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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Filosofia Clínica agridoce 70*

Notas do consultório do filósofo IX 

Dialética para principiantes é de autoria do filósofo Carlos Roberto Cirne-Lima (1931-2020) - um dos maiores pensadores brasileiros -, publicada na coleção Idéias em 1996 pela editora Unisinos/São Leopoldo/RS. Em 2005, na feira do livro de Porto Alegre/RS, assim que a vi, tive a impressão de que essa obra aguardava - no balaio dos livros desprezados - uma sintonia para ser encontrada. 

O texto é significativo aos estudos da Filosofia Clínica. Ao fundamentar o tema da autogenia, especificamente os movimentos existenciais a partir das interseções da malha intelectiva, suas contradições, adições, subtrações, multiplicações, descrevem uma matéria-prima nem sempre acessível ao primeiro olhar.

Muitas vezes, mergulhados em um cotidiano de trabalho, família, relações, não é raro passar despercebido as inquietudes que integram os momentos de ressignificação existencial, bem assim, as investidas para sustentação de uma forma de vida. Com a nova mensagem terapêutica os estudos sobre a autogenia - em qualquer de suas formas de apresentação - constituem um capítulo fundamental na formação clínica do filósofo.

O pensador indica: “Filosofia é um grande jogo de quebra-cabeça. (...) Fazer Filosofia significa jogar o jogo até o fim, isto é, montar as peças, de sorte que se possa ver a imagem global. (...) Na Filosofia não temos todas as peças. O universo ainda está em curso, a História não terminou. Muitas coisas, que nem sabemos quais são, estão por vir.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 15)

Um estudo com base na singularidade, reivindica uma aproximação com a fenomenologia do partilhante, ou seja, acolher sem classificar ou tipologizar para encontrar o outro sujeito da relação em território próprio.

Ao lembrar o jogo de quebra-cabeça, onde montar as peças de sorte que se possa ver a imagem global, lembra um caminho para acessar a estrutura de pensamento de cada pessoa, a qual se esboça numa grafia própria, incabível as lógicas de controle e direcionamento de sua expressão. Um ponto de partida se anuncia num convívio continuado, onde o filósofo e o partilhante se encontram numa clínica singular, diferenciada, ora como ser, ora como não-ser, a redigir uma estética compartilhada.   

O filósofo nos indica que na Filosofia não temos todas as peças, alerta para o fato de encontrarmos mais espaços vazios do que recheios. Se pensarmos na fenomenologia do humano, essa questão se atualiza num sujeito onde ser e não-ser são. Assim, o filósofo clínico, nos eventos da hora-sessão, preliminarmente, sabe que não sabe. Com isso se coloca à disposição para aprender com a pessoa, tratando de aproximar, não interpretar ou controlar, mas descrever os territórios inesperados que vão aparecendo, um pouco antes de saber mais e melhor sobre a versão partilhante.      

Em Cirne-Lima: “Ser e Não-Ser, que à primeira vista se opõem e se excluem, na realidade constituem uma unidade sintética, que é o Ser em Movimento, o Devir. No Devir existe um elemento que é o Ser, mas existe por igual um outro elemento igualmente essencial que é o Não-ser. Ser e Não-Ser, bem misturados, não mais se repelem e se excluem, mas entram em amálgama e se fundem para constituir uma nova realidade.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 22)

Talvez a principal dificuldade em se entender a movimentação existencial (subjetiva ou objetiva) conhecida como autogenia, em Filosofia Clínica, tenha a ver com os componentes de aspecto estático da tradição, a qual propõe uma via prioritariamente linear. Ao desconhecer os altos e baixos da estrada, suas curvas e deslizes, os avanços e recuos, as pontes que precisam ser construídas, o convívio com o inesperado, as manutenções e as transgressões, o papel existencial do filósofo aprendiz pode ser desafiado a superar seus freios existenciais.  

Uma vida que desconheça suas contradições e impermanências, pode conter, em si mesma, a peça faltante ao quebra-cabeças da estrutura de pensamento. A clínica assim descrita, se insere num diálogo com seus paradoxos, quando os deslocamentos estruturais anunciam novas conformações existenciais.

Não se trata de emancipar uma condição em detrimento da outra, mas de buscar uma integração das propostas de aspecto excludente, isto é, a partir de uma construção compartilhada, encontrar uma conexão onde uma e outra expressão tópica encontrem um novo sentido na estrutura de pensamento. Semelhante àquilo que o pensador chama de amálgama para constituir uma nova realidade, ou seja, o que se apresenta é um ponto de vista diferenciado, onde uma e outra se reapresentam em autogenia.  

Cirne-Lima auxilia: “São os sofistas que primeiro transplantaram o jogo dos opostos de Heráclito do plano da Filosofia da Natureza para o plano das relações sociais.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 34)

A apropriação de determinados ensinamentos filosóficos para aplicação cotidiana não é nova. O que se destaca em Filosofia Clínica, é o fato de se realizar uma interseção da fundamentação teórica com a atividade prática de consultório, isto é, não se trata de ensinar História da Filosofia ou filosofar, mas uma abordagem terapêutica apta a compor os ensinamentos da tradição filosófica com a clínica, acolhendo a dialética das contradições para novas propostas de cuidado e atenção à vida.

O novo paradigma da Filosofia Clínica, denota suas origens na Filosofia e na Medicina. O pensador precursor do novo método - Lúcio Packter -, em razão de suas origens pessoais e profissionais, elaborou uma interseção entre as duas abordagens, inaugurando uma terapia diferenciada.   

A busca por superação de paradoxos existenciais, se contrapõe à prisão onde muita gente permanece refém, sustentando os diagnósticos e prognósticos do Psiquiatra, os traumas fabricados por intervenções e agendamentos indevidos... Assim é importante lembrar a natureza e o significado de certas correspondências contraditórias, as quais, algumas vezes, abastecem um devir de transformação.  

Ao se propor uma desconstrução desses pressupostos, se inicia uma busca por acolher o fenômeno do ser singular, o qual se estrutura de um jeito próprio, distante das verdades festejadas pelos holofotes, com narrativas impregnadas de retórica, como: você sabe com quem está falando? Essa é uma prática científica! Para vender a ideia de que as coisas são de uma só maneira e não podem ser de outra. Destituindo a pessoa de meios para superar as metodologias da cristalização existencial.

Com o pensador: “(...) embora sejam pólos mutuamente excludentes, tese e antítese, se conciliam como Ser num nível mais alto e mais nobre. (...) Ser é a síntese dos dois pares de opostos que regem a construção do universo. (...) Dentro do Ser polarizam-se repouso e movimento, mesmice e alteridade.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 86)

Tendo em vista um movimento desconstrutivo do assunto último (aquilo que estrutura a dor existencial, muitas vezes traduzida como doença!), onde tópicos de aspecto excludentes interferem na expressividade do partilhante, é possível encontrar um novo lugar de convívio para propostas contraditórias, as quais, com as intervenções da terapia filosófica, podem ressignificar a natureza e o alcance de uma estrutura de pensamento.  

