Notas do consultório do filósofo V*
É interessante notar, quando
alguém avalia, classifica, engessa, procura entender algo novo no mundo da
vida, a partir de referências epistemológicas cristalizadas. Esse mesmo
dispositivo, que pode servir para estruturar a representação de uma pessoa,
como ensina Schopenhauer, pode - dependendo de seu uso - limitar a visão das
coisas, ao não se permitir conviver com uma lógica aprendiz em seu cotidiano.
Um aspecto que chama atenção em
Filosofia Clínica é a estrutura de pensamento que abastece uma interseção, a
qual reivindica uma postura investigativa compartilhada, com base numa estética
do encontrar. Um ângulo que inaugura um determinado lugar, um ponto de cooperação,
tendo por norte o território subjetivo do partilhante. Endereço existencial por
onde o filósofo transita para conhecer a perspectiva do outro, a qual se
apresenta em tempo, lugar, linguagem própria, muitas vezes amparados por um
discurso existencial em deslocamentos de autogenia.
A intencionalidade de John Searle
auxilia a entender os rumos dessas expressividades, preliminarmente bem
ajustadas, para contar sua versão das coisas até onde consegue se manter.
Depois disso as palavras parecem se divertir ao compartilhar rastros e anúncios
para algo mais. Assim, o filósofo dedica sua escuta fenomenológica para acolher
e aprender sobre a natureza desses achados que transbordam os rumores preliminares.
Em uma leitura compartilhada nos
eventos da hora-sessão, a qualidade da interseção pode se modificar, de acordo
com os aparecimentos e desaparecimentos da matéria-prima que integra a
estrutura de pensamento singular.
Umberto Eco auxilia: “(...) a
única alternativa a uma teoria radical da interpretação voltada para o leitor é
aquela celebrada pelos que dizem que a única interpretação válida tem por
objetivo descobrir a intenção original do autor.” (Interpretação e superinterpreação,
1997. Pág. 29).
O pensador italiano contribui com
a reflexão sobre esses eventos nem sempre possíveis de descrever
apropriadamente, isto é, o que se desdobra e se realiza no acolhimento de um
assunto imediato, tendo como referência a natureza e o alcance da interseção
que vai se constituindo, como uma ponte a permitir um trânsito de lado a lado por
suas margens.
Por essas idas e vindas algo mais
se realiza, levando em conta o território subjetivo e o discurso existencial do
partilhante, o qual vai abastecendo o filósofo clínico com sua versão das
coisas, recuperando sua historicidade, atualizando sua percepção sobre aquilo
que se foi, muitas vezes reaparecendo em nova versão.
É fundamental compreender o outro
a partir de seu território existencial, sem ficar refém de suas convicções,
pois estas podem conter labirintos, armadilhas, desvãos, que o próprio titular desconheça.
Para isso, o filósofo terá de exercitar sua inquietude criativa para descobrir
outras rotas ao partilhante, em vista de freios
existenciais descabidos.
Em Umberto Eco: “Poder-se-ia
dizer que um texto, depois de separado de seu autor (assim como da intenção do
autor) e das circunstâncias concretas de sua criação, flutua no vácuo de um
leque potencialmente infinito de interpretações possíveis.” (Interpretação e
superinterpretação, 1997. Pág. 48).
Com isso se pode pensar sobre a
estrutura significativa de uma expressão, o quanto ela permanece íntegra com a
autoria, após sua partilha, independente da semiose que utilize para se contar.
Os textos existenciais vivenciados no cotidiano, imprimem suas versões nessa
página singular, a qual desconstrói, acrescenta, renova seus esboços em forma
de vida.
A essência do rumor que anuncia, se
insinua em meio a matéria-prima da intencionalidade, um desses caminhos por
onde a fenomenologia do humano se apresenta, ainda quando se propõe omitir algo
para si mesmo.
Um ser multifacetado aprecia
transgredir as lógicas da vida comum. Sua expressão oferece, em linguagem
própria, nem sempre compreensível ao olho nu dos consensos, uma variedade de
possíveis, ao descortinar facetas da realidade tidas como improvável ou
incomum, acrescenta algo novo à vida que se tinha.
As páginas de uma obra que se
elabora no mundo da vida, tem por companhia o ingrediente das suas relações. O
percurso das calçadas, as vitrines, os cafés e livrarias, os aromas do jardim, o
canto dos passarinhos, os sinos da igreja, as vozes e suas verdades, compõem a
multifacetada realidade onde se encontra o texto das ruas.
Nesse sentido, uma transcrição pode
conter mensagens que serão acessíveis a determinados leitores, outras para
outros, e assim por diante, levando-se em conta a sintonia das interseções entre
a leitura e a escritura. A crítica literária, por
exemplo, vai oferecer tantas versões sobre uma mesma obra, quantas sejam suas
leituras, releituras, desleituras. Algumas vezes, o leitor de um mesmo livro,
ao rever uma leitura poderá modificar antigas ideias sobre o tema, tendo em
vista as águas da estrutura de pensamento em busca de outras margens.
Com Umberto Eco: “Leonardo (da
Vinci) era um grande visionário, isto é, que ele estava pensando (de forma
irreal para seu tempo, e com base em suposições falsas) num empreendimento
futuro realista. Mas defini-lo como gênio utópico significa exatamente que a
comunidade reconhece que, de algum modo, ele estava certo, e de outro
desvairadamente errado.” (Interpretação e superinterpretação, 1997. Pág. 170).
A estrutura de pensamento dos
princípios de verdade, em determinado momento histórico, costuma prescrever
suas regras, normas, leis, para um convívio de harmonia entre as pessoas. Para
movimentar a roda da história - levando-se em conta que ela tenha rodas,
poderia ter cascos de navio, hélices de avião, barbatanas, asas de pássaro... -
se faz necessária a percepção de alguns sujeitos em desconformidade com a
lógica onde se encontram, oferecendo um visar sobre o que está por chegar.
Assim não há que se falar em
acerto ou erro, verdade ou mentira, realidade ou ilusão, os eventos de cada um se
apresentam ora numa narrativa existencial, ora noutra, muitas vezes em
pronúncias estranhas, com palavras de múltiplos sentidos. A perplexidade desses
aparecimentos aprecia se associar a lugares, tempos, a vida de cada um em
sintonia ou dessintonia com sua singularidade.
Aquele abraço,
hs
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