Lições de Autogenia
Em março de 2010 voltei a morar
em Porto Alegre. Num evento na livraria Nova Roma, no centro histórico,
denominado: “café filosófico”, promovido pelo IPA – Centro universitário
Metodista, coordenado pelos filósofos Claiton Prinzo e Ioná Santos, reencontrei
um livro que tentei ler por volta dos anos 1970, sem entender quase nada, em
que pese ter folheado suas páginas até o fim.
Trata-se da obra: “O fio da
navalha” do médico-escritor William Somerset Maugham (1874-1965), publicada
originalmente em 1944. A edição atual foi traduzida no Brasil em 2003, por
Lígia Junqueira Smith para a editora Globo/RJ.
Esse texto compartilha, já no capítulo
I da obra, algumas possibilidades para reflexão com a nova abordagem clínica,
quando o escritor apresenta um prefácio mesclado a uma introdução ao seu
roteiro. A ideia é tecer aproximações com a Filosofia Clínica.
O autor indica: “Nunca senti
maior apreensão ao começar um romance. E se digo romance é por não saber de que
outra maneira chamá-lo. Não tem grande enredo, não acaba com morte nem com
casamento.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 5).
A abordagem do novo paradigma - na
minha forma de entender as coisas - se trata de uma abordagem extemporânea,
isto é, algo sobre muitos aspectos, ainda incompreensível aos dias atuais, seja
por oferecer um acolhimento e cuidados inacessíveis a lógica atual, ou sendo
contraditória com os agendamentos do saber estabelecido, cristalizado, em busca
de sustentação com a invenção de diagnósticos e prognósticos que se multiplicam.
Quem a encontra, e já são muitos os
interessados em aulas, clínica, seminários, para conviver com sua mensagem
terapêutica, parece ter uma conexão intuitiva/instintiva com seu acolhimento
libertário, ao compreender a fenomenologia do humano lá onde ela aparece: no
discurso existencial de cada um.
Assim, já nas páginas iniciais, o
autor integra uma descrição dos cenários, personagens, com sua participação nos
enredos, seja como escritor, pensador, crítico, ou integrante de seus roteiros.
Trata-se de uma obra difícil de diagnosticar, catalogar, pelos meios que se tem
com uma determinada crítica acadêmica. Mais que uma proposta estratégica da
autoria, para se manter livre de rótulos e engrenagens, pode ser entendida como
um convite para se pensar fora da curva institucional, emancipando sua leitura
para além dos princípios de verdade.
Ao se afastar de um modelo
acessível ao primeiro olhar - seu roteiro não acabar em morte nem com
casamento -, o escritor proporciona uma narrativa libertária para seu
texto, por onde busca descrever pessoas, eventos, circunstâncias, singulares. Sua
narrativa é incabível às hermenêuticas interpretativas da crítica literária, da
psicanálise, das patologias da psiquiatria e coadjuvantes. Um texto dessa
natureza, embora possa ser utilizado por algumas escolas em seus estudos e
práticas, por conter a diversidade existencial, transgride a ótica bem ajustada
dos consensos.
O fio da navalha, dentre
outras possibilidades, convida a superar os limites da obviedade interpretativa,
quando, nas primeiras páginas, desestabiliza o chão de aspecto seguro para sua
leitura, tentando preparar seu cúmplice de construção compartilhada para algo
que possa aparecer e qualificar sua leitura. Depois disso, amplia horizontes
descritivos numa contradição com as lógicas de um só entendimento para suas
páginas.
Com Maugham: “Este livro consiste
das recordações que tenho de um homem com quem, em épocas muito espaçadas, tive
íntimo contato, mas pouco sei do que lhe aconteceu nos intervalos. Creio que,
recorrendo à imaginação, eu poderia preencher plausivelmente as lacunas e tornar
mais coerente a minha narrativa; mas a tal não me sinto atraído. Quero
unicamente relatar fatos de que tenho conhecimento.” (O fio da navalha, 2003.
