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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 97*


                              





Um café com livros

Na primavera de 2013, tive compromissos de trabalho em São Paulo, fiquei hospedado no lindo bairro de Higienópolis, de onde, em alguns intervalos, exercitava uma fenomenologia da caminhada, buscava conhecer um pouco mais o bairro, fotografar algumas de suas peculiaridades. Assim, logo após o ar puro do parque Buenos Aires, seguindo pelas calçadas com seus prédios históricos (anos 1950/60/70), cheguei no Shopping Pátio Higienópolis para saborear um café e conhecer a livraria da Vila. Na prateleira dos lançamentos estava a obra de Milan Kundera intitulada: Um encontro - ensaios, publicada pela Cia das Letras/SP em 2013.

O pensador descreve um mosaico de percepções sobre esteticidade seletiva. Ao compartilhar escritos sobre literatura, cinema, música, belas artes, suas reflexões compartilham uma representação singular, compõem um recorte existencial diferenciado. Sua atividade se traduz numa quase biografia. Mais um texto a dialogar com a nova abordagem da Filosofia Clínica.

Milan Kundera indica: “Compreender o outro significa compreender a idade que ele está atravessando.” (Um encontro-ensaios, 2013. Pág.35)

Tendo em vista uma epistemologia intuitiva, presente nos atendimentos do novo paradigma, é possível vislumbrar-se o alcance das interseções, ou seja, como, onde e com quem se pode desenvolver uma trajetória significativa de buscas, voltadas para a realidade em trânsito do partilhante.

Uma sintonia existencial singular, oferece a matéria-prima ao filósofo, o qual terá de colocar-se - em perspectiva - de acordo com o território onde a pessoa exercita seu devir cotidiano, oferecendo uma expressividade do que tem e do que é no momento.

Ao ter acesso ao território subjetivo do partilhante - sua estrutura de pensamento -, ainda assim o filósofo terapeuta terá de adaptar-se ao que vai aparecendo nas narrativas da historicidade, bem assim os desdobramentos das intervenções clínicas. Uma atualização para a programação dos encontros, muitas vezes necessária nos momentos da atividade terapêutica, pode significar uma aproximação eficaz com a realidade mutante do partilhante.

O pressuposto de uma travessia, como escreve o autor, oferece uma leitura sobre a plasticidade das construções compartilhadas, as quais possuem uma dinâmica quase invisível, ao olho nu das convenções e definições estabelecidas. Os deslocamentos do partilhante por suas possibilidades existenciais em processo, oferece ao filósofo uma noção sobre os rumos da terapia.

Com o autor: “(...) o ouvinte não se dá conta, já que essa complexidade tem um ar natural e simples. Que isso sirva de exemplo: as inovações formais dos grandes mestres têm sempre alguma coisa de discreto; assim é a verdadeira perfeição; é apenas nos pequenos mestres que a novidade quer se fazer notar.” (Um encontro-ensaios, 2013. Pág. 73)

O estado de espírito que predomina numa atividade em Filosofia Clínica é de uma simplicidade - quase candura -, para acolher e cooperar com a caminhada existencial da pessoa sob os cuidados do filósofo. Isso não implica na perda ou enfraquecimento do papel existencial, mas se associa à expressividade dos atendimentos.

É possível notar, ainda mais em tempos de internet, a agitação barulhenta de recém-formados, em busca de consagração e reconhecimento instantâneo, correndo de um lado para outro, investindo tempo e recursos financeiros para divulgar algo ainda incipiente. Muitos transitam de uma metodologia a outra, sem entender lhufas dessa miscelânia contraditória que eles mesmos produzem.   

A autenticidade de um consultório aprecia se mostrar no refúgio sagrado dos atendimentos, na intimidade das interseções, sem a aprovação ruidosa das multidões e suas medalhas, em busca de um profeta, mestre, ou pastor de ovelhinhas. Aliás, já não se tem igrejas em excesso nesse país?     

Redigir algumas palavras sobre o novo paradigma da Filosofia Clínica reivindica uma atualização permanente de suas leituras, as práticas efetivas de consultório, participação em aulas, seminários, congressos, voltados para uma integração da nova abordagem, sem distorções ou lacunas na formação.  

Milan Kundera compartilha: “Pois cada povo em busca de si mesmo se pergunta onde se encontra o degrau intermediário entre sua casa e o mundo (...)”. (Um encontro-ensaios, 2013. Pág. 94)

Em um texto recheado de vice conceitos, é possível encontrar indícios de algo mais. Os princípios de verdade, apesar de indicarem rotas de pretensão generalista, encontram-se impregnados de desvãos, margens, periferias, as quais produzem toda sorte de inéditos, quase sempre inacessíveis a um espírito de multidão.

