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Você está no espaço Descrituras. Aqui encontrará alguns textos publicados, inéditos e outros esboços de minha autoria. Boa leitura.

historicidade das publicações

sábado, 12 de abril de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 50*

 

                                                       Extraordinário

O filme Extraordinário, de 2017, com roteiro de Jack Thorne, Steve Conrad e Stephen Chbosky, direção de Stephen Chbosky, oferece uma leitura sobre as dialéticas do convívio, ou seja, a inserção de um menino singular em uma escola comum, os agendamentos, as interseções, desdobramentos. 

Auggie Pullman tem um rosto diferente, em razão de problemas de nascimento. A medicina do corpo aponta a síndrome de Treacher Collins. Após ter aulas em casa com sua mãe, com 10 anos de idade o menino ingressa no quinto ano escolar. Nesse momento a obra retrata as contradições de se buscar apoio em uma escola onde se exercitam o preconceito, a discriminação, desvalorizando aquilo que não se vê à primeira vista.

A dedicação e o carinho, envolvimento dos pais, a irmã, o diretor da escola, parecem não bastar. Para se proteger, Auggie se utiliza de um capacete de astronauta para se proteger, ensaia regressar ao refúgio de sua casa com as aulas da mãe, fica revoltado com sua aparência.  

Uma leitura a partir do filme - semelhante a um bom livro - pode adquirir múltiplas facetas, de acordo com as possibilidades do espectador/leitor em sintonia com a obra. Assim destaca-se a proposta de um acolhimento compreensivo da singularidade, para superar o espírito de multidão.

Trata-se de um componente das tipologias, com suas sucessivas versões para dar conta de uma singularidade que se multiplica. As classificações distanciam as pessoas delas mesmas e dos outros. Sua intervenção, com a maquiagem científica, propõe submeter atitudes insubmissas a essa lógica.    

Nesse sentido, multiplicam-se diagnósticos e prognósticos ao fenômeno humano - cada vez mais surpreendente - ao invés de um estudo aprofundado das especificidades de cada um. Esses enquadramentos, enquanto prosseguirem inventando síndromes, transtornos, doenças mentais..., seguirão desconhecendo a pessoa além de um visar de superfície.    

Enquanto instituições de ensino e o espírito de multidão continuarem associados as definições da Psiquiatria, o festival de psicopatologias vai continuar. Possivelmente alguém esteja ganhando algo com isso. Michel Foucault em seu texto: O nascimento da clínica, elabora uma reflexão crítica sobre a ideologia (como ocultamento) das práticas da medicina. O pensador destaca as tipologias de controle, submissão, como ingredientes para abastecer a indústria da doença.  

Em nossos dias, reivindica-se estudos compartilhados para desenvolver a pesquisa inter e transdisciplinar, para quem sabe, superar a percepção (soberana) do ato médico, atribuindo a química, a biologia, o fator determinante para as contradições humanas e seus desdobramentos em somatização.    

Todas as pessoas nascem extraordinárias, até os rituais de civilização. A proposta de conter e adaptar expressividades, via de regra, oferece seu resultado ótimo: a pessoa acrítica, incapaz de refletir, analisar, os fundamentos da sociedade onde se encontra. A partir daí, o sujeito costuma ser tratado como algo a ser domesticado. Destacam-se a cumplicidade das famílias, igrejas, escolas, clubes, compondo uma trama recheada de boas intenções.

O filme tem um final esperado, reverenciando a diversidade, o acolhimento da singularidade de Auggie. A ficção parece acenar algo ainda sem tradução, distante do dia a dia de quem vê a vida do outro lado da tela, onde se multiplicam estigmas à guisa de conhecimento.

Cada vez mais a medicina do corpo se fasta de seu papel existencial cuidador, para se aventurar na fenomenologia da mente, a qual se esboça em linguagem própria, reivindicando método e interseção para acessar suas múltiplas versões. Nesse sentido a cultura segue refém dos agendamentos da Psiquiatria e seus coadjuvantes. Pretextando fazer ciência, na verdade renova a máxima de Paul Joseph Goebbels - chefe da propaganda nazista - onde uma mentira repetida mil vezes, se torna verdade.  

Aquele abraço,

hs  

terça-feira, 4 de março de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 49*

 

                                                     Desarrazoados 

A palavra possui múltiplas formas de expressão, quase sempre refém de seu uso. Compreender um sentido reivindica uma reciprocidade com suas circunstâncias, a querer dizer sobre a fonte de onde partiu. 

