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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 64*


Notas sobre o consultório do filósofo III 

A nova abordagem terapêutica com base na interseção da Filosofia com a prática clínica, traz consigo uma trama significativa de reflexões e contribuições para a vida e o papel existencial das pessoas com borogodó para a atividade cuidadora.

Existem nuances e desdobramentos a partir de um encontro terapêutico, por onde suas repercussões superam a hora-sessão para encontrar a luz do dia. Do lado a lado da relação clínica ocorrem fenômenos improváveis se distanciados da categoria lugar onde se realizam.  

Um desses eventos desconcertantes é uma resultante da terapia, conhecida por autogenia. Sua expressão trata de: interseção e suas derivações, transformação, mudança, ressignificação na estrutura de pensamento de uma pessoa. No que se refere ao partilhante, é possível trabalhar as autogenias que se apresentam nas dialéticas da hora-sessão, no entanto, também o filósofo clínico, tem sua expressividade impactada pelas circunstâncias de consultório.   

Em Fritjof Capra: “(...) elos de realimentação, ou seja, a ideia contida nessa expressão é a de algo que, tendo sido produzido, gerado ou modificado por outra coisa, afeta por sua vez essa outra coisa de modo a produzir modificações nela. É uma espécie de rede causal de mão dupla.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 28).

Assim é possível entender, numa forma de autoproteção, a defesa das tipologias, classificações, preservando uma distância significativa em relação aos atendimentos. Cabe lembrar a Psiquiatria e coadjuvantes, onde muitos eventos conhecidos como loucura, encontram sua origem em suas próprias intervenções, através dos agendamentos, enraizamentos, a distorcer a originalidade do sujeito em vias de não-ser.  

Em Filosofia Clínica, pela via da interseção, trata-se de um processo completamente outro, tendo por base a representação de mundo que vai aparecendo. Uma reconstrução compartilhada da historicidade partilhante, por si só, costuma ter um alcance terapêutico significativo. Assim, o filósofo em recíproca de inversão, oferece sua estrutura de pensamento ao partilhante, como ponto de apoio aos seus ensaios de atualização discursiva.

A partir desses movimentos da clínica, não é raro acontecer desconstruções estruturais e o surgimento de algo novo na estrutura de pensamento dos envolvidos na hora-sessão, ou seja, aquilo antes inacessível ou desconhecido, pode surgir como hipótese, experimentação, assumindo uma feição aprendiz da pessoa com ela mesma. Ao filósofo cabe acompanhar, interagir, compartilhar rotas significativas aos deslocamentos em processo.  

Algo mais aprecia surgir na terapia, oferecendo uma matéria-prima para as intervenções do filósofo. Como a circunstância - quase esquecida - de que o cuidador, ao compartilhar sua estrutura de pensamento com o partilhante, ajustando sua expressividade ao papel existencial, acrescenta uma fatia generosa de si mesmo aos eventos da hora-sessão.      

Com Fritjof Capra: “A experiência nasce da dinâmica não-linear complexa das redes neurais, e só poderá ser explicada se a nossa compreensão da neurobiologia for combinada a uma compreensão dessa dinâmica.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 56).

A descoberta da singularidade como um pressuposto para a atividade clínica, oferece uma nova rota para as relações humanas. A fenomenologia dos encontros reivindica uma abordagem diferenciada, plástica, dinâmica, apta a manter interseção com o zoom da expressividade em cada pessoa.  

O novo paradigma da Filosofia Clínica possui características de proto e metaciência, ao acolher, recuperar, superar, antecipar, descobrir, traduzir, habilidades humanas, até então, improváveis, desconhecidas, inacessíveis pelas lentes festejadas da ciência normal. Seu referencial aprendiz se abastece da interseção, estudo, análise, acolhimento, ousadia para aventurar-se em territórios subjetivos outros, impregnados de incógnitas existenciais, armadilhas conceituais, rupturas com o mundo reconhecido da família, amigos, em direção aquilo sem voz e vez. Quando um fenômeno dessa natureza chega à lógica microscópio, a estrutura de pensamento há muito já efetivou seus movimentos subjetivos. 

As constatações da medicina do corpo, tem dificuldade em perceber essas origens estruturais e, quando consegue, teme a novidade diante de suas convicções, tratando de reduzir sua expressão aos moldes reconhecidos ou atribui seu aparecimento e responsabilidade à metafísica, como algo que não lhe pertence.    

Fritjof Capra contribui: “Numa organização humana, o acontecimento que desencadeia o processo de surgimento espontâneo de uma nova ordem pode ser um comentário informal, que, muito embora não pareça importante para quem o fez, pode ser significativo para algumas pessoas dentro de uma comunidade de prática.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 128).

Os eventos da intencionalidade apreciam surgir no discurso existencial do partilhante, ou seja, em suas menções na hora-sessão ou fora dela, incluindo a historicidade, os momentos de desconstrução mais significativa, os períodos de reconstrução, a vida cotidiana, onde as palavras possuem um sentido peculiar, o qual vai pedir ao filósofo uma aproximação com esse devir peculiar.

Uma nova estruturação na vida de cada pessoa, possui roteiros diferenciados, os quais reivindicam um estudo singularizado, distante das abordagens generalistas e seus protocolos. Tendo em vista uma crise precursora, a partir daí, costumam acontecer múltiplos eventos no cotidiano do partilhante, levando, muitas vezes, a própria pessoa a desconfiar de si mesmo. Nesses momentos a metodologia faz a diferença, pela natureza e alcance dos seus agendamentos, seja para acolher, compreender ou desvirtuar a lógica singular em seu estado de anúncio.   

Nesse sentido o filósofo precisa estar atento as especificidades da pessoa, isto é, compreender, interagir com as necessidades do instante aprendiz. As rotas da construção compartilhada, nesses momentos de desestruturação e incompletude discursiva, pede sensibilidade, acolhimento, interseção, cuidado e atenção a matéria-prima que vai aparecendo na estrutura dos encontros. A escuta fenomenológica, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, apreciam localizar existencialmente essas expressões em forma de broto.

Aquele abraço,

*hs  

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