Palavras em trânsito
Em maio de 2008, numa tarde de
outono em Niterói/RJ, onde residia e trabalhava, aproveitava momentos de
intervalo nas clínicas para flanar pelo lindo bairro de Icaraí. Num dia
ensolarado e agradável, o passeio me levou à livraria Nobel para um café e conhecer
suas publicações. Foi assim que me avistei com o livro “Apocalípticos e
integrados” de Umberto Eco, traduzido por Pérola de Carvalho e publicado
pela Editora Perspectiva/SP em 2006.
A obra cuida de textos de
estética. No entanto, como aventureiros no território das palavras, apreciamos
o desvencilhar-se de um só sentido, para qualificar outros pontos de vista,
tendo como referência o texto de onde partiram. Dessa maneira, se apresenta um
diálogo da Filosofia Clínica com a Literatura.
Em Umberto Eco: “Cada um de nós
pode ser um e outro, em diferentes momentos de um mesmo dia, num caso, buscando
uma excitação de tipo altamente especializada, no outro, uma forma de
entretenimento capaz de veicular uma categoria de valores específica.” (Apocalípticos
e integrados, 2006. Pág. 58)
O pensador compartilha algo
significativo ao novo paradigma, isto é, quando uma pessoa desenvolve múltiplos
papéis existenciais, sem perder sua perspectiva singular diante do espelho de
seus deslocamentos.
Em uma interseção assim descrita, estrutura-se uma expressividade apta ao compartilhar pontos de vista, realizar escolhas, vivenciar devaneios, paixões, amores e saudades, numa conexão com a fenomenologia da vida. Os ânimos (Gaston Bachelard) de um sujeito costumam estar em sintonia com seu endereço existencial. Assim se pode compreender gestos, palavras, relações em recíproca de inversão, conectados com a categoria lugar onde a estrutura subjetiva vivencia seu devir. A transição entre uma interseção positiva, mista, indeterminada, negativa, ajuda a entender as resultantes desses encontros.
As buscas, quando determinantes a
uma pessoa, podem se associar - pela intencionalidade - com outros tópicos,
direcionando caminhos, significados, representações, para viabilizar desfechos
ao sujeito de suas possibilidades existenciais. O fragmento indica uma
categoria específica de valores, ou seja, quando a busca se associa com a
axiologia para cogitar e desenvolver rotas a sua expressão.
O pensador refere: “Uma mensagem
poética é, portanto, uma estrutura que dificilmente pode ser enrijecida numa
definição ou resumida numa fórmula convencional.” (Apocalípticos e integrados,
2006. Pág. 102)
Com esse parágrafo se pode
traduzir uma aproximação com o conceito de singularidade, evidenciado, nas
atividades do novo paradigma - sob muitos aspectos ainda incompreendido -
quando reivindica uma investigação compartilhada, com base na estrutura de
pensamento de cada pessoa, tendo como bússola os exames categoriais, onde encontra
subsídios para uma clínica que se adapta a realidade de cada atendimento.
Ao ter intimidade com a
expressividade poética, a Filosofia Clínica desenvolve uma metodologia
plástica, dinâmica, impregnada de construções compartilhadas, ou seja, àquelas
que encontram uma referência no território existencial do partilhante,
contraditória com a hermenêutica de um saber especialista e suas distorções
interpretativas.
O paradoxo da nova mensagem
cuidadora com as abordagens da tradição, indica uma superação do que se tinha, com
a constatação de uma rigidez cristalizada, revelando um jugo corporativista, econômico,
ideológico. A partir do novo paradigma, a clínica passa a integrar-se numa
condição plástica com o outro da relação.
Em Filosofia Clínica, com base na
localização existencial de seus pressupostos, a cumplicidade com sua
fundamentação filosófica, destitui-se a fenomenologia do humano da mordaça definidora
das tipologias, das interpretações a priori. A nova abordagem aprecia o
encontro com a multiplicidade expressiva de cada um. Assim, as poéticas da
singularidade evidenciam algo interditado - como desrazão - pela epistemologia
ideológica da classificação, e suas intervenções para manipulação e controle.
Umberto Eco ensina: “(...)
bastaria que um só indivíduo, excitado pela leitura de Bradbury, tivesse o seu
primeiro contato com Picasso, e diante de suas obras, reproduzidas em algum
livro, encontrasse o caminho de uma aventura pessoal (...). Bastaria isso para
que se pusessem de quarentena todas as definições teóricas sobre o bom e o mau
gosto.” (Apocalípticos e integrados, 2006. Pág. 125)
Esse fragmento destaca a
fenomenologia de um achado, dialoga com os eventos da hora-sessão em Filosofia
Clínica, isto é, quando o filósofo qualificar suas intervenções, tendo como
referência o que faça sentido aos cuidados com seu partilhante, e não as
páginas de um manual pré-estabelecido.
Encontrar o caminho de uma
aventura pessoal, pode ser traduzível pela via da construção
compartilhada entre o filósofo clínico e seu partilhante. Esses instantes
fugazes, inclassificáveis, costumam descobrir algo novo no território da
terapia.
Ao tratar da questão estética,
Umberto Eco, dá uma aula sobre a singularidade perceptiva, lembrando a
superação das definições que propõe controlar, direcionar o que se deve e não
se deve valorizar, entender, como viver a vida de acordo com os princípios de
verdade, tão somente.