Um processo assim deve vislumbrar uma aproximação com o funcionamento e possibilidades de mudança ao partilhante, ainda quando escolha se manter em determinado constructo estrutural. Muitas vezes, para sustentar ou modificar uma determinada autogenia, poderá testar escolhas, experienciar hipóteses, investigar as origens, a propriedade de suas convicções.

O filósofo, ao referir “dentro do Ser polarizam-se repouso e movimento, mesmice e alteridade”, nos oferece um ensinamento sobre a representação de mundo - entre ficar ou partir -, numa estrutura de pensamento, a alteridade pode significar remédio ou veneno, tendo por base uma realidade singular.   

Nesse sentido se pode pensar sobre o alcance dos relacionamentos em sociedade, onde a pluralidade existencial tenta conviver com a lógica das diferenças, muitas vezes num mesmo endereço existencial (em casa, no trabalho, na pracinha, transporte coletivo...). Aprender a semiose dessas interseções constitui um fundamento da nova abordagem, por onde se busca compreender a estrutura de pensamento, para verificar as possibilidades de convívio das pessoas consigo mesmas e com suas circunstâncias existenciais.       

Cirne-Lima ensina: “Quando as pessoas falam e, apesar da boa vontade, não conseguem se entender, é que estão falando línguas diferentes.” (Dialética para principiantes, 1996. Pág. 102)

O fragmento aponta para a necessidade de um aprendizado sobre a forma como uma e outra pessoa se expressam, em busca de uma ponte para entendimento dos termos agendados no intelecto, estruturação ou desestruturação de raciocínio, completude ou incompletude discursiva, os quais indicam rotas a geografia subjetiva do outro. 

Ainda assim, existem muitos componentes dessa proposta por interseção, como uma abertura ao conviver, como base para um entendimento compartilhado. Noutras palavras, trata-se de ajustar a linguagem a uma sintonia compreensiva.  

Cada pessoa, ainda quando utilize o vocabulário comum, se diz em linguagem própria, pois existe um sentido singular, nem sempre ao alcance do outro em vias de querer entender a partir de suas próprias referências. O movimento intelectivo conhecido como recíproca de inversão, costuma favorecer a compreensão dos eventos da hora-sessão, onde o filósofo busca encontrar o partilhante em seu território.

O lugar privilegiado onde se refugia a matéria-prima da pessoa, com a qual o filósofo clínico irá trabalhar, acontece num endereço existencial - inicialmente - desconhecido, com uma expressividade incomum, onde o terapeuta - semelhante ao antropólogo - vai conviver com as lógicas da diferença, decifrar as incógnitas do seu devir.   

Aquele abraço,

hs      

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 69*


Notas do consultório do filósofo VIII

A atividade clínica do filósofo se relaciona com a pluralidade existencial descrita nos eventos da hora-sessão. Com isso seus apontamentos adquirem sentido, expressividade, significado, tendo por base uma percepção sobre a representação de mundo sob seus cuidados.  

Um acolhimento eficaz deve conter uma referência aprendiz sobre os termos agendados no intelecto, sua trama discursiva existencial, a semiose por onde o partilhante se diz, seu contexto de vida.   

Esse convívio de construção compartilhada encontra, na escuta fenomenológica, um ponto de partida, para, logo a seguir, localizar existencialmente sua circunstância e aprofundamento da estrutura de pensamento, numa associação com a analítica da linguagem, a hermenêutica compreensiva, compondo um eixo estruturante apto a encontrar os inéditos de uma narrativa existencial, lá onde refugia sua singularidade.     

Muitas vezes a pessoa - em seus momentos de crise - tem dificuldade em se reconhecer, devido a velocidade de suas transgressões, desde o desconcerto de suas ideias a atitudes desconexas. Nesses momentos é significativo um acolhimento com base na recíproca de inversão, onde o filósofo irá encontrar o partilhante em seu território existencial.   

Gilles Deleuze contribui: “Geralmente, só dá para ser estrangeiro numa outra língua. Aqui, ao contrário, trata-se de ser um estrangeiro em sua própria língua. Proust dizia que os belos livros forçosamente são escritos numa espécie de língua estrangeira.” (Conversações, 1998. Pág. 52).

Uma aproximação com as referências de cada pessoa pressupõe o entendimento da língua por onde se expressa, seja numa construção compartilhada na hora-sessão ou desdobramentos do seu cotidiano. Com essa sintonia - pela via da interseção - é possível visitar sua estrutura de pensamento em vias de ser estranha para si mesma.

Esse ser estrangeiro em sua própria língua, como refere o pensador, pode significar algo novo diante do espelho. Trata-se de decifrar a língua que se insinua na língua, isto é, conhecer os termos agendados no intelecto para acessar conteúdos existenciais em forma de projeto.

Nesses instantes a companhia que se apresenta é a insegurança, o medo, a relação com esse outro que vai se insinuando na vida de cada um. As autogenias costumam rascunhar seus originais por essas falas recheadas de incompletude, desestruturação discursiva, escritos estranhos, insinuando um território extraordinário em instantes de apresentação.   

Com Deleuze: “(...) quando ocorre uma inovação, ela pode vir de um lugar inesperado, numa circunstância excepcional (...)”. (Conversações, 1998. Pág. 94).

A condição para o aparecimento de uma novidade no mundo da vida, seja através de uma narrativa errática, um discurso existencial contraditório, se anunciam em poéticas da singularidade, onde um olhar inédito aponta improváveis amanhãs.   

Talvez a maior dificuldade da relação com uma ideia ou um novo constructo na vida prática, esteja relacionada ao espanto de sua apresentação. Um lugar onde o cotidiano se reapresenta em múltiplas formas, nem sempre com um vocabulário reconhecido. Assim as intervenções para adequação institucional, encontram na classificação e tipologias os moldes para conversão da singularidade em algo comum.  

A literatura, o mundo das artes, a poesia, a música, o teatro, cinema, contribuem com esses deslocamentos de travessia, onde essas pontes entre uma realidade e outra se oferecem para descrever e elaborar algo ainda sem tradução.

Em Gilles Deleuze: “(...) É que, no momento em que alguém dá um passo fora do que já foi pensado, quando se aventura para fora do reconhecível e do tranquilizador, quando precisa inventar novos conceitos para terras desconhecidas, caem os métodos e as morais, e pensar torna-se, como diz Foucault, um ‘ato arriscado’, uma violência que se exerce primeiro sobre si mesmo.” (Conversações, 1998. Pág. 128).

Existe uma interseção - nem sempre positiva - entre as propostas da pesquisa científica (seja como proto ou metaciência) e a vida como ela é. Ponto de encontro para lidar com eventos inesperados, muitas vezes numa abordagem de controle e submissão do devir existencial. Assim se pode entender a desestrutura de uma pessoa no espelho irreconhecível dos seus dias.  

Ao inventar novos conceitos para terras desconhecidas, como indica o pensador, tem a ver com as propostas de ressignificação existencial, os deslocamentos, as idas e vindas, como ensaios de aproximação com uma estrutura de pensamento em vias de tornar-se.  

Um aspecto que se destaca, tem a ver com a maneira como são tratados esses instantes de estranheza, quando algo novo surge no horizonte de cada um. No caso de novos paradigmas, se destacam as resistências mercadológicas, corporativas, para sustentar um eixo de saber-poder hegemônico. Quando se refere a uma pessoa, seja na vida familiar, no mundo do trabalho, amigos, o que se apresenta é o significado desses comportamentos como anomalia, doença, algo a ser tratado pela farmácia alienista.

