
filósofo ficará refém de hermenêuticas impregnadas de retórica e definições propícias
a desvirtuar a fenomenologia da clínica.
Em outras palavras, a cada nova representação
de mundo, ao se tentar defini-la em moldes pré-fabricados, o que vai ficar à
vista é aquilo que seus intérpretes conseguem enxergar, distantes de uma lógica aprendiz compartilhada, onde seria possível uma descrição a partir de uma recíproca de inversão.
Aquele abraço,
hs
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