"Minha alegria permanece impessoal e sem brilho, enquanto dela não participares como confidente – ao menos por intermédio de alguma anotação íntima e sincera sobre esta alegria em um livro que te pertence.”
Rainer Maria Rilke
Existe um ponto de frágil
equilíbrio nas relações entre as pessoas. Alianças para aproximação com o
extraordinário da condição humana. Pelas rotas de acesso, a representação de
cada um, vastos e inexplorados continentes podem mostrar-se.
A partir dessas circunstâncias é
possível localizar as crises, lá onde elas nascem e se estruturam, evidenciando
singularidades. Uma relação dialética com seus outros. Encontros com a obra
aberta pela interseção, revelando desconstruções possíveis à terapia.
Nos exames categoriais, lugar
onde os sujeitos vão descrevendo-se à investigação do filósofo clínico, é
também um endereço para identificar as matérias-primas ao contraveneno às
questões últimas.
Vestígios dessa raridade
existencial se antecipam nos primeiros encontros, através do sofrer em pedidos
de ajuda. Percepções em desconformidade com qualquer procura. Escutas, olhares
e sentires em aprendizagem com os ritmos e sons oferecidos por essa linguagem
única em formas de vir-a-ser.
O ser terapeuta interage
esboçando trajetos pela intimidade da pessoa partilhante. Mergulha em águas
desconhecidas, onde a abordagem metodológica é companhia para decifrar o
desconhecido em propensões de se mostrar.
Pela via da interseção,
peculiares experimentações se oferecem ao papel existencial do ser terapeuta.
Fenômenos a constituírem mensagens em busca de tradução.
Existem desafios, riscos e
limites para se manter reciprocidades com o mundo do outro. Um dos mais
significativos é por desconhecimento da própria estruturação do clínico quando
no dia a dia do consultório. Desacostumado a percorrer espaços próprios, pode
encontrar dificuldades nos trajetos de ir e vir da relação terapêutica. Uma
despreocupação atenta se mostra como ingrediente sofisticado ao tratamento.
Através dela pode-se viabilizar uma melhor suspensão dos juízos na pessoa do
filósofo. Pré-requisito ao entendimento da condição do ser outro.
Um ato de amor se realiza pela
magia da interseção. Aqui a confiabilidade e abertura pessoal constituem
aliados poderosos para sustentá-la. É nos sobrevoos pelas contradições do
partilhante onde o assunto último e as possibilidades para suas desconstruções
se mostram. Privilegiado acesso às sombras do existir. Efêmeros encantamentos
se dão por essas aproximações em perspectiva com o desconhecido. A partir deles
pode-se encontrar melhores ângulos à reciprocidade, onde até os sonhos podem
ganhar vida pelos experimentos da terapia.
As traduções de um indizível a
romper com seus limites pode se apresentar na forma da objetividade clínica.
Propondo rupturas com as estruturações de onde tirava forças para limitar as
possibilidades de melhor viver. O respeito à literalidade da narrativa pode
tornar possível uma compreensão para com as intencionalidades do sujeito em
buscas de encontrar-se.
Tais eventos são difíceis de
descrever. Nem sempre possuem intimidade com o melhor relato, costumam se
oferecer mais à vontade pelas formas estéticas, compondo os aspectos
não-verbais desses encontros. Uma espécie de expansão ao eixo tênue da
normalidade, lá onde ela busca significar seu existir. Uma espécie de armadilha
conceitual em formas de paixão dominante pode atualizar o papel existencial do
ser terapeuta. Relações embriagadas de aparentes incongruências repercutem, na
pessoa do filósofo clínico, contextos somente encontrados no outro lado da
interseção.
Essas abordagens podem antecipar
os acessos para com as expressividades do partilhante. Formas de aparente
loucura, onde não mais importa ao sujeito justificar-se socialmente. Lá onde
anteriormente buscava efetivar-se em ser normal.
A partir da historicidade, os
saltos temporais, devaneios e maquiagens da hora, podem esboçar contradições a
serem trabalhadas nos locais onde adquirem significados. Originais
estruturações revelam-se distantes das tipologias em seu espírito de rebanho
conceitual.