Para uma pessoa em busca de si mesma sendo outra, a natureza e o alcance das intervenções clínicas podem significar uma acomodação com algo que busca superar. A exploração de novas possibilidades estruturais - autogenias - tem a ver com uma disposição pessoal em compartilhar ensaios de ressignificação e descoberta, um convívio com territórios integrantes da própria estrutura, embora, até então, desconhecidos ou inacessíveis.      

Nesse sentido, não é raro uma pessoa ter de lidar com as circunstâncias ao seu redor, seja como desdobramento de estudos e pesquisas ou na vida corporativa, familiar, num aprendizado sobre a estrutura de pensamento em processo de autogenia, com base nos indícios presentes numa linguagem recheada de incompletude discursiva e raciocínio desestruturado.   

Deleuze auxilia: “Nietzsche dizia que um pensador sempre atira uma flecha, como no vazio, e que um outro pensador a recolhe, para enviá-la numa outra direção. É o caso de Foucault. O que recebe, Foucault o transforma profundamente. Ele não para de criar.” (Conversações, 1998. Págs. 146/147).   

A Filosofia Clínica nasce em um momento histórico peculiar, quando se acenam múltiplas novidades, especificamente na área tecnológica, onde a maioria das pessoas saboreia as inovações para melhorar seu dia a dia como uma coisa entre outras coisas. Enquanto isso, o fenômeno humano segue refém de velhas fórmulas para contenção, controle, submissão de sua expressividade, cercado pelos muros e freios existenciais de cada época.

O novo paradigma cuidador encontra sua fonte de inspiração nas reflexões e análises da Filosofia, a qual, associada as dinâmicas de consultório, compõe uma nova direção ao acolhimento e cuidados com a pessoa em seus momentos de autodescoberta.

Aquilo que se pensava existir somente na esfera das ideias, adquire um contorno objetivo nos procedimentos clínicos da nova mensagem terapêutica. Seu olhar de escuta e demais procedimentos, se associam as metodologias libertárias, contraditórias com as práticas para classificar e domesticar a expressividade humana.

Os eventos da singularidade reivindicam método e borogodó, destituindo, sob muitos aspectos, um saber-poder que tenta se manter a qualquer custo. A Filosofia Clínica existe há pouco mais de 30 anos, e é uma elaboração crítica, reflexiva, analítica, prática, voltada para a interseção com a fenomenologia do humano em suas buscas de reelaboração, seja para manter ou desconstruir sua autogenia.  

Talvez os rituais de ensino, pesquisa, publicações acadêmicas tenham algo a aprender com as contradições que insistem em bater à sua porta, compartilhando algo que os artigos científicos e notas de rodapé não alcançam. A novidade costuma se insinuar - um pouco antes de ser cooptada pelos princípios de verdade - nos convívios com o inesperado, nas entrelinhas e desvãos da cristalização institucional, no extraordinário refugiado na invisibilidade dos recomeços.   

Aquele abraço,

hs

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 68*

Notas do consultório do filósofo VII

A obra: Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, de autoria da escritora Marie Beynon Ray teve sua primeira edição em junho de 1945. O título original é: Doctors of the mind, traduzido para o português como: Médicos do espírito. A edição brasileira é tradução de Juvenal Jacinto para a editora Globo, no ano de 1965.

Esse livro se deixou encontrar em 2003, numa prateleira distante do primeiro olhar, num endereço de livros raros e esgotados em Porto Alegre. Um desses lugares onde se refugiam os inéditos à espera de uma interseção. O texto trata de questões referentes à prática clínica, inicialmente cuidando do tema da Psiquiatria e seu nascimento como ciência da mente. Nos dias de hoje, essa disciplina e coadjuvantes, sob muitos aspectos, traduz sua atividade como consequência das crenças e percepções da biologia, da química, contribuindo com os lucros faraônicos da indústria de psicofármacos, passando longe das causas estruturais dos desajustes e contradições somáticas.  

Talvez não seja acaso o surgimento de novas abordagens terapêuticas, reencontrando o fio da meada que se tinha perdido pela pesquisa refém de seus patrocinadores, dos consumidores desinformados, a ideologia dos princípios de verdade. É possível vislumbrar um muro metodológico, no que se refere à atividade das terapias de base Psi, onde prospera a camisa de força da lógica alienista. Noutras palavras, quando não se sabe o que fazer, encaminha-se o paciente ao Psiquiatra, o qual também não saberá o que fazer. No entanto, legalmente, poderá medicar, internar, conter a expressividade nascente da pessoa para adequá-la aos padrões de normalidade de sua época.  

O período histórico (a circunstância) onde a obra se escreve, tem a ver com os primeiros pensadores da nova área de estudos e intervenção clínica, como: Freud, Jung, Mesmer, Adler... Os quais cuidavam das questões existenciais de forma livre, destituída de vínculos com as ideologias do consumo e submissão do fenômeno humano. Essas mentes brilhantes, ainda hoje mantém seu séquito de seguidores, repetindo sua mensagem, em publicações, biografias, quadros, estátuas, igrejas, demonstrando uma submissão teológica aos seus escritos e ideias, que faziam sentido em determinada época histórica, de acordo com a pesquisa, os estudos, as possibilidades de seu tempo.   

Marie Ray lembra Mesmer: “(...) devia acontecer, raciocinou, que certos pacientes resistiam a esta influência. O doente deve desejar sinceramente ficar bom, deve ter confiança no seu médico, e cooperar com ele; caso contrário, não alcançará nenhum benefício com seus tratamentos. A este laço de simpatia, a esta compreensão mútua entre paciente e médico, ele deu o nome de rapport.” (Médicos do espírito, 1965. Pág. 66).

O fragmento contribui com a reflexão sobre a qualidade das interseções clínicas, ou seja, a natureza do encontro terapêutico entre o partilhante e o filósofo clínico. Esses desdobramentos da hora-sessão prosseguem no cotidiano da pessoa, desconstruindo e reconstruindo sua estrutura de pensamento de acordo com as atividades no espaço terapêutico formal.

A busca por uma terapia, traz consigo um pré-requisito - pelo viés partilhante - que se denomina vontade de melhorar. Um processo investigativo compartilhado deve conter esse ingrediente como base das suas intervenções, em busca de melhores dias para a pessoa.

Assim se pode entender a dificuldade em trabalhar com quem chega ao consultório com resistências, contrariedade em se trabalhar, boicotando a atividade clínica com tramas existenciais para sustentar sua dor, muitas vezes associando essa a sua integridade.

A qualidade da interseção clínica, em qualquer uma de suas formas, será imprescindível para sustentação da terapia. Não se trata somente de uma relação positiva e de entendimento compartilhado, muitas vezes a interseção negativa contêm ingredientes significativos para a atividade do filósofo. Lembrando, ainda, as transições pelas interseções mistas, indefinidas, as quais integram um rol de matéria-prima refugiada na estrutura de pensamento do partilhante.

