Translate

Quem sou eu

Minha foto
Bom dia! Descrituras é um espaço artesanal para alguns esboços de minha autoria. Boa leitura!

historicidade das publicações

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 68*

Notas do consultório do filósofo VII

A obra: Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, de autoria da escritora Marie Beynon Ray teve sua primeira edição em junho de 1945. O título original é: Doctors of the mind, traduzido para o português como: Médicos do espírito. A edição brasileira é tradução de Juvenal Jacinto para a editora Globo, no ano de 1965.

Esse livro se deixou encontrar em 2003, numa prateleira distante do primeiro olhar, num endereço de livros raros e esgotados em Porto Alegre. Um desses lugares onde se refugiam os inéditos à espera de uma interseção. O texto trata de questões referentes à prática clínica, inicialmente cuidando do tema da Psiquiatria e seu nascimento como ciência da mente. Nos dias de hoje, essa disciplina e coadjuvantes, sob muitos aspectos, traduz sua atividade como consequência das crenças e percepções da biologia, da química, contribuindo com os lucros faraônicos da indústria de psicofármacos, passando longe das causas estruturais dos desajustes e contradições somáticas.  

Talvez não seja acaso o surgimento de novas abordagens terapêuticas, reencontrando o fio da meada que se tinha perdido pela pesquisa refém de seus patrocinadores, dos consumidores desinformados, a ideologia dos princípios de verdade. É possível vislumbrar um muro metodológico, no que se refere à atividade das terapias de base Psi, onde prospera a camisa de força da lógica alienista. Noutras palavras, quando não se sabe o que fazer, encaminha-se o paciente ao Psiquiatra, o qual também não saberá o que fazer. No entanto, legalmente, poderá medicar, internar, conter a expressividade nascente da pessoa para adequá-la aos padrões de normalidade de sua época.  

O período histórico (a circunstância) onde a obra se escreve, tem a ver com os primeiros pensadores da nova área de estudos e intervenção clínica, como: Freud, Jung, Mesmer, Adler... Os quais cuidavam das questões existenciais de forma livre, destituída de vínculos com as ideologias do consumo e submissão do fenômeno humano. Essas mentes brilhantes, ainda hoje mantém seu séquito de seguidores, repetindo sua mensagem, em publicações, biografias, quadros, estátuas, igrejas, demonstrando uma submissão teológica aos seus escritos e ideias, que faziam sentido em determinada época histórica, de acordo com a pesquisa, os estudos, as possibilidades de seu tempo.   

Marie Ray lembra Mesmer: “(...) devia acontecer, raciocinou, que certos pacientes resistiam a esta influência. O doente deve desejar sinceramente ficar bom, deve ter confiança no seu médico, e cooperar com ele; caso contrário, não alcançará nenhum benefício com seus tratamentos. A este laço de simpatia, a esta compreensão mútua entre paciente e médico, ele deu o nome de rapport.” (Médicos do espírito, 1965. Pág. 66).

O fragmento contribui com a reflexão sobre a qualidade das interseções clínicas, ou seja, a natureza do encontro terapêutico entre o partilhante e o filósofo clínico. Esses desdobramentos da hora-sessão prosseguem no cotidiano da pessoa, desconstruindo e reconstruindo sua estrutura de pensamento de acordo com as atividades no espaço terapêutico formal.

A busca por uma terapia, traz consigo um pré-requisito - pelo viés partilhante - que se denomina vontade de melhorar. Um processo investigativo compartilhado deve conter esse ingrediente como base das suas intervenções, em busca de melhores dias para a pessoa.

Assim se pode entender a dificuldade em trabalhar com quem chega ao consultório com resistências, contrariedade em se trabalhar, boicotando a atividade clínica com tramas existenciais para sustentar sua dor, muitas vezes associando essa a sua integridade.

A qualidade da interseção clínica, em qualquer uma de suas formas, será imprescindível para sustentação da terapia. Não se trata somente de uma relação positiva e de entendimento compartilhado, muitas vezes a interseção negativa contêm ingredientes significativos para a atividade do filósofo. Lembrando, ainda, as transições pelas interseções mistas, indefinidas, as quais integram um rol de matéria-prima refugiada na estrutura de pensamento do partilhante.

Com Marie Ray: “Mas quando os seus pacientes estavam mesmerizados, Braid verificou, como todos os mesmeristas diziam, que efetivamente estavam num estado mental muito diferente do seu estado normal. Podia fazer com eles uma porção de coisas que não podia quando estavam acordados. Eram dóceis e receptivos, e ele podia injetar em seus espíritos ideias que de algum modo – não sabiam como – curavam os seus males.” (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 75).

Esse aspecto, trabalhado pela autora, diz respeito à circunstância da clínica, ou seja, um constructo de ingredientes que constitui o espaço terapêutico como um lugar privilegiado às construções compartilhadas.  

