Notas do consultório do filósofo VII
A obra: Médicos do espírito –
o romance da Psiquiatria, de autoria da escritora Marie Beynon Ray teve sua
primeira edição em junho de 1945. O título original é: Doctors of the mind,
traduzido para o português como: Médicos do espírito. A edição
brasileira é tradução de Juvenal Jacinto para a editora Globo, no ano de 1965.
Esse livro se deixou encontrar em
2003, numa prateleira distante do primeiro olhar, num endereço de livros raros
e esgotados em Porto Alegre. Um desses lugares onde se refugiam os inéditos à
espera de uma interseção. O texto trata de questões referentes à prática
clínica, inicialmente cuidando do tema da Psiquiatria e seu nascimento como
ciência da mente. Nos dias de hoje, essa disciplina e coadjuvantes, sob muitos
aspectos, traduz sua atividade como consequência das crenças e percepções da biologia,
da química, contribuindo com os lucros faraônicos da indústria de psicofármacos,
passando longe das causas estruturais dos desajustes e contradições somáticas.
Talvez não seja acaso o
surgimento de novas abordagens terapêuticas, reencontrando o fio da meada que
se tinha perdido pela pesquisa refém de seus patrocinadores, dos consumidores
desinformados, a ideologia dos princípios de verdade. É possível vislumbrar um muro
metodológico, no que se refere à atividade das terapias de base Psi, onde prospera
a camisa de força da lógica alienista. Noutras palavras, quando não se sabe o
que fazer, encaminha-se o paciente ao Psiquiatra, o qual também não
saberá o que fazer. No entanto, legalmente, poderá medicar, internar, conter a
expressividade nascente da pessoa para adequá-la aos padrões de normalidade de
sua época.
O período histórico (a
circunstância) onde a obra se escreve, tem a ver com os primeiros pensadores da
nova área de estudos e intervenção clínica, como: Freud, Jung, Mesmer, Adler...
Os quais cuidavam das questões existenciais de forma livre, destituída de
vínculos com as ideologias do consumo e submissão do fenômeno humano. Essas
mentes brilhantes, ainda hoje mantém seu séquito de seguidores, repetindo sua
mensagem, em publicações, biografias, quadros, estátuas, igrejas, demonstrando
uma submissão teológica aos seus escritos e ideias, que faziam sentido em
determinada época histórica, de acordo com a pesquisa, os estudos, as
possibilidades de seu tempo.
Marie Ray lembra Mesmer: “(...)
devia acontecer, raciocinou, que certos pacientes resistiam a esta influência.
O doente deve desejar sinceramente ficar bom, deve ter confiança no seu médico,
e cooperar com ele; caso contrário, não alcançará nenhum benefício com seus
tratamentos. A este laço de simpatia, a esta compreensão mútua entre paciente e
médico, ele deu o nome de rapport.” (Médicos do espírito, 1965. Pág.
66).
O fragmento contribui com a
reflexão sobre a qualidade das interseções clínicas, ou seja, a natureza do
encontro terapêutico entre o partilhante e o filósofo clínico. Esses
desdobramentos da hora-sessão prosseguem no cotidiano da pessoa, desconstruindo
e reconstruindo sua estrutura de pensamento de acordo com as atividades no espaço
terapêutico formal.
A busca por uma terapia, traz
consigo um pré-requisito - pelo viés partilhante - que se denomina vontade de
melhorar. Um processo investigativo compartilhado deve conter esse ingrediente
como base das suas intervenções, em busca de melhores dias para a pessoa.
Assim se pode entender a
dificuldade em trabalhar com quem chega ao consultório com resistências,
contrariedade em se trabalhar, boicotando a atividade clínica com tramas
existenciais para sustentar sua dor, muitas vezes associando essa a sua integridade.
A qualidade da interseção
clínica, em qualquer uma de suas formas, será imprescindível para sustentação da
terapia. Não se trata somente de uma relação positiva e de entendimento
compartilhado, muitas vezes a interseção negativa contêm ingredientes
significativos para a atividade do filósofo. Lembrando, ainda, as transições
pelas interseções mistas, indefinidas, as quais integram um rol de
matéria-prima refugiada na estrutura de pensamento do partilhante.
Com Marie Ray: “Mas quando os
seus pacientes estavam mesmerizados, Braid verificou, como todos os mesmeristas
diziam, que efetivamente estavam num estado mental muito diferente do seu
estado normal. Podia fazer com eles uma porção de coisas que não podia quando
estavam acordados. Eram dóceis e receptivos, e ele podia injetar em seus
espíritos ideias que de algum modo – não sabiam como – curavam os seus males.”
(Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 75).
Esse aspecto, trabalhado pela
autora, diz respeito à circunstância da clínica, ou seja, um constructo de
ingredientes que constitui o espaço terapêutico como um lugar privilegiado às
construções compartilhadas.
