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Bom dia! Descrituras é um espaço artesanal para alguns esboços de minha autoria. Boa leitura!

historicidade das publicações

terça-feira, 25 de julho de 2023

Papel existencial cuidador*

Um aspecto significativo do papel existencial cuidador, ao acolher o partilhante, diz respeito ao padrão autogênico em que esse se encontra, ou seja, qual a língua por onde se expressa, sua semiose preferencial, seus deslocamentos internos, sua circunstância pessoal.

A observação cuidadosa dessa referência inicial costuma conceder, ao filósofo clínico, uma via de acesso aos ingredientes subjetivos, para que ele possa elaborar os exames categoriais e constituir a base da terapia. Nessa prática aprendiz destacam-se os termos agendados no intelecto, a estruturação de raciocínio, o discurso completo ou incompleto, a semiose, a interseção; assim é possível acessar indícios preliminares da malha intelectiva do partilhante, em busca de qualificar a compreensão das suas narrativas.

Fernando Pessoa diz assim: “(...) ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que fala. (...) os gênios inovadores foram sempre, quando não tratados como doidos (Verlaine, Mallarmé), tratados como parvos (Wordsworth, Keats, Rossetti) ou como, além de parvos, inimigos da pátria, da religião e da moralidade como aconteceu com Antero de Quental.” (Alguma Prosa, 1990).  

Estabelecer contato com outra pessoa em clínica reivindica um pressuposto fundamental: a competência do filósofo em realizar uma recíproca de inversão de qualidade, ou seja, visitar o mundo do partilhante com um misto de redução fenomenológica, de analítica da linguagem, de hermenêutica compreensiva, de epistemologia, do papel existencial, comprometido com a aprendizagem dessa singularidade se apresentando numa versão singular.

Veja-se o caso dos hospitais psiquiátricos, onde a regra é a internação e medicação de pessoas, por não conseguirem se fazer entender ao olhar desprovido de método para acolher suas crises de ressignificação. Assim se apresenta uma lacuna na formação psiquiátrica, em que os alunos são ensinados a reverenciar o deus farmácia, apresentado com pompa e circunstância como o recurso dos recursos.

Nesses casos existe uma incapacidade familiar, de amigos e médicos de compreender os deslocamentos que a pessoa vivencia, muitas vezes modificando a forma e o conteúdo de sua expressividade, com desdobramentos incompreendidos em seu cotidiano. Questão de método!

Fernando Pessoa contribui: “Como pode uma época compreender ou apreciar aquilo que, por definição, a supera?” (Alguma Prosa, 1990).

Sob muitos aspectos essas lógicas propõem tratar e normalizar o desconhecido, reafirmando a manutenção de suas referências. Nesse sentido, tudo aquilo que se apresenta numa língua diferente costuma ser desmerecido ou catalogado em alguma patologia. Aqui se oferece, como contraveneno, uma hermenêutica filosófica, por onde o filósofo clínico apresenta critérios para compreender o outro, a partir de seu jardim existencial.

*Hélio Strassburger in “Filosofia Clínica – Anotações e reflexões de um consultório”. Ed. Sulina/Porto Alegre/RS. 2021.  

**Instagram: @helio_strassburger

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Mozarts e Saliéris*

 

Existe um tema quase invisível, talvez por seu teor ideológico: o convívio professor-aluno (destaque), sobre o qual ofereço algumas reflexões.  

Numa relação conturbada, muitos mestres, no convívio com seus alunos de maior competência, buscam desmerecê-los. Em uma sucessão de atitudes contraditórias: algumas vezes hostis, outras elogiosas, propõe alijar o aluno de algo que lhe pertence.

O crime deste? Ter habilidades e talentos singulares na disciplina do professor, muitas vezes até ultrapassando os limites dos seus ensinamentos.

A história nos ajuda a recordar o teor clássico do tema. Na premiada peça de teatro Amadeus de Peter Shaffer (1979), inspiradora do filme Amadeus de Milos Forman (1984), ganhador de vários prêmios, vê-se retratado um período da vida e a convivência de Antonio Saliéri e Wolfgang Amadeus Mozart.

No filme, aparece um Saliéri, compositor italiano integrante da corte de José II da Áustria, retratado como um mestre competente. Professor de gênios como: Beethoven, Hummel, Liszt, Schubert. No entanto, existe ao menos uma coincidência nas versões do teatro e cinema: ambos revelam um professor Saliéri ressentido pela obra de Mozart. Um homem ao mesmo tempo invejoso e apreciador de sua genialidade.

O roteiro faz referência ao Saliéri copista de Mozart, algo que conseguia com escasso sucesso. Mozart parecia despreocupar-se com a triste, sorrateira e decadente figura de seu mestre, o qual vivia à sua sombra, como um arremedo das obras daquele. Há notícias de que Saliéri teria envenenado Mozart.

Nos dias de hoje, o fenômeno se repete em muitas escolas, faculdades, institutos, onde professores, ao constatar o aparecimento de algum virtuose em sua área, tratam sutilmente de sufocá-lo, desviar seus interesses à guisa de orientação, sujeitá-lo aos objetivos da instituição a qual representa ou usar o trabalho do ex-aluno sem qualquer menção às fontes.

