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sábado, 6 de junho de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 75*

 

Notas de um consultório XIII

Uma obra chega às mãos de alguém em tempo próprio, importa menos a data de sua publicação, mas o instante desse encontro onde o leitor e a leitura se reconhecem. A natureza desses achados se oferece numa incerta frequência a refúgios que aguardam sem pressa. As livrarias, cafés, escolas, bibliotecas, são alguns endereços onde se pode encontrar essas raridades, quase sempre à espera de um visar, uma escuta, um cheiro, um sentir capaz de acolher uma interseção diferenciada.

A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn, é um desses livros que você lê muitas vezes, seja por seu conteúdo ou pela sintonia existencial com suas páginas, por onde se pode evidenciar o desenvolvimento de uma estrutura de pensamento. Uma autogenia se insinua pelas releituras (algo raro nos dias de hoje) de um bom texto, quase como um espelho onde o leitor pode testemunhar sua caminhada existencial.  

O filósofo compartilha sua pesquisa, no que se refere ao aparecimento dos novos paradigmas. Lembrando a necessidade de uma lógica aprendiz, uma postura crítica e reflexiva dos profissionais de qualquer área do conhecimento. Trata da relação daquilo que denomina ciência normal e suas anomalias, consideradas insolúveis com as crenças e procedimentos que detinha até então.

Em Thomas Kuhn: “Considero ‘paradigmas’ as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 53)

O fragmento destaca a categoria tempo, como um ingrediente apto a sustentar uma prática científica. Embora o pesquisador tenha em sua bagagem pessoal a ética e o bom senso, nem sempre essas características são respeitadas, prevalecendo interesses de natureza econômica, ideológica, onde os princípios de verdade tentam manter sua hegemonia a qualquer preço.

Talvez por isso a dificuldade de muita gente em se atrever a estudar e desenvolver uma nova proposta no campo das ciências humanas, quase sempre vinculada a persistência de um pequeno grupo de pensadores (muitas vezes sem recursos em sua época) aptos a enfrentar as adversidades esparramadas pelo caminho.

Paradigmas são modelos, crenças, padrões, onde se articulam e sustentam ideias e práticas no mundo da ciência. Assim é possível vislumbrar o papel da pesquisa acadêmica como um suporte poderoso para sustentação da ciência normal. Seja através da oferta generosa de bolsas de pesquisa, publicações, cátedras onde eminentes oradores prescrevem suas verdades, implementam sua pesquisa, sustentam um status quo institucional.

O pensador compartilha: “Algumas vezes um problema comum, que deveria ser resolvido por meio de regras e procedimentos conhecidos, resiste ao ataque violento e reiterado dos membros mais hábeis do grupo em cuja área de competência ele ocorre. (...) Dessa e de outras maneiras, a ciência normal desorienta-se seguidamente. (...) quando os membros da profissão não podem mais esquivar-se das anomalias que subvertem a tradição existente da prática científica, então começam as investigações extraordinárias (...)” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 65)

Se excluirmos o interesse econômico e ideológico de alguns campos de atuação em ciências humanas, como a rede de consumo de psicofármacos, internação involuntária (manicômios), eletrochoques... é possível realizar um diálogo inter e transdisciplinar de qualidade, com pensadores abertos a uma lógica aprendiz com os eventos de natureza desconhecida.

No que se refere às questões da chamada saúde mental, ainda estamos numa fase em que a maioria dos profissionais, insistem em apresentar novas patologias, disfarçadas de expressões como: síndrome, espectro, transtorno, tentando sustentar as intervenções - praticadas e festejadas - de submissão e controle do fenômeno humano em vias de não-ser. Questão de método!

Suspeita-se que enquanto a indústria de psicofármacos e a medicina do corpo detiverem a propriedade (direta ou indireta) das pesquisas na área, as coisas vão prosseguir nessa direção, mesmo quando as contradições e percepções indicarem outras possibilidades para abordagem das pessoas em seus momentos de travessia existencial.    

