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sábado, 13 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 76*

Sobre Filosofia Clínica e Literatura I

O livro de areia de Jorge Luis Borges, traduzido por Davi Arrigucci Jr. e publicado na coleção da Folha de São Paulo em 2012, se deixou encontrar no ano de 2021, em Porto Alegre, num balaio de saldos na feira do livro.

Não sei ao certo se eu o encontrei ou se foi ele quem me achou. De qualquer forma seus textos de altura e profundidade desmedidas se prestam a múltiplas relações, nesse caso, um diálogo com a nova abordagem terapêutica da Filosofia Clínica.

Em Borges: “Meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que é a mesma coisa.” (O livro de areia, 2012. Pág. 15)

O fragmento ajuda a entender o conceito de representação de mundo de Schopenhauer, o qual ensina que nossa percepção e entendimento das coisas tem a ver com a sintonia com sua estrutura de pensamento.  

Na mesma direção auxilia a compreensão do conceito de autogenia, quando sugere a íntima relação entre a realidade e sua lembrança pessoal da realidade, o evento em si e sua recordação posterior, impregnada de edições, recortes, desvios narrativos, de acordo com o desenvolvimento pessoal envolvido em sua descrição.

Esse fato, por si só, compartilha uma possibilidade de desconstrução, manutenção ou reconstrução clínica em Filosofia, efetivando uma continuidade ou uma via de acesso a novos roteiros, emancipando àquilo que se tinha como insolúvel, cristalizado.     

O autor-pensador destaca que a realidade sem uma singularidade que a compreenda inexiste ou existe noutras perspectivas, pontos de vista. Assim, reivindica uma relação aprendiz entre uma e outra representação de mundo, incluindo o sentido das expressões envolvidas numa conversação.  

Com Borges: “Domino a escrita secreta que defende nossa arte do indiscreto exame do vulgo”. (O livro de areia, 2012. Pág. 57)

Outro dia, li algumas críticas sobre a produção literária de alguns escritores e escritoras, os quais eram classificados como uma leitura hermética, difícil, obtusa, dentre outros elogios. Nesse rol entrava gente como: Clarice Lispector, Dostoiévski, Kafka, Nélida Piñon, Derrida, Cassirer... Todos receberam a pecha de autores inacessíveis, segundo a condição envolvida com sua leitura.  

Uma aproximação com o teor discursivo literário pressupõe a busca por uma chave de leitura, a qual irá permitir uma via de acesso à representação do autor. Não se trata de uma leitura difícil, fácil ou inacessível, mas um constructo literário singular, diferente da obviedade das redes sociais, textos publicitários, as propostas para consumo a qualquer preço.  

A narrativa literária costuma oferecer em suas páginas, conteúdos filosóficos, sociológicos, poéticos, antropológicos, dentre outros, muitas vezes às margens e desvãos da mensagem principal. Inexiste uma só mensagem num texto dessa natureza, suas páginas reivindicam uma leitura de apropriação para suas verdades, muitas delas inacessíveis ao vocabulário reconhecido.  

Essa escrita secreta de que fala Borges, parece conter uma mensagem à espera de uma leitura singular, por onde se compartilham mensagens a um leitor em sintonia com as camadas de profundidade, altitude, latitude, de seu texto. As práticas literárias, os estudos do especialista, muitas vezes parecem afastá-lo de uma escrita acessível ao primeiro olhar. A qualidade de uma obra assim costuma ser desmerecida, tratada como inútil, impossível de traduzir pelos termos do dicionário comum.  

O autor compartilha: “(...) cada qual deve produzir por sua conta as ciências e as artes de que precisa. Nesse caso, cada um deve ser seu próprio Bernard Shaw, seu próprio Jesus Cristo e seu próprio Arquimedes.”  (O livro de areia, 2012. Pág. 74)

Uma aproximação consigo mesmo reivindica uma dedicação exclusiva, como um tempo para os exames periódicos (medicina do corpo), a terapia, os exercícios somáticos e intelectuais, como investimento nesse endereço existencial com prazo de validade. Talvez assim teríamos mais qualidade de vida entre os residentes desta casa.    

Um desses ambientes é a hora-sessão com o filósofo clínico, onde um tempo subjetivo trata de acolher e aprofundar estudos do partilhante sobre um si mesmo em processo. Assim cada um poderia descobrir ou inventar sua singularidade, vivenciando seu endereço existencial de acordo com suas possibilidades, como refere Borges.  

Uma dificuldade nessa caminhada de autodescoberta e investimento nas próprias habilidades e competências, começa na escola tradicional, a qual aparece recheada de decoreba, interpretação de textos e sujeição as verdades do mestre-escola, um desses lugares onde se torce o pepino desde cedo, muitas vezes para qualificar mão de obra barata a um sistema político injusto, desigual, excludente.

Mais tarde o trabalhador, agendado de que deve dedicar sua vida ao trabalho (na maioria das vezes distante de seu melhor), seja através dos ensinamentos familiares, escolares, religiosos ou qualquer outra forma de submissão aos princípios de verdade onde se vê inserido como peça substituível.

Borges indica: “No meu escritório da rua México guardo a tela que alguém pintará, daqui a milhares de anos, com materiais hoje dispersos no planeta.” (O livro de areia, 2012. Pág. 75)

É interessante notar que a matéria-prima com a qual uma escritura se realiza, tem a ver com o cotidiano do autor, isto é, as referências e os agendamentos de suas leituras, vídeos, conversas, lugares que frequenta, as relações com os outros e consigo mesmo, multiplicando seus territórios existenciais diante de um espelho que se move.

Os eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, pela natureza de sua abordagem com base na singularidade (Aristóteles), contribuem para ensaios expressivos em forma de broto. Neste lugar privilegiado onde se pode desconstruir, desabilitar, reconstruir, reabilitar um si mesmo noutras direções existenciais, se estabelece um convívio com as curvas, avanços, retrocessos, de uma estrada recheada de incompletudes discursivas, aguardando algo novo por chegar.

A singularidade costuma se espantar ao descobrir-se em novas rotas existenciais, numa exploração compartilhada com o filósofo clínico, semelhante a um Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães, Américo Vespúcio, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Cabral e outros, ao avistar terra nova, onde se ameaçava com o fim do mundo.

Jorge Luis Borges ensina: “Espero que as notas apressadas que acabo de ditar não esgotem este livro e que seus sonhos continuem se ramificando na hospitaleira imaginação daqueles que agora o fecham.” (O livro de areia, 2012. Pág. 103)

As palavras do autor acenam uma epistemologia aprendiz, isto é, deixar uma janela entreaberta para acolher a leitura que ainda não veio, a escrita desconhecida, privilegiando uma ética do encontrar, onde leitor e escritor qualifiquem uma interseção.  

Uma obra - por melhor que seja sua escrita - não se conclui por inteiro, parece aguardar aquele algo mais presente nas autogenias do autor, em sintonia com sua atualização existencial.   

Nesse sentido é possível uma aproximação entre esses fenômenos da hora-leitura e as dialéticas da hora-sessão em Filosofia Clínica, elaborando aquilo que se insinua quando duas ou mais pessoas elaboram um espaço de construção compartilhada.

Aquele abraço,

hs

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