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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 61*


                                                  Estranhos 

O conceito de singularidade integra a nova abordagem clínica da Filosofia. Tem como fundamento e ponto de partida investigativo, uma redução fenomenológica e a busca por interseção com o sujeito partilhante. Isso por si só, já deveria bastar para demonstrar seu distanciamento das metodologias comuns, as quais tem por base uma hermenêutica interpretativa, tipológica, classificadora, universal.

Um ser estranho se apresenta, a cada momento, desafiando as lógicas da definição tipológica. Essas intervenções de protocolo para tratar gente desarrazoada, encontra aquilo que elas mesmas colocam no outro sob seus cuidados. Uma tez de indefinição precursora, própria da dialética humana em vias de não-ser, reivindica um algo mais que essas abordagens não têm. Como realizar uma travessia singular - entre um antes e um depois - superando a vertigem desses instantes, com uma camisa de força interpretativa?   

Talvez pensadores como: Arthur Schopenhauer, Merleau-Ponty e Wittgenstein, pudessem auxiliar o entendimento desse viés desconstrutivo das bases que se tinha, até então. No entanto, quem está disposto a renunciar àquilo que pagou caro para aprender? Como se proteger da teia ideológica das sanções de conselhos e organismos profissionais, os quais limitam, direcionam, autorizam e desautorizam estudos, olhares, sentires, percepções daquilo que ultrapassa as fronteiras do dizível?

Essa questão é antiga, um clássico, na verdade!

Fritjof Capra, ao lembrar Werner Heisenberg: “Meu interesse pela mudança da nova visão de mundo na ciência e na sociedade foi despertado quando eu, ainda um jovem estudante de física de dezenove anos, li Física e Filosofia de Werner Heisenberg. (...) Onde descreve e analisa o singular dilema enfrentado pelos físicos (...) quando começaram a explorar a estrutura dos átomos e a natureza dos fenômenos subatômicos. Essa exploração os colocou em contato com uma estranha e inesperada realidade, que estilhaçou os alicerces da sua visão de mundo e os forçou a pensar de maneira inteiramente nova. (...) Em suas tentativas de compreender a natureza dos fenômenos subatômicos, os cientistas tornaram-se dolorosamente cientes de que seus conceitos básicos, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para a descrição dessa nova realidade.” (Sabedoria Incomum. Pág. 13.)

Em Filosofia Clínica é comum a relação com o incomum. O conceito de singularidade e o novo constructo metodológico, permitem acolher, transitar, interagir, e compreender o sujeito partilhante em seu próprio território, reivindicando do filósofo uma expressividade aprendiz, onde terá subsídios para conhecer uma estrutura de pensamento em momentos de anúncio.  

Nesse sentido, o filósofo terá de exercitar-se em múltiplas expressividades, a partir de seu encontro com o inédito de cada atendimento. Sem perder de vista seu papel existencial cuidador e seu planejamento dinâmico, encontra uma referência nesse ângulo de visão - algumas vezes escorregadio -, para compreender essa escuta que se desloca para transcrever a epistemologia do estranho.   

Como lidar com essa tez de indeterminação, desrazão, singularidade, sem perder-se no outro lado da relação clínica?

Talvez Capra nos auxilie: “O grande feito de Heisenberg foi expressar essas limitações dos conceitos clássicos de uma forma matematicamente precisa - que hoje leva seu nome - e é conhecida como ‘princípio de indeterminação’. (...) O princípio de indeterminação mede o grau em que o cientista influencia as propriedades dos objetos observados pelo próprio processo de mensuração.”   (Sabedoria incomum, pág. 15.)

Ao pensarmos com esse subsídio teórico-prático, aplicado a nossa lógica aprendiz, se pode entender o movimento intelectivo existencial do filósofo clínico, ao deslocar-se em recíproca de inversão e inversão, na relação terapêutica. Com o cuidado e a atenção necessários para encontrar e compreender a pessoa diante de si mesma sendo outra.  

Uma redução fenomenológica auxilia o processo de acolhimento da matéria-prima com a qual o filósofo irá trabalhar, com um mínimo de agendamentos, num território em vias de investigação compartilhada. A epoché também vai ajudar na percepção das intervenções clínicas, sua natureza e alcance na malha intelectiva do partilhante, bem assim as elaborações na estrutura de pensamento do filósofo, ao ser agendado pelas palavras e discurso existencial com os quais trabalha.

Assim é possível estar atento para uma realidade mutante, a qual assume, na provisoriedade do instante precursor, uma tez de invisibilidade, a qual reivindica uma abordagem cúmplice para se mostrar e insinuar alguma forma de tradução ao filósofo clínico. Ao manter uma interseção com base em agendamentos mínimos, dado padrão, literalidade, atualização discursiva, e outros, o filósofo pode construir uma abordagem específica para cada pessoa em atendimento, bem assim, as modificações que vão acontecendo em sua estrutura pelas vivências da hora-sessão.

Fritjof Capra recorda ‘O ponto de mutação’: Um paradigma, para mim, significaria a totalidade de pensamentos, percepções e valores que formam uma determinada visão de realidade, uma visão que é a base do modo como uma sociedade se organiza.” (Sabedoria incomum, pág. 17.)

A mudança de paradigma pressupõe pessoas (pesquisadores) diferenciados, precursores, pensadores desacostumados com uma zona de conforto em sua área de trabalho. Noutras palavras, reivindica uma inquietude curiosa e uma aptidão para navegar em mar aberto, com os riscos que essa atitude oferece, a insegurança de adentrar em águas desconhecidas, conviver e descrever suas nuances, desvios narrativos, contradições, em busca de um eixo significativo de expressão onde outros encontravam somente desatino ou desrazão.

As mudanças resultantes na vida de cada pessoa, a partir de uma terapia, costuma modificar seu meio social. Noutras palavras, uma transformação com base na estrutura de pensamento, impactando a representação de mundo de cada um, soa algo revolucionário, capaz de agendar e imprimir transformações - inicialmente invisíveis - interferindo na realidade das ruas. Depois disso, na cumplicidade da categoria tempo, os princípios de verdades estabelecem regras e normas para abraçar e cristalizar as novas ideias em ciência normal.

Aquele abraço,

hs

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