Um dos fundamentos da atividade clínica do filósofo é a palavra. Palavra idealizada, pronunciada, escrita, refletida, silenciada. O esboço preliminar do partilhante, quando chega ao consultório do filósofo, se apresenta em múltiplas possibilidades de expressão. Não é raro compartilhar um raciocínio desestruturado, um discurso incompleto, recheado de figuras de linguagem, as quais fazem sentido tão somente ao seu próprio dicionário.
Ao filósofo clínico compete
aprender com a singularidade diante de si, com sua expressividade,
significados, representação de mundo, as narrativas e demais movimentos de sua
malha intelectiva.
Carlos Nejar contribui: “(...)
e a imaginação produz frutos novos e imprevisíveis, sem lutar consigo mesma.
Podemos ver o mundo de um navio ou de um barril, através de seus buracos. Assim
pensavam Platão, Rabelais (...) e eu vejo o mundo através de minhas palavras”
(Carta aos loucos, 2008).
Nesse sentido, cabe ao filósofo
clínico decodificar os conteúdos, a semiose por onde se oferecem, as
axiologias, a estruturação subjetiva. Observar, acolher, compreender, dialogar
com a subjetividade partilhante em ação, suas inéditas descrições, as
desconstruções e reconstruções. Nesse espaço privilegiado de construções
compartilhadas, a atividade clínica do filósofo se desenvolve.
Os atendimentos em consultório,
hospitais psiquiátricos, consultorias e a releitura teórica qualificam a
compreensão do conceito de singularidade, assim como os interesses sociais
(família, mundo do trabalho, indústria farmacêutica) envolvidos na manutenção
da fábrica de desatinados, tendo como base a instituição jurídica do manicômio.
Fonte de aprendizado permanente, especialmente do que não fazer comas pessoas.
Em Carlos Nejar: “Oriondo,
pescador, tinha a palavra como rede e sua loucura era conversar com os peixes.
Não seria a loucura a única forma de relacionamento com o universo?” (Carta aos
loucos, 2008).
Para entender o fenômeno humano
conhecido pelo genérico: loucura, não basta consultar os manuais
diagnósticos, visitar presídios, hospitais psiquiátricos, é necessário
desconstruir a trama ideológica de onde brota e se sustenta essa definição. Descrever
os papéis das instituições na sociedade, denunciar a serviço de que verdade se
constituem e proliferam, reciclando práticas de exclusão, controle, submissão.
A compreensão do discurso
existencial partilhante reivindica mais que fórmulas prontas, receitas, classificação
diagnóstica. Pressupõe a convivência do filósofo clínico com sua realidade, em
busca de compreender seus instantes de crise e ressignificação, acessando, pela
via compartilhada, o idioma pelo qual traduz sua desestruturação em travessia.
*Hélio Strassburger in “Filosofia
Clínica – Anotações e reflexões de um consultório”. Ed. Sulina/Porto
Alegre/RS. 2021.
**No Instagram: @helio_strassburger
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