João Paulo Alberto Coelho Barreto (João do Rio), nasceu em 05/08/1881 na rua do Hospício, no Rio de Janeiro, partiu em 1921. O autor retratou com maestria sua cidade no início do século XX, ou seja, ao exercitar um aprendizado peripatético, semelhante aos pensadores gregos, caminhava e anotava o que via, sentia, percebia com os óculos de suas possibilidades.

É preciso talento para transcrever a fenomenologia das ruas, sua poética, peculiaridades, personagens, as casas e prédios colocados abaixo para renascer noutra esquina. As pessoas e seus trajes, chapéus, sapatos, convicções, inseguranças. Bem como aquilo que se refugia na expressividade de seus dias.      

João do Rio diz assim: “Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! (...) Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua.” (A alma encantadora das ruas, 2009. Pág. 29)

Em suas andanças o poeta recupera memórias, rascunha amanhãs, e algo mais. Parece querer entender a lógica da transposição da charrete pelo carro a motor. Quase ao mesmo tempo em que descreve as transformações da virada de século, também busca registrar sua história.

Seu espanto filosófico, poético, apresenta uma escrita singular, em tons de uma epistemologia-intuitiva. Suas páginas impregnadas de cotidiano acolhem sensações para seu diário. Sua tradução de espírito vagamundo, diz respeito ao flanar andarilho por entre as múltiplas cidades da mesma cidade.

Os manuscritos de um autor descrevem sua condição peculiar, falam de seu ângulo de visão, se assemelha a um convite para visitar - em perspectiva - seu território pessoal, numa aproximação com sua floresta de inéditos.

O autor refere: “Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel. Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas. São assim as ruas de todas as cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.” (A alma encantadora das ruas, 2009. Pág. 33)   

Ao pensar com Schopenhauer em seu Mundo como vontade e representação, se pode acessar dados de uma condição singular em seus textos, na expressão de sensações, ideias, vivências e convivências com a surpreendente lógica das ruas.  

A reinvenção da vida acontece com o despertar de um dia qualquer, -que nunca é um dia qualquer - repleto de possibilidades nas andanças pelas praças e calçadas, saboreando um café, a leitura do jornal, folhear livrarias, inaugurar, na provisoriedade do instante, horizontes vagamundos.    

O significado dessas coisas refugiadas no cotidiano, tem a ver com o sujeito em vias de perceber e sentir sua realidade. João do Rio transcreve para suas páginas, a fotografia dos seus deslocamentos. Seus apontamentos sobre a cidade traduzem uma versão sobre as poéticas do lugar.   

Com o poeta: “(...) são ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visão de outros horizontes. (...) Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm ideias, filosofia e religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião. (A alma encantadora das ruas, 2009. Pág. 38).

Nesse sentido, ao falar dos espaços cotidianos, João do Rio destaca endereços existenciais por onde a vida acontece. Amores, desilusões, crenças, projetos de vida... A rua, sendo quase-pessoa, adquire feições de quem a frequenta, sua plasticidade se insinua para acolher quase-tudo, sem perder de vista o que escapa, quando se acredita já ter visto tudo o que há para ver.    

O texto onde se pode ler e reler essas narrativas - A alma encantadora das ruas - se assemelha ao velho álbum, por onde a história se imprime nas pedras da calçada, paralelepípedos das ruas, as páginas da memória. Aquilo que permanece enquanto muda. O poeta faz um convite para sentir a novidade em cada esquina. João do Rio, ao abordar sua singularidade, insinua ser multidão.   

Aquele abraço,

hs

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 48*

                                                  Enfermaria n. 6 

No inverno de 2006, em São Paulo, quando participava de um evento promovido pela APAFIC - Associação Paulista de Filosofia Clínica -, recebi um presente significativo, da colega e amiga Maria Luiza Nascimento, naquele tempo já uma das maiores filósofas clínicas deste país.

O presente foi o livro “O Beijo e outras histórias” de Anton P. Tchekhov, com uma especial recomendação: ler o conto “Enfermaria n. 6”, pois, segundo ela, tinha a ver comigo, com as coisas que eu acreditava, como e porque trabalhava. Um texto denso - como costumam ser os russos - distribuído em 66 páginas, numa tradução de Boris Schnaiderman.

