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domingo, 21 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 77*


Sobre Filosofia Clínica e Literatura II

Sabe aquela sensação de topar - numa livraria de raridades - com um texto incomum, classificado e carimbado como descartado, por bibliotecários desavisados? Pois foi assim que encontrei a Obra Crítica 2 de Julio Cortázar. Um texto que teve sua primeira edição em 1963, traduzida e publicada no Brasil em 1999 pela editora Civilização Brasileira. 

Nesse caso também é possível estabelecer diálogos em sintonia com a nova abordagem da Filosofia Clínica - sem tipologizar suas páginas - num exercício de recíproca de inversão com a singularidade narrativa do autor e suas percepções. Um texto inclassificável pelas hermenêuticas da contenção discursiva, desconstruindo uma certa hegemonia literária.     

Cortázar compartilha: “(...) Keats contava com a admirável - e angustiosa - característica de todo poeta: a de ser outro, estar sempre em e desde outra coisa. Sua consciência dessa ubiquidade dissolvente - que abre ao poeta os acessos do ser e lhe permite retornar com o poema à guisa de diário de viagem (...)”. (Obra crítica 2. Pág. 41 e 42)

Ao pensarmos nos eventos da espacialidade intelectiva, onde inversão e recíproca se prestam para esses deslocamentos do papel existencial cuidador em direção ao partilhante, bem assim seu retorno a sua própria estrutura de pensamento, é possível sentir uma conexão com as palavras do escritor argentino.

Existe uma infinidade de papéis existenciais e expressividades experienciadas nos eventos da hora-sessão, tendo como referência o novo paradigma terapêutico.

Uma conjugação de raras habilidades e competências, aliadas aos estudos da teoria, à terapia pessoal e a supervisão, podem conceder ao filósofo clínico aprendiz, um vislumbre de suas possibilidades como terapeuta. Essa característica descrita por Cortázar: ‘a de ser outro, estar sempre e desde outra coisa’, conversa com as dialéticas de consultório.

A expressão: ‘lhe permite retornar à guisa de diário de viagem’ lembra os deslocamentos intelectivos do filósofo terapeuta, quando desenvolve uma escuta fenomenológica para aprender e descrever a realidade do outro sob seus cuidados. Nesse ir e vir, se abastece com subsídios para conhecer a versão partilhante em sua própria versão singular.  

Em Cortázar: “Todo leitor da obra completa de Keats - e de suas admiráveis cartas - observará que o périplo do poeta não o levou para além de si mesmo (...).” (Obra crítica 2. Pág. 63)

Muitas vezes a narrativa da historicidade pela pessoa, em versão e tempo próprios, realiza uma atualização significativa do seu passado, como se fosse uma reedição dos eventos de sua história. Isso, por si só, pode significar uma autogenia clínica, por onde a pessoa supere àquilo que se tinha como cristalizado. Existe uma plasticidade - muitas vezes desconhecida - na neurofisiologia partilhante, a qual permite, em maior ou menor grau, a efetivação desses deslocamentos e possibilidades de reescrita para seu diário pessoal.   

Um reencontro consigo mesmo se descreve na terapia, onde a pessoa pode experienciar-se de acordo com sua singularidade em processo. Quando isso acontece, trata-se de uma exploração compartilhada com o partilhante, num território que lhe pertence, embora muitas vezes, inexplorado pelo próprio titular.

A percepção da pessoa como alguém que se desloca - existencialmente - pela vida, onde atualiza seu diário de viagem, como lembra Cortázar, pode significar, ao próprio explorador, uma expressão para suas buscas existenciais.   

O autor em sua leitura de Sartre: “(...) caminhos que liquidam vertiginosamente todas as formas provisórias da liberdade e deixam o homem existencialmente comprometido com a dura e maravilhosa tarefa de renascer, se for capaz, das cinzas de seu eu histórico, seu eu conformado, seu eu conformista.” (Obra crítica 2. Pág. 99)

Uma aproximação de Cortázar com a escritura de Sartre, descreve a fenomenologia dos eventos na Filosofia Clínica de consultório, ou seja, quando aparece um outro sem deixar de ser ele mesmo. Assim a descrição das armadilhas conceituais esparramadas pela historicidade, pode tornar visível uma condição existencial, nem sempre cabível desconstruir.

As indicações de ressignificação, quando possíveis de implementar, ainda assim terão de respeitar categorias como: tempo, lugar, relações do partilhante com sua circunstância. Os eventos de consultório reivindicam a qualidade da interseção para um convívio terapêutico diferenciado, de acordo com a clínica da Filosofia.

