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domingo, 24 de dezembro de 2023

Filosofia Clínica Agridoce 7*


 

          





                                       A vida secreta das palavras 

Um pouco antes do aparecimento de um sujeito em pronúncias de ser singular, o que se tem é o dicionário de uso comum e um pretenso saber especialista, o qual não imagina ser refém de suas lentes.

Jorge Luis Borges auxilia: “As palavras, diz Stevenson, são destinadas ao comércio habitual do dia a dia, e o poeta de algum modo as converte em algo mágico.” (Esse ofício do verso, 2007. Pág. 84).

Octávio Paz ensina que todos somos poetas. O fragmento alerta para o fato de que existem múltiplas derivações, tendo como ponto de partida uma palavra, um contexto, uma expressão, muitas vezes desconhecida da própria pessoa e dos princípios de verdade.  

A clínica do filósofo aprecia localizar esses dialetos e idioletos, ao encontrar, pela via da fenomenologia, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva..., um sentido que pertença a própria pessoa, em um processo de reencontro consigo mesma.   

Ainda Borges: “Acho, porém, que o fato de termos longos catálogos de palavras e explicações nos faz pensar que as explicações esgotam as palavras, e que qualquer uma dessas moedas, dessas palavras, pode ser trocada por outra.” (Esse ofício do verso, 2007. Pág. 97).

O poeta e escritor argentino destaca que as explicações não esgotam o sentido de uma palavra, a qual - apesar da literalidade -, pode, a qualquer momento, assumir uma nova conformação discursiva.  

Veja-se um dos equívocos da igreja psicanalítica: ao oferecer suas tipologias, dispõe, como remédio, a distorção de uma originalidade. Como isso ocorre? Através de um discurso de saber-poder, com as hermenêuticas interpretativas, em cumplicidade com o gesso diagnóstico e prognóstico de sua alma gêmea: a psiquiatria. Assim, traduzem sonhos, esquecimentos, atitudes, caos criativo e libertário, como algo fora do comum. Sugerem desconhecer a existência de um sujeito em processo (questão metodológica).  

A cumplicidade de um espírito colonial com a submissão voluntária as retóricas da hegemonia (via manipulação midiática e outros), faz com que determinadas intervenções de aspecto terapêutico sigam conformando o fenômeno humano aos limites de um aquário existencial que não lhe representa.  

Por outro lado, já se vislumbram outros caminhos, na periferia e a margem dos consensos. Nesse sentido, ao ser sujeito de sua história, é possível a uma pessoa, deixar de ser refém de uma outra igreja, que não a sua própria expressividade em processo de existir.  

Aquele abraço,

*hs      

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