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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 91*


 








                           Sobre “Música para Camaleões” I

Em um dia desses, saboreando o silêncio das primeiras horas da manhã de sábado, pelas ruas do centro histórico de Porto Alegre, logo após um café ao lado do “Beco dos Livros”, na rua dos Andradas, encontrei a obra: “Ensaios” de Truman Capote, com tradução de Débora Isidoro e publicada pela editora Leya/SP em 2010.

Um pouco antes de seus textos, o autor compartilha a apresentação aos originais de 1980. Alguém já referiu ser o prefácio uma antecipação do que o leitor irá encontrar no livro. Espécie de antevisão, ou chave de leitura, para os aprofundamentos posteriores.  

As páginas iniciais traduzem o agridoce da expressão singular, por onde o autor se descreve sobre a fenomenologia da escrita.

Em nosso caso, aprendizes da relação da Filosofia Clínica com a Literatura, com suas múltiplas possibilidades de leitura, releitura, derivações, ao ser contraditória com um espírito de multidão, algo mais se oferece.  

Com Truman Capote: “Comecei a escrever quando tinha 8 anos – do nada, sem nenhuma inspiração de um exemplo qualquer. Jamais conhecera alguém que escrevesse; de fato, conhecia poucas pessoas que lessem. Mas o fato era que as únicas quatro coisas que me interessavam eram: ler livros, ir ao cinema, sapatear e desenhar. (...) um dia, comecei a escrever, sem saber que havia acorrentado minha vida a um mestre nobre, mas implacável, destituído de misericórdia. (...)”. (Prefácio de ‘Música para Camaleões’ in Ensaios, 2010. Pág. 579)

O fragmento torna possível refletir sobre os eventos da vida singular, ou seja, como lembra Borges: ‘séculos e séculos e as coisas acontecem para alguém, exatamente agora, numa circunstância específica’.

A percepção atualizada do autor sobre sua condição de leitor e escritor, indica as origens de seu interesse pela literatura. No seu caso, refere não ter tido nenhuma influência familiar, de amigos, colegas... diz ele: “jamais conhecera alguém que escrevesse”.

Essa narrativa de um escritor sobre as origens de sua paixão dominante, tem a ver com algo que se insinuou - bem cedo - em sua estrutura de pensamento, isto é, a vontade irresistível de ler e escrever, mesmo encontrando-se num contexto desfavorável a sua expressividade.  

Uma indagação poderia surgir: de onde vem essa vontade? Como se anunciou, desenvolveu, se manteve? multiplicando o foco e a disciplina para uma dedicação a algo que, até então, não fazia parte de seu entorno existencial. Esse aspecto lembra o conto “O patinho feio” de Hans Christian Andersen, de 1843, onde o autor descreve uma inadequação singular, um processo de autodescoberta. Assim teríamos subsídios para especular sobre a fonte de inspiração de Truman Capote, a superação do exílio na própria vida.  

Com o autor: “(...) a diferença entre escrever muito bem e a verdadeira arte; é sutil, mas selvagem. (...) Era preciso aprender muito e de muitas fontes: não só dos livros, mas da música, da pintura e simplesmente da observação diária. (...) Aos 17 anos eu já era um escritor. Se fosse pianista, esse teria sido o momento do meu primeiro concerto público.” (Prefácio de ‘Música para Camaleões’ in Ensaios, 2010. Pág. 579 e 580)

A busca por desenvolver uma expressividade afim com a paixão dominante pode significar uma vida inteira de dedicação, estudos e pesquisas. Algo que Rainer Maria Rilke descreve em sua obra: “Cartas a um jovem poeta”, quando sugere rotas para emancipar um papel existencial imprescindível, tendo por referência uma vida de aprendiz.   

Esse aspecto dialoga com a nova abordagem da Filosofia Clínica, isto é, muita gente se aproxima de sua mensagem, no entanto, é raro um desses candidatos ao ser filósofo clínico, aprofundar sua compreensão, tanto no que diz respeito a fundamentação teórica (mais acessível) ou a fundamentação prática (mais simples, mais complexa), momentos em que muitos estudantes procuram encontrar-se noutras metodologias, preferencialmente àquelas onde se tenha a ilusão de um território seguro, ao classificar, tipologizar, universalizar pressupostos sobre a fenomenologia humana.

Algumas vezes, é possível encontrar um candidato ao ser filósofo clínico, que carrega em sua bagagem existencial, determinadas características singulares, que o indicam como estudante da nova abordagem. Ter vivido e convivido em muitas circunstâncias existenciais como: estudar, graduar-se, pós graduar-se, casar, separar, casar de novo, ter filhos, mudar de casa, bairro, cidade, dentre outras... costuma legitimar o encontro da pessoa com a Filosofia Clínica, bem depois que já foi testada pelas adversidades cotidianas.  

