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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 82*








Lições de Autogenia

Em março de 2010 voltei a morar em Porto Alegre. Num evento na livraria Nova Roma, no centro histórico, denominado: “café filosófico”, promovido pelo IPA – Centro universitário Metodista, coordenado pelos filósofos Claiton Prinzo e Ioná Santos, reencontrei um livro que tentei ler por volta dos anos 1970, sem entender quase nada, em que pese ter folheado suas páginas até o fim.

Trata-se da obra: “O fio da navalha” do médico-escritor William Somerset Maugham (1874-1965), publicada originalmente em 1944. A edição atual foi traduzida no Brasil em 2003, por Lígia Junqueira Smith para a editora Globo/RJ.     

Esse texto compartilha, já no capítulo I da obra, algumas possibilidades para reflexão com a nova abordagem clínica, quando o escritor apresenta um prefácio mesclado a uma introdução ao seu roteiro. A ideia é tecer aproximações com a Filosofia Clínica.

O autor indica: “Nunca senti maior apreensão ao começar um romance. E se digo romance é por não saber de que outra maneira chamá-lo. Não tem grande enredo, não acaba com morte nem com casamento.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 5).

A abordagem do novo paradigma - na minha forma de entender as coisas - se trata de uma abordagem extemporânea, isto é, algo sobre muitos aspectos, ainda incompreensível aos dias atuais, seja por oferecer um acolhimento e cuidados inacessíveis a lógica atual, ou sendo contraditória com os agendamentos do saber estabelecido, cristalizado, em busca de sustentação com a invenção de diagnósticos e prognósticos que se multiplicam.     

Quem a encontra, e já são muitos os interessados em aulas, clínica, seminários, para conviver com sua mensagem terapêutica, parece ter uma conexão intuitiva/instintiva com seu acolhimento libertário, ao compreender a fenomenologia do humano lá onde ela aparece: no discurso existencial de cada um.   

Assim, já nas páginas iniciais, o autor integra uma descrição dos cenários, personagens, com sua participação nos enredos, seja como escritor, pensador, crítico, ou integrante de seus roteiros. Trata-se de uma obra difícil de diagnosticar, catalogar, pelos meios que se tem com uma determinada crítica acadêmica. Mais que uma proposta estratégica da autoria, para se manter livre de rótulos e engrenagens, pode ser entendida como um convite para se pensar fora da curva institucional, emancipando sua leitura para além dos princípios de verdade.

Ao se afastar de um modelo acessível ao primeiro olhar - seu roteiro não acabar em morte nem com casamento -, o escritor proporciona uma narrativa libertária para seu texto, por onde busca descrever pessoas, eventos, circunstâncias, singulares. Sua narrativa é incabível às hermenêuticas interpretativas da crítica literária, da psicanálise, das patologias da psiquiatria e coadjuvantes. Um texto dessa natureza, embora possa ser utilizado por algumas escolas em seus estudos e práticas, por conter a diversidade existencial, transgride a ótica bem ajustada dos consensos.   

O fio da navalha, dentre outras possibilidades, convida a superar os limites da obviedade interpretativa, quando, nas primeiras páginas, desestabiliza o chão de aspecto seguro para sua leitura, tentando preparar seu cúmplice de construção compartilhada para algo que possa aparecer e qualificar sua leitura. Depois disso, amplia horizontes descritivos numa contradição com as lógicas de um só entendimento para suas páginas.    

Com Maugham: “Este livro consiste das recordações que tenho de um homem com quem, em épocas muito espaçadas, tive íntimo contato, mas pouco sei do que lhe aconteceu nos intervalos. Creio que, recorrendo à imaginação, eu poderia preencher plausivelmente as lacunas e tornar mais coerente a minha narrativa; mas a tal não me sinto atraído. Quero unicamente relatar fatos de que tenho conhecimento.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 5)

Algo semelhante acontece nos eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, ou seja, tanto no que diz respeito às narrativas da história de vida do partilhante, ao revisitar o velho álbum e ressignificar alguns acontecimentos, atualizando acordos consigo mesmo e seu entorno existencial, mesmo com a literalidade dos fatos, o que se apresenta costuma estar vinculado a determinadas resultantes das construções compartilhadas.  

O próprio autor vai nos dar um exemplo desse fato, ao desdizer esse parágrafo mais adiante, mostrando que a contradição também perpassa a estrutura de pensamento de mentes brilhantes, tanto quanto aos demais, investidos em suas lidas diárias.   

Um convívio com outra pessoa oferece alguns padrões comportamentais, algumas ideias precisas e outras impregnadas de uma complexidade distante da luz do dia. Assim o texto refere uma trama onde o próprio autor se insinua em suas páginas, seja na percepção dos eventos ao redor da obra, ou como alguém inserido em seus roteiros e cenários.

É provável que o livro, mais que oferecer um texto impregnado de descrições com a digital do escritor, também efetive um convite à reflexão nossa de cada dia. A categoria lugar e o tempo da peça literária se desdobram para dar sabor e cor aos personagens envolvidos com a trama. O escritor nos coloca em recíproca de inversão e deslocamentos curtos em boa parte do tempo, por onde convida a visitar sua perspectiva das coisas.

No fio da navalha: “(...) é possível que o gênero de vida que esse homem escolheu para si próprio e a singular força e doçura do seu caráter tenham uma influência sempre crescente sobre seus semelhantes, de modo que, mesmo muito tempo depois de sua morte, talvez se compreenda que nesta época viveu uma criatura extraordinária.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 6)

As atividades de consultório possuem uma tez de imprevisibilidade, compreensível a nova abordagem da Filosofia Clínica, onde o fundamento da fenomenologia, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, se reapresentam a todo instante, como integrantes de um discurso existencial compartilhado.