Com Marie Ray: “Mas quando os seus pacientes estavam mesmerizados, Braid verificou, como todos os mesmeristas diziam, que efetivamente estavam num estado mental muito diferente do seu estado normal. Podia fazer com eles uma porção de coisas que não podia quando estavam acordados. Eram dóceis e receptivos, e ele podia injetar em seus espíritos ideias que de algum modo – não sabiam como – curavam os seus males.” (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 75).

Esse aspecto, trabalhado pela autora, diz respeito à circunstância da clínica, ou seja, um constructo de ingredientes que constitui o espaço terapêutico como um lugar privilegiado às construções compartilhadas.  

O estado mental do partilhante, a partir de sua abertura, costuma contribuir com sua expressão e partilha. Muitas vezes o filósofo terá de superar os primeiros encontros, quando a pessoa chega com propósitos para desmerecer a atividade clínica. Com isso, a contradição entre não se trabalhar e a busca por melhores dias, pode significar um ponto de partida aos eventos da hora-sessão.

A autora, ao descrever um estado mental muito diferente do seu estado normal, auxilia o entendimento sobre esse encontro da pessoa consigo mesma na hora-sessão. As modificações da estrutura de pensamento cuidam para ajustar seu funcionamento, de acordo com as resultantes da terapia. Trata-se de um processo diferente da medicalização da Psiquiatria, a qual oferece uma sensação quase imediata de alívio e melhora, para, a seguir, apresentar uma fatura gigantesca de submissão, dependência química, distanciamento da pessoa das suas possibilidades existenciais.  

Em Filosofia Clínica sua abordagem reivindica, além da interseção de qualidade, a intimidade com a metodologia, isto é, respeitar suas etapas de cuidado e atenção à vida, tendo como referência uma circunstância, estrutura de pensamento, submodos (encontrados na farmácia subjetiva do partilhante ou construídos de forma a auxiliar seu desenvolvimento).

A autora lembra de John Jacob Abel, considerado o pai da endocrinologia e compartilha: “Nós os seres humanos, somos farmácias ambulantes, dizia ele. E não o disse por causa do material que introduzimos em nós, senão por causa do material que fabricamos internamente.” (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 103).

Talvez aspectos da medicina antiga, hoje em dia pretensamente superados pela indústria farmacêutica, sejam ainda revolucionários, especificamente no que diz respeito à possibilidade da pessoa encontrar, em seu constructo interno, a maioria dos medicamentos de que necessita.

A ilusão - persistente em nossos dias - de irmos à farmácia para comprar um remédio para dor de cabeça, debelando esse desconforto quase de imediato, sem tratar suas causas, parece estar relacionada a forma de vida que se está implementando. É raro alguém se ocupar com a investigação desses indícios e sinais, muitas vezes escolhendo um cotidiano contraditório consigo mesmo.   

O trajeto para localizar a farmácia subjetiva em cada pessoa é singular, reivindica um estudo compartilhado, uma busca por conhecer e acessar a estrutura de pensamento do partilhante, tendo por base sua história de vida circunstanciada. Com isso pode ser necessário superar as crenças e os freios existenciais contidos em determinados princípios de verdade, tendo como eixo o consumo disseminado de medicamentos, hoje oferecidos em armazéns, mercados, farmácias (que se multiplicam nas esquinas desse país).  

Marie Ray contribui: “Jung disse que todos, mesmo as pessoas regularmente felizes, aparentemente bem ajustadas, com uma vida sexual satisfatória, precisavam do auxílio de um psicólogo experiente. (...) Porque há algo no homem, disse ele, que vai além de suas necessidades materiais (...). (Médicos do espírito – o romance da Psiquiatria, 1965. Pág. 126).

Os avanços da ciência se apresentam como: adição, subtração, contradição, derivação, sobreposição de estudos, desconstrução, pesquisas, onde as descobertas anteriores não devem ser esquecidas, por servirem, muitas vezes, como base (ciência normal ou novos paradigmas) ao conhecimento posterior.

A superação de modelos de intervenção no cuidado e atenção à vida, deve significar um desenvolvimento dos estudos, especificamente da atividade clínica voltada para a prevenção e busca da qualidade de vida. Nesse sentido, ao reler os clássicos, é necessário investigar e refletir sobre esses escritos, tendo como referência as novas percepções e evidências da prática de consultório, muitas vezes atualizando ou superando discursos existenciais reconhecidos.   

A constatação de que há algo no homem, que vai além de suas necessidades materiais, indica a necessidade de um estudo circunstanciado a cada atendimento, ou seja, a busca pela singularidade contida na abordagem da Filosofia Clínica.

Talvez os agendamentos escolares da escola de medicina, onde se reconhece a máquina corpórea, seu funcionamento, anomalias, a estrutura significativa somática, ofereça aos futuros médicos - mesmo aos melhores - um agendamento limitante aos seus estudos e práticas. No caso de mentes brilhantes como: Mesmer, Freud, Jung..., apesar de sua formação médica, buscaram transgredir os limites de sua área, para encontrar o fenômeno humano numa epistemologia das ruas.

Uma abordagem clínica eficaz traduz sua melhor versão nos eventos de consultório. O espaço de trabalho do filósofo clínico se conjugam no consultório particular, hospitais públicos, ou onde se acumulam pessoas distanciadas de sua melhor possibilidade existencial, manifestando eventos somáticos multifacetados, reivindicando da medicina do corpo, um esforço para entender e acessar algo cujas raízes se encontram noutro lugar. 

Aquele abraço,

*hs

domingo, 19 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 67*

Notas do consultório do filósofo VI 

A circunstância partilhante é um fundamento da atividade clínica do filósofo. Com ela e a partir dela, se institui um lugar, uma base, um chão, onde se desdobram os eventos da interseção terapêutica. Trata-se de uma localização existencial de natureza singular. Seu ponto de partida costuma ser um assunto imediato, uma queixa preliminar, um território subjetivo que vai se apresentando, de acordo com a representação de mundo do partilhante.  

Nesse pedaço de chão é possível acolher e descrever a matéria-prima com a qual o filósofo irá trabalhar. Desprezar essa etapa da investigação clínica é desajustar a própria metodologia, a qual tem por pressuposto um estudo aprofundado e compartilhado dos eventos que integram a singularidade, um pouco antes de uma visibilidade da sua estrutura de pensamento e submodos.

Além de alcançar subsídios a atividade clínica do filósofo, o partilhante, com seu discurso existencial, pode reescrever os dados de sua história, atualizar memórias, acrescentar ingredientes, atualizar sua estrutura de pensamento. As revisitas a historicidade, tendo em vista sua circunstância, adicionam, subtraem, vivências de acordo com as especificidades que vão se apresentando.

Essa aprendizagem compartilhada na terapia, quando desprezada, desconstrói a metodologia, transformando sua proposta de emancipação do sujeito em refém do que já existia. Talvez esse fato ajude a entender a busca de alguns aprendizes, em transitar de uma abordagem para outra, tentando agregar conhecimento, quando na verdade, estão desvirtuando métodos contraditórios, excludentes. Algo que irão entender nas suas tentativas (frustradas) de trabalhar em consultório.  

