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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Filosofia Clínica agridoce 70*

Notas do consultório do filósofo IX 

Dialética para principiantes é de autoria do filósofo Carlos Roberto Cirne-Lima (1931-2020) - um dos maiores pensadores brasileiros -, publicada na coleção Idéias em 1996 pela editora Unisinos/São Leopoldo/RS. Em 2005, na feira do livro de Porto Alegre/RS, assim que a vi, tive a impressão de que essa obra aguardava - no balaio dos livros desprezados - uma sintonia para ser encontrada. 

O texto é significativo aos estudos da Filosofia Clínica. Ao fundamentar o tema da autogenia, especificamente os movimentos existenciais a partir das interseções da malha intelectiva, suas contradições, adições, subtrações, multiplicações, descrevem uma matéria-prima nem sempre acessível ao primeiro olhar.

Muitas vezes, mergulhados em um cotidiano de trabalho, família, relações, não é raro passar despercebido as inquietudes que integram os momentos de ressignificação existencial, bem assim, as investidas para sustentação de uma forma de vida. Com a nova mensagem terapêutica os estudos sobre a autogenia - em qualquer de suas formas de apresentação - constituem um capítulo fundamental na formação clínica do filósofo.

O pensador indica: “Filosofia é um grande jogo de quebra-cabeça. (...) Fazer Filosofia significa jogar o jogo até o fim, isto é, montar as peças, de sorte que se possa ver a imagem global. (...) Na Filosofia não temos todas as peças. O universo ainda está em curso, a História não terminou. Muitas coisas, que nem sabemos quais são, estão por vir.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 15)

Um estudo com base na singularidade, reivindica uma aproximação com a fenomenologia do partilhante, ou seja, acolher sem classificar ou tipologizar para encontrar o outro sujeito da relação em território próprio.

Ao lembrar o jogo de quebra-cabeça, onde montar as peças de sorte que se possa ver a imagem global, lembra um caminho para acessar a estrutura de pensamento de cada pessoa, a qual se esboça numa grafia própria, incabível as lógicas de controle e direcionamento de sua expressão. Um ponto de partida se anuncia num convívio continuado, onde o filósofo e o partilhante se encontram numa clínica singular, diferenciada, ora como ser, ora como não-ser, a redigir uma estética compartilhada.   

O filósofo nos indica que na Filosofia não temos todas as peças, alerta para o fato de encontrarmos mais espaços vazios do que recheios. Se pensarmos na fenomenologia do humano, essa questão se atualiza num sujeito onde ser e não-ser são. Assim, o filósofo clínico, nos eventos da hora-sessão, preliminarmente, sabe que não sabe. Com isso se coloca à disposição para aprender com a pessoa, tratando de aproximar, não interpretar ou controlar, mas descrever os territórios inesperados que vão aparecendo, um pouco antes de saber mais e melhor sobre a versão partilhante.      

Em Cirne-Lima: “Ser e Não-Ser, que à primeira vista se opõem e se excluem, na realidade constituem uma unidade sintética, que é o Ser em Movimento, o Devir. No Devir existe um elemento que é o Ser, mas existe por igual um outro elemento igualmente essencial que é o Não-ser. Ser e Não-Ser, bem misturados, não mais se repelem e se excluem, mas entram em amálgama e se fundem para constituir uma nova realidade.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 22)

Talvez a principal dificuldade em se entender a movimentação existencial (subjetiva ou objetiva) conhecida como autogenia, em Filosofia Clínica, tenha a ver com os componentes de aspecto estático da tradição, a qual propõe uma via prioritariamente linear. Ao desconhecer os altos e baixos da estrada, suas curvas e deslizes, os avanços e recuos, as pontes que precisam ser construídas, o convívio com o inesperado, as manutenções e as transgressões, o papel existencial do filósofo aprendiz pode ser desafiado a superar seus freios existenciais.  

Uma vida que desconheça suas contradições e impermanências, pode conter, em si mesma, a peça faltante ao quebra-cabeças da estrutura de pensamento. A clínica assim descrita, se insere num diálogo com seus paradoxos, quando os deslocamentos estruturais anunciam novas conformações existenciais.

Não se trata de emancipar uma condição em detrimento da outra, mas de buscar uma integração das propostas de aspecto excludente, isto é, a partir de uma construção compartilhada, encontrar uma conexão onde uma e outra expressão tópica encontrem um novo sentido na estrutura de pensamento. Semelhante àquilo que o pensador chama de amálgama para constituir uma nova realidade, ou seja, o que se apresenta é um ponto de vista diferenciado, onde uma e outra se reapresentam em autogenia.  

