Notas do consultório do filósofo VI
A circunstância partilhante é um
fundamento da atividade clínica do filósofo. Com ela e a partir dela, se
institui um lugar, uma base, um chão, onde se desdobram os eventos da
interseção terapêutica. Trata-se de uma localização existencial de natureza
singular. Seu ponto de partida costuma ser um assunto imediato, uma queixa
preliminar, um território subjetivo que vai se apresentando, de acordo com a
representação de mundo do partilhante.
Nesse pedaço de chão é possível
acolher e descrever a matéria-prima com a qual o filósofo irá trabalhar. Desprezar
essa etapa da investigação clínica é desajustar a própria metodologia, a qual
tem por pressuposto um estudo aprofundado e compartilhado dos eventos que integram
a singularidade, um pouco antes de uma visibilidade da sua estrutura de
pensamento e submodos.
Além de alcançar subsídios a
atividade clínica do filósofo, o partilhante, com seu discurso existencial, pode
reescrever os dados de sua história, atualizar memórias, acrescentar
ingredientes, atualizar sua estrutura de pensamento. As revisitas a historicidade,
tendo em vista sua circunstância, adicionam, subtraem, vivências de acordo com
as especificidades que vão se apresentando.
Essa aprendizagem compartilhada na
terapia, quando desprezada, desconstrói a metodologia, transformando sua
proposta de emancipação do sujeito em refém do que já existia. Talvez esse fato
ajude a entender a busca de alguns aprendizes, em transitar de uma abordagem
para outra, tentando agregar conhecimento, quando na verdade, estão
desvirtuando métodos contraditórios, excludentes. Algo que irão entender nas
suas tentativas (frustradas) de trabalhar em consultório.
Sei que a propaganda, os
discursos, a retórica de profissionais das ciências humanas convencem muita
gente, seja por sua titulação acadêmica, agendamentos de repetição, a
persistência em velhos mantras sobre normalidade x anormalidade, saúde x doença,
cura x loucura. Aliam-se a este estado de coisas a desinformação das pessoas,
que muitas vezes buscam no palavrório fácil de um saber-poder institucional, uma
proposta agradável a seus interesses.
Assim a circunstância de uma
pessoa reivindica um convívio continuado com seu endereço existencial em vias
de atualização - seja para mudar ou sustentar o próprio território -, experienciando
rotas numa investigação compartilhada.
Félix Guattari indica: “O que
importa, primordialmente, é o ímpeto rítmico mutante de uma temporalização
capaz de fazer unir os componentes heterogêneos de um novo edifício
existencial.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 32).
Com a recuperação dos fatos
registrados na memória, conhecida como historicidade, pela via da interseção
qualificada, o filósofo clínico poderá reconhecer os deslocamentos, as idas e
vindas, os ensaios, as modificações, a atualização discursiva existencial da
pessoa. Muitas vezes o partilhante irá testemunhar as bases de sustentação do
seu cotidiano desaparecer, sob forma de dúvidas, questionamentos, contradições,
desestrutura, incompletude discursiva, como evidências de uma estrada nova que
se insinua diante do olhar.
Os eventos dessa transição entre
uma e outra realidade, costumam abastecer a estrutura de pensamento do
partilhante com novas visões de sua circunstância, contribuindo para modificar sua
percepção sobre as coisas, pessoas, territórios existenciais em vias de desconstrução.
A travessia por essas pontes de
si mesmo pode reivindicar uma interseção diferenciada (consigo mesmo, pessoas,
lugares, tempos...) para sua continuidade, embora, algumas vezes, o partilhante
possa escolher regressar ao antigo endereço existencial, fazendo pequenos
ajustes para manter aquilo que tinha.
Em Félix Gattari: “(...) cabe-nos
redescobrir uma forma de ser do ser, antes, depois, aqui e em toda parte, sem
ser, entretanto, idêntico a si mesmo; um ser processual, polifônico,
singularizável, de texturas infinitamente complexificáveis, ao sabor das velocidades
infinitas que animam suas composições virtuais.” (Caosmose – um novo paradigma
estético, 2000. Pág. 64).
As dialéticas do inesperado
apreciam esses deslocamentos entre uma e outra realidade, ainda quando se mantenha
num chão existencial conhecido. Uma fenomenologia do novo aprecia se anunciar num
devir singular. A circunstância onde algo assim acontece costuma se
reapresentar como algo diferente, na proporção desses reajustes da estrutura de
pensamento com seu entorno.