Sei que a propaganda, os discursos, a retórica de profissionais das ciências humanas convencem muita gente, seja por sua titulação acadêmica, agendamentos de repetição, a persistência em velhos mantras sobre normalidade x anormalidade, saúde x doença, cura x loucura. Aliam-se a este estado de coisas a desinformação das pessoas, que muitas vezes buscam no palavrório fácil de um saber-poder institucional, uma proposta agradável a seus interesses.  

Assim a circunstância de uma pessoa reivindica um convívio continuado com seu endereço existencial em vias de atualização - seja para mudar ou sustentar o próprio território -, experienciando rotas numa investigação compartilhada.

Félix Guattari indica: “O que importa, primordialmente, é o ímpeto rítmico mutante de uma temporalização capaz de fazer unir os componentes heterogêneos de um novo edifício existencial.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 32).

Com a recuperação dos fatos registrados na memória, conhecida como historicidade, pela via da interseção qualificada, o filósofo clínico poderá reconhecer os deslocamentos, as idas e vindas, os ensaios, as modificações, a atualização discursiva existencial da pessoa. Muitas vezes o partilhante irá testemunhar as bases de sustentação do seu cotidiano desaparecer, sob forma de dúvidas, questionamentos, contradições, desestrutura, incompletude discursiva, como evidências de uma estrada nova que se insinua diante do olhar.

Os eventos dessa transição entre uma e outra realidade, costumam abastecer a estrutura de pensamento do partilhante com novas visões de sua circunstância, contribuindo para modificar sua percepção sobre as coisas, pessoas, territórios existenciais em vias de desconstrução.  

A travessia por essas pontes de si mesmo pode reivindicar uma interseção diferenciada (consigo mesmo, pessoas, lugares, tempos...) para sua continuidade, embora, algumas vezes, o partilhante possa escolher regressar ao antigo endereço existencial, fazendo pequenos ajustes para manter aquilo que tinha.  

Em Félix Gattari: “(...) cabe-nos redescobrir uma forma de ser do ser, antes, depois, aqui e em toda parte, sem ser, entretanto, idêntico a si mesmo; um ser processual, polifônico, singularizável, de texturas infinitamente complexificáveis, ao sabor das velocidades infinitas que animam suas composições virtuais.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 64).

As dialéticas do inesperado apreciam esses deslocamentos entre uma e outra realidade, ainda quando se mantenha num chão existencial conhecido. Uma fenomenologia do novo aprecia se anunciar num devir singular. A circunstância onde algo assim acontece costuma se reapresentar como algo diferente, na proporção desses reajustes da estrutura de pensamento com seu entorno.

Os trajetos compartilhados na historicidade, ao serem recuperados pela lógica partilhante em vias de ser e não-ser, constituem uma teia de significantes e significados em busca de algo mais. Rever e atualizar eventos cristalizados na malha intelectiva, pode contribuir para superar algo interditado antes de nascer.  

A polifonia referida pelo pensador se associa a esses ensaios para um si mesmo sendo outro. Um lugar onde suas referências possam exercitar aquilo até então desconsiderado, um refúgio para rascunhar versões para depois de amanhã.

Um contexto assim reivindica uma singularidade para se oferecer ao visar de escuta do filósofo clínico, ou seja, é necessário superar as cercas e muros das tipologias para enxergar além da obviedade de uma narrativa classificadora, de onde se acenam verdades recheadas de não-verdades, distorcendo a fenomenologia do partilhante em instantes de travessia.  

Com Félix Gattari: “Ao invés de se abandonar ao horizonte de morte capitalístico, uma política de produção de vida é possível, não para repeti-la tal como ela era há cem ou dois mil anos, mas para produzir formas mutantes segundo coordenadas atualmente imprevisíveis.” (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 87).

O sistema capitalista elabora prisões e amarras para sustentar suas armadilhas conceituais, ou seja, ao manter as pessoas reféns de uma lógica de consumo, encontra forças para sustentar a ideologia do deus dinheiro. Para tanto, encontra na classificação psiquiátrica e coadjuvantes, aliados para a normalidade dos psicofármacos.

Uma possibilidade de se produzir forças mutantes, como lembra o filósofo, tem a ver com essa dinâmica de consultório, onde, muitas vezes, a categoria lugar - integrante da circunstância - se modifica para acolher a singularidade em processo de transgressão para si mesma.    

A estrutura dessas modificações é de natureza plástica, dinâmica, onde se desenvolvem hipóteses, experimentos, novas rotas para um sujeito que se desloca com a imprevisibilidade de um devir. Por outro lado, na mesma direção, ao sustentar uma determinada circunstância existencial, a pessoa pode realizar suas buscas e derivações de acordo com uma proposta para manutenção do que possui.

O pensador nos auxilia: “Não apenas eu é um outro mas é uma multidão de modalidades de alteridade. (...) A heterogeneidade dos componentes – verbais, corporais, espaciais... – engendra uma heterogênese ontológica tanto mais vertiginosa na medida em que se enlaça atualmente com a proliferação de novos materiais, de novas representações eletrônicas, de uma retração de distâncias e de um alargamento dos pontos de vista.”  (Caosmose – um novo paradigma estético, 2000. Pág. 121).

Os horizontes existenciais em cada pessoa costumam adormecer diante das insinuações e atrativos dos princípios de verdade. Assim, estar diante da tv, frequentar lugares da moda, acessar redes sociais, costuma significar uma cumplicidade com um processo de manipulação e controle. A vida no fundo da caverna de Platão atualiza suas metodologias para sustentar as ideologias do consumo.   

Nesse sentido, a categoria circunstância pode aparecer recheada de freios existenciais, limites artificiais, direcionamentos institucionais (como a burocracia excessiva por exemplo), escolas para ensinar como se portar, o que valorizar, para onde se dirigir, igrejas para orar ao deus dinheiro...

As indicações dessa natureza costumam se apresentar nas dinâmicas de consultório, as quais podem ajustar ou desconstruir essa realidade. As buscas costumam se alinhar para um lugar favorável ao devir partilhante. A circunstância da hora-sessão compõe um refúgio aos ensaios de vida nova, uma espécie de bolha onde se refugiam duas ou mais pessoas em busca de algo mais.

Um alargamento dos pontos de vista, como descreve Gattari, se relaciona com esses deslocamentos para visualizar e sentir as dinâmicas do novo território em vias de anúncio. As lógicas do espanto costumam acompanhar esses momentos de transgressão territorial, por onde se ensaiam possibilidades em forma de broto.

Ainda quando o partilhante se apresenta como desestrutura, manifestada em palavras, gestos, ideias, escolhas meteóricas e de aparente sem sentido, é possível identificar - pela via da interseção - algo que se prepara para nascer e ressignificar uma condição singular. Cabe ao filósofo clínico acolher, aprender os ritmos, a linguagem, a expressão em vias de ensaio para um si mesmo, num lugar onde a circunstância se modifica com a transformação daquilo que a sustenta.

Aquele abraço,

*hs  

domingo, 12 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 66*

Notas do consultório do filósofo V*

É interessante notar, quando alguém avalia, classifica, engessa, procura entender algo novo no mundo da vida, a partir de referências epistemológicas cristalizadas. Esse mesmo dispositivo, que pode servir para estruturar a representação de uma pessoa, como ensina Schopenhauer, pode - dependendo de seu uso - limitar a visão das coisas, ao não se permitir conviver com uma lógica aprendiz em seu cotidiano.

