Um café com livros
Na primavera de 2013, tive
compromissos de trabalho em São Paulo, fiquei hospedado no lindo bairro de
Higienópolis, de onde, em alguns intervalos, exercitava uma fenomenologia da
caminhada, buscava conhecer um pouco mais o bairro, fotografar algumas de suas peculiaridades.
Assim, logo após o ar puro do parque Buenos Aires, seguindo pelas calçadas com
seus prédios históricos (anos 1950/60/70), cheguei no Shopping Pátio
Higienópolis para saborear um café e conhecer a livraria da Vila. Na prateleira
dos lançamentos estava a obra de Milan Kundera intitulada: Um encontro -
ensaios, publicada pela Cia das Letras/SP em 2013.
O pensador descreve um mosaico de
percepções sobre esteticidade seletiva. Ao compartilhar escritos sobre
literatura, cinema, música, belas artes, suas reflexões compartilham uma representação
singular, compõem um recorte existencial diferenciado. Sua atividade se traduz
numa quase biografia. Mais um texto a dialogar com a nova abordagem da
Filosofia Clínica.
Milan Kundera indica:
“Compreender o outro significa compreender a idade que ele está atravessando.”
(Um encontro-ensaios, 2013. Pág.35)
Tendo em vista uma epistemologia
intuitiva, presente nos atendimentos do novo paradigma, é possível
vislumbrar-se o alcance das interseções, ou seja, como, onde e com quem se pode
desenvolver uma trajetória significativa de buscas, voltadas para a realidade
em trânsito do partilhante.
Uma sintonia existencial singular,
oferece a matéria-prima ao filósofo, o qual terá de colocar-se - em
perspectiva - de acordo com o território onde a pessoa exercita seu devir
cotidiano, oferecendo uma expressividade do que tem e do que é no momento.
Ao ter acesso ao território
subjetivo do partilhante - sua estrutura de pensamento -, ainda assim o
filósofo terapeuta terá de adaptar-se ao que vai aparecendo nas narrativas da
historicidade, bem assim os desdobramentos das intervenções clínicas. Uma
atualização para a programação dos encontros, muitas vezes necessária nos
momentos da atividade terapêutica, pode significar uma aproximação eficaz com a
realidade mutante do partilhante.
O pressuposto de uma travessia,
como escreve o autor, oferece uma leitura sobre a plasticidade das construções
compartilhadas, as quais possuem uma dinâmica quase invisível, ao olho nu das
convenções e definições estabelecidas. Os deslocamentos do partilhante por suas
possibilidades existenciais em processo, oferece ao filósofo uma noção
sobre os rumos da terapia.
Com o autor: “(...) o ouvinte não
se dá conta, já que essa complexidade tem um ar natural e simples. Que isso
sirva de exemplo: as inovações formais dos grandes mestres têm sempre alguma
coisa de discreto; assim é a verdadeira perfeição; é apenas nos pequenos
mestres que a novidade quer se fazer notar.” (Um encontro-ensaios, 2013. Pág.
73)
O estado de espírito que
predomina numa atividade em Filosofia Clínica é de uma simplicidade - quase
candura -, para acolher e cooperar com a caminhada existencial da pessoa sob os
cuidados do filósofo. Isso não implica na perda ou enfraquecimento do papel
existencial, mas se associa à expressividade dos atendimentos.
É possível notar, ainda mais em
tempos de internet, a agitação barulhenta de recém-formados, em busca de
consagração e reconhecimento instantâneo, correndo de um lado para outro,
investindo tempo e recursos financeiros para divulgar algo ainda incipiente.
Muitos transitam de uma metodologia a outra, sem entender lhufas dessa
miscelânia contraditória que eles mesmos produzem.
A autenticidade de um consultório
aprecia se mostrar no refúgio sagrado dos atendimentos, na intimidade das
interseções, sem a aprovação ruidosa das multidões e suas medalhas, em busca de
um profeta, mestre, ou pastor de ovelhinhas. Aliás, já não se tem igrejas em
excesso nesse país?
Redigir algumas palavras sobre o
novo paradigma da Filosofia Clínica reivindica uma atualização permanente de
suas leituras, as práticas efetivas de consultório, participação em aulas,
seminários, congressos, voltados para uma integração da nova abordagem, sem
distorções ou lacunas na formação.
Milan Kundera compartilha: “Pois
cada povo em busca de si mesmo se pergunta onde se encontra o degrau
intermediário entre sua casa e o mundo (...)”. (Um encontro-ensaios, 2013. Pág.
94)
Em um texto recheado de vice
conceitos, é possível encontrar indícios de algo mais. Os princípios de
verdade, apesar de indicarem rotas de pretensão generalista, encontram-se
impregnados de desvãos, margens, periferias, as quais produzem toda sorte de
inéditos, quase sempre inacessíveis a um espírito de multidão.
