Sabe aquela sensação de topar - numa
livraria de raridades - com um texto incomum, classificado e carimbado como descartado,
por bibliotecários desavisados? Pois foi assim que encontrei a Obra
Crítica 2 de Julio Cortázar. Um texto que teve sua primeira edição em 1963,
traduzida e publicada no Brasil em 1999 pela editora Civilização Brasileira.
Nesse caso também é possível
estabelecer diálogos em sintonia com a nova abordagem da Filosofia Clínica - sem
tipologizar suas páginas - num exercício de recíproca de inversão com a singularidade
narrativa do autor e suas percepções. Um texto inclassificável pelas
hermenêuticas da contenção discursiva, desconstruindo uma certa hegemonia
literária.
Cortázar compartilha: “(...)
Keats contava com a admirável - e angustiosa - característica de todo poeta: a
de ser outro, estar sempre em e desde outra coisa. Sua consciência dessa
ubiquidade dissolvente - que abre ao poeta os acessos do ser e lhe permite
retornar com o poema à guisa de diário de viagem (...)”. (Obra crítica 2. Pág.
41 e 42)
Ao pensarmos nos eventos da
espacialidade intelectiva, onde inversão e recíproca se prestam para esses
deslocamentos do papel existencial cuidador em direção ao partilhante, bem
assim seu retorno a sua própria estrutura de pensamento, é possível sentir uma
conexão com as palavras do escritor argentino.
Existe uma infinidade de papéis
existenciais e expressividades experienciadas nos eventos da hora-sessão, tendo
como referência o novo paradigma terapêutico.
Uma conjugação de raras
habilidades e competências, aliadas aos estudos da teoria, à terapia pessoal e
a supervisão, podem conceder ao filósofo clínico aprendiz, um vislumbre de suas
possibilidades como terapeuta. Essa característica descrita por Cortázar: ‘a de
ser outro, estar sempre e desde outra coisa’, conversa com as dialéticas de
consultório.
A expressão: ‘lhe permite
retornar à guisa de diário de viagem’ lembra os deslocamentos intelectivos do
filósofo terapeuta, quando desenvolve uma escuta fenomenológica para aprender e
descrever a realidade do outro sob seus cuidados. Nesse ir e vir, se abastece com
subsídios para conhecer a versão partilhante em sua própria versão singular.
Em Cortázar: “Todo leitor da obra
completa de Keats - e de suas admiráveis cartas - observará que o périplo do
poeta não o levou para além de si mesmo (...).” (Obra crítica 2. Pág. 63)
Muitas vezes a narrativa da
historicidade pela pessoa, em versão e tempo próprios, realiza uma atualização significativa
do seu passado, como se fosse uma reedição dos eventos de sua história. Isso,
por si só, pode significar uma autogenia clínica, por onde a pessoa supere
àquilo que se tinha como cristalizado. Existe uma plasticidade - muitas vezes
desconhecida - na neurofisiologia partilhante, a qual permite, em maior ou
menor grau, a efetivação desses deslocamentos e possibilidades de reescrita
para seu diário pessoal.
Um reencontro consigo mesmo se descreve
na terapia, onde a pessoa pode experienciar-se de acordo com sua singularidade
em processo. Quando isso acontece, trata-se de uma exploração compartilhada com
o partilhante, num território que lhe pertence, embora muitas vezes,
inexplorado pelo próprio titular.
A percepção da pessoa como alguém
que se desloca - existencialmente - pela vida, onde atualiza seu diário de
viagem, como lembra Cortázar, pode significar, ao próprio explorador, uma expressão
para suas buscas existenciais.
O autor em sua leitura de Sartre:
“(...) caminhos que liquidam vertiginosamente todas as formas provisórias da
liberdade e deixam o homem existencialmente comprometido com a dura e
maravilhosa tarefa de renascer, se for capaz, das cinzas de seu eu histórico,
seu eu conformado, seu eu conformista.” (Obra crítica 2. Pág. 99)
Uma aproximação de Cortázar com a
escritura de Sartre, descreve a fenomenologia dos eventos na Filosofia Clínica
de consultório, ou seja, quando aparece um outro sem deixar de ser ele mesmo. Assim
a descrição das armadilhas conceituais esparramadas pela historicidade, pode
tornar visível uma condição existencial, nem sempre cabível desconstruir.
As indicações de ressignificação,
quando possíveis de implementar, ainda assim terão de respeitar categorias
como: tempo, lugar, relações do partilhante com sua circunstância. Os eventos
de consultório reivindicam a qualidade da interseção para um convívio
terapêutico diferenciado, de acordo com a clínica da Filosofia.
