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domingo, 1 de novembro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 96*

Palavras em trânsito

Em maio de 2008, numa tarde de outono em Niterói/RJ, onde residia e trabalhava, aproveitava momentos de intervalo nas clínicas para flanar pelo lindo bairro de Icaraí. Num dia ensolarado e agradável, o passeio me levou à livraria Nobel para um café e conhecer suas publicações. Foi assim que me avistei com o livro “Apocalípticos e integrados” de Umberto Eco, traduzido por Pérola de Carvalho e publicado pela Editora Perspectiva/SP em 2006.  

A obra cuida de textos de estética. No entanto, como aventureiros no território das palavras, apreciamos o desvencilhar-se de um só sentido, para qualificar outros pontos de vista, tendo como referência o texto de onde partiram. Dessa maneira, se apresenta um diálogo da Filosofia Clínica com a Literatura.

Em Umberto Eco: “Cada um de nós pode ser um e outro, em diferentes momentos de um mesmo dia, num caso, buscando uma excitação de tipo altamente especializada, no outro, uma forma de entretenimento capaz de veicular uma categoria de valores específica.” (Apocalípticos e integrados, 2006. Pág. 58)

O pensador compartilha algo significativo ao novo paradigma, isto é, quando uma pessoa desenvolve múltiplos papéis existenciais, sem perder sua perspectiva singular diante do espelho de seus deslocamentos.

Em uma interseção assim descrita, estrutura-se uma expressividade apta ao compartilhar pontos de vista, realizar escolhas, vivenciar devaneios, paixões, amores e saudades, numa conexão com a fenomenologia da vida. Os ânimos (Gaston Bachelard) de um sujeito costumam estar em sintonia com seu endereço existencial. Assim se pode compreender gestos, palavras, relações em recíproca de inversão, conectados com a categoria lugar onde a estrutura subjetiva vivencia seu devir. A transição entre uma interseção positiva, mista, indeterminada, negativa, ajuda a entender as resultantes desses encontros.

As buscas, quando determinantes a uma pessoa, podem se associar - pela intencionalidade - com outros tópicos, direcionando caminhos, significados, representações, para viabilizar desfechos ao sujeito de suas possibilidades existenciais. O fragmento indica uma categoria específica de valores, ou seja, quando a busca se associa com a axiologia para cogitar e desenvolver rotas a sua expressão.         

O pensador refere: “Uma mensagem poética é, portanto, uma estrutura que dificilmente pode ser enrijecida numa definição ou resumida numa fórmula convencional.” (Apocalípticos e integrados, 2006. Pág. 102)

Com esse parágrafo se pode traduzir uma aproximação com o conceito de singularidade, evidenciado, nas atividades do novo paradigma - sob muitos aspectos ainda incompreendido - quando reivindica uma investigação compartilhada, com base na estrutura de pensamento de cada pessoa, tendo como bússola os exames categoriais, onde encontra subsídios para uma clínica que se adapta a realidade de cada atendimento.

Ao ter intimidade com a expressividade poética, a Filosofia Clínica desenvolve uma metodologia plástica, dinâmica, impregnada de construções compartilhadas, ou seja, àquelas que encontram uma referência no território existencial do partilhante, contraditória com a hermenêutica de um saber especialista e suas distorções interpretativas.   

O paradoxo da nova mensagem cuidadora com as abordagens da tradição, indica uma superação do que se tinha, com a constatação de uma rigidez cristalizada, revelando um jugo corporativista, econômico, ideológico. A partir do novo paradigma, a clínica passa a integrar-se numa condição plástica com o outro da relação.   

Em Filosofia Clínica, com base na localização existencial de seus pressupostos, a cumplicidade com sua fundamentação filosófica, destitui-se a fenomenologia do humano da mordaça definidora das tipologias, das interpretações a priori. A nova abordagem aprecia o encontro com a multiplicidade expressiva de cada um. Assim, as poéticas da singularidade evidenciam algo interditado - como desrazão - pela epistemologia ideológica da classificação, e suas intervenções para manipulação e controle.

Umberto Eco ensina: “(...) bastaria que um só indivíduo, excitado pela leitura de Bradbury, tivesse o seu primeiro contato com Picasso, e diante de suas obras, reproduzidas em algum livro, encontrasse o caminho de uma aventura pessoal (...). Bastaria isso para que se pusessem de quarentena todas as definições teóricas sobre o bom e o mau gosto.” (Apocalípticos e integrados, 2006. Pág. 125)

Esse fragmento destaca a fenomenologia de um achado, dialoga com os eventos da hora-sessão em Filosofia Clínica, isto é, quando o filósofo qualificar suas intervenções, tendo como referência o que faça sentido aos cuidados com seu partilhante, e não as páginas de um manual pré-estabelecido.   

Encontrar o caminho de uma aventura pessoal, pode ser traduzível pela via da construção compartilhada entre o filósofo clínico e seu partilhante. Esses instantes fugazes, inclassificáveis, costumam descobrir algo novo no território da terapia.  

Ao tratar da questão estética, Umberto Eco, dá uma aula sobre a singularidade perceptiva, lembrando a superação das definições que propõe controlar, direcionar o que se deve e não se deve valorizar, entender, como viver a vida de acordo com os princípios de verdade, tão somente.  