Até quando faz algum elogio, o professor deixar entrever, a quem tiver olhos para enxergar, sua mágoa a transbordar nas entrelinhas, o sorriso torcido, as palavras escolhidas para colocar o desafeto no padrão dos seus horizontes. Nesse sentido, a adição de pequenas maldades em meio a uma conversa ou a humilhação em reuniões particularíssimas, longe dos holofotes e sem testemunhas, tende a funcionar.  

Esse antagonismo costuma ter origem num cotidiano de interseção mista, onde amor-ódio-inveja se mesclam. O mestre, ao nutrir sentimentos de menos valia em relação ao extraordinário pupilo, passa a escamotear mágoas e ressentimentos com falsos elogios, os quais deixam entrever ao olhar apurado, seus dissabores.

Na contramão dessas evidências, existe o educador inspirado em seu papel existencial. Numa atitude de ensinar compartilhado, socializa ensaios, descobertas, realiza-se numa arte pedagógica em busca de superação e êxito de seus alunos.  

*Hélio Strassburger in “A Palavra Fora de Si – Anotações de Filosofia Clínica e Linguagem”. Ed. Multifoco/RJ. 2017.

Instagram: @helio_strassburger

segunda-feira, 17 de julho de 2023

É tempo de sacudir a poeira*

 

A edição de primavera oferece mais um conteúdo de qualidade aos estudos sobre o novo modelo de cuidado e atenção à vida. Apresenta uma contribuição para o desenvolvimento da percepção cuidadora diante desses novos tempos, por onde convivem - às vezes lado a lado - informação e desinformação, hipocrisia e verdade, gesso e plasticidade, retrocesso e aperfeiçoamento.

Contrariando a previsão inicial de Lucio Packter - iniciador da nova abordagem - de que esta geração veio apresentar a metodologia da Filosofia Clínica, nossa instituição se sustenta no sonho, trabalho e busca por qualificar procedimentos, desenvolver o novo modelo de atenção à vida, sem desvirtuar sua essência ou negligenciar conteúdo.

No convívio das aulas, encontros de estudo, publicações, se mantém a proposta de compartilhar o novo paradigma, sem distorções metodológicas. Com responsabilidade e método, investe-se na formação continuada e aperfeiçoa-se a reflexão sobre os atendimentos.

Um exemplo do que se ensina e do que se pratica nesta Casa, é a recente reimpressão do livro de Miguel Angelo Caruzo: “Introdução à Filosofia Clínica”. Publicação da Editora Vozes-Petrópolis/RJ. 2021. Esta obra integra a coleção de Filosofia Clínica da prestigiada editora brasileira, especializada na área das ciências humanas.

Outro testemunho no que se refere a esta instituição, é a recente publicação de um antigo sonho: a Revista da Casa da Filosofia Clínica, a qual se propõe, com suas edições que acompanham as estações do ano, contribuir com os estudos da formação clínica e a pesquisa, desenvolvendo a metodologia nos diálogos da teoria com os eventos de consultório.

Isso é possível graças à contribuição sensível e competente dos colegas do conselho editorial, os quais leem e releem os originais, com apurado senso filosófico-clínico, selecionando textos para uma publicação de qualidade aos leitores. Assim, os colóquios, cafés filosóficos clínicos, estudos avançados, formação continuada... constituem um eixo de sustentação da paixão dominante, elaborando um chão significativo em nossa área de atuação.

Como integrantes da primeira geração de Filósofos Clínicos, estamos atentos aos aspectos de nossa época histórica, repleta de armadilhas discursivas, ideologizadas nas propostas e práticas para desvirtuar a mensagem original da nova abordagem terapêutica.

Nesse sentido oferecemos uma análise crítica e reflexiva (Filosofia antes, durante, depois de ser clínica) permanente em nossos espaços de trabalho, como proposta de ser uma contradição com o jogo de cena e as rupturas metodológicas que se insinuam em determinados eventos de nossa especialidade.

Esta edição de primavera rima com renascimento. Seus instantes de convívio com o mundo da vida, ao qualificar o reencontro das pessoas, desconstruindo a velocidade das horas, emancipando aromas, sons, atitudes, elabora uma alquimia de cores, sabores, vivências em um mundo que recomeça.

*Hélio Strassburger in “Edição de primavera/2022 da revista da Casa da Filosofia Clínica.

Instagram: @helio_strassburger

terça-feira, 11 de julho de 2023

Outras Palavras*

Essa edição da revista está tão ou mais saborosa que a anterior, possivelmente por agregar novos temperos. Sua essência se descreve ao oferecer textos breves de colegas de várias escolas da Filosofia Clínica. Ao destacar a singularidade como forma de expressão, evidencia sua matriz metodológica, tendo como referência a pesquisa e as práticas de consultório, sem perder de vista o modelo libertário de onde se originou.

A proposta do Conselho Editorial é compartilhar um material de qualidade para consulta aos estudiosos e demais interessados na nova abordagem terapêutica. Na mesma direção, destacar a juventude e o frescor da escrita da Filosofia Clínica, a qual se encontra em pleno desenvolvimento bibliográfico.

