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sábado, 17 de outubro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 94*

 

Páginas em trânsito

Num final de tarde do ano de 2009, nas caminhadas pelo centro histórico de São João del Rei/MG, encontrei a livraria “Ponto literário”. Sendo uma cidade universitária, acolhendo estudantes de várias regiões das Minas Gerais e do país, esse espaço singular oferece opções literárias de qualidade.

Neste endereço fui encontrado pelo livro “As ondas” de Virginia Woolf, traduzida por Lya Luft e publicada pela editora Nova Fronteira/RJ em 1980. Mais uma vez, a página inicial contém um carimbo de uma livraria de Porto Alegre/RS, denunciando uma interseção das terras gaúchas com as mineiras. Como um livro se desloca de um lugar para outro? Por quantas prateleiras, mesas, camas, mãos e mentes, promessas e ilusões revividas, transitam em cada leitura?  

A obra permite um diálogo com a Filosofia Clínica. Suas páginas, impregnadas de uma poética singular, convida a uma relação sem pressa.  Já se disse: ‘cada um lê com o que tem e o que é, no momento de uma leitura’. Talvez resida aí o significado das releituras, ao desvelar o sentido das palavras, até então escondidas no texto.  

Com Virgínia Woolf: “(...). Mas quando nos sentamos juntos, perto um do outro - disse Bernard -, nossas palavras nos fundem um no outro. Estamos emoldurados pela neblina. Formamos um território inapreensível.” (As ondas, 1980. Pág. 13)

Os eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, possuem a tez do acolhimento singular. Ao não interpretar ou distorcer a expressividade partilhante, o filósofo busca uma descrição compreensiva de suas palavras.   

As propostas para interpretar o que acontece nas terapias da tradição, se deparam com uma dificuldade básica, isto é, a de querer acessar o outro a partir de si mesmo, suas leituras, seminários, experiências com outras pessoas, como se fossem as mesmas.   

Com o novo paradigma, a noção de ‘fusão um no outro’, se assemelha ao processo da transição entre recíproca de inversão e inversão, seus deslocamentos, quando da interseção terapêutica. No entanto, não se trata de uma fusão, mas de visitas ao território existencial do partilhante, onde o filósofo experiencia - em perspectiva - outras realidades.  

A aproximação de pontos de vista por uma intencionalidade compartilhada, permite um diálogo de integração, onde algo novo se realiza, tendo como testemunha a evolução dos termos agendados no intelecto, ora traduzidos pelos deslocamentos da relação.

A autora indica: “Somos os primeiros a vir aqui. Somos os descobridores de uma terra desconhecida.” (As ondas, 1980. Pág. 14)

Com as referências da fenomenologia, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, é possível experienciar uma inédita relação com o partilhante, tendo em vista seu endereço existencial - em vias de apresentação.

O vislumbre precursor de um território cristalizado, por si só, pode significar o começo de uma desconstrução, daquilo, até então, sancionado como doença mental, um trajeto para a ressignificação existencial.

As percepções sobre uma ‘terra desconhecida’, permite ensaiar novos caminhos, encontrar rotas de autodescoberta, desconsideradas como delírio ou desrazão. A formulação de hipóteses na terapia filosófica, quando possível, permite que o partilhante se desloque por um devir em forma de rascunho.

Muitas vezes, nesse processo de construção compartilhada, aparecem desvãos para superar a condição de ser estranho no próprio território, ultrapassar a lógica das tipologias psiquiátricas.

Nas palavras da escritora: “Agora, minha mente pode despejar-se para fora de mim. Posso pensar em armadas singrando altas ondas. Estou livre de duros contactos e colisões. Singro solitária sob recifes alvos.” (As ondas, 1980. Pág. 22)

Os deslocamentos longos ou curtos, sejam eles em direção ao passado das memórias ou aos projetos para depois de amanhã, costumam desdobrar-se a partir dos dados sensoriais, onde uma palavra, um cheiro, a leitura ou a música, permitem cogitar sobre a atualização da malha intelectiva da pessoa.

As ideias complexas, recheadas de abstrações, quando direcionadas a favor do partilhante, podem significar-se em múltiplas direções, compondo um cenário de raridade, cuja mapa encontra-se em processo na estrutura de pensamento da autoria.