A obra compartilha em suas páginas, múltiplos aspectos da condição humana, desde questões institucionais, burocráticas, as demarcações de território social, político, econômico, perpassando as relações entre médico e paciente em um asilo psiquiátrico, as segregações humanas em razão de crenças como: saúde e doença, normalidade e loucura. Bem assim, as atitudes, escolhas, simulacros de expressão em razão dos princípios de verdade.

Em outras palavras, descreve a normalidade como a adaptação das pessoas a uma realidade de cartas marcadas, a qualquer preço, refém de um saber-poder que se espraia por toda sociedade, como um tumor a impregnar ideias, pensamentos, atitudes, buscas. Embora o texto literário permita entrever as causas dos desajustes pessoais, ainda assim, quem determina os tratamentos - mesmo involuntários - é uma ideologia instituída por lei.     

Tchekhov indica: “(...) é o abobalhado judeu Moissieika, que perdeu a razão há uns vinte anos, quando se incendiou a sua oficina de chapeleiro.” (O beijo e outras histórias. Pág. 185).  

Esse fragmento sugere uma causa para o comportamento do personagem, ou seja, algo que poderia ser abordado e trabalhado de outra maneira, se existisse uma abordagem para tanto. Ao invés disso, a escolha recaiu numa internação para tratamento de sua saúde mental. A obra aborda uma questão de método em suas páginas, onde a lucidez reflexiva do autor descreve condições desumanas ao cuidado e atenção à vida.

Outro aspecto do texto de Tchekhov, é a forma como compartilha suas percepções sobre o mundo como representação, isto é, refere o louco como um humanista radical, por onde utiliza um vice conceito para traduzir sua visão das coisas, a forma como são tratadas as pessoas com devaneios, atitudes, formas de viver e conviver de natureza singular. 

No mesmo sentido, aponta a dificuldade em escrever sobre a fenomenologia do médico e sua interseção com os prisioneiros do hospício, algo, até então, incomum ao convívio com os internos. Andrei Iefímitch elabora vias de acesso as pessoas sob seus cuidados, acolhendo sua linguagem, costumes, as ações e seus significados, para compreender em reciprocidade. Assim reinventa a categoria lugar e a expressividade das sessões, dialogando com o sujeito e não mais o paciente.  

O autor transcreve: “Quando fala, você reconhece nele o louco e, ao mesmo tempo, a pessoa humana. É difícil transmitir no papel a sua fala demente. Ele trata da ignomínia dos homens, da coação, que oprime a verdade, da existência bela que, dentro de algum tempo, existirá sobre a terra, das grades nas janelas, que lhe recordam a todo momento o espírito embotado e as crueldades dos opressores.” (O beijo e outras histórias. Pág. 187)

Tchekhov se utiliza de um recurso conhecido como tradução, para realizar aproximações com o discurso existencial dos internos da enfermaria n. 6. Essa experiência de compartilhar instantes de escuta e conversação com pessoas desconsideradas socialmente, destituídas de quase tudo: incompreendidas, internadas, amarradas, desconstituídas de seu ser sujeito, ainda assim sobreviventes como pacientes psiquiátricos, a partir de então: doentes mentais, não raras vezes fabricados no laboratório alienista. A partir daí, refém de uma tipologia, restando uma forma peculiar de resistência, ou seja, a seleção de quando, com quem, o que compartilhar. Raramente essa escolha recai no médico psiquiatra, como no conto de Tchekov.  

O trecho recorda as grades na janela, representativa do espírito dos opressores, representados pela lei, pela psiquiatria e coadjuvantes, os princípios de verdade, a proposta por calar ou domesticar a inquietude existencial de uma expressão humana incompreendida.   

Tchekhov destaca: “Andrei Iefímitch senta-se sem tardança à mesa do escritório e começa a ler. Lê muitíssimo e sempre com grande prazer. Consome a metade do ordenado na compra de livros, e dos seis cômodos do seu apartamento três estão abarrotados de livros e revistas velhas.” (O beijo e outras histórias. Pág. 201)

A leitura, como um espaço de autocuidado e desenvolvimento pessoal, costuma acompanhar alguns terapeutas, os quais, encontram nas páginas de um livro, matéria-prima para compor a realidade de seu cotidiano. Andrei Iefímitch, utiliza sua relação com os livros e revistas, como um espaço de acolhimento, estudo, reflexão, em busca de um território subjetivo para seu devir. 