As anomalias que subvertem a tradição, costumam ser sufocadas ou direcionadas para um lugar de menos valia pela ciência normal, onde se destacam: as questões econômicas, ideologia, saber-poder de mestres e doutores conformados aos ensinamentos da tradição, dissertações e teses afins para manter interesses diversos como a manutenção de bolsas de pesquisa, parcerias, intercâmbios, patrocínios...

Com Thomas Kuhn: “A ciência normal não se propõe descobrir novidades no terreno dos fatos ou da teoria; quando é bem-sucedida, não os encontra.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 127)

Um novo paradigma tem de conviver, em sua época, com toda sorte de contrariedades, ameaças, críticas (muitas vezes de quem nada sabe do que fala ou escreve), o espanto da classe científica com as possibilidades (ameaçadoras) que se apresentam com os novos olhares e percepções no mundo da ciência.

As novas ideias costumam se apresentar numa forma subversiva, ameaçadora, contraditória ao que se tinha até então, ou seja, trata-se de seminários, publicações, práticas que propõe algo até então desmerecido, distante do que se tinha como metodologia consagrada.

Como a ciência normal se comporta com esses esboços de alma nova que vão surgindo? A história é repleta de exemplos dos tratamentos oferecidos aos precursores em vários campos do conhecimento, poderíamos lembrar as fogueiras patrocinadas pelo índex da igreja católica e seus adeptos, quando mentes brilhantes (homens e mulheres) foram condenadas à fogueira por suas ideias e práticas diferenciadas. Nos dias de hoje as fogueiras são de outra natureza - ideologicamente dissimuladas -, ainda assim, o movimento da vida prossegue para superar os limites, amarras e freios existenciais esparramados pelo caminho.    

O pensador contribui: “(...) alguns homens foram levados a abandonar a ciência devido à sua inabilidade para tolerar crises. Tal como os artistas, os cientistas criadores precisam, em determinadas ocasiões, ser capazes de viver em um mundo desordenado.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 161)

Uma rotina de convívio com a vida desestruturada, recheada de incompletudes discursivas, como tradução dos instantes de travessia entre uma e outra realidade, reivindica uma espécie de profissional diferenciado, apto a conviver e suportar as ameaças ao velho território, num tempo subjetivo, por onde se testam múltiplas variáveis, em busca de um lugar seguro para sua expressividade.

Em Filosofia Clínica, além de se tratar de um novo paradigma terapêutico, onde seus profissionais têm de conviver com a insegurança dos primeiros tempos, da própria natureza da nova abordagem clínica, a qual não trabalha com pressupostos a priori, refém de uma metodologia libertária, onde inexiste um objeto de pesquisa ou tratamento distante da realidade partilhante, mas um sujeito em vias de reconhecer-se numa estrada que lhe pertence.   

Talvez o fato de ser uma novidade radical - a Filosofia Clínica - ofereça um território plástico para a atuação terapêutica, numa interseção entre o filósofo e seu partilhante, apta a oferecer a matéria-prima para a qualidade das intervenções, possa se traduzir em insegurança a alguns estudantes, embora sua estruturação tenha uma fundamentação teórica e prática - muitas vezes de aparência inacreditável - robusta, muitos vão procurar metodologias que deem a ilusão de segurança, com suas retóricas de aspecto infalível, exemplos de casos bem sucedidos, etc. etc.

Em Thomas Kuhn: “Paradigmas não podem, de modo algum, ser corrigidos pela ciência normal. Em lugar disso, (...) a ciência normal leva, ao fim e ao cabo, apenas ao reconhecimento de anomalias e crises.  (...) Os cientistas falam frequentemente de ‘vendas que caem dos olhos’ ou de uma ‘iluminação repentina’ que ‘inunda’ um quebra-cabeça que antes era obscuro, possibilitando que seus componentes sejam vistos de uma nova maneira”. (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 215)  

A correção oferecida pela ciência normal diante de um desvio de rota, uma nova percepção, um desvario de seu ponto de vista, é a constatação de um caos, uma anomalia que precisa ser ajustada, desconstruída. No entanto, como nenhuma dessas possibilidades acontece, e o fenômeno se repete, inaugurando um padrão, essa característica reivindica uma abordagem diferenciada, inexistente a priori, específica a singularidade dos encontros.    