É importante lembrar de que qualificar e aperfeiçoar o novo método não significa agregar distorções, penduricalhos, desinformação. Thomaz Kuhn ajuda a compreender a natureza dos novos paradigmas, os quais surgem como contradição ou anomalia a ciência normal (institucional).

A universidade é um exemplo dessas instituições, programadas para sua manutenção e cristalização, mantendo o controle da produção acadêmica através dos seus comentadores especializados (mestres, doutores, pós-doutores), reféns das lógicas e rituais de departamento, do contracheque, bolsas de pesquisa. Sua prática atua para solucionar as problemáticas reconhecidas. Com isso, os desvios, afrontas e crises ao paradigma da normalidade costumam ser insuportáveis.

As desavenças e rupturas em seu cotidiano de pesquisa são inadmissíveis, oferecendo resistência e forte oposição às novidades que venham a constituir ameaça ao status quo. Por outro lado, basta as novas ideias demonstrarem eficácia e possibilidade de lucro, para serem cooptadas e ressignificarem-se em ciência normal. Nesse sentido, a revista se propõe a ser um testemunho de nosso tempo. Uma busca para realizar com a palavra escrita, na brevidade de um texto, o encontro do autor com sua leitura.

Ao seguir as estações do ano, essa publicação sugere a alternância, o movimento, como condição da própria vida. Em outras palavras, se destaca a atenção filosófica (crítica e reflexiva) sobre as tentativas de distorção da Filosofia Clínica como novo paradigma. Os escritos que compõem esta publicação, têm como finalidade, tornar acessível e divulgar a produção da nova abordagem, sugerindo opções existenciais em meio a vertigem da inovação tecnológica, nem sempre em benefício do fenômeno humano.

*Hélio Strassburger in “Editorial da revista da Casa da Filosofia Clínica”. Edição de inverno/2022.

**Instagram: @helio_strassburger 

segunda-feira, 10 de julho de 2023

A palavra território*

 

Num visar repleto de possíveis, as singularidades deixam entrever vontades. Os termos agendados descrevem um ser indeterminado. Nesse endereço subjetivo onde se exercita existencialmente, a pessoa elabora rituais, apropria-se de pensamentos e atitudes, indica regiões para manutenção de seu contexto.

Ao localizar esse vislumbre de um chão por traduzir, o sujeito, em seus desdobramentos cotidianos, refere a expressividade como chave de acesso à essa intimidade, nem sempre acessível ao dado literal. Seu teor concede a duração possível por ser esboço. As possibilidades da linguagem derivam desses trânsitos pessoais.

Na distorção do olhar é possível visualizar os contornos desse continente a se mover. Assim, a realidade se institui, significa-se, desdobra-se na invisibilidade do instante. Seu aparecer inédito contrapõe-se ao ser previsível. A crise, nesse contexto de pretensão definitiva, costuma se instalar como contradição, ditos estrangeiros, evasivas, delírios precursores.

Uma confluência sobre as delimitações do possível, ao desconsiderar a utopia, o sonho, costuma alimentar a fome de irrealidade. Os eventos assim classificados, instituídos por sanção ou decreto, prescrevem a objetividade como norma, alertando sobre os limites da especulação. Antecipadamente, pode-se mapear, tipologizar a pessoa contida nos limites da palavra território. Nesse sentido, a normalidade, quando corrompida pela surpresa do fato novo, tende a reagir contra as ameaças de transgressão.  

Esse fundamento de originalidade, ao contribuir para a identidade singular, também pode rastrear princípios de verdade. Ao tornar visível esse mundo subjetivo, pode-se desconstruir a equivocidade de ter visto tudo o que existe.

Sua presença inédita se insinua nos deslizes da realidade conhecida. A mescla dessas águas antecipa a integração do antigo com o novo. Sua referência é um incerto caos a embalar travessias. A distorção, o erro, a contradição, possuem um caráter de afrontar os limites estabelecidos. Dessa coexistência problemática, é possível integrar antíteses nos rumores da nova sintaxe.

Enquanto acolhe a percepção das finitudes, elabora a trama contida nas dobras do que é permitido. Situa as tramas discursivas, em busca de entendimento sobre a origem dos relatos desencontrados, oferecendo uma leitura compartilhada sobre a estrutura do fenômeno diante de si.

Nesse espaço investigativo, o exercício das releituras denuncia a obra em nova perspectiva. Por esse caminho descritivo, pode-se ampliar a visão sobre a teia de onde brotam os rumores. A análise e a interpretação compreensiva da palavra território, para além da literalidade, apreciam subverter e ampliar fronteiras.

*Hélio Strassburger in “A palavra fora de si – Anotações de Filosofia Clínica e Linguagem”. Ed. Multifoco/RJ. 2017.   

**Instagram: @helio_strassburger  

domingo, 9 de julho de 2023

Apresentação*

As inéditas regiões da subjetividade possuem suas fontes de desassossego. Quase sempre um estrangeiro desconsiderado, em que a contradição criativa se esboça e se fortalece. Sua desrazão preferida é perseguir outros lugares, inaugurando uma epistemologia das margens para decifrar o fenômeno humano internado nos subúrbios.