O contato com as obras oferece ao velho médico, uma medicação indisponível a quem não lê e não tem como saber do que se trata. A leitura e suas derivações, constituem um espaço de vida raras vezes traduzível pelas palavras conhecidas. Assim, Andrei Iefímitch, na medida em que associa suas leituras com as práticas de consultório, vai encontrando uma nova forma de se relacionar com as pessoas internadas, descobrindo singularidades em cada refém da enfermaria n. 6.

Esse ponto do texto oferece uma percepção sobre os rumos da história, ou seja, o médico oferece um acolhimento compreensivo a seus pacientes e, dessa forma, passa a ter a desconfiança dos demais integrantes da instituição, que consideram as pessoas internadas loucas, e o doutor deveria tratá-las com medicamentos, e não com diálogos, escuta, dando atenção aos seus delírios.     

O autor descreve: “Organizam-se espetáculos e bailes para os loucos, mas assim mesmo eles não são postos em liberdade. Quer dizer que tudo é tolice e vaidade, e, em essência, não há nenhuma diferença entre a melhor clínica vienense e o meu hospital.” (O beijo e outras histórias. Pág. 208)

Um aspecto desses asilos onde se acumulam pessoas, à guisa de tratamento psiquiátrico, são as atividades consideradas complementares, paliativas, para distrair, conforme as crenças da instituição. Por outro lado, se pode retirar alguns ensinamentos desses eventos, como: bailes, exercícios físicos, atividades de estética, num convívio onde costumam aflorar expressividades até então sufocadas.

Esse relato do autor sobre a relação da melhor clínica vienense e o hospital descrito em suas páginas, se assemelha, em nosso país, com a realidade do SUS (medicina pública) e os hospitais privados, os quais diferem - na maioria das vezes - pelas instalações, pois os profissionais estudam as mesmas coisas. Os atendimentos, muitas vezes, na esfera pública, costumam ser bem-sucedidos, oferecendo a população desassistida economicamente, um acolhimento diferenciado, enquanto naqueles outros, a preferência é pelo saldo do plano de saude. 

Um exemplo: uma pessoa em estágio terminal, num leito de hospital público, após as intervenções necessárias para conceder-lhe qualidade de vida, ao se constatar sua impossibilidade, a deixam partir em tempo próprio. As instituições privadas, no entanto, costumam ter outra postura, isto é, dependendo da disponibilidade financeira do paciente, a vida - ou que  resta dela - poderá ficar ligada a aparelhos (CTIs) por muito tempo, sugerindo uma cura que não vai chegar.  

Em um dos diálogos entre o velho médico e um de seus interlocutores na enfermaria n. 6, é possível perceber alguns apontamentos de natureza filosófica, distantes do olhar tecnicista do alienista.  

Anton Tchekov compartilha: “O senhor é um homem que pensa, que reflete. Em qualquer circunstância, pode encontrar em si mesmo um meio de se tranquilizar. O pensamento livre e profundo que procura compreender (...) a vida, e um desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo – eis os dois bens mais elevados que o homem jamais conheceu. E o senhor pode possuí-los, ainda que viva atrás de três grades. Diógenes viveu num barril, embora fosse mais feliz que todos os reis da terra.”  (O beijo e outras histórias. Pág. 214)

Quando um terapeuta se coloca em reciprocidade com uma pessoa - internada ou não - não é raro, ao visitar sua singularidade, agregar uma matéria-prima resultante dessa interseção, bem como procedimentos para desenvolver uma vida de maior integridade com o outro e consigo mesmo.  

Um subproduto da sociedade contemporânea é a padronização de abordagens terapêuticas, as quais, encontram no hospício, um dos últimos redutos das torturas medievais, onde se encarceravam e submetiam pessoas com as quais não se conseguia manter uma relação clínica. Dessa forma ao desqualificar o sujeito, produziam - e seguem produzindo - doença mental para insinuar uma cura, em estreita conexão com uma sociedade cúmplice.  

