Sobre práticas para criar Unabombers
O filme “Unabomber”, recentemente
lançado (setembro/2026), é dirigido por Janus Metz, com roteiro de Sam Chalsen
e Nelson Greaves. Uma produção dos EUA, encontrada na Netflix. Os eventos,
inspirados numa história real, se apresentam em nova versão. A obra atualiza análises
e reflexões críticas sobre a equivocidade de intervenções reconhecidas. Em seu
elenco: Shailene Woodley, Russell Crowe,
Jacob Tremblay. Sua narrativa oferece um novo olhar sobre a vida de Ted
Kaczynski, conhecido como Unabomber.
As análises e menções a obra proporciona
uma pluralidade de leituras, delimitadas pela representação de quem lê. Esse
esboço é uma dessas percepções, tendo como pano de fundo uma obra de arte que,
sob vários ângulos, convida a questionar, refletir, analisar. Sua proposta indica
uma analítica fenomenológica da singularidade, como refém das intervenções
equivocadas da Psiquiatria e coadjuvantes, ainda festejados em universidades,
centros de pesquisa, hospitais psiquiátricos, escolas, empresas.
A película trata de aspectos da
vida de Ted Kaczynski, interpretados por Jacob Tremblay. Trata-se de um recorte
com base em eventos ocorridos entre o final dos anos 1950 e 1970, quando um
jovem de 16 anos ingressa em Harvard para estudar matemática e filosofia. Sua
inteligência e expressividade chama a atenção do Prof. Dr. Henry Murray (Russell
Crowe) e sua assistente Christiana Morgan (Annabelle Wallis), os quais convidam
o menino para uma experiência acadêmica sobre comportamento.
Os dados da pesquisa direcionam e
sustentam a tese de desajustes psicológicos do menino considerado prodígio, o
qual desenvolve habilidades singularidades para protestar contra a industrialização
e a tecnologia. A confecção de bombas enviadas por encomendas a determinadas
pessoas, cuja liderança significa o incremento da indústria tecnológica, em
detrimento do fenômeno humano e da vida natural, se descreve num desfecho de
sua revolta.
Um destaque, nessa trama, para a
atuação da agente do FBI Joanne Miller (Shailene Woodley), ao propor algo
diferenciado para decifrar aspectos linguísticos nos escritos de Ted. Sendo a
única que enxerga conexões entre as palavras de um texto publicado nos jornais
(por Unabomber) e as redações de Ted para a família. Sua percepção singular
encontra subsídios para uma rota investigativa peculiar, incompreendida por
seus colegas.
A nova versão da história, mostra
um Ted refém dos experimentos de sua época. Apresenta uma metodologia -
sustentada pela instituição universitária (Harvard) - disfarçada de
cientificidade, com a produção de tipologias, classificações, para sustentar a loucura
de suas verdades. As atividades de especialistas em busca de consagração
acadêmica, com pupilos reféns de bolsas de pesquisa, compõe uma teia perversa, associadas
com a produção da loucura pelos psicofármacos.
Os agendamentos e distorções da
singularidade em prol de um ponto de vista, uma ideologia, seja ela institucional
ou não, quando não se coloca abertamente para crítica, análise e reflexão de
seus pares, pode se traduzir numa fábrica de desajustados, contribuindo com os
princípios de verdade e sua proposta de obsolescência programada.
Num debate entre o professor e
Ted, fica visível as contradições da abordagem do psiquiatra e sua cobaia,
quando este se insurge contra o experimento de que é objeto. Ted (com 16
anos na época) confronta o método, as contradições e manipulações, de parte dos
mestres da universidade. A partir daí, por seus questionamentos, o menino passa
a sofrer agendamentos massivos para se submeter a um diagnóstico de esquizofrenia,
resultante da limitação dos professores, em busca por controle, reconhecimento
e consagração acadêmica.
A antipsiquiatria, com Thomas
Szasz, ensina: “A esquizofrenia é definida de modo tão vago que, na
realidade, trata-se de um termo frequentemente aplicado a quase toda e qualquer
espécie de comportamento reprovado pelo locutor. (...) a esquizofrenia é
um símbolo sagrado da psiquiatria, da mesma forma que, digamos, o Cristo
crucificado é um símbolo sagrado do cristianismo.” (Esquizofrenia – o símbolo
sagrado da psiquiatria, 1978. Pág. 95)
Tal fato é exemplificado no
debate entre o professor e Ted, quando aquele, ao se ver questionado, insiste
em tipologizar e medicalizar o menino, como resposta para submeter sua
expressividade. Algo que o próprio psiquiatra havia referido em cenas
anteriores a sua assistente, isto é, comprovaria sua tese (na relação com Ted)
a qualquer custo.
É possível identificar o que se
esconde nas entrelinhas das nomenclaturas, ao transformar uma singularidade em objeto
para as intervenções da psiquiatria e coadjuvantes. Assim, a medicina do
corpo ultrapassa as fronteiras de sua atuação, ao oferecer uma hermenêutica
com base nos desequilíbrios da química, da biologia, como causa e não como
consequência das desestruturações pessoais. Talvez não seja apenas uma questão
de método...
