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domingo, 3 de novembro de 2024

Filosofia Clínica Agridoce 44*

Ao tecer alguns apontamentos sobre a arte de ler, em um convívio com as páginas de um livro, numa leitura agradável e sem pressa, é possível sentir a experiência de ter vivido muitas vidas em suas histórias. Algo recheado de incompletudes, quando se tenta aprisionar a palavra numa só direção, para descrever o prazer da hora leitura. A ilegibilidade de um texto costuma se refugiar nas entrelinhas de um parágrafo qualquer, um desse lugares onde a escritura e seu leitor se encontram, para compartilhar originalidades.

Os acontecimentos do dia a dia poderiam contar algo mais sobre a correria das pessoas a perseguir metas sem sentido. Colocando suas vidas como reféns da propaganda, do marketing, e suas indicações sobre como se preparar para correr mais depressa, comer rápido, dormir pouco, acreditar que leitura dinâmica é leitura, passar os olhos pelas redes sociais, acolher a lógica tik tok.

As lógicas da velocidade acenam com algo inalcançável, para isso reinventam metas, acenam riquezas materiais, multiplicam fórmulas sobre o que pensar, como viver. Talvez um dia se comece a suspeitar sobre essa forma de sobrevida, para reencontrar sabor e cor num cotidiano que não volta. Começar a sentir a vida de outros ângulos, em sintonia com a expressividade de um tempo com tempo para redigir sua própria história.   

Alberto Manguel indica: “(...) o pensamento requer tempo e profundidade, as duas qualidades essenciais do ato de ler.” (À mesa com o chapeleiro maluco, 2009. Pág. 48).

Para acessar o fenômeno leitura é preciso desacelerar, colocar a mente num estado de abertura e disponibilidade para conviver com os eventos do texto. As páginas de um livro costumam oferecer boas ideias, auxiliam a decifrar incógnitas, reinventar questões, saborear eventos surpreendentes a cada capítulo, desenvolver uma epistemologia aprendiz.   

Se, como afirma Manguel, o pensamento requer tempo e profundidade, como encontrar algo assim num cotidiano apressado, que insiste em se manter a qualquer preço? Pode ser importante lembrar quando foi a última vez que você visitou sua poltrona preferida para reencontrar aquela obra exilada na estante dos esquecidos? Ouvir suas músicas, saborear um café, encontrar alguém para conversar sem ter razão?  

Para ser humano é preciso exercitar uma condição humana, algo singular, inédito, irrepetível, cuja originalidade costuma se abrigar nas contradições de si para si mesmo.   

Com Manguel: “Nessas aberturas entre a borda do papel e a borda da tinta, o leitor pode gerar uma revolução silenciosa e estabelecer uma nova sociedade, na qual a tensão criativa já não se gera entre a página e o texto, mas entre o texto e o leitor.” (À mesa com o chapeleiro maluco, 2009. Pág. 81).

Uma interseção entre autor e leitor, pode significar algo mais ao instante leitura, de onde pode surgir - como passe de mágica - uma pluralidade de hipóteses e experimentações, até então refugiadas nas margens de sua própria estrutura de pensamento. Sua prática, como aliada para exercitar singularidades, pode localizar, com a mediação dos textos, os endereços subjetivos desconsiderados num cotidiano de dívidas existenciais intermináveis.

A criatividade, a invenção, os ensaios contidos num discurso existencial, reivindicam uma aproximação com as lógicas da diferença, para reencontrar - sem pressa - as páginas descartadas, onde se possa reescrever as leituras ainda sem tradução.

Aquele abraço,

hs

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