Cirne-Lima auxilia: “São os sofistas que primeiro transplantaram o jogo dos opostos de Heráclito do plano da Filosofia da Natureza para o plano das relações sociais.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 34)

A apropriação de determinados ensinamentos filosóficos para aplicação cotidiana não é nova. O que se destaca em Filosofia Clínica, é o fato de se realizar uma interseção da fundamentação teórica com a atividade prática de consultório, isto é, não se trata de ensinar História da Filosofia ou filosofar, mas uma abordagem terapêutica apta a compor os ensinamentos da tradição filosófica com a clínica, acolhendo a dialética das contradições para novas propostas de cuidado e atenção à vida.

O novo paradigma da Filosofia Clínica, denota suas origens na Filosofia e na Medicina. O pensador precursor do novo método - Lúcio Packter -, em razão de suas origens pessoais e profissionais, elaborou uma interseção entre as duas abordagens, inaugurando uma terapia diferenciada.   

A busca por superação de paradoxos existenciais, se contrapõe à prisão onde muita gente permanece refém, sustentando os diagnósticos e prognósticos do Psiquiatra, os traumas fabricados por intervenções e agendamentos indevidos... Assim é importante lembrar a natureza e o significado de certas correspondências contraditórias, as quais, algumas vezes, abastecem um devir de transformação.  

Ao se propor uma desconstrução desses pressupostos, se inicia uma busca por acolher o fenômeno do ser singular, o qual se estrutura de um jeito próprio, distante das verdades festejadas pelos holofotes, com narrativas impregnadas de retórica, como: você sabe com quem está falando? Essa é uma prática científica! Para vender a ideia de que as coisas são de uma só maneira e não podem ser de outra. Destituindo a pessoa de meios para superar as metodologias da cristalização existencial.

Com o pensador: “(...) embora sejam pólos mutuamente excludentes, tese e antítese, se conciliam como Ser num nível mais alto e mais nobre. (...) Ser é a síntese dos dois pares de opostos que regem a construção do universo. (...) Dentro do Ser polarizam-se repouso e movimento, mesmice e alteridade.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 86)

Tendo em vista um movimento desconstrutivo do assunto último (aquilo que estrutura a dor existencial, muitas vezes traduzida como doença!), onde tópicos de aspecto excludentes interferem na expressividade do partilhante, é possível encontrar um novo lugar de convívio para propostas contraditórias, as quais, com as intervenções da terapia filosófica, podem ressignificar a natureza e o alcance de uma estrutura de pensamento.  

Um processo assim deve vislumbrar uma aproximação com o funcionamento e possibilidades de mudança ao partilhante, ainda quando escolha se manter em determinado constructo estrutural. Muitas vezes, para sustentar ou modificar uma determinada autogenia, poderá testar escolhas, experienciar hipóteses, investigar as origens, a propriedade de suas convicções.

O filósofo, ao referir “dentro do Ser polarizam-se repouso e movimento, mesmice e alteridade”, nos oferece um ensinamento sobre a representação de mundo - entre ficar ou partir -, numa estrutura de pensamento, a alteridade pode significar remédio ou veneno, tendo por base uma realidade singular.   

Nesse sentido se pode pensar sobre o alcance dos relacionamentos em sociedade, onde a pluralidade existencial tenta conviver com a lógica das diferenças, muitas vezes num mesmo endereço existencial (em casa, no trabalho, na pracinha, transporte coletivo...). Aprender a semiose dessas interseções constitui um fundamento da nova abordagem, por onde se busca compreender a estrutura de pensamento, para verificar as possibilidades de convívio das pessoas consigo mesmas e com suas circunstâncias existenciais.       

Cirne-Lima ensina: “Quando as pessoas falam e, apesar da boa vontade, não conseguem se entender, é que estão falando línguas diferentes.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 102)

O fragmento aponta para a necessidade de um aprendizado sobre a forma como uma e outra pessoa se expressam, em busca de uma ponte para entendimento dos termos agendados no intelecto, estruturação ou desestruturação de raciocínio, completude ou incompletude discursiva, os quais indicam rotas a geografia subjetiva do outro. 

Ainda assim, existem muitos componentes dessa proposta por interseção, como uma abertura ao conviver, como base para um entendimento compartilhado. Noutras palavras, trata-se de ajustar a linguagem a uma sintonia compreensiva.  

Cada pessoa, ainda quando utilize o vocabulário comum, se diz em linguagem própria, pois existe um sentido singular, nem sempre ao alcance do outro em vias de querer entender a partir de suas próprias referências. O movimento intelectivo conhecido como recíproca de inversão, costuma favorecer a compreensão dos eventos da hora-sessão, onde o filósofo busca encontrar o partilhante em seu território.

O lugar privilegiado onde se refugia a matéria-prima da pessoa, com a qual o filósofo clínico irá trabalhar, acontece num endereço existencial - inicialmente - desconhecido, com uma expressividade incomum, onde o terapeuta - semelhante ao antropólogo - vai conviver com as lógicas da diferença, decifrar as incógnitas do seu devir.   

Aquele abraço,

hs      

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