Indizíveis aspectos mantêm as
relações assim constituídas. Facetas escondidas pelas máscaras do convívio
social podem ressignificar trajetórias e impulsionar mudanças a partir do espaço
de vida da terapia.
No instante dessas aproximações
com o sujeito partilhante, pelo caminho a ser elaborado pela interseção, o
filósofo clínico deixa-se enredar, momentaneamente, na teia sutil das
estruturas do outro, em movimentação compartilhada por seus territórios.
Há poesia em todo trajeto. Lendas
e sonhos são os frutos de uma ingenuidade em ritmos de desvendar-se na pessoa,
ora evidenciados pela localização compartilhada das origens do sofrer.
Narrativas e ressignificações se oferecem ao sujeito nessa dialética do
existir. De sessão em sessão as reelaborações são oferecidas pela interseção
clínica. Via de acesso ao fenômeno, muitas vezes marginal, espécie clandestina
em território próprio, insinua-se por meio das contradições e crises. Essas
temíveis aliadas, em antecipar novos horizontes.
Na identificação das antíteses
estruturais as ressignificações podem se constituir em frestas abertas à
qualificação clínica, permitindo um livre trânsito desses conteúdos pela
geografia interna do sujeito, acostumando-o com a ideia desse diferente a
brotar de si mesmo.
As sínteses em terapia podem
ocorrer por uma transformação inequívoca, atualizada pelos impactos causados na
pessoa do filósofo clínico, uma espécie de ‘fio condutor’ dessas relações com o
partilhante em vias de experimentação. As repercussões no ser do terapeuta,
desses trânsitos pelas absurdidades do outro, constitui um aperfeiçoamento ao
indeterminado da interseção e qualificação aos tratamentos. A estruturação do
clínico pode integrar a dialética da pessoa.
O filósofo clínico empresta,
muitas vezes, seu ser ao não-ser da interseção. Esse aspecto costuma ser uma
referência ao tratamento. Lugar onde a perspectiva do outro pode efetivar-se em
ensaios, sem perder de vista as próprias buscas. Essas autogenias buscam viver
melhor. Provisórias formas de irracionalidade possuem um caráter mutante, em
busca de estabelecer padrões e identificar alternativas para superação dessas
etapas.
Linguagem de aparência incompreensível
são apropriadas pela reciprocidade do filósofo clínico, o qual não busca
normalizar seu cúmplice de caminhada. Aon contrário, estabelece com ele os
melhores ritmos em direção à sua originalidade, investigando e compartilhando
formas de desconstrução, às vezes, tão próximas de si.
Existe um fascínio nessas
descobertas. Possibilidades para um melhor viver vão se mostrando, revelando
singularidades por trás de uma anterior dedicação em normalizar-se.
Significados somente encontrados na subjetividade do outro em devir.
Os riscos assumidos nessa
relação, pelo filósofo clínico, constituem parte insubstituível do ser
terapeuta. Quando, encaminha-se em direção a esses universos, a priori,
não sabe o que irá encontrar do outro lado da interseção. Sem perder a
perspectiva clínica, sequer cogita como fará para retornar ao seu eixo,
deixando-se impregnar pelo tempero das incongruências dessa visita ao outro da
relação.
A maiêutica atualiza-se quando
ocorre um desenvolvimento em direção a melhor singularidade. A matéria-prima
para existir melhor costuma ser encontrada nas próprias ruínas, sob os
escombros das desconstruções. Etapas de um reconstruir efetivado a partir desse
lugar com aparência de terra arrasada.
Depois disso, as pessoas podem
distanciar-se existencialmente das suas anteriores relações. Trata-se de
desalojar a poeira dos armários, arrumar gavetas, modificar a disposição dos
móveis e selecionar conteúdos guardados, verificando se existe possibilidade em
manter algo das antigas conformações.
A vida exercita-se através das
pessoas. Universal magia em desdobramentos de existir singular. Atualiza-se e renova forças com a natureza
desses encontros. Uma dialética em busca por viver melhor.
*Hélio Strassburger in “Filosofia Clínica – Poéticas da singularidade”. Ed. E-papers/RJ. 2007.
**Instagram: @helio_strassburger
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