Translate

Quem sou eu

Minha foto
Bom dia! Descrituras é um espaço artesanal para alguns esboços de minha autoria. Boa leitura!

historicidade das publicações

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 65***










Notas do consultório do filósofo IV* 

Os eventos da hora-sessão possuem uma pluralidade de aparecimentos e desaparecimentos modificando, com sua expressão, a circunstância onde se apresentam.  Inexiste um telos onde se poderia chegar com uma certeza cristalina. Ainda assim é possível transitar por suas inúmeras possibilidades, recheando, com a fenomenologia dos encontros, esse lugar impregnado de incógnitas, as quais rascunham seus originais com o que possuem.  

A clínica do filósofo, ao conter em sua atividade terapêutica as bases da analítica da linguagem, fenomenologia, hermenêutica compreensiva, estruturalismo, compõe uma integração atípica, que ganha forma e sustentação nos desdobramentos da hora-sessão.   

O estruturalismo oferece uma leitura de integração com a pluralidade de possíveis, num endereço existencial onde a indeterminação do sem nome aprecia insinuar suas verdades em línguas desconhecidas. Ao compor um todo com a totalidade de cada parte, se descrevem diálogos de acolhimento e tradução compartilhada. Para uma aproximação conceitual com essas especialidades, se reivindica a prática clínica, onde a lógica de uma expressividade ensaia novos movimentos existenciais.

Jacques Derrida contribui: “Ser estruturalista é prender-se em primeiro lugar à organização do sentido, à autonomia e ao equilíbrio próprio, à constituição acabada de cada momento, de cada forma; é recusar deportar para a categoria de acidente aberrante tudo o que um tipo ideal não permite compreender. O próprio patológico não é uma simples ausência de estrutura. É organizado. Não se compreende como deficiência, defecção ou decomposição de uma bela totalidade ideal. Não é uma simples derrota do Telos. (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 47).

A busca de sentido na terapia filosófica é aliada dos múltiplos fundamentos, os quais podem ser encontrados na trama conceitual acadêmica, um pouco antes de fazer sentido na hora-sessão. Não se trata de uma aplicação direta dos ensinamentos da teoria, mas de um suporte à uma transgressão metodológica em busca do outro na relação clínica.   

Uma interseção com a singularidade do partilhante, ainda quando ele mesmo não a reconheça, reivindica componentes que a teoria não alcança, como: acolhimento, compreensão, partilha, borogodó para realizar recíproca de inversão e inversão, adaptar-se a lógica do instante, sem perder a referência do papel existencial. Essa busca de sentido apresentada por Derrida auxilia a enxergar a categoria circunstância na Filosofia Clínica, como uma etapa estruturante para saber mais e melhor sobre a versão da pessoa sob seus cuidados. Uma intencionalidade assim descrita vai emitir seus sinais de acordo com suas possibilidades, quase sempre em desacordo com as métricas da tipologia, das classificações de protocolo.

Assim é possível entender a expressividade de algo ou alguém que se move para se manter, descrevendo uma estrutura de pensamento em forma de anúncio aos novos territórios da própria estrutura.  

Acolher a epistemologia do estranho, da diferença, é uma aptidão do filósofo clínico, amparado em sua proposta para descrever a singularidade do outro em seu devir existencial. A continuidade das sessões permite uma aproximação de qualidade com a realidade partilhante em vias de não-ser.

Com Derrida: “Se há estruturas, elas são possíveis a partir dessa estrutura fundamental pela qual a totalidade se abre e transborda para ganhar sentido na antecipação de um telos que é preciso entender aqui sob a sua forma mais indeterminada.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 47).

A clínica se inicia, via de regra, com esse desconcerto preliminar, por onde o partilhante se diz com aquilo que tem. A superação dessa desestrutura costuma ocorrer com o prosseguimento de sua expressividade, como se estivesse se acostumando com a nova versão de si mesmo sendo outro.  

O transbordamento expressivo de uma pessoa costuma desajustar a fragilidade estrutural da vida normal, isto é, as lógicas da normalização comportamental, com base em pressupostos de natureza ideológica, axiológica, denunciam seus princípios de verdade, por exemplo: a internação involuntária de alguém que não consegue se fazer entender em seus momentos de travessia. A possibilidade de um telos se apresenta a partir de uma desestrutura, recolocando as dinâmicas de consultório numa cumplicidade com esses ensaios existenciais.   

Em Jacques Derrida: “O ser que se anuncia no ilegível está para além destas categorias, para além do seu próprio nome ao escrever-se.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 71).

A ilegibilidade de um discurso existencial reivindica um olhar de escuta fenomenológica, para começo de conversa. Uma aproximação com a natureza desses inéditos, concede uma decifração compartilhada de seus originais. Trata-se de rascunhos existenciais em forma de broto, reivindicam um acolhimento compreensivo, cuidado singularizado, os quais não se encontram nas classificações da bíblia DSM e coadjuvantes, tão festejadas pelo carimbo do notário!