Um aspecto que chama atenção em Filosofia Clínica é a estrutura de pensamento que abastece uma interseção, a qual reivindica uma postura investigativa compartilhada, com base numa estética do encontrar. Um ângulo que inaugura um determinado lugar, um ponto de cooperação, tendo por norte o território subjetivo do partilhante. Endereço existencial por onde o filósofo transita para conhecer a perspectiva do outro, a qual se apresenta em tempo, lugar, linguagem própria, muitas vezes amparados por um discurso existencial em deslocamentos de autogenia.    

A intencionalidade de John Searle auxilia a entender os rumos dessas expressividades, preliminarmente bem ajustadas, para contar sua versão das coisas até onde consegue se manter. Depois disso as palavras parecem se divertir ao compartilhar rastros e anúncios para algo mais. Assim, o filósofo dedica sua escuta fenomenológica para acolher e aprender sobre a natureza desses achados que transbordam os rumores preliminares.

Em uma leitura compartilhada nos eventos da hora-sessão, a qualidade da interseção pode se modificar, de acordo com os aparecimentos e desaparecimentos da matéria-prima que integra a estrutura de pensamento singular.

Umberto Eco auxilia: “(...) a única alternativa a uma teoria radical da interpretação voltada para o leitor é aquela celebrada pelos que dizem que a única interpretação válida tem por objetivo descobrir a intenção original do autor.” (Interpretação e superinterpreação, 1997. Pág. 29).

O pensador italiano contribui com a reflexão sobre esses eventos nem sempre possíveis de descrever apropriadamente, isto é, o que se desdobra e se realiza no acolhimento de um assunto imediato, tendo como referência a natureza e o alcance da interseção que vai se constituindo, como uma ponte a permitir um trânsito de lado a lado por suas margens.

Por essas idas e vindas algo mais se realiza, levando em conta o território subjetivo e o discurso existencial do partilhante, o qual vai abastecendo o filósofo clínico com sua versão das coisas, recuperando sua historicidade, atualizando sua percepção sobre aquilo que se foi, muitas vezes reaparecendo em nova versão.  

É fundamental compreender o outro a partir de seu território existencial, sem ficar refém de suas convicções, pois estas podem conter labirintos, armadilhas, desvãos, que o próprio titular desconheça. Para isso, o filósofo terá de exercitar sua inquietude criativa para descobrir outras rotas ao partilhante, em vista de freios existenciais descabidos.    

Em Umberto Eco: “Poder-se-ia dizer que um texto, depois de separado de seu autor (assim como da intenção do autor) e das circunstâncias concretas de sua criação, flutua no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis.” (Interpretação e superinterpretação, 1997. Pág. 48).

Com isso se pode pensar sobre a estrutura significativa de uma expressão, o quanto ela permanece íntegra com a autoria, após sua partilha, independente da semiose que utilize para se contar. Os textos existenciais vivenciados no cotidiano, imprimem suas versões nessa página singular, a qual desconstrói, acrescenta, renova seus esboços em forma de vida.  

A essência do rumor que anuncia, se insinua em meio a matéria-prima da intencionalidade, um desses caminhos por onde a fenomenologia do humano se apresenta, ainda quando se propõe omitir algo para si mesmo. 

Um ser multifacetado aprecia transgredir as lógicas da vida comum. Sua expressão oferece, em linguagem própria, nem sempre compreensível ao olho nu dos consensos, uma variedade de possíveis, ao descortinar facetas da realidade tidas como improvável ou incomum, acrescenta algo novo à vida que se tinha.

As páginas de uma obra que se elabora no mundo da vida, tem por companhia o ingrediente das suas relações. O percurso das calçadas, as vitrines, os cafés e livrarias, os aromas do jardim, o canto dos passarinhos, os sinos da igreja, as vozes e suas verdades, compõem a multifacetada realidade onde se encontra o texto das ruas.   

Nesse sentido, uma transcrição pode conter mensagens que serão acessíveis a determinados leitores, outras para outros, e assim por diante, levando-se em conta a sintonia das interseções entre a leitura e a escritura. A crítica literária, por exemplo, vai oferecer tantas versões sobre uma mesma obra, quantas sejam suas leituras, releituras, desleituras. Algumas vezes, o leitor de um mesmo livro, ao rever uma leitura poderá modificar antigas ideias sobre o tema, tendo em vista as águas da estrutura de pensamento em busca de outras margens.

Com Umberto Eco: “Leonardo (da Vinci) era um grande visionário, isto é, que ele estava pensando (de forma irreal para seu tempo, e com base em suposições falsas) num empreendimento futuro realista. Mas defini-lo como gênio utópico significa exatamente que a comunidade reconhece que, de algum modo, ele estava certo, e de outro desvairadamente errado.” (Interpretação e superinterpretação, 1997. Pág. 170).

A estrutura de pensamento dos princípios de verdade, em determinado momento histórico, costuma prescrever suas regras, normas, leis, para um convívio de harmonia entre as pessoas. Para movimentar a roda da história - levando-se em conta que ela tenha rodas, poderia ter cascos de navio, hélices de avião, barbatanas, asas de pássaro... - se faz necessária a percepção de alguns sujeitos em desconformidade com a lógica onde se encontram, oferecendo um visar sobre o que está por chegar.

Assim não há que se falar em acerto ou erro, verdade ou mentira, realidade ou ilusão, os eventos de cada um se apresentam ora numa narrativa existencial, ora noutra, muitas vezes em pronúncias estranhas, com palavras de múltiplos sentidos. A perplexidade desses aparecimentos aprecia se associar a lugares, tempos, a vida de cada um em sintonia ou dessintonia com sua singularidade.  

Aquele abraço,

hs

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 65***










Notas do consultório do filósofo IV* 

Os eventos da hora-sessão possuem uma pluralidade de aparecimentos e desaparecimentos modificando, com sua expressão, a circunstância onde se apresentam.  Inexiste um telos onde se poderia chegar com uma certeza cristalina. Ainda assim é possível transitar por suas inúmeras possibilidades, recheando, com a fenomenologia dos encontros, esse lugar impregnado de incógnitas, as quais rascunham seus originais com o que possuem.  

A clínica do filósofo, ao conter em sua atividade terapêutica as bases da analítica da linguagem, fenomenologia, hermenêutica compreensiva, estruturalismo, compõe uma integração atípica, que ganha forma e sustentação nos desdobramentos da hora-sessão.   

O estruturalismo oferece uma leitura de integração com a pluralidade de possíveis, num endereço existencial onde a indeterminação do sem nome aprecia insinuar suas verdades em línguas desconhecidas. Ao compor um todo com a totalidade de cada parte, se descrevem diálogos de acolhimento e tradução compartilhada. Para uma aproximação conceitual com essas especialidades, se reivindica a prática clínica, onde a lógica de uma expressividade ensaia novos movimentos existenciais.

