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domingo, 4 de outubro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 92*










Sobre a leitura interminável,

Em 2005 tivemos mais um ano intenso. Viagens, aulas, atendimentos, pesquisa... Desde 1999 já transitava pelo Rio de Janeiro, onde logo depois fui morar e trabalhar. Algo diferenciado nesses tempos na capital fluminense, foi a descoberta de uma feira do livro itinerante, ou seja, a cada semana, as barracas se deslocavam por alguns bairros.   

Num desses dias, na Cinelândia, vi aquelas barraquinhas enfileiradas em frente ao Odeon e o Amarelinho. Como tinha a manhã livre, fui exercitar o flanar por seus corredores. Fiquei surpreso ao encontrar obras raras na região central da cidade, uma atração irresistível. Assim se deu um achado com a obra de Ricardo Piglia, um autor, até então, desconhecido para mim.

O livro passava a fazer parte da minha pequena biblioteca. Trata-se de “O laboratório do escritor”. Publicado em 1994, pela editora Iluminuras/SP, com tradução de Josely Vianna Baptista. Algo inusitado (embora comum nesses casos) é o fato de o livro estar assinado por alguém que o adquiriu na 40. Feira do Livro de Porto Alegre/RS em 1994, ano de seu lançamento. 11 anos depois, e, sabe-se lá por que mãos e mentes o livro viajou até pousar na feira do livro da Cinelândia.

Me senti um privilegiado por encontrar uma obra de um autor da estatura de Borges, Cortázar, Lugones, Silvina Ocampo, Casares, Macedônio Fernández ...

Talvez seja importante destacar que, para nós, leitores em busca de peças raras e diálogos com a maestria literária, o que menos importa é saber o ano da edição, bastando, para tanto, que o texto esteja em condições de ser lido e saboreado. Em minha área de interesse, os lançamentos barulhentos valem pouco, menos ainda àqueles festejados pelas mídias de autores endinheirados.  

Preferível os escritores/pensadores exilados, incompreendidos pelos especialistas, os clubinhos da moda. Sem contar que um livro guarda muitas histórias, possui conteúdos nem sempre acessíveis à primeira vista, reivindicando releituras para se traduzir adequadamente e isso reivindica um tempo sem pressa. Bem assim a caminhada existencial de cada um, para encontrar-se com a obra.

Em Piglia: “Literariamente, a categoria de inimigo é uma posição de leitura. (...) Não se pode ser escritor sem ter inimigos.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 47)

A atividade literária - o encontro do leitor com o autor -, quando acontece, se faz numa sintonia singular, com base numa aproximação das estruturas de pensamento. As buscas por superação das adversidades, os estudos, a pesquisa, os agendamentos dos princípios de verdade, aparecem num tempo próprio em cada pessoa. Esse fato costuma delimitar os ângulos possíveis ao olhar.

Uma decifração adequada dessa expressividade, requer uma interseção diferenciada, tendo em vista o outro lado do rio, suas margens, contornos, a floresta que o abriga. Essa circunstância - presente no fenômeno leitura - oferece um encontro de raridades, um lugar para a reciprocidade exercitar-se num território de excelência.

O contexto de representação de mundo (Schopenhauer), pede uma atividade intelectivo-existencial singular, em busca da conjugação com a outra circunstância diante de si. Assim se pode entender a ideia de ter um inimigo, como contradição do texto escrito, suas ideias, possibilidades de entendimento, afrontas e derivações.

A partir desse lugar onde acontecem encontros e desencontros, a vida se anuncia em linguagem própria, numa dinâmica nem sempre ao alcance de um espírito de multidão. Talvez por isso as releituras ofereçam aquele algo mais que a primeira visita deixou escapar.

Com o autor: “(...) por isso pediu uma entrevista a Carl Jung, que admirava sua obra e que escrevera um artigo exaltando o Ulisses. Joyce, que nesse momento escrevia Finnegan’s Wake, mostrou-lhe vários textos de Lucia. ‘Ela usa a linguagem como eu’, disse. ‘Sim’, respondeu-lhe Jung, ‘mas ali onde você nada, ela se afoga.’” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 62)

As questões envolvendo a linguagem são tantas quantas as pessoas envolvidas, ou seja, sem o significado de uma expressão singular, o que se tem são interpretações distorcivas, contraditórias com um sentido que permanece incompreendido. É preciso um convívio e aprofundamento da interseção para conhecer - a partir da literalidade e contexto - o sentido, alcance, dessas narrativas que se apresentam numa semiose própria.   

