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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 72*

 

Notas do consultório do filósofo XI 

Tenho em mãos um livro que encontrei, ou fui encontrado por ele (nessas coisas, como em todas as outras - como ensina Borges - não se deve ser dogmático!), na cidade de Santa Maria/RS em 1980. Atualizei a leitura dessas páginas por volta de 15/20 vezes até hoje. Essa atividade permite identificar algo novo em cada releitura, uma faceta, um desvão, possivelmente afim com a vida acontecendo entre uma e outra.

Sua referência é significativa pela aproximação e diálogo com as lidas de consultório, uma busca por tradução de algo que restaria intraduzível por completo, não fora a proposta de transcrever alguns aspectos da atividade clínica filosófica. O texto contribui, esclarece, ajuda a entender a nova abordagem clínica e sua menção às poéticas da singularidade.    

Cartas a um jovem poeta e a canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke, de Rainer Maria Rilke, com tradução de Paulo Rónai e Cecília Meireles, respectivamente, é uma edição de 1976, publicada pela Editora Globo de Porto Alegre/RS.

A apresentação da obra por Cecília Meireles, com aquele algo mais dos textos diferenciados, convida o leitor aos conteúdos que se vai encontrar a seguir. Como: “(...) a parte formal da arte acaba sempre por se realizar, quando atrás dela há uma imposição total de vida transbordante.” Essa característica apontada pela escritora está afinada com a abordagem da Filosofia Clínica, no sentido de que por entre os dados de uma expressividade clínica, costumam aparecer múltiplos componentes da vida de uma pessoa. A intencionalidade aprecia esses momentos para descrever uma fenomenologia do partilhante, naquilo que restaria inacessível à percepção comum.  

Rainer Maria Rilke diz assim: “As coisas estão longe de ser todas tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. (...).” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Pág. 21)

O fragmento lembra alguns trabalhos realizados em hospitais psiquiátricos em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, quando se utilizava a esteticidade seletiva como expressão para algumas pessoas destituídas de voz e vez, seja pelo abandono e descaso de sua gente ou pelas intervenções da Psiquiatria, encharcando seus pacientes de psicofármacos, na impossibilidade de uma abordagem acolhedora, compreensiva, apta a compreender e interagir com a singularidade em cada um.

Essas atividades em sintonia com uma ciência diferenciada, traduz o cotidiano do filósofo clínico, o qual encontra em sua metodologia, os meios para acolher e desenvolver as partilhas com o outro da interseção.  

Um pouco antes de ser algo palpável, a expressividade de uma pessoa internada involuntariamente, refém dos tratamentos institucionais (dentro da lei), distante de abordagens que poderiam auxiliar sua expressividade em vias de não-ser, contraditória com a cultura reconhecida do lugar onde se encontra, se oferece ao visar do filósofo clínico como espanto, estranheza. Esses eventos costumam ter uma manifestação diferente do usual, subversiva, contradizendo princípios de verdade estruturantes das metodologias que a tentam conter e tratar, para reconduzir a pessoa à vida normal (seja isso lá o que for!).  

Com o poeta: “(...) há de se reconhecer, aos poucos, que aquilo a que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles. (...) O futuro está firme, caro Sr. Kappus, nós é que nos movimentamos no espaço infinito.” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Págs. 64 e 65).

Uma percepção sobre a natureza e o alcance de uma terapia, se relaciona com a abordagem, a qualidade da interseção e o desenvolvimento do partilhante, tendo como referência o lugar de onde partiu (no início de sua clínica), seus deslocamentos em busca (muitas vezes provisória), para reencontrar-se numa outra forma de existir, viver, conviver.

Essa elaboração resultante da relação do filósofo com seu partilhante, propõe alcançar, traduzir, compartilhar conteúdos, até então, desconhecidos ao próprio sujeito. Esses dados da realidade subjetiva costumam encontrar termos para se manifestar, nem sempre compreensíveis à primeira vista pelo titular de suas verdades.

A ideia do poeta de que um destino se origina na própria pessoa, tem a ver com a possibilidade do partilhante desconstruir e reconstruir sua circunstância singular. Um lugar para ensaiar novas referências para si mesmo sendo outro.     