Jacques Derrida contribui: “Ser estruturalista é prender-se em primeiro lugar à organização do sentido, à autonomia e ao equilíbrio próprio, à constituição acabada de cada momento, de cada forma; é recusar deportar para a categoria de acidente aberrante tudo o que um tipo ideal não permite compreender. O próprio patológico não é uma simples ausência de estrutura. É organizado. Não se compreende como deficiência, defecção ou decomposição de uma bela totalidade ideal. Não é uma simples derrota do Telos. (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 47).

A busca de sentido na terapia filosófica é aliada dos múltiplos fundamentos, os quais podem ser encontrados na trama conceitual acadêmica, um pouco antes de fazer sentido na hora-sessão. Não se trata de uma aplicação direta dos ensinamentos da teoria, mas de um suporte à uma transgressão metodológica em busca do outro na relação clínica.   

Uma interseção com a singularidade do partilhante, ainda quando ele mesmo não a reconheça, reivindica componentes que a teoria não alcança, como: acolhimento, compreensão, partilha, borogodó para realizar recíproca de inversão e inversão, adaptar-se a lógica do instante, sem perder a referência do papel existencial. Essa busca de sentido apresentada por Derrida auxilia a enxergar a categoria circunstância na Filosofia Clínica, como uma etapa estruturante para saber mais e melhor sobre a versão da pessoa sob seus cuidados. Uma intencionalidade assim descrita vai emitir seus sinais de acordo com suas possibilidades, quase sempre em desacordo com as métricas da tipologia, das classificações de protocolo.

Assim é possível entender a expressividade de algo ou alguém que se move para se manter, descrevendo uma estrutura de pensamento em forma de anúncio aos novos territórios da própria estrutura.  

Acolher a epistemologia do estranho, da diferença, é uma aptidão do filósofo clínico, amparado em sua proposta para descrever a singularidade do outro em seu devir existencial. A continuidade das sessões permite uma aproximação de qualidade com a realidade partilhante em vias de não-ser.

Com Derrida: “Se há estruturas, elas são possíveis a partir dessa estrutura fundamental pela qual a totalidade se abre e transborda para ganhar sentido na antecipação de um telos que é preciso entender aqui sob a sua forma mais indeterminada.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 47).

A clínica se inicia, via de regra, com esse desconcerto preliminar, por onde o partilhante se diz com aquilo que tem. A superação dessa desestrutura costuma ocorrer com o prosseguimento de sua expressividade, como se estivesse se acostumando com a nova versão de si mesmo sendo outro.  

O transbordamento expressivo de uma pessoa costuma desajustar a fragilidade estrutural da vida normal, isto é, as lógicas da normalização comportamental, com base em pressupostos de natureza ideológica, axiológica, denunciam seus princípios de verdade, por exemplo: a internação involuntária de alguém que não consegue se fazer entender em seus momentos de travessia. A possibilidade de um telos se apresenta a partir de uma desestrutura, recolocando as dinâmicas de consultório numa cumplicidade com esses ensaios existenciais.   

Em Jacques Derrida: “O ser que se anuncia no ilegível está para além destas categorias, para além do seu próprio nome ao escrever-se.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 71).

A ilegibilidade de um discurso existencial reivindica um olhar de escuta fenomenológica, para começo de conversa. Uma aproximação com a natureza desses inéditos, concede uma decifração compartilhada de seus originais. Trata-se de rascunhos existenciais em forma de broto, reivindicam um acolhimento compreensivo, cuidado singularizado, os quais não se encontram nas classificações da bíblia DSM e coadjuvantes, tão festejadas pelo carimbo do notário!

Nesse sentido, uma ilegibilidade reivindica um estudo circunstanciado de suas fontes de expressão, a língua em que se diz e não se diz, sua representação das coisas, por onde dialoga com o mundo da vida, seus ensaios e rascunhos em forma de apresentação. Depois dessa base de reconhecimento, pode ser possível encontrar a epistemologia intuitiva desse dicionário singular, para seguir aos novos endereços existenciais.

Uma abordagem como a Filosofia Clínica, se inscreve na interseção com o desarrazoado, para encontrar, em sua própria estrutura de pensamento, a fonte de inspiração para sua atividade clínica. Então, acompanhar, descrever, compreender, o caráter de ser ilegível, inacreditável, extraordinário, costuma ser a rotina da nova terapia com base na Filosofia. Sua plasticidade se constitui como um tango, por onde as evidências da vida diferente se encontram em uma conexão peculiar, nem sempre de acordo com os princípios de verdade. Seu significado está atrelado a uma conexão profunda com o discurso existencial do devir singular.  

Para entender a realidade de suas narrativas, é necessário encontrar esse lugar de onde se diz aquilo que aparece, muito próximo das poéticas da singularidade, uma aproximação com os eventos de aparente sem sentido, para localizar a epistemologia desses desencontros onde uma nova versão existencial se esboça.  

Jacques Derrida recorda: “Seria tentador aproximar o que dissemos de Artaud do que nos dizem Holderlin, Mallarmé: que a inspiração é em primeiro lugar esse ponto puro em que ela falta. Mas é preciso resistir a esta tentação das afirmações demasiado gerais. Cada poeta diz o mesmo, e não é, contudo, o mesmo, é o único, sentimo-lo bem.” (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 111).   

É possível associar a fenomenologia de Merleau-Ponty com a analítica da linguagem de Wittgenstein e a hermenêutica compreensiva de Gadamer, para dar conta desse estruturalismo que Derrida nos apresenta, como a pedra de toque para compreender as rotas de uma integração singular.

Talvez a tentação de ser aceito socialmente, a qualquer preço, possa estar na base dessa necessidade em se adaptar à realidade dos consensos, desprezando, muitas vezes, sua própria estrutura de pensamento, em desfavor das circunstâncias onde cada um se encontra. Paga-se caro por querer pertencer a um lugar onde não se cabe por inteiro, participando de uma normalidade que despreza a lógica das diferenças, discrimina as manifestações da expressividade como loucura e desrazão, redige leis e normas para sustentar a camisa de força social.

O novo paradigma da Filosofia Clínica se associa às iniciativas - ainda em seu estágio preliminar - para desconstruir as intervenções da generalização, as quais transformam um sujeito com raras habilidades existenciais em objeto de controle e submissão às drogas da moda.   

Derrida contribui: “Artaud teve igualmente cuidado em marcar a sua discordância em relação à psicanálise e sobretudo ao psicanalista, aquele que julga poder segurar o discurso na psicanálise, deter a sua iniciativa e poder de iniciação”. (A escritura e a diferença, 2005. Pág. 164).

Ora, ora, ora, nos últimos anos, alguns incautos que se apresentam como filósofos clínicos, vão buscar na Psicanálise e outras metodologias, um suporte para sua atividade terapêutica. Além de mostrar que não aprenderam Filosofia Clínica, permanecendo na superfície de sua apresentação, boicotando seus estudos, a clínica pessoal, os estágios, ainda levam suas questões mal resolvidas para outra abordagem.    

Parece não existir uma reflexão crítica sobre o fato de que a Psicanálise, ao propor uma expressão do chamado inconsciente, coloca o paciente refém das interpretações do psicanalista. Troca uma cela por outra, transformando pessoas agendáveis - que cabem nessa metodologia - em cumplicidade (Estocolmo?) com os delírios da hermenêutica do analista.