Os trajetos compartilhados na
historicidade, ao serem recuperados pela lógica partilhante em vias de ser e
não-ser, constituem uma teia de significantes e significados em busca de algo
mais. Rever e atualizar eventos cristalizados na malha intelectiva, pode contribuir
para superar algo interditado antes de nascer.
A polifonia referida pelo
pensador se associa a esses ensaios para um si mesmo sendo outro. Um lugar onde
suas referências possam exercitar aquilo até então desconsiderado, um refúgio
para rascunhar versões para depois de amanhã.
Um contexto assim reivindica uma
singularidade para se oferecer ao visar de escuta do filósofo clínico, ou seja,
é necessário superar as cercas e muros das tipologias para enxergar além da
obviedade de uma narrativa classificadora, de onde se acenam verdades recheadas
de não-verdades, distorcendo a fenomenologia do partilhante em instantes de travessia.
Com Félix Gattari: “Ao invés de
se abandonar ao horizonte de morte capitalístico, uma política de produção de
vida é possível, não para repeti-la tal como ela era há cem ou dois mil anos,
mas para produzir formas mutantes segundo coordenadas atualmente
imprevisíveis.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 87).
O sistema capitalista elabora
prisões e amarras para sustentar suas armadilhas conceituais, ou seja, ao
manter as pessoas reféns de uma lógica de consumo, encontra forças para
sustentar a ideologia do deus dinheiro. Para tanto, encontra na classificação
psiquiátrica e coadjuvantes, aliados para a normalidade dos psicofármacos.
Uma possibilidade de se produzir
forças mutantes, como lembra o filósofo, tem a ver com essa dinâmica de
consultório, onde, muitas vezes, a categoria lugar - integrante da
circunstância - se modifica para acolher a singularidade em processo de
transgressão para si mesma.
A estrutura dessas modificações é
de natureza plástica, dinâmica, onde se desenvolvem hipóteses, experimentos,
novas rotas para um sujeito que se desloca com a imprevisibilidade de um devir.
Por outro lado, na mesma direção, ao sustentar uma determinada circunstância
existencial, a pessoa pode realizar suas buscas e derivações de acordo com uma
proposta para manutenção do que possui.
O pensador nos auxilia: “Não
apenas eu é um outro mas é uma multidão de modalidades de alteridade. (...) A
heterogeneidade dos componentes – verbais, corporais, espaciais... – engendra
uma heterogênese ontológica tanto mais vertiginosa na medida em que se enlaça
atualmente com a proliferação de novos materiais, de novas representações
eletrônicas, de uma retração de distâncias e de um alargamento dos pontos de
vista.” (Caosmose – um novo paradigma
estético, 2000. Pág. 121).
Os horizontes existenciais em
cada pessoa costumam adormecer diante das insinuações e atrativos dos
princípios de verdade. Assim, estar diante da tv, frequentar lugares da moda, acessar
redes sociais, costuma significar uma cumplicidade com um processo de manipulação
e controle. A vida no fundo da caverna de Platão atualiza suas metodologias
para sustentar as ideologias do consumo.
Nesse sentido, a categoria
circunstância pode aparecer recheada de freios existenciais, limites
artificiais, direcionamentos institucionais (como a burocracia excessiva por
exemplo), escolas para ensinar como se portar, o que valorizar, para onde se
dirigir, igrejas para orar ao deus dinheiro...
As indicações dessa natureza costumam
se apresentar nas dinâmicas de consultório, as quais podem ajustar ou
desconstruir essa realidade. As buscas costumam se alinhar para um lugar
favorável ao devir partilhante. A circunstância da hora-sessão compõe um
refúgio aos ensaios de vida nova, uma espécie de bolha onde se refugiam duas ou
mais pessoas em busca de algo mais.
Um alargamento dos pontos de
vista, como descreve Gattari, se relaciona com esses deslocamentos para
visualizar e sentir as dinâmicas do novo território em vias de anúncio. As
lógicas do espanto costumam acompanhar esses momentos de transgressão
territorial, por onde se ensaiam possibilidades em forma de broto.
Ainda quando o partilhante se
apresenta como desestrutura, manifestada em palavras, gestos, ideias, escolhas
meteóricas e de aparente sem sentido, é possível identificar - pela via da
interseção - algo que se prepara para nascer e ressignificar uma condição
singular. Cabe ao filósofo clínico acolher, aprender os ritmos, a linguagem, a
expressão em vias de ensaio para um si mesmo, num lugar onde a circunstância se
modifica com a transformação daquilo que a sustenta.
Aquele abraço,
*hs
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