Pág. 5)
Algo semelhante acontece nos
eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, ou seja, tanto no que diz respeito
às narrativas da história de vida do partilhante, ao revisitar o velho álbum e
ressignificar alguns acontecimentos, atualizando acordos consigo mesmo e seu
entorno existencial, mesmo com a literalidade dos fatos, o que se apresenta
costuma estar vinculado a determinadas resultantes das construções
compartilhadas.
O próprio autor vai nos dar um
exemplo desse fato, ao desdizer esse parágrafo mais adiante, mostrando que a
contradição também perpassa a estrutura de pensamento de mentes brilhantes,
tanto quanto aos demais, investidos em suas lidas diárias.
Um convívio com outra pessoa
oferece alguns padrões comportamentais, algumas ideias precisas e outras
impregnadas de uma complexidade distante da luz do dia. Assim o texto refere
uma trama onde o próprio autor se insinua em suas páginas, seja na percepção
dos eventos ao redor da obra, ou como alguém inserido em seus roteiros e cenários.
É provável que o livro, mais que
oferecer um texto impregnado de descrições com a digital do escritor, também
efetive um convite à reflexão nossa de cada dia. A categoria lugar e o tempo da
peça literária se desdobram para dar sabor e cor aos personagens envolvidos
com a trama. O escritor nos coloca em recíproca de inversão e deslocamentos
curtos em boa parte do tempo, por onde convida a visitar sua perspectiva das
coisas.
No fio da navalha: “(...)
é possível que o gênero de vida que esse homem escolheu para si próprio e a
singular força e doçura do seu caráter tenham uma influência sempre crescente
sobre seus semelhantes, de modo que, mesmo muito tempo depois de sua morte,
talvez se compreenda que nesta época viveu uma criatura extraordinária.” (O fio
da navalha, 2003. Pág. 6)
As atividades de consultório
possuem uma tez de imprevisibilidade, compreensível a nova abordagem da
Filosofia Clínica, onde o fundamento da fenomenologia, analítica da linguagem,
hermenêutica compreensiva, se reapresentam a todo instante, como integrantes de
um discurso existencial compartilhado.
Em Filosofia Clínica há um
envolvimento - o fio da navalha - em reciprocidade, quando as palavras deixam
de ser uma definição para traduzir pessoas. Existe uma transgressão narrativa pelas construções compartilhadas da hora-sessão.
A escolha de determinados papéis
existenciais afins com uma expressividade, costuma cobrar um preço inacessível
a muita gente. Seja esse valor de cunho econômico, existencial ou no convívio
com sua tribo existencial. Dependendo dos princípios de verdade onde se
encontre uma pessoa em busca de si mesma, esse fato, por si só, pode significar
uma contradição com seus amigos, família, trabalho. Assim, além de sonhar com
uma vida que lhe represente por inteiro, ainda terá de fortalecer sua estrutura
de pensamento, para dar conta da desestabilização dos outros com sua singularidade.
Não é raro, por exemplo, quando
um casal se separa, esse fato impactar a rede de interseções ao seu redor,
questionando sua forma de viver, seus valores, o trabalho onde se encontram
inseridos por necessidade financeira, o desajuste das convicções familiares, e
algo mais. Por outro lado, na mesma direção, quem está de bem com a vida, não
vai se sentir impactado pelas atitudes dos outros em vias de divórcio, tendo em
vista o território onde desenvolve seu cotidiano.
O parágrafo também convida para
se pensar sobre a força e o impacto dos agendamentos de convívio, onde - ao
menos num sistema que se quer capitalista - a competição, a comparação, a
disputa, se encontram presentes em cada esquina, muitas vezes desqualificando o
outro em seu jeito de existir.