Um aspecto que diferencia a Filosofia Clínica das demais abordagens terapêuticas, é seu caráter libertário, ou seja, quando diz respeito a um processo singular de transformação e busca para algo que integre e represente sua expressividade.

A categoria tempo, o lugar, a interseção, associados a um devir peculiar, compõem um eixo apto a manter ou modificar uma forma de vida. Muitas vezes, quando a pessoa consegue descrever-se, acessar meios para um processo singular, isso, por si só, pode oferecer matéria-prima para ressignificar suas crises em um novo lugar para viver.

Rainer Maria Rilke contribui: “Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se? Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho (...).” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Pág. 68).

A essência da Filosofia Clínica já estava lá, nas edições iniciais dos cadernos didáticos da formação, apesar de alguns freios metodológicos do autor, foi possível emancipar a mensagem original do novo paradigma, sob muitos aspectos divergente com a intenção de se manter a submissão à lógica alienista, como o caso de vedar atendimentos do filósofo as pessoas com discurso incompleto, raciocínio desestruturado. Dizia-se, naqueles tempos, que se deveria encaminhar ao especialista. 

Após essa desinformação preliminar, e com as atividades em hospitais psiquiátricos (apesar das limitações estruturais), o dia a dia em consultório, aulas, consultorias, foi demonstrado que a nova metodologia era apta a acolher e cuidar da fenomenologia do humano em qualquer de suas formas de expressão. Não se trata da medicina do corpo, mas de uma medicina da singularidade, onde é possível um diálogo inter e transdisciplinar, para qualificar as práticas de cuidado e atenção à vida.  Um desses lugares onde a imaterialidade se encontra com seus paradoxos.

As lógicas de controle aos eventos de ressignificação existencial propõem conter sua expressão, muitas vezes algo que luta para nascer, superando os limites impostos pela alienação familiar, escolar, religiosa, política, sustentam uma ideologia voltada para uma normalidade distante de alguém em vias de tornar-se.

O poeta compartilha: “(...) não pense que aquele que o procura consolar leva uma vida descansada no meio das palavras simples e discretas que às vezes fazem bem ao senhor. A vida dele comporta muito sacrifício e muita tristeza e fica-lhes muito atrás. Mas se assim não fosse, ele nunca poderia ter encontrado aquelas palavras.” (Cartas a um jovem poeta, 1976. Pág. 70)

Com essas palavras o autor torna possível compreender o sentido da expressão borogodó em Filosofia Clínica, talvez até, em outras profissões cuidadoras, quando se associam - na estrutura de pensamento - um constructo de sensibilidade, competências, habilidades para cuidar e ser cuidado. O papel existencial conjugado a uma expressividade de maestria, acontece como um desdobramento de múltiplas interseções clínicas, desenvolvidas na superação de obstáculos, freios existenciais, camisa de força institucional, por onde é possível acessar ideias, sensações, formas de viver e conviver diferenciadas, muitas vezes distantes das normas e leis estabelecidas, para encontrar o sujeito singular.

Não é preciso regrar essas estruturas de pensamentos singulares, com raras aptidões ao ser cuidador em qualquer abordagem, mas acolher e trabalhar as especificidades que a integram, como uma obra-prima da natureza humana a transgredir as lógicas da submissão ideológica. Ao sujeito assim pensado, além das buscas por superar suas contradições subjetivas, ainda terá de conviver com a dessintonia de seu meio, o qual, muitas vezes, não o compreende por viver assim.   

Um dado que se apresenta na vida de um cuidador - como uma fonte de inspiração - em suas atividades terapêuticas, é a inquietude e a insubmissão com as intervenções para produzir e sustentar estruturas que degradam o sujeito, como: a internação involuntária, a indústria de psicofármacos, a medicalização psiquiátrica, a equivocidade de se destituir a pessoa em vias de não-ser de sua manifestação singular. Nesse sentido, ser transgressor, em qualquer de suas formas, pode significar uma medicina para superar os muros e cercas da alienação institucional, perseguindo um lugar melhor para se viver.

Aquele abraço,

hs  

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