Para isso acontecer, reivindica-se uma abordagem de acolhimento, trânsito compreensivo e não desmerecimento da expressividade. A elaboração compartilhada de um lugar onde a semiose diferenciada consiga esboçar a coisa nova, aparecendo como um porto seguro para as tratativas de algo ainda sem nome.  

Virginia Woolf ensina: “(...) torna-se claro que não sou uno, nem simples, mas complexo, múltiplo.” (As ondas, 1980. Pág. 58)

A escritora compartilha, através de seus personagens, aspectos de sua estrutura de pensamento, por onde se diz livre das ameaças da lógica alienista (como produtora da alienação mental).

Antonin Artaud lembra as intervenções da psiquiatria, sua inveja e ressentimento pela inquietude criativa e a ousadia daqueles que propõe alienar de si mesmos, ao oferecer sua cura a base dos psicofármacos, tratamentos de choque, para convertê-los a sua concepção de normalidade. 

Essa forma de produzir roteiros para uma história, permite a autoria expressar pontos de vista com maior liberdade, ao dizer-se nas manifestações de seus personagens, como meio para dialogar com seus leitores, os quais, ao escolher sua leitura, também eles podem vivenciar aspectos de si mesmos na reciprocidade com a obra.

Com seu roteiro: “Fico atônito quando afasto o véu das coisas com palavras, e constato o quanto mais, infinitamente mais, observei do que consigo dizer. Enquanto falo, as imagens não cessam de borbulhar dentro de mim.” (As ondas, 1980. Pág. 64)

As múltiplas formas para tradução - de uma mesma realidade - oferecem um mosaico de expressividades, nem sempre ao alcance de um só olhar. A esteticidade seletiva pode contribuir com o rol discursivo de cada pessoa, ao oferecer um caminho para experienciar a luz do dia para seus inéditos.  

Uma adequação com a realidade das coisas, pode oferecer algumas facetas sobre sua existência, quase sempre refém da representação de alguém em trânsito. Através da palavra, em uma versão por alguns de seus ângulos, se pode sentir algo que permanece indizível, algumas vezes palpável na fenomenologia das construções compartilhadas.  

A investigação assim pensada, ao compor olhares e sentires, além de qualificar o entendimento, permite esgaçar as fronteiras do possível, compreender as teses e antíteses, um pouco antes de ser síntese. Para, depois disso, em tempo próprio, perseguir-se em novas contradições.    

Em Virginia Woolf: “Sinto mil capacidades brotarem em mim. Ora sou brejeira, alegre, lânguida, ora melancólica. Tenho raízes, mas sou fluída.” (As ondas, 1980. Pág. 77)

Os papéis existenciais costumam se desenvolver na circunstância de cada um. Essa realidade pode se modificar de acordo com as sintonias narrativas e suas possibilidades de desconstrução.

Em um mundo repleto de limites, contenções, lógicas para normalização discursiva, o exercício da singularidade pode ficar cristalizado em alguns momentos. A escrita romanesca contribui para se dizer aquilo incompreendido longe de suas páginas. Os deslimites da poesia, a interpretação do teatro, os ensaios da literatura, as melodias da música, contém uma expressão incompreensível, se desfocada do contexto e das interseções onde se abastece.  

As raízes que permitem uma fluidez, como refere a autora, esboça uma integridade pessoal como base para múltiplos deslocamentos, com a matéria-prima dos sonhos, em recheios de humanidade em processo para ampliar horizontes.

A autora refere: “Mas já começam os sinais, os chamados, as tentativas de me atrair de volta. A curiosidade é eliminada só por pouco tempo. Não se pode viver fora da engrenagem mais do que talvez meia hora. Percebo que os corpos já começam a parecer comuns; mas o que está por trás deles é diferente – a perspectiva.” (As ondas, 1980. Pág. 115)

Os extraordinários momentos da hora-sessão, por onde o partilhante esboça outros para si mesmo, num ambiente livre de interpretações distorcivas de sua singularidade, esse zoom expressivo aprecia ensaios de liberdade, por onde o filósofo compartilha a vertigem das sintonias com o inacreditável.

A intuição desses instantes convida o sujeito extraordinário a ser algo mais, em uma rota desvinculada do visar comum, nem sempre possível de descrição com o que se tem, reivindica encontrar a chave de leitura desses originais.

Para acessar a perspectiva incomum, em cada convívio, pode ser necessário transitar por contornos de imprecisão, dialogar com as lógicas do desconcerto, em tratativas para as poéticas da singularidade.  

Aquele abraço,

hs  

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