Essa versão da pessoa encerrada em si mesma propõe uma insinuação descontinuada de originais. Sua pronúncia irreconhecível pode referir uma ótica a atiçar invenções e descobertas diante da matriz, ainda prisioneira nalgum ponto das próprias convicções.

Para o filósofo clínico se oferece a ocasião de vivenciar uma busca aprendiz, em que as singularidades se encontram nos jogos de uma linguagem desconhecida.  Ao partilhante ainda sem rosto, se oferece um espaço para o rascunho das intencionalidades.

Ao transbordar nalguma forma de esteticidade, é comum tudo ser extraordinário, inclusive ter um vocabulário de paradoxo com o sistema convencional. Nessa quase ficção uma desenvoltura delirante compartilha rasuras ao mundo das certezas.

Nesse espetáculo das vontades ainda sem representação, o absurdo cotidiano parece se divertir, enquanto oferece mensagens incompreendidas ao mundo normalizado. Sua matéria-prima, fonte de pesquisas, pode ser encontrada em todo lugar. Um de seus esconderijos preferidos, além do cotidiano das cidades, são as instituições totais.

A característica de quase profecia do saber transgressivo nem sempre pode ser vislumbrada a olho nu da língua conhecida. Território de aspecto estrangeiro, aprecia introduzir vestígios de originalidade na invenção das palavras. Assim o contar desconsiderado se mostra como ponto de partida, numa introspecção a propor uma autonomia discursiva.

Muitas vezes as miragens possuem mais nitidez que os disfarces por onde se insinuam. O teor da improvável comunicação se oferece num estilo próprio, a sugerir eventos inacreditáveis. Suas fronteiras se movem na agilidade dos excessos, nem sempre possíveis de acompanhar pela interseção. Os estudos da lógica precursora parecem querer mostrar, a cada interrogação reflexiva, algo mais sobre esse quase inacessível universo de apontamentos.

Nos instantes de anúncio, uma razão atua desordenada. Se não houver pressa em corrigi-la, pode significar seus desdobramentos na existência. Com a alquimia silenciosa das palavras os rituais de passagem alimentam as poéticas da arquitetura subjetiva.

O sobrevoo das hipóteses mal formuladas possui um jeito leve de ser cúmplice. As tratativas com as inusitadas derivações apreciam os eventos clandestinos para se mostrarem à luz da rua. Na raridade do instante fugaz, as incompletudes embalam o espírito da metamorfose significante, de onde os eventos peregrinos costumam partir.

A transgressão do antigo equilíbrio pela contestação reflexiva e analítica pode ser uma fonte de matéria-prima. A perspectiva desconsiderada passa a ter vida e, ao fazer referência a algo mais diante de si, desvenda interseções entre visível e invisível. Seu saber de controvérsia costuma ser irreconhecível ao viés de ontem. Sua desordem criativa, quando não sufocada pela farmácia da esquina, compartilha a desenvoltura das inquietudes. Essa semiose estranha menciona coisas que se acham onde menos se espera.   

Com o exercício da autonomia retórica os textos se oferecem à procura de um leitor de amanhãs. Nos ensaios da pessoa assim estruturada, os discursos possuem razão e desrazão. Esse é o esboço preferido pelo sujeito internado: uma lógica de náufrago aprendendo a nadar em meio à tempestade. 

Num cenário onde o jogo de cena se confunde com a própria cena disfarçada, as tentativas de descrição e entendimento multiplicam páginas em branco. Parece fazer referência sobre o desconhecido de agora e sua estética de realidade improvável.

*Hélio Strassburger in “Pérolas Imperfeitas – Apontamentos sobre as lógicas do improvável”. Ed. Sulina/Porto Alegre/RS. 2012.

**Instagram: @helio_strassburger 

sábado, 8 de julho de 2023

Algumas Palavras*

A ideia de uma Revista da Casa da Filosofia Clínica não é nova; sua inspiração existe desde o início dos anos 2000. Naquela época, no Instituto Packter, em Porto Alegre, já se pensava numa revista de Filosofia Clínica, sugestão encampada (em parte) pela Editora Escala/SP, por volta de 2006.

A edição de número 4 teve o seguinte título: “Filosofia Ciência e Vida - especial - Filosofia Clínica”. Com editorial de Faoze Chibli, os autores eram filósofos clínicos, como Lucio Packter, Monica Aiub, Luis Paulo Neves, Olga Hack, Ildo Meyer, Sebastião Soares e Hélio Strassburger. Após esse início, a publicação se afastou da ideia original.

Nos dias de hoje, a Editora Pragmatha e um grupo de colegas da Casa revivem a ideia original. A concepção de uma revista que acompanhe as estações do ano tem por objetivo socializar a nova abordagem terapêutica e contribuir com os pressupostos da especialização, contrapondo a proliferação de escolas (a qualquer custo) no Brasil e exterior; muitas delas sem os cuidados básicos quanto à qualidade dos estudos.

Nesse sentido, essa publicação se propõe ao esclarecimento - para quem vem chegando - sobre os rituais da formação: teoria, clínica pessoal, supervisão, formação continuada... Esses estudantes, muitas vezes sem maiores informações, iludidos por um carimbo do MEC, participam de cursos frágeis, sequer roçando a alma do novo paradigma. Nossa busca é a ampliação dos núcleos de pesquisa, tendo por base os atendimentos em consultório, escolas, hospitais, empresas... Oferecer um testemunho de quem atua num cotidiano de acolhimento e construção compartilhada.

