O filme: "Edward Mãos de Tesoura" é
de 1990, com direção de Tim Burton. Uma produção dos EUA e duração de 1h45min.
Roteiro de Caroline Thompson e Tim Burton. No elenco: Johnny Depp, Winona Ryder,
dentre outros.
Sua reflexão pode ser abordada de
múltiplos pontos de vista, tantos quantos forem os envolvidos com sua análise e
sintonia. A inspiração para o roteiro vem da adolescência de Tim Burton, ao recuperar
ilustrações sobre sua sensação de isolamento e dificuldades em se relacionar
com os moradores de sua cidade.
A partir daí, se inicia o
trabalho de Caroline Thompson e Tim Burton, para desenvolver esse rascunho
preliminar. É significativo lembrar que o esboço se apresenta na percepção de
um jovem extraordinário, o qual não consegue se enturmar com o gesso da vida normal.
Quase uma aula de enraizamento, reconstrução, deslocamento longo, para
atualizar uma autopercepção de Tim Burton.
As cenas iniciais destacam uma
aptidão - borogodó - de Peg, vendedora de Avon, a qual, ao encontrar
Edward morando sozinho num castelo abandonado, manifesta uma plasticidade
peculiar, mantendo com ele uma interseção incomum de acolhimento e cuidados com
sua expressividade, sem julgar, classificar ou tipologizar.
Um ponto de interesse é a
afirmação de Edward (raro momento de fala do personagem), ao ser descoberto num
canto da sala, em meio as sombras, de que “estava incompleto”, ou seja, por ter
tesouras no lugar das mãos, deixava entrever uma sensação de abandono, desmerecimento.
A ideia de exclusão, tão comum,
como efeito colateral das lógicas de consumo, onde pessoas se transformam em
objeto de desejo, para consumir e ser consumido pelo lucro a qualquer preço,
sustenta a proliferação de diagnósticos (ideologias de saber-poder) para
enquadrar o fenômeno humano multifacetado, o qual, a cada tentativa de
aprisionamento interpretativo, se desdobra para reapresentar-se noutras formas
de existir (singularidade). Haja síndrome, espectro, transtorno, para cristalizar aquilo que se multiplica a cada olhar. Questão de método!
Após as críticas e desconfianças
iniciais, Edward é aceito pelos moradores, pois tem algo que lhes interessa,
isto é, oferece gratuitamente suas habilidades para elaborar cortes de cabelo
as mulheres do bairro, arruma seus quintais, tosa seus cachorros. Decora o
bairro inteiro com sua estética, transformando a paisagem, enriquecendo ruas e
jardins com sua expressão, tem olhos para a beleza e harmonia em todas as
coisas.
Edward, ao não ser - exatamente -
humano ou robô, inclui um personagem contraditório com as lógicas de
entendimento da vida como algo linear, recheadas de fundamentos para direcionamento
comportamental, onde protocolos, laudos, diagnósticos, cumprem um papel de
manutenção da ilusão de controle as verdades de laboratório.
Existem muitos desvãos no filme
associados ao tema principal, como o fato de Edward sentar-se na calçada ao
lado de um cão, ao qual oferece seus serviços de estética, fazendo o que sabia
fazer, compartilhar cuidado e carinho. Sem esquecer a maldade no meio do
caminho, numa cena em que se tenta classificar o personagem como uma
ameaça - por ser diferente -, forjando situações onde sua inocência e
ingenuidade são reféns de alguns membros da comunidade.
O filme, no que se refere a
Edward, lembra a maestria de Chaplin, pois o personagem quase não fala, se
expressando em atitudes com as pessoas e o mundo ao seu redor. Nesse sentido lembra o conceito de discurso
existencial em Filosofia Clínica, superando a ilusão de que uma retórica e boa apresentação
pessoal podem bastar para uma leitura confiável, reivindicando um convívio
continuado para se ter uma aproximação de qualidade entre o que se diz e o que
se faz.
Aquele abraço,
*hs
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