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domingo, 19 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 67*

Notas do consultório do filósofo VI 

A circunstância partilhante é um fundamento da atividade clínica do filósofo. Com ela e a partir dela, se institui um lugar, uma base, um chão, onde se desdobram os eventos da interseção terapêutica. Trata-se de uma localização existencial de natureza singular. Seu ponto de partida costuma ser um assunto imediato, uma queixa preliminar, um território subjetivo que vai se apresentando, de acordo com a representação de mundo do partilhante.  

Nesse pedaço de chão é possível acolher e descrever a matéria-prima com a qual o filósofo irá trabalhar. Desprezar essa etapa da investigação clínica é desajustar a própria metodologia, a qual tem por pressuposto um estudo aprofundado e compartilhado dos eventos que integram a singularidade, um pouco antes de uma visibilidade da sua estrutura de pensamento e submodos.

Além de alcançar subsídios a atividade clínica do filósofo, o partilhante, com seu discurso existencial, pode reescrever os dados de sua história, atualizar memórias, acrescentar ingredientes, atualizar sua estrutura de pensamento. As revisitas a historicidade, tendo em vista sua circunstância, adicionam, subtraem, vivências de acordo com as especificidades que vão se apresentando.

Essa aprendizagem compartilhada na terapia, quando desprezada, desconstrói a metodologia, transformando sua proposta de emancipação do sujeito em refém do que já existia. Talvez esse fato ajude a entender a busca de alguns aprendizes, em transitar de uma abordagem para outra, tentando agregar conhecimento, quando na verdade, estão desvirtuando métodos contraditórios, excludentes. Algo que irão entender nas suas tentativas (frustradas) de trabalhar em consultório.  

Sei que a propaganda, os discursos, a retórica de profissionais das ciências humanas convencem muita gente, seja por sua titulação acadêmica, agendamentos de repetição, a persistência em velhos mantras sobre normalidade x anormalidade, saúde x doença, cura x loucura. Aliam-se a este estado de coisas a desinformação das pessoas, que muitas vezes buscam no palavrório fácil de um saber-poder institucional, uma proposta agradável a seus interesses.  

Assim a circunstância de uma pessoa reivindica um convívio continuado com seu endereço existencial em vias de atualização - seja para mudar ou sustentar o próprio território -, experienciando rotas numa investigação compartilhada.

Félix Guattari indica: “O que importa, primordialmente, é o ímpeto rítmico mutante de uma temporalização capaz de fazer unir os componentes heterogêneos de um novo edifício existencial.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 32).

Com a recuperação dos fatos registrados na memória, conhecida como historicidade, pela via da interseção qualificada, o filósofo clínico poderá reconhecer os deslocamentos, as idas e vindas, os ensaios, as modificações, a atualização discursiva existencial da pessoa. Muitas vezes o partilhante irá testemunhar as bases de sustentação do seu cotidiano desaparecer, sob forma de dúvidas, questionamentos, contradições, desestrutura, incompletude discursiva, como evidências de uma estrada nova que se insinua diante do olhar.

Os eventos dessa transição entre uma e outra realidade, costumam abastecer a estrutura de pensamento do partilhante com novas visões de sua circunstância, contribuindo para modificar sua percepção sobre as coisas, pessoas, territórios existenciais em vias de desconstrução.  

A travessia por essas pontes de si mesmo pode reivindicar uma interseção diferenciada (consigo mesmo, pessoas, lugares, tempos...) para sua continuidade, embora, algumas vezes, o partilhante possa escolher regressar ao antigo endereço existencial, fazendo pequenos ajustes para manter aquilo que tinha.  

Em Félix Gattari: “(...) cabe-nos redescobrir uma forma de ser do ser, antes, depois, aqui e em toda parte, sem ser, entretanto, idêntico a si mesmo; um ser processual, polifônico, singularizável, de texturas infinitamente complexificáveis, ao sabor das velocidades infinitas que animam suas composições virtuais.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 64).

As dialéticas do inesperado apreciam esses deslocamentos entre uma e outra realidade, ainda quando se mantenha num chão existencial conhecido. Uma fenomenologia do novo aprecia se anunciar num devir singular. A circunstância onde algo assim acontece costuma se reapresentar como algo diferente, na proporção desses reajustes da estrutura de pensamento com seu entorno.