A ideia para uma casa comum, de onde partiriam as vontades, representações e buscas, com seus percalços, alegrias e tristezas sendo compartilháveis, se apresenta distante de uma percepção da vida singular. Para acessar a geografia subjetiva refugiada em cada um, existem pré-requisitos inacessíveis às lógicas da generalização. É necessário um convívio aprendiz com as formas e conteúdos por onde uma pessoa se estrutura, desenvolve sua expressão diferenciada, se atribui valores, sonhos, devaneios, qualifica relações e descobre a porção de infinito que lhe cabe.
O degrau intermediário entre sua
casa e o mundo, como transcreve Kundera, pode significar aquele
algo mais, inacessível à primeira vista, reivindicando uma interseção que se
desloca para encontrar a realidade partilhante.
Sendo assim, ao ser apreciador de
um vice conceito, como uma expressividade protegida dos falsetes da
hermenêutica, pode ser preferível entender esse espaço intermediário como uma
rota impregnada de vida, por onde cada um alcança seu lugar de acordo com os
empreendimentos que é capaz de realizar.
O pensador refere: “É preciso
realmente uma grande maturidade para compreender que a opinião que nós
defendemos não passa de nossa hipótese preferida, necessariamente imperfeita,
provavelmente transitória, que apenas os muito obtusos podem transformar numa
certeza ou numa verdade.” (Um encontro-ensaios, 2013. Pág. 115)
A opinião ou doxa como
ensinam os gregos, pode acenar com uma imensidão de possibilidades
compreensivas, todas elas vinculadas à expressão singular. Longe dessa
circunstância, onde uma determinada representação de mundo se apresenta, o que
se tem são distorções à guisa de ciência.
Por outro lado, se tivermos a lucidez
de atribuir as nossas convicções o destaque que merecem as águas de um rio,
então poderemos exercitar os deslocamentos por caminhos e horizontes de
compreensão. Uma hipótese preferida, necessariamente imperfeita,
provavelmente transitória, como escreve o autor, ensina sobre a cautela investigativa
compartilhada, ao avistar-se com outra pessoa, seja nas lidas do cotidiano ou
nos eventos da hora-sessão.
Assim uma metodologia que se
atribui um papel de oráculo, como algumas definições da tradição terapêutica,
impregnadas de versões interpretativas para tudo que lhes toca, distorcendo
originalidades para contemplar uma pacificação - quase nunca adequada - ao
devir singular, passa a ser refém dos princípios de verdade, pelas hermenêuticas
de um saber-poder que desconhece o que não é reflexo.
As certezas de uma pseudociência,
costumam fazer bastante barulho, tem de ser repetidas para agendar nos
incautos, suas verdades circenses, impregnadas de distorções, equivocidades, distantes
de um acolhimento compreensivo, impregnado de uma investigação compartilhada,
onde o outro da interseção tem voz e vez.
Ao buscar um entendimento de
outra realidade, a partir dos nossos próprios rascunhos existenciais, compondo
uma definição totalitária, dogmática, recheada de cientificidade e notas de
rodapé, afasta-se a fenomenologia do estranho, para traduzir distorcendo a
novidade incompreendida.
Milan Kundera contribui: “A ideia
de Nietzsche me vem ao espírito: é no instante de sua gênese que a essência de
um fenômeno se revela.” (Um encontro-ensaios, 2013. Pág. 169)
O novo paradigma da Filosofia
Clínica possui sua fundamentação teórica na tradição filosófica, recheando seus
pressupostos com a fenomenologia, analítica da linguagem, hermenêutica
compreensiva, estruturalismo, as poéticas da singularidade. Sendo assim, é
possível vislumbrar, no curso dos atendimentos, os deslocamentos para si mesmo
sendo outro.
A fundamentação prática ensina
sobre os rituais de uma investigação compartilhada. Eventos de aproximação e
distanciamento com uma estrutura de pensamento, ou seja, quando é possível
acessar uma realidade em seu próprio território existencial, produzindo
significados, traduções compartilhadas para ideias, palavras, gestos, em sintonia
com as autogenias da clínica.
Para conviver com a fenomenologia
dos atendimentos, é preciso adequar-se com a imprecisão de seus aparecimentos e
desaparecimentos, como uma fonte de originalidade em vias de mostrar-se, muitas
vezes inacessível a um olhar de primeira vez, numa interseção de escuta que se escuta
pelas referências do outro.
Talvez a nova abordagem
terapêutica encontre seus melhores intérpretes no lugar de convívio com o
inesperado, onde o papel existencial encontre sua melhor expressão em conexão
com a outra margem da relação. Assim, poderá superar a distância e precauções
metodológicas que apontam os inéditos como algo reconhecível a priori como:
síndrome, transtorno, espectro e demais coadjuvantes das lógicas para
fabricação da loucura.
Aquele abraço,
hs

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