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sábado, 27 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 78*

 

Sobre Filosofia Clínica e Literatura III 

Na primavera de 2006, em um final de manhã, na cidade do Rio de Janeiro, depois dos atendimentos na Miguel Lemos (altura do posto 5 em Copacabana), fui ao centro histórico almoçar no centro cultural Odeon na Cinelândia. Depois segui para as livrarias do largo São Francisco, região da faculdade de Filosofia e Ciências Sociais, onde se refugiam muitas obras raras, descartadas, esquecidas.   

Após algum tempo caminhando pelos corredores, visitando suas estantes, me deparei com uma escada, daquelas usadas para vasculhar as prateleiras mais altas. Subi em seus degraus sem mudá-la de lugar, assim descobri o livro: Despertar dos mágicos – introdução ao realismo fantástico de Louis Pauwels e Jacques Bergier, em sua 19. edição, 463 págs. Traduzida por Gina de Freitas e publicada pela DIFEL /SP em 1983.

Borges diz algo assim: “séculos e séculos depois e um texto chega até você com sua mensagem, em tempo próprio.” Existem vários nomes para esse fenômeno, alguns chamam de coincidência, outros acaso, ainda àqueles que significam sinais...

Aos nossos estudos interessa realizar uma aproximação com esses manuscritos. Com base numa leitura fenomenológica, em interseção com a analítica da linguagem e a hermenêutica compreensiva, é possível acolher e dialogar com sua representação de mundo. Não se trata de patologizar a autoria dos escritos, mas de encontrar a estrutura de pensamento singular como matriz desses originais, um desses endereços existenciais por onde a magia se descreve.  

Com Pauwels e Bergier: “A lógica do ‘bom senso’ já não existe. Na física atual uma proposição pode ser simultaneamente verdadeira e falsa A. B. já não é igual a B. A. Uma mesma entidade pode ser a um tempo contínua e descontínua. (...) Para descrever completamente uma partícula foi necessário acrescentar uma grandeza intraduzível em palavras e que se chamava spin. (...) o ‘número quântico de estranheza’ prolonga-se para além da física, e tem ligações com as profundezas do espírito humano.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 34 e 35)

A abordagem da Filosofia Clínica, ao acolher o estranho como singularidade, realiza interseções de qualidade com a estrutura de pensamento desconsiderada pela ciência normal (Kuhn). Assim se pode compreender o novo paradigma como um passo a mais em direção ao universo singular engessado pelas tratativas de controle e submissão das tipologias, classificações.

Com esse olhar de acolhimento aprendiz, o filósofo clínico convive com uma circunstância inusitada, por onde transita compartilhando àquilo desconhecido às métricas pré-estabelecidas. Noutras palavras, a nova metodologia oferece um constructo apto a compreender a pluralidade significativa das formas humanas.

Semelhante ao encontro do leitor com a autoria, pelas páginas de um livro, a nova abordagem terapêutica, pela via da interseção, se traduz num protagonismo, onde filósofo e partilhante elaboram um lugar aos eventos da terapia.  

A estrutura de pensamento da Filosofia Clínica permite uma atualização permanente de seus pressupostos - sem distorção - para reverenciar a novidade que se aproxima pela integração da trama conceitual com as práticas de consultório. A plasticidade dessa estrutura subjetiva aplicada ao cuidado da pessoa em seu próprio território, permite dialogar e aprender com seu discurso existencial em processo.  

Pauwels e Bergier ensinam: “Quando um jovem engenheiro entra para a indústria, depressa distingue dois universos diferentes. Há o do laboratório, com as leis definidas das experiências que se podem reproduzir, com uma imagem compreensível do mundo. E há o Universo real, no qual as leis nem sempre são aplicadas, onde os fenômenos são por vezes imprevistos, onde o impossível se realiza.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 66)  

Um fenômeno aproximado se detecta nos eventos da hora-sessão, onde a nova abordagem terapêutica se apresenta num viés de abertura e interseção com as facetas do inédito. Dessa forma é possível incrementar a teoria com as percepções dos atendimentos.

Essa metodologia, ao se traduzir como obra aberta (Umberto Eco), interage com as especificidades do ser singular em cada pessoa, ou seja, trata de aprender e interagir com a estrutura de pensamento do partilhante.

A superação de modelos com base numa estrutura rígida, recheada de verdades a priori, se constitui em um novo paradigma. A partir de agora, trata-se de uma lógica aprendiz para acolher e transitar por um endereço existencial compartilhado, em busca de subsídios para intervenções a posteriori, qualificadas pela circunstância partilhante.

Com os autores: “Pedis-me para resumir, em quatro minutos, quatro mil anos de filosofia e os esforços de toda a minha vida. Pedis-me além disso, para traduzir em linguagem clara conceitos para os quais a linguagem clara não é feita. (...) A relatividade, o princípio da incerteza mostram-nos até que ponto o observador de hoje intervém nos fenômenos.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 117)

É comum, nos dias de hoje, quando perguntam sobre Filosofia Clínica, muitos entrevistadores reivindicarem uma síntese ou um resumo da nova abordagem, como se fosse possível descrever com alguma qualidade o teor e a especificidade de seus meandros conceituais, a fundamentação teórico prática.  

Em seus escassos trinta e poucos anos de existência, desde os primeiros estudos de Lúcio Packter, se testemunha um avanço significativo da pesquisa teórica, amparada pelas interseções de consultório. O acolhimento do princípio da incerteza em relação a cada atendimento, reivindica uma abordagem plástica, dinâmica, que inclua em seu arcabouço metodológico possibilidades para as dialéticas da admiração, do espanto, em dessintonia com as limitações das verdades a priori.   