Nesse sentido, uma ilegibilidade reivindica um estudo circunstanciado de suas fontes de expressão, a língua em que se diz e não se diz, sua representação das coisas, por onde dialoga com o mundo da vida, seus ensaios e rascunhos em forma de apresentação. Depois dessa base de reconhecimento, pode ser possível encontrar a epistemologia intuitiva desse dicionário singular, para seguir aos novos endereços existenciais.

Uma abordagem como a Filosofia Clínica, se inscreve na interseção com o desarrazoado, para encontrar, em sua própria estrutura de pensamento, a fonte de inspiração para sua atividade clínica. Então, acompanhar, descrever, compreender, o caráter de ser ilegível, inacreditável, extraordinário, costuma ser a rotina da nova terapia com base na Filosofia. Sua plasticidade se constitui como um tango, por onde as evidências da vida diferente se encontram em uma conexão peculiar, nem sempre de acordo com os princípios de verdade. Seu significado está atrelado a uma conexão profunda com o discurso existencial do devir singular.  

Para entender a realidade de suas narrativas, é necessário encontrar esse lugar de onde se diz aquilo que aparece, muito próximo das poéticas da singularidade, uma aproximação com os eventos de aparente sem sentido, para localizar a epistemologia desses desencontros onde uma nova versão existencial se esboça.  

Jacques Derrida recorda: “Seria tentador aproximar o que dissemos de Artaud do que nos dizem Holderlin, Mallarmé: que a inspiração é em primeiro lugar esse ponto puro em que ela falta. Mas é preciso resistir a esta tentação das afirmações demasiado gerais. Cada poeta diz o mesmo, e não é, contudo, o mesmo, é o único, sentimo-lo bem.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 111).   

É possível associar a fenomenologia de Merleau-Ponty com a analítica da linguagem de Wittgenstein e a hermenêutica compreensiva de Gadamer, para dar conta desse estruturalismo que Derrida nos apresenta, como a pedra de toque para compreender as rotas de uma integração singular.

Talvez a tentação de ser aceito socialmente, a qualquer preço, possa estar na base dessa necessidade em se adaptar à realidade dos consensos, desprezando, muitas vezes, sua própria estrutura de pensamento, em desfavor das circunstâncias onde cada um se encontra. Paga-se caro por querer pertencer a um lugar onde não se cabe por inteiro, participando de uma normalidade que despreza a lógica das diferenças, discrimina as manifestações da expressividade como loucura e desrazão, redige leis e normas para sustentar a camisa de força social.

O novo paradigma da Filosofia Clínica se associa às iniciativas - ainda em seu estágio preliminar - para desconstruir as intervenções da generalização, as quais transformam um sujeito com raras habilidades existenciais em objeto de controle e submissão às drogas da moda.   

Derrida contribui: “Artaud teve igualmente cuidado em marcar a sua discordância em relação à psicanálise e sobretudo ao psicanalista, aquele que julga poder segurar o discurso na psicanálise, deter a sua iniciativa e poder de iniciação”. (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 164).

Ora, ora, ora, nos últimos anos, alguns incautos que se apresentam como filósofos clínicos, vão buscar na Psicanálise e outras metodologias, um suporte para sua atividade terapêutica. Além de mostrar que não aprenderam Filosofia Clínica, permanecendo na superfície de sua apresentação, boicotando seus estudos, a clínica pessoal, os estágios, ainda levam suas questões mal resolvidas para outra abordagem.    

Parece não existir uma reflexão crítica sobre o fato de que a Psicanálise, ao propor uma expressão do chamado inconsciente, coloca o paciente refém das interpretações do psicanalista. Troca uma cela por outra, transformando pessoas agendáveis - que cabem nessa metodologia - em cumplicidade (Estocolmo?) com os delírios da hermenêutica do analista.

Quem estudou Filosofia e Filosofia Clínica - pelo menos os conceitos básicos -, deveria saber que a metodologia da Psicanálise, trata as pessoas a partir de definições apriorísticas e suas classificações, quase sempre distorcendo a originalidade em vias de aparecimento, para se enquadrar em sua régua interpretativa, onde se destaca uma ideologia de saber-poder, disfarçada de libertação.    

A representação de mundo do alienista*, ao se aproveitar da fragilidade momentânea da pessoa em seus momentos de ressignificação existencial, se traduz como proposta para redirecionar a vida da pessoa para a vida normal, seja isso o que for. Ao querer transformar a inquietude criativa de Artaud em loucura, a Psiquiatria nada mais fez do que colocar à vista os estreitos limites de sua régua metodológica, em busca de transformar um sujeito singular (insubmisso, criativo, subversivo) numa extensão do seu entendimento das coisas.

Aquele abraço,

*hs

**Alienista no sentido de que muitos profissionais dessa área, alienam a pessoa de sua condição expressiva singular, mantendo a mesma subjugada às intervenções da Psiquiatria.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.