Para acessar uma singularidade, é preciso bem mais do que fórmulas prontas, narrativas psiquiátricas, ou um conhecimento com base em experiências. É preciso uma aproximação com o outro para conhecê-lo em seu território existencial. As peculiaridades, lugar, tempo, relações, a linguagem, jeitos e trejeitos, valores, e o que mais aparecer. Como um bom livro, essa prática reivindica tempo, dedicação, paciência, acolhimento e estudo com o outro para compartilhar algo que lhe faça sentido.   

A questão ideológica aparece nos desdobramentos da obra de Tchekov da seguinte forma: “Saindo da prefeitura, Andréi Iefímitch (o velho médico) compreendeu que fora examinado por uma comissão, encarregada de verificar o seu estado mental. Lembrou-se das perguntas que lhe foram feitas, corou e por alguma razão, pela primeira vez na vida, teve uma pena profunda da medicina.” (O beijo e outras histórias. Pág. 227)

Mentes brilhantes como: Michel Foucault, Gilles Deleuze, Fritjof Capra, Franz Kafka, e outros, trabalham em suas obras a questão do controle, da manipulação social pelas ideologias estruturadas para conter expressividades. Em outras palavras, quando alguém insinua viver, conviver, trabalhar, de forma diferenciada, esse aspecto, por si só, pode determinar uma clausura existencial ou um banimento, muitas vezes traduzida numa internação involuntária, seja num manicômio ou numa salinha de 2x2, para carimbar papéis.

Existem muitas formas de exílio, talvez a mais festejada seja a exclusão de uma pessoa de sua profissão, por ter posturas de acolhimento as lógicas da diferença, ainda mais se tratar-se de um novo paradigma, aí então, irá mexer com as referências de saber-poder, seus rituais de ensino-aprendizagem, alienação disfarçada de boas intenções, e algo mais, distante de uma reflexão e análise crítica de seus pressupostos.

O crime de Andréi Iefímitch? Acolher e dialogar com os internos da enfermaria. A partir daí, seu comportamento é denunciado como cumplice da loucura, servindo para a substituição no cargo de diretor médico e sua própria internação na enfermaria n. 6.

Sorria! Você está sendo filmado!

Aquele abraço,

hs     

sábado, 4 de janeiro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 47*

 

                                        Poéticas da desrazão 

Um texto com base nas normas da ABNT não pode ter sua narrativa em desacordo com sua métrica, menos ainda insinuar uma contradição com o cristal acadêmico, mantenedor da ciência normal. Ainda assim, pelas brechas e fissuras de suas definições, é possível entrever o barquinho das coisas bem ajustadas fazendo água.   

Uma singularidade genial como Antonin Artaud, não poderia suportar viver muito mais - partiu aos 52 anos de idade - em um mundo sem noção ou método para acolher e compreender seu viés de ser extraordinário, incabível numa normalização psiquiátrica e seus coadjuvantes (psicologias, famílias, igrejas, polícia, judiciário...), os quais oferecem a camisa de força institucional para conter transgressões e deslizes existenciais.   

Artaud ensina: “Há um ponto em vocês que médico algum jamais entenderá e é este ponto, a meu ver, que os salva e torna augustos, puros e maravilhosos: vocês estão além da vida, seus males são desconhecidos pelo homem comum, vocês ultrapassaram o plano da normalidade e daí a severidade demonstrada pelos homens, vocês envenenam sua tranquilidade, corroem sua estabilidade.” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 29).

Pode não ser por acaso o surgimento de uma abordagem terapêutica como a Filosofia Clínica em finais do século XX e seu desenvolvimento no século XXI, em um país periférico, ou seja, mais uma vez a invisibilidade das margens oferece contribuições significativas ao fenômeno humano.

Alguns profissionais ainda buscam (em quase desespero) sustentar suas generalizações, para isso encontram na proliferação de síndromes, transtornos, uma resposta para suas dúvidas e limites metodológicos. Impõe suas crenças e práticas por força de lei, por não conseguir superar (por medo, insegurança, preguiça, zona de conforto, interesses econômicos) as lentes vencidas do seu olhar. Enquanto essa realidade não mudar, a indústria de psicofármacos, com seus lucros faraônicos e sua rede de sustentação, continuará desconstruindo singularidades para fabricar alienados.   

Antonin Artaud compartilha: “Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma ideia assustadora, e que só no delírio consegue encontrar uma saída para as coerções que a vida lhe preparou.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2007. Pág. 53).