A atividade clínica da Filosofia - sempre é bom lembrar - não trabalha com tipologias, classificações, a bíblia DSM, drogadição psiquiátrica. Sendo um novo paradigma, é crítica, reflexiva, aberta e revolucionária sobre seu próprio fazer terapêutico. Afasta-se das práticas da internação involuntária, choques de qualquer natureza e demais intervenções que distanciam o sujeito de sua singularidade em processo. Aproxima-se das pessoas em interseção com seu território

subjetivo.

Os textos enviados para essa publicação são analisados por um conselho editorial, levando em conta critérios como originalidade, fundamentação teórica e prática, contribuição para o desenvolvimento da nova abordagem, sem descuidar a matriz metodológica. Nosso compromisso é manter o sonho dos primeiros dias, qualificar diálogos inter e transdisciplinares, conviver com a reflexão e transformação das práticas.

Boas leituras e releituras!

*Hélio Strassburger in Editorial da Revista da Casa da Filosofia Clínica. Edição Piloto/00. Outono/2022.    

**Instagram: @helio_strassburger 

quarta-feira, 5 de julho de 2023

A palavra ressonância*

 

Escrever sobre os desdobramentos de um encontro clínico reivindica, inicialmente, um estado de redução fenomenológica. Trata-se de visualizar, descrever eventos numa matriz compartilhada, por onde acessos inesperados se apresentam.

As poéticas da terapia esboçam seus inéditos numa interseção bem-sucedida. Enredos inimagináveis, não fosse a alquimia da atuação subjuntiva, a qual, iniciada na hora-sessão, multiplica-se no cotidiano por vir. Dos múltiplos aspectos sobre seu alcance, destaca-se a alteração dos pontos de vista. Reinvenção dos roteiros pessoais ampliados pela introspecção do instante de construção compartilhada.

A cooperação da categoria tempo e lugar, aprecia multiplicar esses momentos irrepetíveis. Ao acolher compreensivamente o que ressoa, é possível modificar representações, redescobrir-se em meio ao ir e vir das novas conexões,

Os movimentos assim mencionados possuem um silencio impregnado de originais. Num presente que se amplia, outros percursos se realizam na estrutura labirinto. Na companhia de uma solidão compartilhada, esses ecos da terapia integram sentimentos, ideias, sensações. Sua expressividade atua para se redefinir. Aqui existe um território ampliado pela transcendência.

Esses conteúdos do encontro expandido continuam atuando no cotidiano da pessoa. Os agendamentos do filósofo, ao encontrar acolhimento na perspectiva partilhante, interagem em desdobramentos a perder de vista. Assim rememora, desconserta, reelabora, significa algo mais até então desconhecido, busca um procedimento singular para viabilizar essa via de acesso, por onde a intencionalidade prossegue sua atividade cuidadora.

Ao estender-se desse jeito, essa relação atualiza rumores de esboço compartilhado. Com ela é possível recompor buscas, desconstruir certezas, emancipar tópicos marginalizados. Esse norte, sul, leste, oeste, utilizando uma matéria-prima muito íntima, acrescenta algo mais ao mundo conhecido.  

A palavra terapia é a brisa leve, acolhedora, cúmplice das transgressões aos outros do mesmo. Ao vislumbrar esses instantes, reivindica-se um acordo de vontades, um território para acolher, compreender a natureza e o alcance dessas repercussões.

*Hélio Strassburger in “A palavra fora de si – Anotações de Filosofia Clínica e Linguagem”. Ed. Multifoco/RJ. 2017.  

*Instagram: @helio_strassburger

terça-feira, 4 de julho de 2023

Filosofia Clínica e Literatura*

Conjugar Filosofia e Literatura é um convite para decifrar aspectos da estrutura de pensamento de autores e leitores. Inicialmente pela escolha de obras, bem como dos conteúdos, conjugados por sua representação de mundo. Mais que um tratado de informação dirigida, é um procedimento ao alcance das pessoas, no caso de se indicar um livro, filme, teatro. Algo que possa oferecer pistas ao leitor sobre si mesmo em interseção com a obra.  

Talvez promova um diálogo para o acolhimento de um imenso saber, compartilhado na forma de uma escritura, por exemplo. Como Jorge Luis Borges, que auxilia a compreensão e o entendimento da categoria lugar, pelos apontamentos de sua literatura, pela qual se anunciam os princípios de verdade para sua formação estrutural. Borges traduz: “As ruas de Buenos Aires são-me já as entranhas da alma.” (Borges, uma biografia, 1999). As palavras revelam, em sua narrativa, a fonte da qual brotaram.    

Na mesma direção, quando o autor busca traduzir aos pais a razão de ter escrito um ensaio sobre o poeta Evaristo Carriego, considerado ‘menor’ em sua categoria (trabalho com o qual Borges ganhou um prêmio municipal), e relata: “Carriego foi o homem que descobriu as possibilidades literárias dos difamados e andrajosos subúrbios da cidade: o Palermo da minha infância.” (Borges, uma biografia, 1999).

