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domingo, 12 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 66*

Notas do consultório do filósofo V*

É interessante notar, quando alguém avalia, classifica, engessa, procura entender algo novo no mundo da vida, a partir de referências epistemológicas cristalizadas. Esse mesmo dispositivo, que pode servir para estruturar a representação de uma pessoa, como ensina Schopenhauer, pode - dependendo de seu uso - limitar a visão das coisas, ao não se permitir conviver com uma lógica aprendiz em seu cotidiano.

Um aspecto que chama atenção em Filosofia Clínica é a estrutura de pensamento que abastece uma interseção, a qual reivindica uma postura investigativa compartilhada, com base numa estética do encontrar. Um ângulo que inaugura um determinado lugar, um ponto de cooperação, tendo por norte o território subjetivo do partilhante. Endereço existencial por onde o filósofo transita para conhecer a perspectiva do outro, a qual se apresenta em tempo, lugar, linguagem própria, muitas vezes amparados por um discurso existencial em deslocamentos de autogenia.    

A intencionalidade de John Searle auxilia a entender os rumos dessas expressividades, preliminarmente bem ajustadas, para contar sua versão das coisas até onde consegue se manter. Depois disso as palavras parecem se divertir ao compartilhar rastros e anúncios para algo mais. Assim, o filósofo dedica sua escuta fenomenológica para acolher e aprender sobre a natureza desses achados que transbordam os rumores preliminares.

Em uma leitura compartilhada nos eventos da hora-sessão, a qualidade da interseção pode se modificar, de acordo com os aparecimentos e desaparecimentos da matéria-prima que integra a estrutura de pensamento singular.

Umberto Eco auxilia: “(...) a única alternativa a uma teoria radical da interpretação voltada para o leitor é aquela celebrada pelos que dizem que a única interpretação válida tem por objetivo descobrir a intenção original do autor.” (Interpretação e superinterpreação, 1997. Pág. 29).

O pensador italiano contribui com a reflexão sobre esses eventos nem sempre possíveis de descrever apropriadamente, isto é, o que se desdobra e se realiza no acolhimento de um assunto imediato, tendo como referência a natureza e o alcance da interseção que vai se constituindo, como uma ponte a permitir um trânsito de lado a lado por suas margens.

Por essas idas e vindas algo mais se realiza, levando em conta o território subjetivo e o discurso existencial do partilhante, o qual vai abastecendo o filósofo clínico com sua versão das coisas, recuperando sua historicidade, atualizando sua percepção sobre aquilo que se foi, muitas vezes reaparecendo em nova versão.  

É fundamental compreender o outro a partir de seu território existencial, sem ficar refém de suas convicções, pois estas podem conter labirintos, armadilhas, desvãos, que o próprio titular desconheça. Para isso, o filósofo terá de exercitar sua inquietude criativa para descobrir outras rotas ao partilhante, em vista de freios existenciais descabidos.    

Em Umberto Eco: “Poder-se-ia dizer que um texto, depois de separado de seu autor (assim como da intenção do autor) e das circunstâncias concretas de sua criação, flutua no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis.” (Interpretação e superinterpretação, 1997. Pág. 48).

Com isso se pode pensar sobre a estrutura significativa de uma expressão, o quanto ela permanece íntegra com a autoria, após sua partilha, independente da semiose que utilize para se contar. Os textos existenciais vivenciados no cotidiano, imprimem suas versões nessa página singular, a qual desconstrói, acrescenta, renova seus esboços em forma de vida.  

A essência do rumor que anuncia, se insinua em meio a matéria-prima da intencionalidade, um desses caminhos por onde a fenomenologia do humano se apresenta, ainda quando se propõe omitir algo para si mesmo. 

Um ser multifacetado aprecia transgredir as lógicas da vida comum. Sua expressão oferece, em linguagem própria, nem sempre compreensível ao olho nu dos consensos, uma variedade de possíveis, ao descortinar facetas da realidade tidas como improvável ou incomum, acrescenta algo novo à vida que se tinha.

As páginas de uma obra que se elabora no mundo da vida, tem por companhia o ingrediente das suas relações. O percurso das calçadas, as vitrines, os cafés e livrarias, os aromas do jardim, o canto dos passarinhos, os sinos da igreja, as vozes e suas verdades, compõem a multifacetada realidade onde se encontra o texto das ruas.   

Nesse sentido, uma transcrição pode conter mensagens que serão acessíveis a determinados leitores, outras para outros, e assim por diante, levando-se em conta a sintonia das interseções entre a leitura e a escritura. A crítica literária, por exemplo, vai oferecer tantas versões sobre uma mesma obra, quantas sejam suas leituras, releituras, desleituras. Algumas vezes, o leitor de um mesmo livro, ao rever uma leitura poderá modificar antigas ideias sobre o tema, tendo em vista as águas da estrutura de pensamento em busca de outras margens.

Com Umberto Eco: “Leonardo (da Vinci) era um grande visionário, isto é, que ele estava pensando (de forma irreal para seu tempo, e com base em suposições falsas) num empreendimento futuro realista. Mas defini-lo como gênio utópico significa exatamente que a comunidade reconhece que, de algum modo, ele estava certo, e de outro desvairadamente errado.” (Interpretação e superinterpretação, 1997. Pág. 170).

A estrutura de pensamento dos princípios de verdade, em determinado momento histórico, costuma prescrever suas regras, normas, leis, para um convívio de harmonia entre as pessoas. Para movimentar a roda da história - levando-se em conta que ela tenha rodas, poderia ter cascos de navio, hélices de avião, barbatanas, asas de pássaro... - se faz necessária a percepção de alguns sujeitos em desconformidade com a lógica onde se encontram, oferecendo um visar sobre o que está por chegar.

Assim não há que se falar em acerto ou erro, verdade ou mentira, realidade ou ilusão, os eventos de cada um se apresentam ora numa narrativa existencial, ora noutra, muitas vezes em pronúncias estranhas, com palavras de múltiplos sentidos. A perplexidade desses aparecimentos aprecia se associar a lugares, tempos, a vida de cada um em sintonia ou dessintonia com sua singularidade.  

Aquele abraço,

hs

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