Os movimentos estruturais para
emancipação de uma realidade para outra, nem sempre são possíveis de
implementar sem alguma forma de auxílio. As lógicas da conformação, ao manter a
pessoa numa zona de conforto oferecem atrações irresistíveis, para manutenção das
coisas como se encontram.
O escritor indica: “Com Antonin
Artaud silenciou na França uma palavra fraturada que só esteve parcialmente do
lado dos vivos, enquanto o restante, numa linguagem inatingível, invocava e
propunha uma realidade vislumbrada nas insônias de Rodez. (...) claro que
Artaud não é muito bem lido em lugar algum, posto que sua significação já
definitiva é a do surrealismo no mais alto e difícil grau de autenticidade: um
surrealismo não-literário, anti e extraliterário; e que não se pode pedir a
todo mundo que reveja suas ideias sobre a literatura, a função do escritor
etc.” (Obra crítica 2. Pág. 143)
É uma quase-verdade o fato de que
determinados autores são incompreendidos por sua época, bem assim as propostas
de emancipação do fenômeno humano em direção às novas possibilidades
existenciais, as quais atemorizam muitas lógicas do chamado bom senso.
Tendo como ponto de partida os
esboços de um grupo seleto de autores e autoras, no caso da Filosofia Clínica,
como resultante das lidas de consultório e a pesquisa teórica, o que se
apresenta, cada vez mais, são conteúdos significativos de uma abordagem
terapêutica em pleno desenvolvimento, e que veio para ficar!
Antonin Artaud poderia - com
ânimos de cumplicidade - integrar o rol de escritores desta Filosofia Clínica
que superou (sob vários aspectos) os ensaios preliminares. No mesmo sentido, as
críticas que se apresentam como uma denúncia de escrituras obtusas, difíceis,
indecifráveis..., em nossa área de estudos, esquecem que, mesmo os totens mais
antigos, como as mentes brilhantes precursoras da Psicanálise e da Psicologia,
também escreviam (e alguns ainda escrevem) seus textos em linguagem
especializada, a qual reivindica um estudo aprofundado de sua expressão.
O autor diz: “(...) penso, como
André Gide, que ‘o mundo será salvo por uns poucos’, e acrescento que esses
poucos não estarão instalados no poder nem ditarão nas cátedras as fórmulas da
salvação. (...) Não será um ensino, e sim uma presença, um testemunho.” (Obra
crítica 2. Pág. 223)
É interessante notar que as novas
metodologias, sejam elas proto ou metaciência, costumam surgir às
margens do saber instituído. Muitas vezes como contradição e superação do que
se tinha, envolvendo sujeitos singularíssimos, os quais tem de superar inúmeras
adversidades e provações para acessar o território inédito onde exercitam sua
expressividade.
As celebrações e festejos, as
medalhas e títulos honoríficos, servem para estímulo e manutenção do
estabelecido. A novidade para depois de amanhã, aprecia insinuar-se nas
entrelinhas de um cotidiano que não reconhece sua apresentação.
A poesia existencial, exilada em
cada um, aguarda a pedra de toque para vislumbrar a luz do dia. Algumas vezes
elabora ensaios nalgum espaço diferenciado, onde se descobre em rascunhos de
originalidade. Ainda assim, terá de proteger esse pedaço de chão das ameaças à
sua singularidade em desenvolvimento.
Em Cortázar: “O poeta não é um
primitivo, e sim um homem que reconhece e acata as formas primitivas; formas
que, pensando bem, seria melhor chamar de ‘primordiais’, anteriores à hegemonia
racional, e depois subjacentes ao seu tão alardeado império.” (Obra crítica 2.
Pág. 263)
Existem tantas formas de
expressão para os inéditos, quantos sejam os envolvidos com sua representação.
Assim se pode entender a dificuldade em querer classificar o inclassificável, realizar
um enquadramento a partir de uma hermenêutica interpretativa, refém de um óculos
desfocado, distante de uma tradução compartilhada, onde o outro da interseção
ofereça subsídios para seu ser peculiar.
As ‘formas primordiais’ como
refere o poeta, diz respeito a uma novidade em forma de broto, ainda sem
nomenclatura, tipologia, mesmo quando os arautos de um saber esclerosado
propõem classificar e cristalizar seu aparecimento, essas expressões se
oferecem em linguagem própria, muitas vezes como proteção ao devir singular.
No caso dessas novas propostas serem
cooptadas pelos princípios de verdade de uma época, se tornando um modismo,
ainda assim, tratam, elas mesmas, de atualizar seu discurso existencial de
acordo com suas origens, desnorteando a rigidez cadavérica de pretensa
cientificidade. Por outro lado, a natureza humana segue compartilhando seus
originais, embora nem sempre seja possível - com as abordagens consagradas - uma
tradução adequada às suas verdades. Questão de método!
Aquele abraço,
hs
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