O ensaísta compartilha: “O texto: ‘Ouvindo as musas’ me fez pensar em linhas totalmente diferentes: eu queria produzir uma novela jornalística, alguma coisa em grande escala que teria a credibilidade do fato, a rapidez imediata do filme, a profundidade e a liberdade da prosa e a precisão da poesia.” (Prefácio de “Música para Camaleões” in Ensaios, 2010. Pág. 582)

A busca de Truman Capote por algo inexistente, parece afim com sua expressão literária em desenvolvimento, ou seja, semelhante ao devir da hora-sessão, onde o partilhante experiencia recursos estruturais no espaço da terapia.

Nesse sentido, pode ser desafiador encontrar uma representação para a singularidade. Costuma pagar-se um alto preço pelas vivências da transição, suas contradições e desafios, até localizar um endereço existencial para chamar de seu. O constructo mencionado pelo escritor descreve um alto grau de dificuldade, acessível a candidatos diferenciados em seus devaneios de esboço.

Recordo um partilhante em crise existencial, após concluir seu terceiro pós-doutorado - o primeiro nos EUA, o segundo na Alemanha e o terceiro na UFRGS (universidade federal do RS) - quando se deu conta que viveu, a maior parte de seus dias, de bolsas de pesquisa, sem nenhum convívio com a vida lá fora (palavras dele).

Aos 44 anos de idade, tinha dificuldades de relacionamento com os outros e consigo mesmo, encontrava nos pais uma casa segura para morar. Depois disso (no tempo do partilhante) descobriu-se que ele passara a maior parte da vida fazendo escolhas que não tinham a ver consigo mesmo. Tinha jogado para a torcida, como gostava de dizer, ao entender que suas opções não eram suas, mas dos outros.

A partir desse ponto, foi possível qualificar as buscas por uma expressividade singular, algo contraditório com o que havia até então. Com isso foi possível aproveitar os deslizes de sua trajetória, como matéria-prima aos projetos e sonhos, até então, desmerecidos.  

O ensaio indica: “Escritores, pelo menos aqueles que assumem riscos genuínos, que se dispõe a abrir o peito e caminhar na prancha, têm muito em comum com outro grupo de homens solitários – aqueles que ganham a vida em uma mesa de bilhar ou carteado.” (Prefácio de “Música para Camaleões”, 2010. Pág. 582)

Ao usar um vice conceito para descrever a integridade do escritor, é possível encontrar referências comuns ao ser filósofo clínico. Não sendo uma abordagem consagrada como as modalidades da Psicanálise, Psicologia, Psiquiatria; o que se vislumbra é que, além das dificuldades teórico-práticas que a preparação ao novo paradigma oferece, ainda se tem de lidar, num país de forte vocação colonial como o Brasil, com a prevalência de narrativas distantes da nossa realidade.   

Ser filósofo clínico, ser escritor, ou outra atividade, reivindica peculiaridades inacessíveis a maioria dos candidatos. Assim se pode entender o elevado número de pessoas reféns da lógica contracheque.

Talvez a solidão de quem encontrou-se nesse borogodó - de ser filósofo clínico – possa se traduzir nas páginas escritas com sangue, suor e lágrimas, onde a singularidade se apresenta num encontro das marés com as ilhas da impermanência.

Em Truman Capote: “Um escritor precisa ter todas as cores, toda a sua habilidade disponível na mesma paleta para misturar (e, em casos apropriados, aplicar simultaneamente). (...) Depois de escrever centenas de páginas (...) consegui desenvolver um estilo. Havia encontrado uma moldura dentro da qual era capaz de assimilar tudo o que sabia sobre escrever.” (Prefácio de “Música para Camaleões”, 2010. Pág. 585)

Para desenvolver uma aptidão ao ser filósofo clínico, como indica o lindo texto do prof. Miguel Angelo Caruzo sobre o tema, publicado na edição primavera da revista da Casa da Filosofia Clínica, é necessária uma trajetória de estudos que envolve escolas, universidades, e o cotidiano do candidato, impregnando de vida uma busca por algo ainda sem nome.

Uma aproximação do prefácio com o papel existencial em desenvolvimento, pode conferir aos estudantes e profissionais da Filosofia Clínica, um encontro com a aptidão singular.

A clínica pessoal, as leituras de base com a orientação de especialistas, a supervisão e a formação continuada, compõem uma trajetória incomum. A maioria, em nossos dias, busca respostas rápidas, cursos de finais de semana, retóricas fartas de promessas em sites, blogs, podcasts, a cumplicidade da farmácia da esquina e as prescrições do alienista, seus coadjuvantes, diante da multidão de incautos. Em quem confiar? Nesses dias de tanta fake News, narrativas apressadas, distantes da singularidade exilada em cada pessoa.   

O desenvolvimento de um estilo reivindica dedicação exclusiva, tempo, pesquisa, práticas de atendimento e escrita - no caso dos ensinamentos de Truman Capote - e bem depois disso, é possível encontrar algo semelhante a essência sartreana, mencionada no ‘O existencialismo é um humanismo’, isto é, primeiro você vive e, depois disso, aparece uma essência, como desdobramento de um si mesmo na estrutura de pensamento singular.

Aquele abraço,

hs

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