Os movimentos estruturais para emancipação de uma realidade para outra, nem sempre são possíveis de implementar sem alguma forma de auxílio. As lógicas da conformação, ao manter a pessoa numa zona de conforto oferecem atrações irresistíveis, para manutenção das coisas como se encontram.     

O escritor indica: “Com Antonin Artaud silenciou na França uma palavra fraturada que só esteve parcialmente do lado dos vivos, enquanto o restante, numa linguagem inatingível, invocava e propunha uma realidade vislumbrada nas insônias de Rodez. (...) claro que Artaud não é muito bem lido em lugar algum, posto que sua significação já definitiva é a do surrealismo no mais alto e difícil grau de autenticidade: um surrealismo não-literário, anti e extraliterário; e que não se pode pedir a todo mundo que reveja suas ideias sobre a literatura, a função do escritor etc.” (Obra crítica 2. Pág. 143)

É uma quase-verdade o fato de que determinados autores são incompreendidos por sua época, bem assim as propostas de emancipação do fenômeno humano em direção às novas possibilidades existenciais, as quais atemorizam muitas lógicas do chamado bom senso.

Tendo como ponto de partida os esboços de um grupo seleto de autores e autoras, no caso da Filosofia Clínica, como resultante das lidas de consultório e a pesquisa teórica, o que se apresenta, cada vez mais, são conteúdos significativos de uma abordagem terapêutica em pleno desenvolvimento, e que veio para ficar!

Antonin Artaud poderia - com ânimos de cumplicidade - integrar o rol de escritores desta Filosofia Clínica que superou (sob vários aspectos) os ensaios preliminares. No mesmo sentido, as críticas que se apresentam como uma denúncia de escrituras obtusas, difíceis, indecifráveis..., em nossa área de estudos, esquecem que, mesmo os totens mais antigos, como as mentes brilhantes precursoras da Psicanálise e da Psicologia, também escreviam (e alguns ainda escrevem) seus textos em linguagem especializada, a qual reivindica um estudo aprofundado de sua expressão.  

O autor diz: “(...) penso, como André Gide, que ‘o mundo será salvo por uns poucos’, e acrescento que esses poucos não estarão instalados no poder nem ditarão nas cátedras as fórmulas da salvação. (...) Não será um ensino, e sim uma presença, um testemunho.” (Obra crítica 2. Pág. 223)

É interessante notar que as novas metodologias, sejam elas proto ou metaciência, costumam surgir às margens do saber instituído. Muitas vezes como contradição e superação do que se tinha, envolvendo sujeitos singularíssimos, os quais tem de superar inúmeras adversidades e provações para acessar o território inédito onde exercitam sua expressividade.   

As celebrações e festejos, as medalhas e títulos honoríficos, servem para estímulo e manutenção do estabelecido. A novidade para depois de amanhã, aprecia insinuar-se nas entrelinhas de um cotidiano que não reconhece sua apresentação.

A poesia existencial, exilada em cada um, aguarda a pedra de toque para vislumbrar a luz do dia. Algumas vezes elabora ensaios nalgum espaço diferenciado, onde se descobre em rascunhos de originalidade. Ainda assim, terá de proteger esse pedaço de chão das ameaças à sua singularidade em desenvolvimento.

Em Cortázar: “O poeta não é um primitivo, e sim um homem que reconhece e acata as formas primitivas; formas que, pensando bem, seria melhor chamar de ‘primordiais’, anteriores à hegemonia racional, e depois subjacentes ao seu tão alardeado império.” (Obra crítica 2. Pág. 263)

Existem tantas formas de expressão para os inéditos, quantos sejam os envolvidos com sua representação. Assim se pode entender a dificuldade em querer classificar o inclassificável, realizar um enquadramento a partir de uma hermenêutica interpretativa, refém de um óculos desfocado, distante de uma tradução compartilhada, onde o outro da interseção ofereça subsídios para seu ser peculiar.  

As ‘formas primordiais’ como refere o poeta, diz respeito a uma novidade em forma de broto, ainda sem nomenclatura, tipologia, mesmo quando os arautos de um saber esclerosado propõem classificar e cristalizar seu aparecimento, essas expressões se oferecem em linguagem própria, muitas vezes como proteção ao devir singular.   

No caso dessas novas propostas serem cooptadas pelos princípios de verdade de uma época, se tornando um modismo, ainda assim, tratam, elas mesmas, de atualizar seu discurso existencial de acordo com suas origens, desnorteando a rigidez cadavérica de pretensa cientificidade. Por outro lado, a natureza humana segue compartilhando seus originais, embora nem sempre seja possível - com as abordagens consagradas - uma tradução adequada às suas verdades. Questão de método!

Aquele abraço,

hs

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