A natureza desse acolhimento desclassificado, destituído de tipologia, permite conhecer algo novo com a chegada do partilhante. Ao entender sua estrutura de pensamento como um projeto existencial em aberto, se torna possível trabalhar as alternativas de mudança para sustentar sua digital.  

Em Pauwels e Bergier: “É que Freud e Einstein realizaram, no início, um colossal esforço de imaginação. Imaginaram um real completamente diferente dos dados racionais admitidos. A partir dessa projeção imaginativa estabeleceram conjuntos de fatos que a experiência verificou. (...) para quem sabe ler, as coincidências usam trajes de luz.” (O despertar dos mágicos, 1983. Págs. 221 e 237)

Talvez seja uma radicalização da singularidade expressiva, um caminho possível para se encontrar habilidades, competências, talentos, genialidade imaginativa para apreender a novidade que paira sobre cada um em linguagem própria, a qual somente pode ser decifrada pela via do encontrar.

Uma estrutura de pensamento assim pensada precisa localizar um território existencial capaz de desenvolver suas aptidões, superando uma sensação de exílio em relação ao espírito de rebanho dos princípios de verdade. Muitas vezes, o que acontece é um desvirtuamento do ensino clássico, em direção a uma aventura em busca de um si mesmo amparado num processo intuitivo singular.

Mentes brilhantes costumam pensar e agir fora da curva, ou seja, precisam suportar toda forma de ataques à sua expressão em desenvolvimento, desde os primeiros ensaios da infância até os dias de maior envergadura existencial. Quando isso acontece, se tem um desenvolvimento anormal de uma forma expressiva, desembocando em relações conflituosas com as circunstâncias onde a pessoa se encontra, nem sempre compreensível a cultura de seu tempo. É preciso uma adequação às lógicas da ventania para acolher e qualificar uma interseção com a natureza desses eventos da singularidade.  

Os desdobramentos do cotidiano pedem cautela nessa proposta de partilha, a qual pode significar um exílio pessoal distante das demais relações, muitas vezes diagnosticado como alguma forma de transtorno, espectro, doença mental. Uma forma de cooptar as lógicas da diferença a um senso comum domesticável.   

A descoberta dessas mensagens interditas na relação da pessoa com ela mesma e àquilo que lhe acontece em seu cotidiano, aprecia dizer-se num dialeto incompreensível aos demais integrantes de sua tribo existencial. Uma via de acesso se apresenta pela captura das semioses no instante precursor, quando o olhar, o rubor, as feições da boca, os trejeitos, exprimem algo que se acrescenta as formas narrativas.

Com os autores: “No domínio das ‘curas paranormais’, quer dizer, obtidas com um tratamento psicológico, quer se trate do curandeiro, ‘possuidor do fluido’, quer do psicanalista (feitas todas as distinções entre os métodos), os parapsicólogos chegaram a conclusões do maior interesse. Eles trouxeram-nos uma nova concepção: a do par médico-doente. O resultado do tratamento seria determinado pela ligação telepática que existiria ou não entre o que trata e o paciente. Se essa ligação se estabelece – ela assemelha-se a uma ligação amorosa – produz aquela superlucidez e aquela hiper-receptividade que se observam nos pares apaixonados.” (O despertar dos mágicos, 1983. Pág. 358)

Os agendamentos elaborados pela via da interseção (em suas múltiplas formas de aparecimento) apreciam encontram ressonância do lado a lado da relação clínica, isto é, quando a qualidade dos encontros significa algo mais, elaborando um território favorável às ressignificações, trocas, aprendizados, numa escuta de olhar singularizado, tendo por base a perspectiva partilhante.  

A estrutura de pensamento das sessões envolve os integrantes da terapia em uma aproximação peculiar, por onde múltiplos eventos se traduzem na autogenia da pessoa. Em uma relação dessa natureza, onde se desenvolve uma afetividade compartilhada, também se constitui uma energia suplementar, a qual se integra aos procedimentos da clínica. Com essa abordagem, as trocas e agendamentos - do lado a lado da interseção - costumam emancipar-se ao cotidiano dos envolvidos.  

Uma fenomenologia aprecia os subúrbios de si mesma para esboçar seus originais. Sua intencionalidade se descreve em enredos de estranha magia, reivindicando a percepção incomum para se traduzir. As questões envolvendo os métodos encontram um território fértil para estudo, pois existem abordagens que facilitam a natureza desses aparecimentos e outras que a dificultam.  

Um aspecto comum a pessoas incomuns é uma tendência ao nomadismo, o qual permite a singularidade transitar para onde sua expressão faça sentido. Outra forma de autoproteção é a aptidão de ser invisível, para um deslocamento incólume em meio às tramas dos princípios de verdade, os quais significam todo mundo como objeto de consumo. É comum essas expressões da singularidade serem tratadas pela ideologia alienista e coadjuvantes (estruturas asilares, hospícios, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, educadores...) como uma forma de distorção existencial.

A hermenêutica interpretativa dessas abordagens se apresenta recheada de motivos para justificar as lógicas da internação e medicalização de sua expressividade. Em meio a isso a vida segue à disposição, lá onde não é possível encontrá-la sem uma sintonia com seu ponto de vista.    

Aquele abraço,

hs

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