Sendo o mundo vontade e representação, como ensina Schopenhauer, o autor esboça sua medida de todas as coisas, na redação de suas memórias.  Outro exemplo do significado e alcance da categoria lugar, princípios de verdade, representação de mundo e paixão dominante, pode ser verificado em sua descrição sobre a biblioteca onde trabalhou: “(...) depois de ter deixado a biblioteca e nela parte da própria alma (...) em qualquer lugar do mundo em que esteja a visito nos meus sonhos. (...) sonho com a biblioteca (...) e inexplicavelmente, como costuma ocorrer nos sonhos, a biblioteca é infinita e me pertence.” (Borges, uma biografia, 1999).

A narrativa da historicidade pelo partilhante, na perspectiva fenomenológica, em versão atualizada, esboça ao olhar do filósofo uma percepção de sua estrutura de pensamento.

Para Borges o lugar significa um fundamento, seja ele empírico ou imaginário; sua essência brota das ruas e do bairro onde viveu, em interseção com os desdobramentos de sua singularidade, na descrição de suas memórias e sonhos.

Em outra obra ele se refere à importância do olhar e dos deslocamentos no seu cotidiano: “A base da geometria visual é a superfície, não o ponto. Essa geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam” (Ficções, 2007).

Como o mundo parece e aparece surge em quase todos os seus relatos, bem como a interseção com suas paixões dominantes, axiologias, seus devaneios criativos. A singularidade, pedra de toque da Filosofia Clínica, e talvez a maior distinção metodológica das demais abordagens – por descartar tipologias – aparece a todo instante nas páginas do autor de Ficções. Não seria improvável, dentre as competências da Filosofia Clínica, acrescentar sua aptidão para o diálogo entre realidade e ficção.

Jorge Luis Borges também compartilha seus pré-juízos em relação aos alunos quando diz: “Depois de nove ou dez noites compreendi com alguma amargura que nada podia esperar daqueles alunos que aceitavam com passividade minha doutrina, e sim daqueles que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável.” (Ficções, 2007). Um ponto significativo na literatura do mestre argentino é sua íntima relação com as repercussões da vida dos sonhos. Desse modo, sua obra agrega fantasia, cotidiano, e algo mais, sempre algo mais.

Nesse sentido encontramos uma referência importante à atividade clínica do filósofo, o qual, na interseção com seu partilhante, elabora um lugar (consultório, jardins, beira da praia, cafés) onde esse possa exercitar as possibilidades de sua estrutura de pensamento; um espaço de ensaio, experimentação, subversão em direção a sua melhor condição singular.

*Hélio Strassburger in “Filosofia Clínica – Anotações e reflexões de um consultório”. Ed. Sulina/Porto Alegre/RS.

**Instagram: @helio_strassburger

domingo, 2 de julho de 2023

Um texto absurdo*

"Quando eu morrer, meu chalé cairá comigo, para dar lugar a mais um edifício de apartamentos.”

                                                           Chico Buarque 

Imaginava um rascunho nalgum ponto entre as fronteiras do dizível. Ensaio em que realidade e ficção pudessem repaginar suas diferenças. Espécie de contragolpe na lucidez arrebatadora, a persistir naquilo que se busca esquecer. Tratativas com um quase na subjetividade por onde o dicionário ultrapassa suas origens.

Talvez desenhar a ponte ideal onde os termos do raciocínio bem estruturado pudessem conviver com as contraditórias miragens. Como uma dança fugaz para acordar a racionalidade a cegar o próprio olhar.

Nessa percepção de consciência alterada, os fenômenos seriam reconhecidos por seu apelido. Por esses monólogos sobre a ilusão da realidade e a realidade da ilusão, restaria o viés especulativo de um fim sem começo.

Roupagens estranhas a vagar pela inesperada versão, em que tudo iria parecer inacessível ou fora de lugar. Conexão às ruas pouco antes de ter um nome conhecido. Suas margens e contornos de ótica distorcida atribuem provisórias verdades.

Roland Barthes poetiza os desatinos da escrita: “O texto é plural. Isso não significa apenas que tem vários sentidos, mas que realiza o próprio plural do sentido: um plural irredutível. O texto não é coexistência de sentidos, mas passagem, travessia; não pode, pois, depender de uma interpretação, ainda que liberal, mas de uma explosão, de uma disseminação.” (O rumor da língua, 2004).

Mesmo quando se atrapalha aponta contradições à estrutura do dizer, parece tentar descrever o momento em que a exceção inaugura novas regras. O presente multiplica os estranhos sons de travessia.

Uma fenomenologia da linguagem se atreve a relatar eventos extraordinários. Ao fora de si onde nada deveria surgir, a coincidência-intuitiva esparrama deixas para elucidação. Como a luva na parede a acenar para a mão que se foi.

Esse vocabulário celebra o encanto primitivo de uma porta entreaberta. Condição para certezas e dúvidas se encontrarem num closet de difícil acesso, onde as palavras se experimentam, um pouco antes do autor, na sala ao lado, realizar suas escolhas. Nesse exercício a transbordar buscas dalgum sentido, a interseção com os esconderijos da vontade multiplica verdades.