O estado mental do partilhante, a partir de sua abertura, costuma contribuir com sua expressão e partilha. Muitas vezes o filósofo terá de superar os primeiros encontros, quando a pessoa chega com propósitos para desmerecer a atividade clínica. Com isso, a contradição entre não se trabalhar e a busca por melhores dias, pode significar um ponto de partida aos eventos da hora-sessão.

A autora, ao descrever um estado mental muito diferente do seu estado normal, auxilia o entendimento sobre esse encontro da pessoa consigo mesma na hora-sessão. As modificações da estrutura de pensamento cuidam para ajustar seu funcionamento, de acordo com as resultantes da terapia. Trata-se de um processo diferente da medicalização da Psiquiatria, a qual oferece uma sensação quase imediata de alívio e melhora, para, a seguir, apresentar uma fatura gigantesca de submissão, dependência química, distanciamento da pessoa das suas possibilidades existenciais.  

Em Filosofia Clínica sua abordagem reivindica, além da interseção de qualidade, a intimidade com a metodologia, isto é, respeitar suas etapas de cuidado e atenção à vida, tendo como referência uma circunstância, estrutura de pensamento, submodos (encontrados na farmácia subjetiva do partilhante ou construídos de forma a auxiliar seu desenvolvimento).

A autora lembra de John Jacob Abel, considerado o pai da endocrinologia e compartilha: “Nós os seres humanos, somos farmácias ambulantes, dizia ele. E não o disse por causa do material que introduzimos em nós, senão por causa do material que fabricamos internamente.” (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 103).

Talvez aspectos da medicina antiga, hoje em dia pretensamente superados pela indústria farmacêutica, sejam ainda revolucionários, especificamente no que diz respeito à possibilidade da pessoa encontrar, em seu constructo interno, a maioria dos medicamentos de que necessita.

A ilusão - persistente em nossos dias - de irmos à farmácia para comprar um remédio para dor de cabeça, debelando esse desconforto quase de imediato, sem tratar suas causas, parece estar relacionada a forma de vida que se está implementando. É raro alguém se ocupar com a investigação desses indícios e sinais, muitas vezes escolhendo um cotidiano contraditório consigo mesmo.   

O trajeto para localizar a farmácia subjetiva em cada pessoa é singular, reivindica um estudo compartilhado, uma busca por conhecer e acessar a estrutura de pensamento do partilhante, tendo por base sua história de vida circunstanciada. Com isso pode ser necessário superar as crenças e os freios existenciais contidos em determinados princípios de verdade, tendo como eixo o consumo disseminado de medicamentos, hoje oferecidos em armazéns, mercados, farmácias (que se multiplicam nas esquinas desse país).  

Marie Ray contribui: “Jung disse que todos, mesmo as pessoas regularmente felizes, aparentemente bem ajustadas, com uma vida sexual satisfatória, precisavam do auxílio de um psicólogo experiente. (...) Porque há algo no homem, disse ele, que vai além de suas necessidades materiais (...). (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 126).

Os avanços da ciência se apresentam como: adição, subtração, contradição, derivação, sobreposição de estudos, desconstrução, pesquisas, onde as descobertas anteriores não devem ser esquecidas, por servirem, muitas vezes, como base (ciência normal ou novos paradigmas) ao conhecimento posterior.

A superação de modelos de intervenção no cuidado e atenção à vida, deve significar um desenvolvimento dos estudos, especificamente da atividade clínica voltada para a prevenção e busca da qualidade de vida. Nesse sentido, ao reler os clássicos, é necessário investigar e refletir sobre esses escritos, tendo como referência as novas percepções e evidências da prática de consultório, muitas vezes atualizando ou superando discursos existenciais reconhecidos.   

A constatação de que há algo no homem, que vai além de suas necessidades materiais, indica a necessidade de um estudo circunstanciado a cada atendimento, ou seja, a busca pela singularidade contida na abordagem da Filosofia Clínica.

Talvez os agendamentos escolares da escola de medicina, onde se reconhece a máquina corpórea, seu funcionamento, anomalias, a estrutura significativa somática, ofereça aos futuros médicos - mesmo aos melhores - um agendamento limitante aos seus estudos e práticas. No caso de mentes brilhantes como: Mesmer, Freud, Jung..., apesar de sua formação médica, buscaram transgredir os limites de sua área, para encontrar o fenômeno humano numa epistemologia das ruas.

Uma abordagem clínica eficaz traduz sua melhor versão nos eventos de consultório. O espaço de trabalho do filósofo clínico se conjugam no consultório particular, hospitais públicos, ou onde se acumulam pessoas distanciadas de sua melhor possibilidade existencial, manifestando eventos somáticos multifacetados, reivindicando da medicina do corpo, um esforço para entender e acessar algo cujas raízes se encontram noutro lugar. 

Aquele abraço,

*hs

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.