A relação estapafúrdia e de aparente sem nexo entre abstração e a objetivação do real constitui aspecto significativo em busca de tradução para as linguagens da loucura. Na pessoa alterada, essa perspectiva é naturalmente imprecisa. Descortina territórios às desconstruções e reestruturações, antes mesmo de serem veiculadas ao mundo compartilhável da sua aldeia existencial.
Fonte inesgotável de surpresas
refugiada em evasivas e desvios. Longe de ser faceta desligada da realidade,
possui íntima descontinuidade com as coisas inteligíveis. Para domesticar as
transgressões ao contexto normal, a internação involuntária surge recheada de
fundamentação teórica. A loucura, no entanto, permanece como realidade calada.
A prática médica reconhecida, sem saber, favorece a euforia criativa ao alargar
horizontes improváveis da pessoa com suas drogas.
Contraponto a referir
significados de plasticidade e reciprocidade fora do comum. Tudo isso, considerado incapacidade ou
inaptidão, a partir de agora, desdobra-se em sinais para além da palavra
silenciada.
Ao sujeito assim estruturado, os
convívios podem ficar estranhos. A família, o alienista, o poder judiciário e a
igreja não conseguem entender o querer dizer das novas línguas. A subjetividade
permanece irrenunciável e aparece em abrigos de introspecção.
Fenômeno complexo e de difícil
entendimento, se distanciado das representações de cada um. A estrutura
delirante, ao surgir camuflada, insinua poéticas de refúgio.
No discurso da historicidade,
muitas vezes fragmentado e em vias de incompletude, é possível, ao entrelaçar
lacunas e vazios, realizar um percurso aprendiz por esses dialetos da desrazão.
Influências do mundo sensível podem ser pedra de toque às recordações mais
antigas.
Gaston Bachelard ensina que: “As
ilusões possuem uma importância decisiva, porque a vida do espírito é ilusão
antes de ser pensamento”. (A intuição do instante, 2007).
Nem sempre é possível conversar
com a subjetividade delirante. Seus rituais de intimidade costumam estar
protegidos aos acessos da versão normal. Nuança indefinida a multiplicar-se nos
padrões do acaso. Um pacto estrangeiro insinua-se na desordem dos instantes. A
pessoa procura tornar-se perspectiva acreditável aos contextos de convívio com
sua vastidão interior. Como as palavras podem ser uma semiose sem sentido,
também pode encontrar recursos na fonte renovada das crises.
Na reciprocidade com o mundo
ordinário, as contradições podem descobrir os trânsitos das lógicas da
insensatez pelas atmosferas da irrealidade. Versão fora de série a integrar a
natureza das reinvenções. Intercâmbio animado na inconformidade de ser apenas
uma coisa ou outra. Sutil desequilíbrio para pensar o impensável.
Heidegger diz assim: “(...) ser o
dizer projectante aquele que, na preparação do dizível, faz ao mesmo tempo
advir, enquanto tal, o indizível ao mundo”. (A caminho da linguagem, 2004).
Na parcialidade dos acontecimentos,
atalhos de imperfeição desnudam exílios, onde personagens fantásticos percorrem
subúrbios clandestinos à verdade esperada.
Manuscritos, até então
impensáveis, demonstram fluência nas entrelinhas de incompreensão. Apreciam
convívios intercalados nas fronteiras com a perplexidade. Alegorias
indescritíveis atropelam as formas clássicas do dizer. Um apelo superlativo
insinua algo mais na estrutura maldita pelas palavras.
O partilhante internado e sem
poder compartilhar seu ser forasteiro, se esquiva nalgum recanto extraordinário
de si mesmo. In-tradução a distanciá-lo dos outros. Subjetividade a se deslocar
em um tempo sem amanhã. A contradição, longe de excluir, pode insinuar outras
possibilidades de viver diferente.
Schopenhauer indica: “(...) ter encontrado
em manicômios sujeitos com inegáveis indícios de disposições geniais que,
devido à raridade proporcional da loucura, mais até que o gênio, não podem ser
atribuídas ao acaso, mas justamente confirmam o que sempre se observou e
explicou – que o gênio de algum lado faz fronteira com a loucura, sim, com
facilidade a ultrapassa”. (O mundo como vontade e representação, 2001).
No dizer interdito pelo tumulto
interior, signos estapafúrdios descrevem novas ideias. Ponto de vista
impensável não fora as minúcias dos achados de singularidade. A existência
assim disposta se esparrama na embriaguez mal disfarçada da ilusão. Ideias
complexas inspiram a vertigem sensorial a desestabilizar o terreno sob seus
pés.
A pessoa, antes dessa travessia
para a introspecção, ainda tenta traduzir suas visões e escutas. No entanto, as
palavras e atitudes soam como ameaça inesperada. Na imensidão desses espaços de
aparente vazio, a vida também acontece. A multiplicidade dos labirintos
reivindica interseção entre a realidade empírica e abstrações. Na inquietude
das crises um estranho silêncio anuncia desfechos por território novo.
O saber médico da tradição não
sabe a extensão do que ignora.
Tzvetan Todorov reflete: “(...) o
maravilhoso corresponde a um fenômeno desconhecido, jamais visto, por vir:
logo, a um futuro; no estranho, em compensação, o inexplicável é reduzido a
fatos conhecidos, a uma experiência prévia, e daí ao passado”. (Poética da
prosa, 2003).
Eis que surge esse lugar alheio
em cada um. Comoção passageira por onde se esboça o desconcerto originário a
denunciar a natureza transformadora.
Novos paradigmas apreciam surgir
nas lógicas incompreendidas.
Na voz intercalada dos
presságios, insinuam-se devaneios de ficção. Versão de novidade entrevista nos
exílios de singularidade. O louco ao perseguir e tentar descrever outras
verdades mantém, para com o mundo normal, uma recusa contraditória.
*Hélio Strassburger in “Filosofia
Clínica – diálogos com a lógica dos excessos”. Ed. E-papers/RJ. 2009.
**Esses escritos têm sua fonte de
inspiração nos atendimentos de um Filósofo Clínico em clínicas e hospitais
psiquiátricos brasileiros.
***Até a publicação dessa obra, o
tema: 'autogenia' era apenas mais um tópico aos estudos em Filosofia Clínica.
Depois...
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