É triste constatar o fato de muitas universidades acolherem metodologias cristalizadas nalguma forma de ciência normal, descartando a inquietude filosófica, reflexiva, crítica, analítica. Raciocínios de cunho linear se assustam com a não-linearidade fora da curva. Assim as ciências humanas, cada vez mais, se submetem ao gesso da tecnologia, da vida robô.      

Um acolhimento diferenciado, com base em um discurso existencial singular, não tem espaço em um ambiente tóxico, refém da camisa de força da ideologia psiquiátrica, seus cúmplices e os desavisados.

Por outro lado, a resistência encontra na Filosofia Clínica uma aliada das abordagens não convencionais, numa aproximação compreensiva e cuidadora com os desclassificados e incompreendidos socialmente, sem voz e vez, reféns das lógicas do deus dinheiro, da miséria existencial juramentada. Uma expressividade em vias de não-ser reivindica um olhar em sintonia com sua realidade mutante, acolhendo e convivendo com uma singularidade inconformada com uma normalização abaixo da linha da miséria.

Artaud ensina: “Para mim, as ideias claras, no teatro como em qualquer outro lugar, são ideias mortas e encerradas. (...) a descoberta de uma linguagem ativa, ativa e anárquica, onde os limites usuais dos sentimentos e das palavras sejam abandonados.” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 81).

A filosofia positivista de Augusto Conte encontrou no RS e no Brasil, em figuras como: Borges de Medeiros (1863-1961) e Júlio de Castilhos (1860-1903), uma base de sustentação institucional que perdura, um terreno propício a sua forma de pensar. Sua lógica cartorial expandiu seus tentáculos por todo lugar: família, escola, igreja, política, hospícios, tratando de uniformizar condutas, enquadrar comportamentos, em flagrante patologização da vida humana.  

Pensar fora da curva, em uma linguagem própria, pode ser considerado um crime de lesa pátria, ou seja, ao não ser entendido ou significar uma ameaça a epistemologia de fundo da caverna de Platão, a resposta costuma ser a clausura dos hospícios e seus coadjuvantes, tudo dentro da lei.  

Talvez por isso as belas artes, a música, a literatura, o teatro - que encontra em Artaud um dos seus gênios -, compartilhem uma forma de expressão singular, diferenciada, transgressora das propostas de contenção da criatividade, imaginação, superação do lugar comum.   

Em nossa cidade existe uma escola recheada de boas intenções, que concede bolsas de estudo, e outras vantagens, para adolescentes de periferia, para incentivar a livre iniciativa. Noutras palavras, sua proposta acena com a ideia de que todos serão empresários, como sinônimo de ser bem-sucedidos na vida.

Por outro lado, em contradição com essa forma de pensar e existir, existem frestas sociais por onde a genialidade sempre aparece, em uma ou outra forma de expressão, com linguagem própria, preliminarmente irreconhecível, por tratar-se de uma expansão territorial subjetiva com repercussões no espaço cotidiano.

Artaud descreve: “Van Gogh era uma dessas naturezas de lucidez superior que lhes permite, em todas as circunstâncias, enxergar mais longe infinita e perigosamente mais longe do que o real imediato e aparente dos fatos.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2007. Pág. 55).

Nesse sentido, se pode entender as dificuldades de uma singularidade nascida para brilhar (todos deveriam brilhar em território próprio), em meio a mesmice tagarela da vida normal, oferecendo suas contas a pagar, filhos para criar, mão de obra escrava, ignorância e desinformação para sustentar as estruturas de poder, e por aí vai. Bertolt Brecht tem um poema que vale a pena: se os tubarões fossem homens.   

Em nosso país surgiu o fenômeno Artur Bispo do Rosário, internado quase a vida inteira num hospício, ainda assim produzindo sua arte. Quando algumas pessoas tentavam se aproximar de seu espaço de trabalho, buscava sentir a energia da pessoa, para ler sua aura e traduzir em linguagem própria se era alguém confiável para ingressar em sua casa.

O caso Nise da Silveira, uma louca diplomada, infelizmente também ela refém das tipologias psiquiátricas, ainda assim encontrou formas para superar a classificação de seus estudos, oferecendo a estética como expressividade aos seus pacientes. Ao receber os candidatos a alunos em sua escola, tratava de enviar sua secretária para abrir a porta, deixando os incautos sentados na sala de entrada, até a chegada de seus gatos, os quais faziam a pré-seleção dos alunos, cheirando, pulando no colo, interagindo com sua alma. Depois disso, se autorizados pelos felinos, Nise acolhia-os para um chá e apresentação de seu espaço de trabalho.