O estado mental do partilhante, a
partir de sua abertura, costuma contribuir com sua expressão e partilha. Muitas
vezes o filósofo terá de superar os primeiros encontros, quando a pessoa chega com
propósitos para desmerecer a atividade clínica. Com isso, a contradição entre não
se trabalhar e a busca por melhores dias, pode significar um ponto de partida aos
eventos da hora-sessão.
A autora, ao descrever um
estado mental muito diferente do seu estado normal, auxilia o entendimento
sobre esse encontro da pessoa consigo mesma na hora-sessão. As modificações da
estrutura de pensamento cuidam para ajustar seu funcionamento, de acordo com as
resultantes da terapia. Trata-se de um processo diferente da medicalização da
Psiquiatria, a qual oferece uma sensação quase imediata de alívio e melhora,
para, a seguir, apresentar uma fatura gigantesca de submissão, dependência
química, distanciamento da pessoa das suas possibilidades existenciais.
Em Filosofia Clínica sua
abordagem reivindica, além da interseção de qualidade, a intimidade com a
metodologia, isto é, respeitar suas etapas de cuidado e atenção à vida, tendo
como referência uma circunstância, estrutura de pensamento, submodos
(encontrados na farmácia subjetiva do partilhante ou construídos de forma a
auxiliar seu desenvolvimento).
A autora lembra de John Jacob
Abel, considerado o pai da endocrinologia e compartilha: “Nós os seres humanos,
somos farmácias ambulantes, dizia ele. E não o disse por causa do material que
introduzimos em nós, senão por causa do material que fabricamos internamente.”
(Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 103).
Talvez aspectos da medicina
antiga, hoje em dia pretensamente superados pela indústria farmacêutica, sejam
ainda revolucionários, especificamente no que diz respeito à possibilidade da
pessoa encontrar, em seu constructo interno, a maioria dos medicamentos de que
necessita.
A ilusão - persistente em nossos
dias - de irmos à farmácia para comprar um remédio para dor de cabeça, debelando
esse desconforto quase de imediato, sem tratar suas causas, parece estar relacionada
a forma de vida que se está implementando. É raro alguém se ocupar com a
investigação desses indícios e sinais, muitas vezes escolhendo um cotidiano contraditório
consigo mesmo.
O trajeto para localizar a
farmácia subjetiva em cada pessoa é singular, reivindica um estudo
compartilhado, uma busca por conhecer e acessar a estrutura de pensamento do
partilhante, tendo por base sua história de vida circunstanciada. Com isso pode
ser necessário superar as crenças e os freios existenciais contidos em
determinados princípios de verdade, tendo como eixo o consumo disseminado de
medicamentos, hoje oferecidos em armazéns, mercados, farmácias (que se
multiplicam nas esquinas desse país).
Marie Ray contribui: “Jung disse
que todos, mesmo as pessoas regularmente felizes, aparentemente bem ajustadas,
com uma vida sexual satisfatória, precisavam do auxílio de um psicólogo
experiente. (...) Porque há algo no homem, disse ele, que vai além de suas
necessidades materiais (...). (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria,
1965. Pág. 126).
Os avanços da ciência se
apresentam como: adição, subtração, contradição, derivação, sobreposição de estudos,
desconstrução, pesquisas, onde as descobertas anteriores não devem ser
esquecidas, por servirem, muitas vezes, como base (ciência normal ou novos
paradigmas) ao conhecimento posterior.
A superação de modelos de
intervenção no cuidado e atenção à vida, deve significar um desenvolvimento dos
estudos, especificamente da atividade clínica voltada para a prevenção e busca
da qualidade de vida. Nesse sentido, ao reler os clássicos, é necessário investigar
e refletir sobre esses escritos, tendo como referência as novas percepções e
evidências da prática de consultório, muitas vezes atualizando ou superando
discursos existenciais reconhecidos.
A constatação de que há algo
no homem, que vai além de suas necessidades materiais, indica a necessidade
de um estudo circunstanciado a cada atendimento, ou seja, a busca pela
singularidade contida na abordagem da Filosofia Clínica.
Talvez os agendamentos escolares
da escola de medicina, onde se reconhece a máquina corpórea, seu funcionamento,
anomalias, a estrutura significativa somática, ofereça aos futuros médicos -
mesmo aos melhores - um agendamento limitante aos seus estudos e práticas. No
caso de mentes brilhantes como: Mesmer, Freud, Jung..., apesar de sua formação
médica, buscaram transgredir os limites de sua área, para encontrar o fenômeno
humano numa epistemologia das ruas.
Uma abordagem clínica eficaz traduz
sua melhor versão nos eventos de consultório. O espaço de trabalho do filósofo
clínico se conjugam no consultório particular, hospitais públicos, ou onde se
acumulam pessoas distanciadas de sua melhor possibilidade existencial,
manifestando eventos somáticos multifacetados, reivindicando da medicina do
corpo, um esforço para entender e acessar algo cujas raízes se encontram noutro
lugar.
Aquele abraço,
*hs
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