Em Filosofia Clínica há um envolvimento - o fio da navalha - em reciprocidade, quando as palavras deixam de ser uma definição para traduzir pessoas. Existe uma transgressão narrativa pelas construções compartilhadas da hora-sessão.    

A escolha de determinados papéis existenciais afins com uma expressividade, costuma cobrar um preço inacessível a muita gente. Seja esse valor de cunho econômico, existencial ou no convívio com sua tribo existencial. Dependendo dos princípios de verdade onde se encontre uma pessoa em busca de si mesma, esse fato, por si só, pode significar uma contradição com seus amigos, família, trabalho. Assim, além de sonhar com uma vida que lhe represente por inteiro, ainda terá de fortalecer sua estrutura de pensamento, para dar conta da desestabilização dos outros com sua singularidade.

Não é raro, por exemplo, quando um casal se separa, esse fato impactar a rede de interseções ao seu redor, questionando sua forma de viver, seus valores, o trabalho onde se encontram inseridos por necessidade financeira, o desajuste das convicções familiares, e algo mais. Por outro lado, na mesma direção, quem está de bem com a vida, não vai se sentir impactado pelas atitudes dos outros em vias de divórcio, tendo em vista o território onde desenvolve seu cotidiano.

O parágrafo também convida para se pensar sobre a força e o impacto dos agendamentos de convívio, onde - ao menos num sistema que se quer capitalista - a competição, a comparação, a disputa, se encontram presentes em cada esquina, muitas vezes desqualificando o outro em seu jeito de existir.  

Em Maugham: “Há pouco declarei nada ter inventado; quero agora modificar essa asserção. Tomei a liberdade, que desde o tempo de Heródoto os historiadores têm tomado, de pôr nos lábios dos meus personagens palavras que eu, pessoalmente, não poderia ter ouvido. (...) para dar vida e verossimilhança a cenas que teriam sido incolores se apenas reveladas.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 6)

O fragmento auxilia a compreensão sobre o fenômeno da contradição, como um ensaio para estruturas de pensamento em ação. Bem assim, o desdobramento existencial singular, conhecido como autogenia, por onde o sujeito consegue transgredir-se para outro si mesmo.

As propostas para apresentar uma fenomenologia da hora-sessão, numa interpretação a priori dos acontecimentos, tem testemunhado uma desilusão significativa, ao oferecer um olhar distante das dinâmicas de consultório. Um lugar onde as lógicas da diferença, as figuras do estranho se apresentam em dialeto próprio, muitas vezes distantes da luz do dia. Por isso as estórias e lendas, em suas narrativas impregnadas de simbologia e outras formas de vice-conceito, conseguem esboçar aquilo que restaria inacessível pelo dado literal.      

Nesse sentido, o escritor se multiplica em papéis existenciais: autor, amigo, viajante, testemunha, para compartilhar lugares, desenvolver roteiros, que adquirem vida própria a partir de suas descrições. Sua atuação sugere experienciar o fio da navalha entre um e outro personagem, por onde se desloca ora como ator principal, coadjuvante ou com a narrativa de seus disfarces.  

Semelhante a percepção sobre os temperos da imaginação, são os eventos da terapia, os quais, muitas vezes, no discurso singular do partilhante aparecem impregnados de fantasia, imaginação, diante de fatos ora sendo superados. Instantes onde uma narrativa adquire sabor e cor, em conexão com a subjetividade em vias de transgressão pessoal em direção a outro si mesmo.

Somerset Maugham compartilha: “É difícil a gente compreender bem as criaturas e não creio que possamos conhecer ninguém a fundo (...). Pois os homens não são somente eles; são também a região onde nasceram, a fazenda ou o apartamento da cidade onde aprenderam a andar, os brinquedos que brincaram quando crianças, as lendas que ouviram dos mais velhos, a comida de que se alimentaram, as escolas que frequentaram, os esportes em que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que acreditaram.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 6 e 7)

Talvez o brilhantismo de uma obra tenha a ver com a trajetória existencial da autoria, onde encontra subsídios em interseção com sua estrada, os endereços existenciais, as relações, os múltiplos personagens, suas derivações e transgressões, bem assim uma aptidão em descrever o inusitado de cada evento.

Uma interseção com a Filosofia Clínica, se apresenta na percepção do autor sobre a dificuldade em conhecer alguém a fundo, ou seja, propõe enxergar e sentir além dos dados de superfície. Entender àquilo que se oferece nas entrelinhas de uma relação, por onde se pode alcançar uma tradução compartilhada para as razões e desrazões de cada pessoa, tendo como ângulo de visão um ir e vir com o outro lado do rio.

A proposta do novo paradigma terapêutico, carrega, desde seus primeiros escritos o sonho e a utopia de uma vida melhor, seja isso o que for, tendo como perspectiva uma recíproca de inversão e a necessária inversão intelectiva para um aprofundamento investigativo compartilhado.   

As categorias existenciais como: lugar, tempo, interseção, compõem um rol de possibilidades que atribuem a Filosofia Clínica, uma digital de acolhimento e convívio com o território do partilhante. Em outras palavras, ao superar a lógica diagnóstica e a clausura da bíblia DSM, o filósofo se aventura em mar aberto, tendo por companhia suas braçadas e a boia salva-vidas da nova abordagem.

Aquele abraço,

hs  

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