E por aí seguem os dias, em rascunhos pelas poéticas da desrazão, onde os eventos de consciência alterada (com base na medicação da poesia, filosofia, literatura, música, belas artes), possam encontrar uma fonte de inspiração para superar a camisa de força da vida normal.

Aquele abraço,

hs

domingo, 15 de dezembro de 2024

Filosofia Clínica Agridoce 46*

                    

       
                                      





                                                O baile das loucas 

A obra recheada de talento e sensibilidade, realiza um convite para testemunhar e sentir - ainda que em perspectiva - circunstâncias cujo debate permanece atual: O baile das loucas. França. 2021. 114 min. Escrito, dirigido e atuado por Mélanie Laurent. Disponível no Prime vídeo.

Seu roteiro compartilha uma reflexão crítica sobre a vida em meados do século XIX, onde uma determinada classe social, para manter sua hegemonia, internava no hospício de Salpêtriére, seus desafetos, quem buscava superar a forma de vida de seu tempo ou denunciava as injustiças, desmerecimentos, preconceitos.  

A autora destaca alguns componentes da internação involuntária, ou seja, a proposta de transformar pessoas íntegras e expressivas consigo mesmas em objeto de manipulação e controle pela Psiquiatria, na época representada pela festejado Jean-Martin Charcot e seus cúmplices.

O texto descreve a realidade das mulheres internadas e isoladas da sociedade. As formas como elaboram sua resistência e redes de apoio, em relação a instituição que as torturava à guisa de tratamento - como acontece ainda hoje -. A metodologia para submeter e manipular singularidades - não raras vezes genialidades - exerce seu saber-poder amparada em leis, decretos, normas jurídicas que autorizam determinados profissionais a conter, interditar, oferecer uma cura para algo inexistente:  doença mental. A menos que se traduza doença mental como a resultante das intervenções da própria psiquiatria, como ensinam psiquiatras da antipsiquiatria como: David Cooper, Ronald Laing, Thomas Szasz.    

Existem muitas nuances significativas no roteiro, direção e atuação de Mélanie Laurent, onde seu olhar se coloca em reciprocidade com os destituídos de voz e vez. Um texto de alerta para o que se faz ainda hoje, como sustentação de metodologias que propõe a inclusão para uma narrativa de normalidade excludente. Assim, os disfarces se multiplicam, como a invenção de síndromes e distúrbios, para justificar e legalizar práticas de submissão do fenômeno humano singular as lógicas de rebanho.    

Nesse sentido, a autora aponta, como exemplo de abuso, o caso de um médico assistente de Charcot, o qual simula estar apaixonado por uma interna para satisfazer sua própria sexualidade. As práticas de tortura - à guisa de tratamento - como: hidroterapia (contenção da pessoa nua numa caixa lacrada com gelo), celas escuras e isoladas, camisa de força, choques elétricos, insulínicos, em um lugar onde a palavra do psiquiatra é lei, inclusive com o apoio da sociedade daquele tempo, a qual festeja essas intervenções e maus tratos como a cura para seus males.    

Em outra cena, o doutor Charcot hipnotiza uma paciente, num auditório com estudantes e profissionais, para demonstrar sua metodologia de cura para a histeria feminina, ou seja, pela força de seus agendamentos pessoais e institucionais, consegue submeter algumas internas as suas práticas para fabricação da loucura. Num desses episódios, ao hipnotizar uma paciente, o psiquiatra produz uma crise epiléptica. Ao perceber a jovem caída no chão, com espasmos e se contorcendo, Charcot vira as costas e sai andando.       

As personagens femininas principais: a enfermeira chefe (Mélanie Laurent) e uma interna com habilidades mediúnicas (Lou de Laâge), tem uma interseção positiva através dos dons mediúnicos da interna, a qual consegue ouvir e compartilhar mensagens de sua irmã.  

