Uma pessoa, tendo como referência seu ângulo de visão, vislumbra e significa o mundo todo. Esses atributos surgem como novidade em meio a diagnósticos, interpretações, tipologias, distorções, recuperando a constituição e o devir existencial de cada sujeito, como um fundamento às tratativas de cuidado e atenção à vida.
A noção de estrutura de
pensamento amplia o horizonte do fenômeno humano, transgredindo as lógicas da
razão e da emoção. Pensando como uma malha intelectiva em movimento ou um mapa
descritivo, com suas cidades, bairros, ruas e avenidas, casas, sótãos, porões,
assim se manifesta esse endereço subjetivo, recheado de surpresas, além dos
limites de razão x emoção.
Um lugar em que as
intencionalidades atuam e são efetuados os registros de sua vida são: sua
representação de mundo, seus pensamentos, suas sensações, verdades, buscas e
seus valores, constituindo um diário em que são registrados os eventos – como ingredientes
de um discurso existencial passado, presente e futuro. Podem se apresentar como
completude ou incompletude, raciocínio estruturado ou desestruturado,
acontecimentos precursores, em uma fonte de inspiração nem sempre linear.
Uma das atividades prioritárias
do filósofo clínico é estudar as condições e os meios para qualificar a
interseção com o devir partilhante. Nesse território em movimento ele acolhe,
descarta, adiciona, subtrai, multiplica, pois toca ao filósofo ajustar seu
papel existencial, de acordo com os desdobramentos e as necessidades da
atividade clínica.
Talvez a percepção mais
interessante, na atividade clínica do filósofo, sejam os relatos da história de
vida do seu partilhante, o qual, ao compartilhar-se na terapia, lembra um autor
descrevendo, com suas palavras, a porção de infinito que lhe cabe. Assim, não é
rara a constatação de que a pessoa possa estar vivenciando algo ainda sem nome,
pelas especificidades de sua condição única, num projeto existencial irrepetível.
É compreensível que algo, até então fora da lei, ao ser compartilhado, seja
página virada ou matéria-prima para reinvenção do seu autor.
Em uma cultura em vias de
tornar-se, um forasteiro pode significar-se de acordo com sua melhor
expressividade, tratando de proteger-se ao olhar, nem sempre cúmplice, dos
princípios de verdade.
Nesse sentido, a pessoa poderá
desenvolver linguagens, estratégias, refúgios próprios, e escolher onde, quando
e com quem irá manifestar sua condição subjetiva.
*Hélio Strassburger in “Filosofia
Clínica – Anotações e reflexões de um consultório”. Ed. Sulina/Porto
Alegre/RS. 2021.
**Instagram: @helio_strassburger
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