Em Jorge Luis Borges, encontra-se um frágil ponto de apoio: “Hladik preconizava o verso porque ele impede que os espectadores se esqueçam da irrealidade, que é a condição da arte.” (Ficções, 2007).

Um parêntese onde a manifestação narrativa contida no texto, convidasse a decifrar a matéria-prima por entre os dedos de quem escreve. A representação expressiva em devaneios de preparação anunciaria a fragilidade das convicções. Uma simbologia ritual prepara oferendas ao ilegível da voz.  

No laboratório difuso da especulação sem lei, os relatos a confundir o velho e o novo pluralizam o discurso. As transcrições apreciam algo mais as hermenêuticas da releitura. Mesmo o ponto que se quer final desdobra-se noutras interrogações.

A natureza improvável dessas epistemologias elabora arquiteturas em que ser e não ser se conjugam imediatamente. Nesse território sagrado às lógicas do exagero, convivem também as dialéticas do equilíbrio. Um lugar onde o impensável seduz o conceito no qual irá sobreviver.

Interessante notar a eficácia da quimera, como precursora das mensagens de maior alcance. Seu recado parece atravessar a história, como parte de um segredo bem guardado, para ser reconhecido nalguma faceta inesperada.

Djandre Rolim aponta sua estética: “Não pude dispersar os meus deslimites que caíam e refaziam os caminhos de volta a mim: e agora... encontro-me enfermo de sonhos!” (Deslimites da razão, 2010).

Por esses apontamentos de prefácio sem direção, antecipa a inocência do desacordo entre os originais e as derivações. Mesmo depois da revisão, trata de deixar indícios do que teria sido se continuasse esboço.

À investigação pretérita o que aparece é um imenso contraste, num território a preservar gestos sem amanhã, A absurdidade, então, se faz neblina ao olhar de quem procura certezas duradouras. Na incompletude da palavra transgressora, as regras de uma só direção se espalham com a estética das ventanias. Dissipação de alguma duração na descontinuidade a querer ficar.

Menção a insinuar originais no convívio de um agora. Sua lógica insensata e de aspecto delirante evoca utopias esquecidas. Quem sabe o imprevisível refaça conjecturas aos futuros entendimentos. Ao aproximar o espanto inicial com a natureza de sua descrença, a redação sem nexo desencontra-se para ser mensagem. Seu equilíbrio frágil tropeça na vertigem surpreendente dos vislumbres.

Clarice Lispector a desvendar Clarices: “O principal a que eu quero chegar é surpreender-me a mim mesma com o que escrevo. Ser tomada de assalto: estremecer diante do que nunca foi dito por mim.” (Um sopro de vida, 1999).  

Ainda assim, a atração irresistível da página em branco acena uma liberdade que deixa de existir após o primeiro traço. Contraponto das escolhas a delimitar as grades ao seu redor. Frase, parágrafo, ponto e vírgula serviriam para conter, nalgum ponto eficaz da sintaxe, o desvario conceitual a querer significar. Ao fazer referências ao passado, a hermenêutica oferece outras possibilidades à mesma pessoa.

A aventura de viver acontece aquém-além das molduras da eficácia narrativa. Nos roteiros é possível perceber o deslize para transpor a língua dos consensos.

Ao desenhar refúgios entrelinhas de saber excessivo, um velho conhecido se faz estrangeiro à natureza que muda para se manter. Na interrogação das incertezas o silêncio oferece novas versões na transgressão da palavra.

*Hélio Strassburger in “Pérolas Imperfeitas – Apontamentos sobre as lógicas do improvável”. Ed. Sulina. 2012.

**No Instagram: @helio_strassburger  

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Anotações sobre a estrutura do abismo*












"O homem articula-se até o fundo de si mesmo em linguagens distintas.”

                                                  Roland Barthes

É incomum a busca para alguma tradução da linguagem da loucura. Na sua relação de aparente sem nexo com a realidade, seu saber delirante costuma ser distanciado da rotina dos convívios. No caso do diagnóstico das práticas da tradição, a vida (do louco) é colocada num parêntesis, pela fundamentação a propor tratamento aos seus refúgios de abstração.

Qualificar diálogos com a natureza das desestruturas reivindica plasticidade e uma aptidão aprendiz fora do normal. Sob incerto aspecto, se trata de transitar por onde a vida acontece, mesmo quando em contrastes com o mundo conhecido.

Ao contradizer seu passado recente, constitui uma fonte inesgotável de surpresas, através das evasivas ao ser singular. Longe de uma faceta desligada da realidade, se apresenta, também, na descontinuidade das coisas inteligíveis. Para domesticar as transgressões à norma social, a internação involuntária surge recheada de fundamentação e rigor tecnicista.

O sujeito em vias de mudança expressa desconformidade com os moldes até então conhecidos da convivência social. A partir de agora um mundo estranho lhe aparece diante da janela. A família, o poder judiciário e a igreja, muitas vezes, costumam ter cumplicidade (para exclusão) entre si. O exílio partilhante surge como estratégia de fuga em abrigos de introspecção radical.