Noutras palavras, com o fragmento de Piglia, as mesmas expressões podem ser outras, em comum acordo com a pluralidade de uma circunstância mutante.   

Ao referir: ‘ali onde você nada, ela se afoga’, o texto se aproxima de um vice conceito, por onde a manifestação de Jung tenta traduzir a natureza das ilusões de seu interlocutor. Para uma relação compreensiva, precisaríamos de um acolhimento da singularidade, a partir de seu próprio território existencial.   

Piglia ensina: “Como eu gostaria que meus livros fossem lidos? Tal qual eles são lidos. Nada mais que isso. Por que o escritor teria que intervir para afirmar ou retificar o que se diz sobre sua obra? Cada um pode ler o que quiser num texto.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 67)

O escritor compartilha uma percepção sobre sua obra, isto é, a leitura deve encontrar as possibilidades de cada leitor. Assim se descreve a pluralidade compreensiva para um texto, nem sempre ao alcance de uma construção compartilhada.  

Existe quem faça uma leitura antropológica, filosófica analítica, hermenêutica, fenomenológica, estruturalista, psicanalítica, psiquiátrica... filosófica clínica. Quem escreve compartilha uma expressividade, nem sempre acessível à realidade do leitor. Não se trata de erro, embora delimite o ângulo de leitura.    

Outro dia, li algo assim: ‘ao falarmos de um autor entendemos seus escritos como um partilhante diante de nosso olhar’, ora isso, para minha forma de entender as coisas, é um equívoco, pois a psicanálise já faz isso, a psiquiatria e a psicologia idem.  A filosofia clínica não identifica patologias em sua atividade terapêutica, ainda menos na escrita. Não interpreta os textos a partir de uma análise inversiva de sua leitura, trata-se, isso sim, de uma aproximação compreensiva e dialogada com a autoria. 

Com o escritor: “Quanto à crítica, penso que é uma das formas modernas da autobiografia. A pessoa escreve sua vida quando pensa estar escrevendo suas leituras. (...) O sujeito da crítica costuma estar disfarçado pelo método (às vezes o sujeito é o método), mas sempre está presente, e reconstruir sua história e seu lugar é o melhor modo de ler crítica.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 70 e 71)

Piglia deixa pistas por suas páginas de escritura singular, ou seja, aponta a suspeita de que a leitura e a escrita, seja ela uma análise, reflexão, derivação, tem a ver com o sujeito leitor e sua busca para alcançar os tons e sobretons da obra.

A autoria indica sua digital nas representações que compartilha. Esse fato tem a ver com a abordagem da Filosofia Clínica no sentido de evidenciar ‘a mão que balança o berço’, isto é, quem lê, entende, critica, interage de múltiplas formas com o texto, nem sempre consegue acessar a intencionalidade do autor, embora descreva sua representação da representação.      

Embora o método possa contribuir para uma determinada percepção das coisas, não é necessariamente o único aspecto dessa história, ou seja, a partir de uma abordagem clínica, por exemplo, muito da expressão autoral pode se perder, tendo em vista as possibilidades de releitura dos originais.  

Uma modalidade de autobiografia está presente em cada ideia, gesto, palavra, partilha, na desmedida em que a singularidade se encontra numa narrativa existencial em devir.   

O texto anuncia: “Sempre se escreve para alguém, mas nunca se sabe quem é esse alguém”. (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 75)

A busca pelo sujeito da escritura, precisa encontrar a sintonia entre: autor e leitor, a forma e conteúdo da obra, sua linguagem... Qualificar os deslocamentos por uma floresta recheada de equivocidades, onde a literalidade pode ser insuficiente para acessar os tópicos significativos em uma estrutura de pensamento.   

O dado atual - em uma leitura - contribui para a interseção ampliada com um texto, mas pode não servir para traduzir o autor dessas palavras. A crítica reflexiva permanece refém de uma metodologia, a qual, ao esboçar sua ideologia pela abordagem escolhida, destaca aspectos que fazem sentido ao olhar do crítico.

Sob esse aspecto, a escritura apresenta uma pluralidade de descrições. Para alguns um desabafo, para outros um tempo dedicado a registrar suas ideias, ainda àqueles em busca de tradução do seu cotidiano em diários, sem contar quem encontra na escrita uma forma de vida.  

Nesse sentido, pode-se escrever para si mesmo ou para os leitores, compartilhando a matéria-prima da estrutura de pensamento. Muitos vão encontrar um espaço de ensaios e inspiração, outros um refúgio para as dialéticas da realidade.     

