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sábado, 10 de outubro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 93*

 

Sobre práticas para criar Unabombers

O filme “Unabomber”, recentemente lançado (setembro/2026), é dirigido por Janus Metz, com roteiro de Sam Chalsen e Nelson Greaves. Uma produção dos EUA, encontrada na Netflix. Os eventos, inspirados numa história real, se apresentam em nova versão. A obra atualiza análises e reflexões críticas sobre a equivocidade de intervenções reconhecidas. Em seu elenco:  Shailene Woodley, Russell Crowe, Jacob Tremblay. Sua narrativa oferece um novo olhar sobre a vida de Ted Kaczynski, conhecido como Unabomber.  

As análises e menções a obra proporciona uma pluralidade de leituras, delimitadas pela representação de quem lê. Esse esboço é uma dessas percepções, tendo como pano de fundo uma obra de arte que, sob vários ângulos, convida a questionar, refletir, analisar. Sua proposta indica uma analítica fenomenológica da singularidade, como refém das intervenções equivocadas da Psiquiatria e coadjuvantes, ainda festejados em universidades, centros de pesquisa, hospitais psiquiátricos, escolas, empresas.  

A película trata de aspectos da vida de Ted Kaczynski, interpretados por Jacob Tremblay. Trata-se de um recorte com base em eventos ocorridos entre o final dos anos 1950 e 1970, quando um jovem de 16 anos ingressa em Harvard para estudar matemática e filosofia. Sua inteligência e expressividade chama a atenção do Prof. Dr. Henry Murray (Russell Crowe) e sua assistente Christiana Morgan (Annabelle Wallis), os quais convidam o menino para uma experiência acadêmica sobre comportamento.

Os dados da pesquisa direcionam e sustentam a tese de desajustes psicológicos do menino considerado prodígio, o qual desenvolve habilidades singularidades para protestar contra a industrialização e a tecnologia. A confecção de bombas enviadas por encomendas a determinadas pessoas, cuja liderança significa o incremento da indústria tecnológica, em detrimento do fenômeno humano e da vida natural, se descreve num desfecho de sua revolta. 

Um destaque, nessa trama, para a atuação da agente do FBI Joanne Miller (Shailene Woodley), ao propor algo diferenciado para decifrar aspectos linguísticos nos escritos de Ted. Sendo a única que enxerga conexões entre as palavras de um texto publicado nos jornais (por Unabomber) e as redações de Ted para a família. Sua percepção singular encontra subsídios para uma rota investigativa peculiar, incompreendida por seus colegas.    

A nova versão da história, mostra um Ted refém dos experimentos de sua época. Apresenta uma metodologia - sustentada pela instituição universitária (Harvard) - disfarçada de cientificidade, com a produção de tipologias, classificações, para sustentar a loucura de suas verdades. As atividades de especialistas em busca de consagração acadêmica, com pupilos reféns de bolsas de pesquisa, compõe uma teia perversa, associadas com a produção da loucura pelos psicofármacos.    

Os agendamentos e distorções da singularidade em prol de um ponto de vista, uma ideologia, seja ela institucional ou não, quando não se coloca abertamente para crítica, análise e reflexão de seus pares, pode se traduzir numa fábrica de desajustados, contribuindo com os princípios de verdade e sua proposta de obsolescência programada.   

Num debate entre o professor e Ted, fica visível as contradições da abordagem do psiquiatra e sua cobaia, quando este se insurge contra o experimento de que é objeto. Ted (com 16 anos na época) confronta o método, as contradições e manipulações, de parte dos mestres da universidade. A partir daí, por seus questionamentos, o menino passa a sofrer agendamentos massivos para se submeter a um diagnóstico de esquizofrenia, resultante da limitação dos professores, em busca por controle, reconhecimento e consagração acadêmica.    

A antipsiquiatria, com Thomas Szasz, ensina: “A esquizofrenia é definida de modo tão vago que, na realidade, trata-se de um termo frequentemente aplicado a quase toda e qualquer espécie de comportamento reprovado pelo locutor. (...) a esquizofrenia é um símbolo sagrado da psiquiatria, da mesma forma que, digamos, o Cristo crucificado é um símbolo sagrado do cristianismo.” (Esquizofrenia – o símbolo sagrado da psiquiatria, 1978. Pág. 95)

Tal fato é exemplificado no debate entre o professor e Ted, quando aquele, ao se ver questionado, insiste em tipologizar e medicalizar o menino, como resposta para submeter sua expressividade. Algo que o próprio psiquiatra havia referido em cenas anteriores a sua assistente, isto é, comprovaria sua tese (na relação com Ted) a qualquer custo.

É possível identificar o que se esconde nas entrelinhas das nomenclaturas, ao transformar uma singularidade em objeto para as intervenções da psiquiatria e coadjuvantes. Assim, a medicina do corpo ultrapassa as fronteiras de sua atuação, ao oferecer uma hermenêutica com base nos desequilíbrios da química, da biologia, como causa e não como consequência das desestruturações pessoais. Talvez não seja apenas uma questão de método...  