A nova abordagem terapêutica acolhe a fenomenologia do humano como essa se apresenta. Não oferece rótulos, interpretações distorcidas, cristalizantes, para as contradições da pessoa em trânsito, nem traduz a expressão de cada um como erro, equívoco, trauma, por seus sucessivos enraizamentos. Tendo como subsídio um diagnóstico, produzido pelos agendamentos do terapeuta, muitas vezes essas metodologias da tradição produzem aquilo que, posteriormente, promete tratar. As propostas para emancipação do sujeito singular costumam encontrar na nova abordagem, um acolhimento diferenciado (questão de método!) para qualificar sua expressividade em rotas de ensaio.    

O texto contribui: “Toda obra de arte - para produzir seu efeito no espírito - deve ser olhada de um certo ponto de vista (...). Quem estiver influenciado por preconceitos não poderá identificar-se com essas condições: manter-se-á obstinadamente na sua posição natural, sem se colocar naquele ponto de vista que a obra requer.” (Apocalípticos e integrados, 2006. Pág. 165)

Em Filosofia Clínica os deslocamentos da malha intelectiva do filósofo, se adapta a realidade do partilhante, em busca de subsídios para qualificar sua atividade cuidadora. Noutras palavras, a clínica acontece no endereço existencial da pessoa e não a partir das referências especializadas do filósofo clínico, suas leituras, experiências de consultório. Em terapia as verdades são compartilhadas ou não são.   

Nesse sentido, se faz necessário uma adequação do papel existencial do filósofo a matéria-prima que vai aparecendo pela via da interseção. As referências de comportamento/função, podem auxiliar sua percepção, no que diz respeito às contradições do partilhante, como um esboço de seu mapa subjetivo por buscas de não-ser.

Do ponto de vista de uma clínica assim pensada, reivindica-se do terapeuta uma atitude na qual terá de reinventar-se a cada partilhante que lhe procura. Encontrar a matéria-prima para seus procedimentos na farmácia interna da pessoa sob seus cuidados, ou em outro lugar das proximidades, desde que faça sentido as propostas da hora-sessão.

As influências do preconceito, como refere o autor, se aproximam do tópico pré-juízos e da representação de mundo do filósofo, o qual, para superar sua singularidade estrutural, terá de exercitar sua expressividade com as pessoas em terapia. Nesses instantes, a redução fenomenológica se associa a hermenèutica compreensiva, como cúmplice para compreender o outro.   

O filósofo indica: “Enfim, a poesia contemporânea tem marchado no sentido de uma simbolização sempre mais subjetiva, particular, compartilhável apenas pelo leitor que consegue identificar-se, por congenialidade, com a situação interior do artista.” (Apocalípticos e integrados, 2006. Pág. 241)

Um encontro de estruturas de pensamento, pressupõe uma disposição - do lado a lado da relação - para tornar possível os deslocamentos de convívio, oferecendo ao filósofo clínico, a matéria-prima com a qual irá trabalhar, bem assim, concedendo ao partilhante, referências de que se encontra num lugar seguro e apropriado para investigar-se existencialmente.    

Ao descrever um ângulo de leitura para o texto, o autor indica algo caro à formação clínica, isto é, a percepção sobre a natureza e as possibilidades de uma construção compartilhada. A qualidade da interseção aprecia conduzir as buscas da terapia. Ao encontrar uma via de acesso confiável, entre um e outro integrante da conjugação terapêutica, se oferecem ângulos aproximados de convívio, inclusive superando ruídos - quando estes ocorrerem -, naturais em uma relação humana diversa.

Em Filosofia Clínica, o pressuposto de um borogodó integra os demais quesitos da formação do filósofo clínico, o qual se apresenta por uma expressividade e dados de semiose multifacetados, a reivindicar algo incomum ao papel existencial.

Muitas vezes, entre um assunto imediato e os desdobramentos da clínica, até a identificação do assunto último, ocorrem eventos desconstrutivos e reconstrutivos que se desdobram no cotidiano partilhante, modificando a qualidade da relação entre tópicos significativos e periféricos da sua estrutura subjetiva. Um fenômeno que, sob certo aspecto, alcança a realidade do filósofo.  

Talvez por isso a Psiquiatria coloque uma distância (física e não-física) entre o psiquiatra e seu paciente. O consultório do alienista (no hospício) costuma ter mesas enormes, bem como um botão de pânico, oferecendo um espaço significativo entre ele e seu objeto de trabalho. Assim se apresenta uma metodologia de controle e submissão da expressividade. O produto de suas intervenções? A não-pessoa! Assim se fabrica um doente mental, a partir de agora, refém das drogas da Psiquiatria.      

Com esse indicativo, é necessário reinventar as abordagens terapêuticas e seus rituais de formação. Um bom começo poderia ser os estudos em Filosofia Clínica, para aprender sobre a natureza humana e a estrutura de pensamento que compõe seus endereços existenciais. Mesmo assim, teria de conviver com aquilo que Nietzsche refere no aforismo 146, da obra: Para além do Bem e do Mal, um texto de 1886: ‘Aquele que luta com monstros deve cuidar para não se tornar um monstro. E se você olhar por muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.’

Uma relação aprendiz com os eventos da singularidade, oferece um vislumbre sobre a natureza e o alcance dessas idas e vindas. No que se refere às visitas e revisitas entre estruturas de pensamento, se deve observar a alternância de papéis existenciais, a qualidade da interseção e suas autogenias, a expressividade e suas modificações, sem perder de vista as propostas compartilhadas na terapia. Lembrando a imprescindível formação continuada! 

Aquele abraço,

hs

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