Ao tecer alguns apontamentos
sobre a arte de ler, em um convívio com as páginas de um livro, numa leitura
agradável e sem pressa, é possível sentir a experiência de ter vivido muitas
vidas em suas histórias. Algo recheado de incompletudes, quando se tenta
aprisionar a palavra numa só direção, para descrever o prazer da hora leitura.
A ilegibilidade de um texto costuma se refugiar nas entrelinhas de um parágrafo
qualquer, um desse lugares onde a escritura e seu leitor se encontram, para
compartilhar originalidades.
Os acontecimentos do dia a dia poderiam
contar algo mais sobre a correria das pessoas a perseguir metas sem sentido. Colocando
suas vidas como reféns da propaganda, do marketing, e suas indicações sobre
como se preparar para correr mais depressa, comer rápido, dormir pouco, acreditar
que leitura dinâmica é leitura, passar os olhos pelas redes sociais, acolher a
lógica tik tok.
As lógicas da velocidade acenam com algo
inalcançável, para isso reinventam metas, acenam riquezas materiais,
multiplicam fórmulas sobre o que pensar, como viver. Talvez um dia se comece
a suspeitar sobre essa forma de sobrevida, para reencontrar sabor e cor num
cotidiano que não volta. Começar a sentir a vida de outros ângulos, em sintonia
com a expressividade de um tempo com tempo para redigir sua própria história.
Alberto Manguel indica: “(...) o
pensamento requer tempo e profundidade, as duas qualidades essenciais do ato de
ler.” (À mesa com o chapeleiro maluco, 2009. Pág. 48).
Para acessar o fenômeno leitura é
preciso desacelerar, colocar a mente num estado de abertura e disponibilidade
para conviver com os eventos do texto. As páginas de um livro costumam oferecer
boas ideias, auxiliam a decifrar incógnitas, reinventar questões, saborear
eventos surpreendentes a cada capítulo, desenvolver uma epistemologia
aprendiz.
Se, como afirma Manguel, o
pensamento requer tempo e profundidade, como encontrar algo assim num
cotidiano apressado, que insiste em se manter a qualquer preço? Pode ser importante
lembrar quando foi a última vez que você visitou sua poltrona preferida para reencontrar
aquela obra exilada na estante dos esquecidos? Ouvir suas músicas, saborear
um café, encontrar alguém para conversar sem ter razão?
Para ser humano é preciso exercitar
uma condição humana, algo singular, inédito, irrepetível, cuja originalidade costuma
se abrigar nas contradições de si para si mesmo.
Com Manguel: “Nessas aberturas
entre a borda do papel e a borda da tinta, o leitor pode gerar uma revolução
silenciosa e estabelecer uma nova sociedade, na qual a tensão criativa já não
se gera entre a página e o texto, mas entre o texto e o leitor.” (À mesa com o
chapeleiro maluco, 2009. Pág. 81).
Uma interseção entre autor e
leitor, pode significar algo mais ao instante leitura, de onde pode surgir -
como passe de mágica - uma pluralidade de hipóteses e experimentações, até
então refugiadas nas margens de sua própria estrutura de pensamento. Sua
prática, como aliada para exercitar singularidades, pode localizar, com a
mediação dos textos, os endereços subjetivos desconsiderados num cotidiano de dívidas
existenciais intermináveis.
A criatividade, a invenção, os
ensaios contidos num discurso existencial, reivindicam uma aproximação com as
lógicas da diferença, para reencontrar - sem pressa - as páginas descartadas, onde
se possa reescrever as leituras ainda sem tradução.
Aquele abraço,
hs
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