Em Maugham: “Há pouco declarei
nada ter inventado; quero agora modificar essa asserção. Tomei a liberdade, que
desde o tempo de Heródoto os historiadores têm tomado, de pôr nos lábios dos
meus personagens palavras que eu, pessoalmente, não poderia ter ouvido. (...)
para dar vida e verossimilhança a cenas que teriam sido incolores se apenas
reveladas.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 6)
O fragmento auxilia a compreensão
sobre o fenômeno da contradição, como um ensaio para
estruturas de pensamento em ação. Bem assim, o desdobramento existencial
singular, conhecido como autogenia, por onde o sujeito consegue transgredir-se para
outro si mesmo.
As propostas para apresentar uma fenomenologia
da hora-sessão, numa interpretação a priori dos acontecimentos, tem
testemunhado uma desilusão significativa, ao oferecer um olhar distante das
dinâmicas de consultório. Um lugar onde as lógicas da diferença, as figuras do
estranho se apresentam em dialeto próprio, muitas vezes distantes da luz do
dia. Por isso as estórias e lendas, em suas narrativas impregnadas de simbologia
e outras formas de vice-conceito, conseguem esboçar aquilo que restaria inacessível
pelo dado literal.
Nesse sentido, o escritor se
multiplica em papéis existenciais: autor, amigo, viajante, testemunha, para
compartilhar lugares, desenvolver roteiros, que adquirem vida própria a partir
de suas descrições. Sua atuação sugere experienciar o fio da navalha
entre um e outro personagem, por onde se desloca ora como ator principal, coadjuvante
ou com a narrativa de seus disfarces.
Semelhante a percepção sobre os temperos
da imaginação, são os eventos da terapia, os quais, muitas vezes, no discurso singular
do partilhante aparecem impregnados de fantasia, imaginação, diante de
fatos ora sendo superados. Instantes onde uma narrativa adquire sabor e cor, em
conexão com a subjetividade em vias de transgressão pessoal em direção a outro
si mesmo.
Somerset Maugham compartilha: “É
difícil a gente compreender bem as criaturas e não creio que possamos conhecer
ninguém a fundo (...). Pois os homens não são somente eles; são também a região
onde nasceram, a fazenda ou o apartamento da cidade onde aprenderam a andar, os
brinquedos que brincaram quando crianças, as lendas que ouviram dos mais
velhos, a comida de que se alimentaram, as escolas que frequentaram, os
esportes em que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que
acreditaram.” (O fio da navalha, 2003. Pág. 6 e 7)
Talvez o brilhantismo de uma obra
tenha a ver com a trajetória existencial da autoria, onde encontra subsídios em
interseção com sua estrada, os endereços existenciais, as relações, os múltiplos
personagens, suas derivações e transgressões, bem assim uma aptidão em
descrever o inusitado de cada evento.
Uma interseção com a Filosofia
Clínica, se apresenta na percepção do autor sobre a dificuldade em conhecer
alguém a fundo, ou seja, propõe enxergar e sentir além dos dados de superfície.
Entender àquilo que se oferece nas entrelinhas de uma relação, por onde se pode
alcançar uma tradução compartilhada para as razões e desrazões de cada pessoa,
tendo como ângulo de visão um ir e vir com o outro lado do rio.
A proposta do novo paradigma
terapêutico, carrega, desde seus primeiros escritos o sonho e a utopia de uma vida
melhor, seja isso o que for, tendo como perspectiva uma recíproca de inversão e
a necessária inversão intelectiva para um aprofundamento
investigativo compartilhado.
As categorias existenciais como: lugar, tempo, interseção, compõem um rol de possibilidades que atribuem a
Filosofia Clínica, uma digital de acolhimento e convívio com o território do
partilhante. Em outras palavras, ao superar a lógica diagnóstica e a clausura
da bíblia DSM, o filósofo se aventura em mar aberto, tendo por companhia suas
braçadas e a boia salva-vidas da nova abordagem.
Aquele abraço,
hs
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