Os trajetos compartilhados na historicidade, ao serem recuperados pela lógica partilhante em vias de ser e não-ser, constituem uma teia de significantes e significados em busca de algo mais. Rever e atualizar eventos cristalizados na malha intelectiva, pode contribuir para superar algo interditado antes de nascer.  

A polifonia referida pelo pensador se associa a esses ensaios para um si mesmo sendo outro. Um lugar onde suas referências possam exercitar aquilo até então desconsiderado, um refúgio para rascunhar versões para depois de amanhã.

Um contexto assim reivindica uma singularidade para se oferecer ao visar de escuta do filósofo clínico, ou seja, é necessário superar as cercas e muros das tipologias para enxergar além da obviedade de uma narrativa classificadora, de onde se acenam verdades recheadas de não-verdades, distorcendo a fenomenologia do partilhante em instantes de travessia.  

Com Félix Gattari: “Ao invés de se abandonar ao horizonte de morte capitalístico, uma política de produção de vida é possível, não para repeti-la tal como ela era há cem ou dois mil anos, mas para produzir formas mutantes segundo coordenadas atualmente imprevisíveis.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 87).

O sistema capitalista elabora prisões e amarras para sustentar suas armadilhas conceituais, ou seja, ao manter as pessoas reféns de uma lógica de consumo, encontra forças para sustentar a ideologia do deus dinheiro. Para tanto, encontra na classificação psiquiátrica e coadjuvantes, aliados para a normalidade dos psicofármacos.

Uma possibilidade de se produzir forças mutantes, como lembra o filósofo, tem a ver com essa dinâmica de consultório, onde, muitas vezes, a categoria lugar - integrante da circunstância - se modifica para acolher a singularidade em processo de transgressão para si mesma.    

A estrutura dessas modificações é de natureza plástica, dinâmica, onde se desenvolvem hipóteses, experimentos, novas rotas para um sujeito que se desloca com a imprevisibilidade de um devir. Por outro lado, na mesma direção, ao sustentar uma determinada circunstância existencial, a pessoa pode realizar suas buscas e derivações de acordo com uma proposta para manutenção do que possui.

O pensador nos auxilia: “Não apenas eu é um outro mas é uma multidão de modalidades de alteridade. (...) A heterogeneidade dos componentes – verbais, corporais, espaciais... – engendra uma heterogênese ontológica tanto mais vertiginosa na medida em que se enlaça atualmente com a proliferação de novos materiais, de novas representações eletrônicas, de uma retração de distâncias e de um alargamento dos pontos de vista.”  (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 121).

Os horizontes existenciais em cada pessoa costumam adormecer diante das insinuações e atrativos dos princípios de verdade. Assim, estar diante da tv, frequentar lugares da moda, acessar redes sociais, costuma significar uma cumplicidade com um processo de manipulação e controle. A vida no fundo da caverna de Platão atualiza suas metodologias para sustentar as ideologias do consumo.   

Nesse sentido, a categoria circunstância pode aparecer recheada de freios existenciais, limites artificiais, direcionamentos institucionais (como a burocracia excessiva por exemplo), escolas para ensinar como se portar, o que valorizar, para onde se dirigir, igrejas para orar ao deus dinheiro...

As indicações dessa natureza costumam se apresentar nas dinâmicas de consultório, as quais podem ajustar ou desconstruir essa realidade. As buscas costumam se alinhar para um lugar favorável ao devir partilhante. A circunstância da hora-sessão compõe um refúgio aos ensaios de vida nova, uma espécie de bolha onde se refugiam duas ou mais pessoas em busca de algo mais.

Um alargamento dos pontos de vista, como descreve Gattari, se relaciona com esses deslocamentos para visualizar e sentir as dinâmicas do novo território em vias de anúncio. As lógicas do espanto costumam acompanhar esses momentos de transgressão territorial, por onde se ensaiam possibilidades em forma de broto.

Ainda quando o partilhante se apresenta como desestrutura, manifestada em palavras, gestos, ideias, escolhas meteóricas e de aparente sem sentido, é possível identificar - pela via da interseção - algo que se prepara para nascer e ressignificar uma condição singular. Cabe ao filósofo clínico acolher, aprender os ritmos, a linguagem, a expressão em vias de ensaio para um si mesmo, num lugar onde a circunstância se modifica com a transformação daquilo que a sustenta.

Aquele abraço,

*hs  

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