A ideia para uma casa comum, de onde partiriam as vontades, representações e buscas, com seus percalços, alegrias e tristezas sendo compartilháveis, se apresenta distante de uma percepção da vida singular. Para acessar a geografia subjetiva refugiada em cada um, existem pré-requisitos inacessíveis às lógicas da generalização. É necessário um convívio aprendiz com as formas e conteúdos por onde uma pessoa se estrutura, desenvolve sua expressão diferenciada, se atribui valores, sonhos, devaneios, qualifica relações e descobre a porção de infinito que lhe cabe.  

O degrau intermediário entre sua casa e o mundo, como transcreve Kundera, pode significar aquele algo mais, inacessível à primeira vista, reivindicando uma interseção que se desloca para encontrar a realidade partilhante.  

Sendo assim, ao ser apreciador de um vice conceito, como uma expressividade protegida dos falsetes da hermenêutica, pode ser preferível entender esse espaço intermediário como uma rota impregnada de vida, por onde cada um alcança seu lugar de acordo com os empreendimentos que é capaz de realizar.

O pensador refere: “É preciso realmente uma grande maturidade para compreender que a opinião que nós defendemos não passa de nossa hipótese preferida, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas os muito obtusos podem transformar numa certeza ou numa verdade.” (Um encontro-ensaios, 2013. Pág. 115)

A opinião ou doxa como ensinam os gregos, pode acenar com uma imensidão de possibilidades compreensivas, todas elas vinculadas à expressão singular. Longe dessa circunstância, onde uma determinada representação de mundo se apresenta, o que se tem são distorções à guisa de ciência.

Por outro lado, se tivermos a lucidez de atribuir as nossas convicções o destaque que merecem as águas de um rio, então poderemos exercitar os deslocamentos por caminhos e horizontes de compreensão. Uma hipótese preferida, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, como escreve o autor, ensina sobre a cautela investigativa compartilhada, ao avistar-se com outra pessoa, seja nas lidas do cotidiano ou nos eventos da hora-sessão.

Assim uma metodologia que se atribui um papel de oráculo, como algumas definições da tradição terapêutica, impregnadas de versões interpretativas para tudo que lhes toca, distorcendo originalidades para contemplar uma pacificação - quase nunca adequada - ao devir singular, passa a ser refém dos princípios de verdade, pelas hermenêuticas de um saber-poder que desconhece o que não é reflexo.    

As certezas de uma pseudociência, costumam fazer bastante barulho, tem de ser repetidas para agendar nos incautos, suas verdades circenses, impregnadas de distorções, equivocidades, distantes de um acolhimento compreensivo, impregnado de uma investigação compartilhada, onde o outro da interseção tem voz e vez.

Ao buscar um entendimento de outra realidade, a partir dos nossos próprios rascunhos existenciais, compondo uma definição totalitária, dogmática, recheada de cientificidade e notas de rodapé, afasta-se a fenomenologia do estranho, para traduzir distorcendo a novidade incompreendida.

Milan Kundera contribui: “A ideia de Nietzsche me vem ao espírito: é no instante de sua gênese que a essência de um fenômeno se revela.” (Um encontro-ensaios, 2013. Pág. 169)

O novo paradigma da Filosofia Clínica possui sua fundamentação teórica na tradição filosófica, recheando seus pressupostos com a fenomenologia, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, estruturalismo, as poéticas da singularidade. Sendo assim, é possível vislumbrar, no curso dos atendimentos, os deslocamentos para si mesmo sendo outro. 

A fundamentação prática ensina sobre os rituais de uma investigação compartilhada. Eventos de aproximação e distanciamento com uma estrutura de pensamento, ou seja, quando é possível acessar uma realidade em seu próprio território existencial, produzindo significados, traduções compartilhadas para ideias, palavras, gestos, em sintonia com as autogenias da clínica.  

Para conviver com a fenomenologia dos atendimentos, é preciso adequar-se com a imprecisão de seus aparecimentos e desaparecimentos, como uma fonte de originalidade em vias de mostrar-se, muitas vezes inacessível a um olhar de primeira vez, numa interseção de escuta que se escuta pelas referências do outro.

Talvez a nova abordagem terapêutica encontre seus melhores intérpretes no lugar de convívio com o inesperado, onde o papel existencial encontre sua melhor expressão em conexão com a outra margem da relação. Assim, poderá superar a distância e precauções metodológicas que apontam os inéditos como algo reconhecível a priori como: síndrome, transtorno, espectro e demais coadjuvantes das lógicas para fabricação da loucura.

Aquele abraço,

hs  

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