Fenômeno complexo e de difícil entendimento, se distanciado da representação da pessoa. A subjetividade da estrutura caótica não se mostra a qualquer um. Suas narrativas surgem estilhaçadas na incompletude das ideias e jeitos de ser.

Gaston Bachelard poetiza seu dizer: “As ilusões possuem uma importância decisiva, porque a vida do espírito é ilusão antes de ser pensamento.” (A terra e os devaneios do repouso, 2003).

Nem sempre é possível realizar alguma forma de conversação com a subjetividade delirante. Ela possui rituais muito íntimos de escolha e expressividade, ao se distanciar da superfície dos convívios, suas palavras podem se mostrar semiose inútil. Nuança indefinida a multiplicar-se em regras do acaso. Estranha desordem nos simulacros de reinvenção.

A pessoa existe na contrariedade das manifestações de sentido único. Ao tornar-se uma perspectiva acreditável, aproxima contextos de aspecto contraditório, sem desmerecer vivências de interioridade. Aqui se trata de acolher a matéria-prima numa fonte que se renova com as crises.

Interferências mútuas descobrem algo mais até então desprezado como insignificante. As lógicas da insensatez permitem transitar por atmosferas de irrealidade. Intercâmbio animado pela inconformidade de ser apenas uma coisa ou outra. Desequilíbrio ao pensar impensável se legitimar na obra de arte da singularidade incompreendida.

Heidegger ensina: “(...) ser o dizer projectante aquele que, na preparação do dizível, faz ao mesmo tempo advir, enquanto tal, o indizível ao mundo.” (A caminho da linguagem, 2003).

A parcialidade cotidiana esboça esconderijos e preferências ao devaneio pessoal. Para melhor entender os discursos de incompletude, é impreciso descortinar atalhos de imperfeição e desnudar exílios escondidos no próprio olhar. Personagens fantásticos habitam ruelas e guetos clandestinos as unanimidades.

Os manuscritos do desatino se protegem entrelinhas de incompreensão. Persistem anônimos à normalidade, embora tenham desenvoltura nos roteiros de loucura e normalidade. Apelos extraordinários insinuam algo mais, ao reinventar normas para o absurdo das palavras.

As inquietudes do delírio apreciam esconderijos de raridade. Ensimesmadas e sem vocabulário conhecido para se expressar, escolhem um bairro existencial distante para morar. In-tradução de linguagem própria na distância dos demais, onde o tempo sem amanhã rascunha indescritíveis presentes. Abismos significativos desarticulam as fronteiras bem limitadas pelas epistemologias da tradição. A tradução dos asilos reinventa-se na impermanência de um agora.

Schopenhauer indica: “(...) ter encontrado em manicômios sujeitos com inegáveis indícios de disposições geniais que, devido à raridade proporcional da loucura, mais até que o gênio, não podem ser atribuídas ao acaso, mas justamente confirmam o que sempre se observou e explicou – que o gênio de algum lado faz fronteira com a loucura, sim, com facilidade a ultrapassa.” (O mundo como vontade e representação, 2001).

A proliferação de novas ideias antecipa-se no dizer inter-dito dos signos estapafúrdios. Ponto de vista impensável não fora sua identificação na informalidade criativa das interseções. Minúcias de imperfeição sugerem roteiros de novidade. A realidade assim disposta se esparrama na embriaguez mal disfarçada da ilusão. Complexidade inspirada na vertigem sensorial a desestabilizar o chão sob seus pés.

O sujeito, antes desses instantes de travessia e refúgio para si mesmo, muitas vezes tenta expressar seus desatinos. No entanto, tropeça na escolha das palavras e atitudes, as quais podem soar como ameaça ininteligível. Na perplexidade desses espaços imensos, a pessoa se desconstrói em labirintos de abstração. Na inquietude das crises os indícios podem se confundir.

Para Tzvetan Todorov: “(...) o maravilhoso corresponde a um fenômeno desconhecido, jamais visto, por vir: logo, a um futuro; no estranho, em compensação, o inexplicável é reduzido a fatos conhecidos, a uma experiência prévia, e daí ao passado.” (Introdução à literatura fantástica, 2008).  

Lugar privilegiado no esboço entre o tudo e o nada de cada um. Alegorias por onde a vida também se experimenta. O desconcerto originário anuncia a natureza transformadora, mesmo quando inacabada em seus ímpetos. Sua expressividade pode deixar entrever os primórdios de uma ausência.

Nesse sentido, o saber médico tecnicista não sabe a extensão do que ignora. Novos paradigmas apreciam o esconde-esconde das lógicas do desmerecimento. Um ser mestiço chama atenção ao fato do delírio não recusar nada, sequer a medicação que busca destruí-lo, enquanto a normalidade cristaliza práticas de segregação.

Na voz intercalada dos presságios a contradição é prefácio para um dicionário da loucura. Erudição maldita contida nas lógicas do desatino. Relatos das ideias, palavras e sensações até então indescritíveis à luz do dia. Denúncia dos abismos de incompreensão por essas peças de ficção inacabada.

*Hélio Strassburger in “Filosofia Clínica – Diálogos com a lógica dos excessos. Ed. E-Papers/RJ. 2009).

**Instagram: @helio_strassburger