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terça-feira, 19 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 73*

"La razón poética – Rosalía de Castro e María Zambrano

 Apresentação da obra da Prof. Dra. Arantxa Serantes

Uma apresentação ou prefácio em qualquer livro, por si só, cumpre vários papéis, dentre eles o destaque do seu conteúdo e a maestria da autora. É o caso da obra: La razón poética – Rosalía de Castro e María Zambrano, de autoria da filósofa e escritora Arantxa Serantes (Galícia), publicada pela editora Literatura Abierta em 2022 na Espanha.

Entre surpreso e agradecido pelo convite, busquei saber mais sobre essas três mulheres extraordinárias: Rosalía, María e Arantxa, para tecer alguns apontamentos, tendo como referência seus originais (resultante de sua tese de doutoramento em Filosofia), um pouco antes de seguirem ao prelo. O texto a seguir trata dessa apresentação bilíngue da obra, ainda sem tradução ao português brasileiro (2026).  

Apresentação:

"O texto de Arantxa Serantes convida a um encontro da poesia com a filosofia. Ao localizar sua fonte de matéria-prima na interseção da poética de Rosalía de Castro com a reflexão de María Zambrano, compartilha um diálogo em sintonia com essas mentes brilhantes. A menção dos desdobramentos existenciais desses manuscritos, destaca a singularidade expressiva dessas mulheres escritoras.

Sua abordagem realiza um agradável passeio pelos bosques da imaginação criativa, onde se encontra a produção literária e filosófica de Rosalía de Castro e María Zambrano. Essa relação acontece na perspectiva de uma ‘razão poética’, por onde é possível identificar seus traços comuns. A autora compartilha uma atividade prática-reflexiva, tendo como fonte de inspiração sua pesquisa histórica, a qual reapresenta um diálogo entre poesia e filosofia. Seus manuscritos destacam o alcance da estética literária, a qual atinge cada leitor de acordo com seu horizonte de possibilidades.

A tese da ‘razão poética’ descrita por Arantxa Serantes, se oferece em uma chave de leitura: “La poesia piensa como no puede hacerlo la filosofia, la poesia conoce como no puede conocer la filosofia. La filosofia piensa metodicamente, la poesia empaticamente; la filosofia onoce lo universal, la poesia particular. Ambas son distintas, pero por distintas, complementares. Ambas aman y buscan la verdade por caminhos distintos que, al final, siempre se unen y encuentram, porque la verdade, em su origem, es una. (...)”.

Nessa perspectiva a autora desenvolve o conceito de ‘razão poética’ de María Zambrano, ao oferecê-la coo um método apto ao acolhimento da singularidade em sua circunstância histórica. Nesse caminho descritivo, analítico, reflexivo, indica o fato desse período no final do século XIX ao começo do século XX, onde se coloca em dúvida a poética na relação com a metodologia científica, resultando em práticas sociais desumanizadoras. Esse pressuposto se insere nos dias de hoje, com a avalanche tecnológica ocupando espaços do fenômeno humano, nem sempre de acordo com sua melhor condição existencial.

O método compartilhado nessas páginas, oferece uma percepção sobre a ótica de ‘um duplo nascimento’, ou seja, um estabelecido pela natureza e outro com base no devir existencial. A ideia de uma estética filosófica, a partir da expressão de Rosalía de Castro e María Zambrano, se oferece em um enredo de múltiplas faces, ora compilado pela maestria de Arantxa Serantes em sua tese de doutoramento. Ao compartilhar esse encontro de singularidades, se resgata uma produção a repercutir sua poética em nossos dias.

Nesse sentido se destaca o olhar da pesquisadora atenta, para além da classificação que separa uma obra e outra, em uma reescrita alinhada com a identificação da unidade na diversidade. Seus apontamentos descrevem ingredientes singulares para tratar de temas universais.  A tese elabora uma escritura, tendo como propedêutica o encontro da poesia com a filosofia. Ao ressignificar a inquietude existencial como uma via de acesso a farmácia subjetiva, se revela uma busca pelo autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, em uma integridade discursiva de onde Rosalía de Castro, María Zambrano e Arantxa Serantes, brotam de uma mesma fonte de inspiração.

A autora contribui: “(...) El parentesco entre las almas de Rosalía e Zambrano parece muy estrecho, pues ambas compartieron experiencias vitales y preocupaciones similares, expressadas em obra de naturaliza linguística y conceptual distintas, más hermanadas em su sensibilidade, expresividad y temas vitales por ellas tratados. (...)”.

Com a ‘razão poética’ é possível acolher e superar as vivências adversas, encontrando na expressividade literária e filosófica, uma abordagem para elaborar as dores da alma. Trata-se de emancipar o território subjetivo em busca de uma desconstrução dos exílios e percalços existenciais. A possibilidade de um renascimento pessoal diz respeito a superação das dificuldades e limites oferecidos pelo cotidiano. O tema recebe um tratamento diferenciado nessas páginas, onde se destaca o olhar atento e a escrita sensível da filósofa ao traduzir seu encontro com Rosalía de Castro e María Zambrano, como uma interseção de originalidades.

O texto ora ressignificado em livro, compartilha um saber com sabor de poéticas da singularidade. Seu teor se inscreve como uma nova disciplina no horizonte da estética filosófica. Seu discurso existencial realiza um convite a uma hermenêutica compreensiva, por onde qualifica o diálogo intersubjetivo, essencial ao processo de abertura e acolhimento do fenômeno humano. Suas páginas, ao indicar uma íntima relação da poesia com o pensamento, elabora um convite para expandir as fronteiras da subjetividade. Em ‘um método-caminho’, reapresenta um humanismo que transpõe os muros da academia para encontrar o mundo da vida.

Ao tecer suas percepções e reflexões sobre essas extraordinárias mulheres, se descreve um universo que se expande pela interseção da realidade com a ficção. Mais que uma distinção entre filosofia e poesia, se refere as semelhanças dos manuscritos de diferentes épocas, bem assim o território de onde surgiram. Os rastros contidos nas páginas de Rosalía de Castro e María Zambrano, proporcionam a identificação de um discurso transcendental.

O fato de se encontrar essas mulheres escritoras nesse período histórico, desafia o status quo, gerando um espanto e desconcerto de se ter um lugar de destaque para a alma feminina, em uma área de hegemonia masculina. A   representação filosófica deste trabalho se traduz em uma poética reflexiva ao exibir suas fontes de inspiração teórica, por onde a autora conduz um agradável passeio pela filosofia contemporânea.

Arantxa Serantes compartilha uma narrativa protagonista em íntima relação com a poética e a filosofia. Sua obra provoca a sensação de que, ao mergulharmos na poesia de Rosalía de Castro e na filosofia de María Zambrano, estamos em sintonia com uma fonte de inspiração da alma Galega. A singularidade plural dessas páginas, ao descrever uma via de acesso a poção de infinito em cada um, elabora uma matéria-prima ao uso poético da racionalidade."

Desejo boas leituras e releituras!"

Aquele abraço,

hs

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