Nesse processo com a fenomenologia das crises, algo novo acontece, alcançando rotas de tradução pela via de uma interseção compartilhada, por onde se descrevem rascunhos de anúncio sobre algo, até então, desconsiderado.

A mudança de perspectiva concede a fenomenologia do estranho uma proximidade apta a traduzir suas verdades, seu ponto de vista, e com ele dialogar, numa proposta para emancipar sua geografia subjetiva.

Um novo olhar sobre velhas problemáticas aparece para qualificar um convívio aprendiz com realidades, até então, significadas como anomalia. Para que esse processo de descobrimento aconteça é preciso um pesquisador apto a conviver com as ameaças de um território desconhecido, em busca de uma matéria-prima em vias de se mostrar.

O filósofo indica: “Creio que existem excelentes razões para que as revoluções sejam quase totalmente invisíveis. Grande parte da imagem que cientistas e leigos têm da atividade científica criadora provém de uma fonte autorizada que disfarça sistematicamente - em parte devido a razões funcionais importantes - a existência e o significado das revoluções científicas”. (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Págs. 231/232)

Existem múltiplas percepções sobre a invisibilidade preliminar das revoluções científicas. Gostaria de destacar que é comum, em países de vocação colonial (dependência econômica, ideológica, educacional, linguística), uma camada de proteção às novas ideias e práticas científicas, especificamente àquelas oriundas de seu meio, usualmente desmerecidas por grande parte dos próprios nativos.

Assim, não é de estranhar que se forme uma rede de proteção ao redor das novas propostas e estudos no campo das ciências humanas. Distanciando a curiosidade comum dos novos territórios existenciais em vias de aparecimento. Não apenas um novo vocabulário está em curso, mas intervenções de acolhimento, interseção, tradução compartilhada e outros, constituem uma linguagem inacessível há quem não se dispõe percorrer um caminho (recheado de desafios e armadilhas) de estudos e desenvolvimento pessoal em direção ao novo paradigma.    

 Thomas Kuhn ensina: “Dado que os novos paradigmas nascem dos antigos, incorporam comumente grande parte do vocabulário e dos aparatos, tanto conceituais como de manipulação, que o paradigma tradicional já empregara. Mas raramente utilizam esses elementos emprestados de uma maneira tradicional. Dentro do novo paradigma, termos, conceitos e experiências antigos estabelecem novas relações entre si.” (A estrutura das revoluções científicas, 2013. Pág. 247)

Na pesquisa científica se desenvolvem estudos e práticas com base num chão reconhecido, seja para sustentar suas verdades ou para contraditar suas percepções com novas janelas epistemológicas, intuitivas, ao descrever, sugerir, apontar caminhos alternativos ao que se tinha.

Não é apenas o sentido de algumas expressões que se modificam com a superação de modelos científicos, mas também a conexão do que vai surgindo com termos aptos a descrever os inéditos aparecimentos. 

Outra dificuldade na implementação das novas propostas de ciência é a resistência institucional, em experienciar novas rotas em seu campo dos estudos, as quais costumam surgir em contradição com as ideologias da tradição.   

Esses apontamentos preliminares buscam oferecer subsídios ao desenvolvimento dos estudos em Filosofia Clínica, como um novo paradigma em ciências humanas, o qual se mostra apto a dialogar e compartilhar subsídios a diferentes segmentos no campo da pesquisa teórica, estudos de aprofundamento, práticas de consultório, sem perder de vista suas referências filosófico-clínicas.  

Aquele abraço,

hs  

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