Piglia compartilha: “A variedade de leituras a que pode ser submetido um mesmo livro é incrível, e a experiência é muito útil para analisar o estado da reflexão sobre a literatura num determinado momento. (...) é notável comprovar como o livro que se escreveu muda e se transforma e se converte em outro segundo o recorte feito pelo crítico ou o lugar de onde o lê. (...) o caráter ideológico e social da leitura. Todo crítico escreve a partir de uma concepção da literatura (e não só da literatura). (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 85)

Recentemente, em nosso país, descobriu-se que juízes tem uma postura ideológica, uma concepção de mundo, ao compor suas sentenças de aspecto técnico. Noutras palavras, não existe neutralidade em suas decisões, em que pese a ideia de priorizar o saber jurídico para equilibrar as escaramuças judiciais.

A leitura de uma obra está intimamente relacionada com as possibilidades de seu leitor, sendo estas àquelas do momento em que uma leitura é efetivada. Cada um lê com o que tem, tendo em vista os desdobramentos de sua circunstância, inclusive como derivação, podendo ultrapassar suas origens, para dar curso às novas formas de escritura. 

Piglia identifica algo pensado por filósofos como Gramsci, quando identifica conteúdos nem sempre nítidos na expressão humana, isto é, àquilo que estrutura formas de pensar, escolher, agir, compartilhar, costuma se refugiar (como ideologia) nas entrelinhas de uma narrativa.   

Com o escritor: “Obviamente não existe nenhuma relação entre qualidade literária e consagração crítica ou sucesso de público. A qualidade literária é algo tão raro e difícil de encontrar que nos acostumamos a procurá-la ali onde a crítica e o mercado negam os textos ou os silenciam.” (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 86)

A leitura comum, essa do dia a dia, reflexo dos sucessos das mídias, concursos literários, menções de acadêmicos, formadores de opinião, agendamentos massivos sobre o que e como ler, se reveste de uma obsolescência programada.

Textos libertários - ao contrário - ao oferecer novos paradigmas, contraditórios com uma só forma de ler, escrever, descrever, reféns de bolsas de estudo e pesquisa, cúmplices em obras e escritores considerados bem-sucedidos (mais pela publicidade e autopromoção do que pela qualidade de suas páginas). Vale lembrar a peça ‘tanto barulho por nada’ (final do séc. XVI) de Shakespeare. A maioria se esvai como fumaça ao vento, de acordo com a lógica das redes sociais, palestras para multidões, textos escritos por IA e adjacências.    

As propostas do mercado editorial, evidenciam a ideologia por trás das prateleiras, à disposição dos livros nas estantes, vitrines, sites, a consagração de autores e autoras da moda, premiações compradas por autores, aproveitando seus momentos de palco, até quando os lucros desaparecem, com os tubarões editoriais levando seus dentes afiados e sua goela insaciável para outras águas.  

A eficácia de um livro se associa às possibilidades de sua leitura, ou seja, a qualidade da relação entre as páginas do autor e seu leitor. Muitas vezes na periferia dos festejos de multidão, uma obra pode exilar-se numa invisibilidade de quase nada.    

Piglia diz assim: “A literatura constrói a história de um mundo perdido. O romance não expressa nenhuma sociedade a não ser como negação e contra-realidade. A literatura é sempre inatual, diz em outro lugar, fora de hora, a verdadeira história. (...) Se a política é a arte do possível, a arte do ponto final, então a literatura é sua antítese. Nada de pactos, nada de transações, a realidade não é a única verdade.  (O laboratório do escritor, 1994. Pág. 93)

Esse dado ajuda a compreender o caráter marginal de autores de obras raras, os quais oferecem a incógnita de seus textos como um refúgio, ao compartilhar suas menções com a singularidade leitora.  

As publicações assim pensadas, vinculam-se a uma desvalia, por razões como: apresentação de uma nova linguagem, o fato de o autor ser desconhecido, desinteresse pelo jogo comercial. Um texto dessa natureza se descreve para um leitor diferenciado.    

O fragmento se aproxima da reflexão sobre os novos paradigmas, como a filosofia clínica, os quais costumam ser encontrados e compartilhados por uma determinada tribo existencial, antes de se definir na realidade acadêmica, ou em forma de igreja.  

Se a realidade não é a única verdade, como recorda Piglia, parece ser preciso encontrar novas rotas a partir da irrealidade dos devaneios, da inquietude criativa, conviver com as janelas que se abrem pela esteticidade em suas múltiplas formas de apresentação. Nesse sentido, inexiste a preocupação em agradar, receber medalhas, prêmios, mas desvelar novos espaços de vida, muitas vezes exilados no lugar algum de todo lugar.   

Aquele abraço,

hs 

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