Na esteira de um mundo em busca desenfreada de lucro a qualquer preço, se percebe a indústria de psicofármacos se alimentando da desgraça alheia, a qual, seja por interesses familiares, ideológicos, econômicos ou desinformação, sustenta uma lógica da dependência e submissão ao deus remédio.   

Em alguns momentos, o filme recorda Antonin Artaud: “A medicina nasceu do mal, se é que não nasceu da doença, e se não a provocou e criou, peça por peça, para se atribuir uma razão de existir; mas a psiquiatria nasceu da turba plebeia de seres que quiseram conservar o mal na fonte da doença (...). Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma ideia assustadora, e que só no delírio consegue encontrar uma saída para as coerções que a vida lhe preparou.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2007. Pág. 55).

É sabido que existem homens e mulheres honestos, sensíveis, talentosos nessa área de atuação (psiquiatria, psicologia, filosofia ...), os quais, raramente conseguem romper as armadilhas conceituais da epistemologia acadêmica, das verdades de sua época. No entanto, essa realidade vem sendo superada por outras, à margem do sistema, cuja proposta dialoga com os novos paradigmas. Depois disso, quando um saber revolucionário chega à universidade e demais instituições, se apresenta cristalizado pelos rituais e definições acadêmicas.

Não é raro profissionais da tradição - após algum tempo em clínica -, encontrar na filosofia clínica, um refúgio para suas intuições e experiências de consultório. Ao vislumbrar um acolhimento para o borogodó - que nem sabia que tinha -, o profissional dessas áreas pode superar a ilusão de controle, classificações disfarçadas de ciência.  

O filme surpreende do começo ao fim, quando mostra que o rei está nu, e sem perspectiva de reconhecer-se diante do espelho. Como o momento em que Ted se vê enganado pelas únicas pessoas em que confiava - já que na família também era incompreendido -, com isso, desenvolve uma produção singular para sua condição existencial, sua representação de mundo - como descrença no humano - se sustenta nos estudos de pensadores como: Kant, Hobbes, Maquiavel, e sua circunstância, os quais sustentam sua representação de mundo, pré-juízos, axiologia, e desfechos macabros.  

O roteiro do filme destaca a percepção incomum da agente do FBI Joanne Miller, a qual, mesmo observando indícios em sua investigação para localizar Ted, se vê solitária em sua busca. Seus estudos sobre linguagem (termos agendados no intelecto, raciocínio, significado, contexto) e outros subsídios com base na filosofia, antropologia, sociologia, serviram para alcançar algo que os demais integrantes da equipe não conseguiam acompanhar. Joanne persegue uma via solitária de investigação para encontrar Unabomber onde este se exilou daquilo que o produziu.   

Depois disso, ao comprovar objetivamente suas suspeitas, a agente federal assume a direção da investigação, culminando com a prisão de Ted. Algo que quase ninguém iria perceber, nos instantes finais do filme, depois que tudo ficou esclarecido, são as lágrimas de Joanne Miller. O diretor sugere algo mais ao espectador incomum.

Claudio Willer compartilha: “Para Foucault, Artaud virou pelo avesso, subverteu completamente as noções tradicionalmente aceitas sobre a relação entre criação e loucura: não são mais as obras dos loucos e malditos que precisam justificar-se diante da psicologia, mas sim a psicologia que agora deve tentar justificar-se diante de tais obras. (...) Na carta aos reitores das universidades europeias, Artaud diz assim: “A culpa é dos vossos sistemas embolorados (...) Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo. (...) O menor ato de criação espontânea é um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág.17, 31 e 32)

Nos dias de hoje a obra de Artaud é estudada em centros de pesquisa, universidades, em cursos como: artes visuais, teatro, literatura, filosofia, psicologia. Sua obra poderia desenvolver um espaço investigativo de qualidade, libertário, frequentar cátedras, grupos de estudo, ocupar estantes, não fora as ideologias para controle e manutenção do conhecimento. É preciso superar as interdições kafkianas do mundo acadêmico, acolher as novas ideias e descobertas, ampliar o leque da pesquisa com os novos paradigmas, para começo de conversa.     

O roteiro de Unabomber aparece em nova versão. Parece alertar sobre os equívocos da estrutura escolar e acadêmica, seus rituais cristalizados e cristalizantes, ao descartar como doença mental o que não entende, como a epistemologia e intuições do absurdo, os eventos extraordinários, o convívio com as lógicas da diferença, a singularidade!   

Nesse sentido, com uma ideologia de caso pensado, sua proposta de controle submissão, contribuem para a proliferação de síndromes, transtornos, abastecendo a indústria de psicofármacos, as farmácias que se multiplicam, e os profissionais que, ao desconhecer a fenomenologia do humano, oferecem práticas reféns de um autoengano.

No que se refere às poéticas da singularidade, a produção do cinema contribui para uma crítica reflexiva dessa espécie de coisa, embora ainda distante da desconstrução dos seus rituais maquiados de cientificidade.  

Aquele abraço,

hs  

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