Na esteira de um mundo em busca
desenfreada de lucro a qualquer preço, se percebe a indústria de psicofármacos
se alimentando da desgraça alheia, a qual, seja por interesses familiares,
ideológicos, econômicos ou desinformação, sustenta uma lógica da dependência e
submissão ao deus remédio.
Em alguns momentos, o filme recorda
Antonin Artaud: “A medicina nasceu do mal, se é que não nasceu da doença, e se
não a provocou e criou, peça por peça, para se atribuir uma razão de existir;
mas a psiquiatria nasceu da turba plebeia de seres que quiseram conservar o mal
na fonte da doença (...). Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja
mente brilha uma ideia assustadora, e que só no delírio consegue encontrar uma
saída para as coerções que a vida lhe preparou.” (Van Gogh – o suicida da
sociedade, 2007. Pág. 55).
É sabido que existem homens e
mulheres honestos, sensíveis, talentosos nessa área de atuação (psiquiatria,
psicologia, filosofia ...), os quais, raramente conseguem romper as armadilhas
conceituais da epistemologia acadêmica, das verdades de sua época. No entanto,
essa realidade vem sendo superada por outras, à margem do sistema, cuja
proposta dialoga com os novos paradigmas. Depois disso, quando um saber
revolucionário chega à universidade e demais instituições, se apresenta cristalizado
pelos rituais e definições acadêmicas.
Não é raro profissionais da
tradição - após algum tempo em clínica -, encontrar na filosofia clínica, um
refúgio para suas intuições e experiências de consultório. Ao vislumbrar um
acolhimento para o borogodó - que nem sabia que tinha -, o profissional
dessas áreas pode superar a ilusão de controle, classificações disfarçadas de
ciência.
O filme surpreende do começo ao
fim, quando mostra que o rei está nu, e sem perspectiva de reconhecer-se diante
do espelho. Como o momento em que Ted se vê enganado pelas únicas pessoas em
que confiava - já que na família também era incompreendido -, com isso,
desenvolve uma produção singular para sua condição existencial, sua
representação de mundo - como descrença no humano - se sustenta nos estudos de pensadores
como: Kant, Hobbes, Maquiavel, e sua circunstância, os quais sustentam sua
representação de mundo, pré-juízos, axiologia, e desfechos macabros.
O roteiro do filme destaca a percepção
incomum da agente do FBI Joanne Miller, a qual, mesmo observando indícios em
sua investigação para localizar Ted, se vê solitária em sua busca. Seus estudos
sobre linguagem (termos agendados no intelecto, raciocínio, significado,
contexto) e outros subsídios com base na filosofia, antropologia, sociologia,
serviram para alcançar algo que os demais integrantes da equipe não conseguiam acompanhar.
Joanne persegue uma via solitária de investigação para encontrar Unabomber
onde este se exilou daquilo que o produziu.
Depois disso, ao comprovar
objetivamente suas suspeitas, a agente federal assume a direção da investigação,
culminando com a prisão de Ted. Algo que quase ninguém iria perceber, nos
instantes finais do filme, depois que tudo ficou esclarecido, são as lágrimas
de Joanne Miller. O diretor sugere algo mais ao espectador incomum.
Claudio Willer compartilha: “Para
Foucault, Artaud virou pelo avesso, subverteu completamente as noções
tradicionalmente aceitas sobre a relação entre criação e loucura: não são mais
as obras dos loucos e malditos que precisam justificar-se diante da psicologia,
mas sim a psicologia que agora deve tentar justificar-se diante de tais obras.
(...) Na carta aos reitores das universidades europeias, Artaud diz assim: “A
culpa é dos vossos sistemas embolorados (...) Reitores presos no laço dos
silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais
escapam os verdadeiros mistérios do corpo. (...) O menor ato de criação
espontânea é um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.”
(Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág.17, 31 e 32)
Nos dias de hoje a obra de Artaud
é estudada em centros de pesquisa, universidades, em cursos como: artes
visuais, teatro, literatura, filosofia, psicologia. Sua obra poderia
desenvolver um espaço investigativo de qualidade, libertário, frequentar cátedras,
grupos de estudo, ocupar estantes, não fora as ideologias para controle e
manutenção do conhecimento. É preciso superar as interdições kafkianas do mundo
acadêmico, acolher as novas ideias e descobertas, ampliar o leque da pesquisa com
os novos paradigmas, para começo de conversa.
O roteiro de Unabomber
aparece em nova versão. Parece alertar sobre os equívocos da estrutura escolar
e acadêmica, seus rituais cristalizados e cristalizantes, ao descartar como doença
mental o que não entende, como a epistemologia e intuições do absurdo, os
eventos extraordinários, o convívio com as lógicas da diferença, a
singularidade!
Nesse sentido, com uma ideologia
de caso pensado, sua proposta de controle submissão, contribuem para a
proliferação de síndromes, transtornos, abastecendo a indústria de
psicofármacos, as farmácias que se multiplicam, e os profissionais que, ao
desconhecer a fenomenologia do humano, oferecem práticas reféns de um
autoengano.
No que se refere às poéticas da
singularidade, a produção do cinema contribui para uma crítica reflexiva dessa
espécie de coisa, embora ainda distante da desconstrução dos seus rituais
maquiados de cientificidade.
Aquele abraço,
hs
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