A nova abordagem terapêutica
acolhe a fenomenologia do humano como essa se apresenta. Não oferece rótulos, interpretações
distorcidas, cristalizantes, para as contradições da pessoa em trânsito, nem
traduz a expressão de cada um como erro, equívoco, trauma, por seus sucessivos
enraizamentos. Tendo como subsídio um diagnóstico, produzido pelos agendamentos
do terapeuta, muitas vezes essas metodologias da tradição produzem aquilo que,
posteriormente, promete tratar. As propostas para emancipação do sujeito
singular costumam encontrar na nova abordagem, um acolhimento diferenciado
(questão de método!) para qualificar sua expressividade em rotas de ensaio.
O texto contribui: “Toda obra de
arte - para produzir seu efeito no espírito - deve ser olhada de um certo ponto
de vista (...). Quem estiver influenciado por preconceitos não poderá
identificar-se com essas condições: manter-se-á obstinadamente na sua posição
natural, sem se colocar naquele ponto de vista que a obra requer.”
(Apocalípticos e integrados, 2006. Pág. 165)
Em Filosofia Clínica os
deslocamentos da malha intelectiva do filósofo, se adapta a realidade do
partilhante, em busca de subsídios para qualificar sua atividade cuidadora.
Noutras palavras, a clínica acontece no endereço existencial da pessoa e não a
partir das referências especializadas do filósofo clínico, suas leituras,
experiências de consultório. Em terapia as verdades são compartilhadas ou não
são.
Nesse sentido, se faz necessário
uma adequação do papel existencial do filósofo a matéria-prima que vai
aparecendo pela via da interseção. As referências de comportamento/função,
podem auxiliar sua percepção, no que diz respeito às contradições do
partilhante, como um esboço de seu mapa subjetivo por buscas de não-ser.
Do ponto de vista de uma clínica
assim pensada, reivindica-se do terapeuta uma atitude na qual terá de
reinventar-se a cada partilhante que lhe procura. Encontrar a matéria-prima
para seus procedimentos na farmácia interna da pessoa sob seus cuidados, ou em outro
lugar das proximidades, desde que faça sentido as propostas da hora-sessão.
As influências do preconceito,
como refere o autor, se aproximam do tópico pré-juízos e da representação de
mundo do filósofo, o qual, para superar sua singularidade estrutural, terá de
exercitar sua expressividade com as pessoas em terapia. Nesses instantes, a redução
fenomenológica se associa a hermenèutica compreensiva, como cúmplice para compreender o outro.
O filósofo indica: “Enfim, a
poesia contemporânea tem marchado no sentido de uma simbolização sempre mais
subjetiva, particular, compartilhável apenas pelo leitor que consegue
identificar-se, por congenialidade, com a situação interior do artista.”
(Apocalípticos e integrados, 2006. Pág. 241)
Um encontro de estruturas de
pensamento, pressupõe uma disposição - do lado a lado da relação - para tornar
possível os deslocamentos de convívio, oferecendo ao filósofo clínico, a
matéria-prima com a qual irá trabalhar, bem assim, concedendo ao partilhante, referências
de que se encontra num lugar seguro e apropriado para investigar-se
existencialmente.
Ao descrever um ângulo de leitura
para o texto, o autor indica algo caro à formação clínica, isto é, a percepção
sobre a natureza e as possibilidades de uma construção compartilhada. A qualidade
da interseção aprecia conduzir as buscas da terapia. Ao encontrar uma via de
acesso confiável, entre um e outro integrante da conjugação terapêutica, se
oferecem ângulos aproximados de convívio, inclusive superando ruídos - quando
estes ocorrerem -, naturais em uma relação humana diversa.
Em Filosofia Clínica, o
pressuposto de um borogodó integra os demais quesitos da formação do filósofo
clínico, o qual se apresenta por uma expressividade e dados de semiose
multifacetados, a reivindicar algo incomum ao papel existencial.
Muitas vezes, entre um assunto
imediato e os desdobramentos da clínica, até a identificação do assunto último,
ocorrem eventos desconstrutivos e reconstrutivos que se desdobram no cotidiano
partilhante, modificando a qualidade da relação entre tópicos significativos e
periféricos da sua estrutura subjetiva. Um fenômeno que, sob certo aspecto,
alcança a realidade do filósofo.
Talvez por isso a Psiquiatria
coloque uma distância (física e não-física) entre o psiquiatra e seu paciente.
O consultório do alienista (no hospício) costuma ter mesas enormes, bem como um
botão de pânico, oferecendo um espaço significativo entre ele e seu objeto
de trabalho. Assim se apresenta uma metodologia de controle e submissão da expressividade.
O produto de suas intervenções? A não-pessoa! Assim se fabrica um doente
mental, a partir de agora, refém das drogas da Psiquiatria.
Com esse indicativo, é necessário
reinventar as abordagens terapêuticas e seus rituais de formação. Um bom começo
poderia ser os estudos em Filosofia Clínica, para aprender sobre a natureza
humana e a estrutura de pensamento que compõe seus endereços existenciais.
Mesmo assim, teria de conviver com aquilo que Nietzsche refere no aforismo 146,
da obra: Para além do Bem e do Mal, um texto de 1886: ‘Aquele que
luta com monstros deve cuidar para não se tornar um monstro. E se você olhar
por muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.’
Uma relação aprendiz com os
eventos da singularidade, oferece um vislumbre sobre a natureza e o alcance dessas
idas e vindas. No que se refere às visitas e revisitas entre estruturas de
pensamento, se deve observar a alternância de papéis existenciais, a qualidade
da interseção e suas autogenias, a expressividade e suas modificações, sem
perder de vista as propostas compartilhadas na terapia. Lembrando a
imprescindível formação continuada!
Aquele abraço,
hs

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