Quem estudou Filosofia e Filosofia Clínica - pelo menos os conceitos básicos -, deveria saber que a metodologia da Psicanálise, trata as pessoas a partir de definições apriorísticas e suas classificações, quase sempre distorcendo a originalidade em vias de aparecimento, para se enquadrar em sua régua interpretativa, onde se destaca uma ideologia de saber-poder, disfarçada de libertação.    

A representação de mundo do alienista*, ao se aproveitar da fragilidade momentânea da pessoa em seus momentos de ressignificação existencial, se traduz como proposta para redirecionar a vida da pessoa para a vida normal, seja isso o que for. Ao querer transformar a inquietude criativa de Artaud em loucura, a Psiquiatria nada mais fez do que colocar à vista os estreitos limites de sua régua metodológica, em busca de transformar um sujeito singular (insubmisso, criativo, subversivo) numa extensão do seu entendimento das coisas.

Aquele abraço,

*hs

**Alienista no sentido de que muitos profissionais dessa área, alienam a pessoa de sua condição expressiva singular, mantendo a mesma subjugada às intervenções da Psiquiatria.  

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 64*


Notas do consultório do filósofo III 

A nova abordagem terapêutica com base na interseção da Filosofia com a prática clínica, traz consigo uma trama significativa de reflexões e contribuições para a vida e o papel existencial das pessoas com borogodó para a atividade cuidadora.

Existem nuances e desdobramentos a partir de um encontro terapêutico, por onde suas repercussões superam a hora-sessão para encontrar a luz do dia. Do lado a lado da relação clínica ocorrem fenômenos improváveis se distanciados da categoria lugar onde se realizam.  

Um desses eventos desconcertantes é uma resultante da terapia, conhecida por autogenia. Sua expressão trata de: interseção e suas derivações, transformação, mudança, ressignificação na estrutura de pensamento de uma pessoa. No que se refere ao partilhante, é possível trabalhar as autogenias que se apresentam nas dialéticas da hora-sessão, no entanto, também o filósofo clínico, tem sua expressividade impactada pelas circunstâncias de consultório.   

Em Fritjof Capra: “(...) elos de realimentação, ou seja, a ideia contida nessa expressão é a de algo que, tendo sido produzido, gerado ou modificado por outra coisa, afeta por sua vez essa outra coisa de modo a produzir modificações nela. É uma espécie de rede causal de mão dupla.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 28).

Assim é possível entender, numa forma de autoproteção, a defesa das tipologias, classificações, preservando uma distância significativa em relação aos atendimentos. Cabe lembrar a Psiquiatria e coadjuvantes, onde muitos eventos conhecidos como loucura, encontram sua origem em suas próprias intervenções, através dos agendamentos, enraizamentos, a distorcer a originalidade do sujeito em vias de não-ser.  

Em Filosofia Clínica, pela via da interseção, trata-se de um processo completamente outro, tendo por base a representação de mundo que vai aparecendo. Uma reconstrução compartilhada da historicidade partilhante, por si só, costuma ter um alcance terapêutico significativo. Assim, o filósofo em recíproca de inversão, oferece sua estrutura de pensamento ao partilhante, como ponto de apoio aos seus ensaios de atualização discursiva.

A partir desses movimentos da clínica, não é raro acontecer desconstruções estruturais e o surgimento de algo novo na estrutura de pensamento dos envolvidos na hora-sessão, ou seja, aquilo antes inacessível ou desconhecido, pode surgir como hipótese, experimentação, assumindo uma feição aprendiz da pessoa com ela mesma. Ao filósofo cabe acompanhar, interagir, compartilhar rotas significativas aos deslocamentos em processo.  

Algo mais aprecia surgir na terapia, oferecendo uma matéria-prima para as intervenções do filósofo. Como a circunstância - quase esquecida - de que o cuidador, ao compartilhar sua estrutura de pensamento com o partilhante, ajustando sua expressividade ao papel existencial, acrescenta uma fatia generosa de si mesmo aos eventos da hora-sessão.      

Com Fritjof Capra: “A experiência nasce da dinâmica não-linear complexa das redes neurais, e só poderá ser explicada se a nossa compreensão da neurobiologia for combinada a uma compreensão dessa dinâmica.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 56).

A descoberta da singularidade como um pressuposto para a atividade clínica, oferece uma nova rota para as relações humanas. A fenomenologia dos encontros reivindica uma abordagem diferenciada, plástica, dinâmica, apta a manter interseção com o zoom da expressividade em cada pessoa.  

O novo paradigma da Filosofia Clínica possui características de proto e metaciência, ao acolher, recuperar, superar, antecipar, descobrir, traduzir, habilidades humanas, até então, improváveis, desconhecidas, inacessíveis pelas lentes festejadas da ciência normal. Seu referencial aprendiz se abastece da interseção, estudo, análise, acolhimento, ousadia para aventurar-se em territórios subjetivos outros, impregnados de incógnitas existenciais, armadilhas conceituais, rupturas com o mundo reconhecido da família, amigos, em direção aquilo sem voz e vez. Quando um fenômeno dessa natureza chega à lógica microscópio, a estrutura de pensamento há muito já efetivou seus movimentos subjetivos. 

As constatações da medicina do corpo, tem dificuldade em perceber essas origens estruturais e, quando consegue, teme a novidade diante de suas convicções, tratando de reduzir sua expressão aos moldes reconhecidos ou atribui seu aparecimento e responsabilidade à metafísica, como algo que não lhe pertence.    

Fritjof Capra contribui: “Numa organização humana, o acontecimento que desencadeia o processo de surgimento espontâneo de uma nova ordem pode ser um comentário informal, que, muito embora não pareça importante para quem o fez, pode ser significativo para algumas pessoas dentro de uma comunidade de prática.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 128).

Os eventos da intencionalidade apreciam surgir no discurso existencial do partilhante, ou seja, em suas menções na hora-sessão ou fora dela, incluindo a historicidade, os momentos de desconstrução mais significativa, os períodos de reconstrução, a vida cotidiana, onde as palavras possuem um sentido peculiar, o qual vai pedir ao filósofo uma aproximação com esse devir peculiar.

Uma nova estruturação na vida de cada pessoa, possui roteiros diferenciados, os quais reivindicam um estudo singularizado, distante das abordagens generalistas e seus protocolos. Tendo em vista uma crise precursora, a partir daí, costumam acontecer múltiplos eventos no cotidiano do partilhante, levando, muitas vezes, a própria pessoa a desconfiar de si mesmo. Nesses momentos a metodologia faz a diferença, pela natureza e alcance dos seus agendamentos, seja para acolher, compreender ou desvirtuar a lógica singular em seu estado de anúncio.   

Nesse sentido o filósofo precisa estar atento as especificidades da pessoa, isto é, compreender, interagir com as necessidades do instante aprendiz. As rotas da construção compartilhada, nesses momentos de desestruturação e incompletude discursiva, pede sensibilidade, acolhimento, interseção, cuidado e atenção a matéria-prima que vai aparecendo na estrutura dos encontros. A escuta fenomenológica, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, apreciam localizar existencialmente essas expressões em forma de broto.

Aquele abraço,

*hs