O filme também demonstra, dentre outros aspectos, a força da ideologia social, a qual, para se manter, é capaz de submeter qualquer um, mesmo da própria família, amigos, colegas, para sustentar a estrutura funcionando a qualquer preço. Assim, questionar ou refletir sobre eventos como a desigualdade social, ou, no caso das mulheres, buscar alguma forma de emancipação de sua expressividade, pode significar, como em nosso caso no Brasil, como descreve a jornalista Daniela Arbex, em sua obra: Holocausto brasileiro, sobre o complexo manicomial de Barbacena/MG, onde foram presos e exterminados mais de 60.000 brasileiros, em condições semelhantes a descrição do filme: O baile das loucas.  

A Casa da Filosofia Clínica trabalha e se associa as propostas para superar a produção da loucura descrita em obras literárias, filmes, crônicas do cotidiano, como um alerta sobre a lógica das instituições totais, e sua oferta de cura para aquilo que não tem cura, por não ser doença! Quase sempre, trata-se de um fenômeno produzido na própria instituição. Com a lógica psiquiátrica e seus cúmplices, as classificações da desrazão encontram sua fonte de inspiração.

Talvez um diálogo inter e transdisciplinar, pudesse esclarecer, qualificar estudos e práticas com pessoas em seus momentos de desconstrução e ressignificação pessoal. Questão de método. As escolas de psiquiatria, com foco numa medicina do corpo - teriam condições de acolher essas reflexões críticas, os ensinamentos dos novos paradigmas, transformando suas verdades em uma lógica aprendiz? Suspeito que não!

Aquele abraço,

hs     

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Filosofia Clínica Agridoce 45*

 

                                                Desclassificados

Há algum tempo as poéticas da singularidade vem apresentando seus heróis e heroínas como uma gente desclassificada. Uma tribo com aspecto desajustado, de tez aventureira, desalinhados, de pátria indefinida, sobrevivendo na periferia de um mundo conformado.  

Para localizar sua existência, pode ser necessário ajustar as lentes do olhar para as entrelinhas, as margens, onde escritores, músicos, poetas, roteiristas, diretores de cinema, as belas artes, e outros se refugiam para proteger seu ser inclassificável.

Um paradoxo com as verdades do deus dinheiro, aparece como pré-condição para encontrar os refúgios onde gente sem nome ou sobrenome coopera para viver seus possíveis. Não são os senhores da guerra em busca de poder, riqueza material, sobrevivem à custa de uma atividade invisível, de difícil acesso, refugiada no zoom das construções compartilhadas, descrevem-se em linguagem própria para não ser cristalizados em uma só definição. 

Ser desclassificado é viver bem, à margem dos eventos comuns, num devir intraduzível pela ótica dos consensos. Para ter uma sobrevida em relação a novidade que não consegue acessar, a nomenclatura institucional expõe os limites de seu olhar, ao inventar classificações como justificativa. Questão de método!       

Antonin Artaud indica: “Havia muito tempo que a pintura linear pura me enlouquecia, até que encontrei Van Gogh que pintava, não linhas ou formas, mas coisas da natureza inerte como se estivessem em plena convulsão.” (Van Gogh – O suicida da sociedade, 2007. Pág. 45).

Talvez alguns consigam elaborar sua desclassificação pelo texto literário, roteiros do teatro e do cinema, na poesia incompreendida dos amantes, as telas do artista e seus esboços de não-ser, meios para localizar as vozes, os ritmos, as imagens silenciadas.

A realidade do hospício, a clausura dos seminários, quartéis, internatos, cemitérios, continua a emitir sons incompreendidos, seus manuscritos e oralidades anunciam nos rascunhos da insensatez, as formas do inclassificável. Denunciam a vida normalizada - a qualquer preço -, onde sujeitos viram objeto, reféns da camisa de força invisível, contida na ideologia dos castrados.  

Com Artaud: “(...) foi assim que uma sociedade tarada inventou a psiquiatria, para defender-se das investigações feitas por algumas inteligências extraordinariamente lúcidas, cujas faculdades de adivinhação a incomodavam. Gérard de Nerval não estava louco, mas o acusaram de estar louco para desacreditar certas revelações fundamentais que estava em vias de fazer” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 162).

O ato institucional para definir: saúde x doença, normalidade x loucura, validez x invalidez, apto x inapto, classificados x desclassificados, contêm rituais de mordaça aos eventos da singularidade. Sua essência são as propostas para manutenção de uma sociedade de alienados.   

A lógica robô deve se emancipar em breve, onde o fenômeno humano poderá ser descartado, tornando-se obsoleto por suas próprias mãos. Ser desclassificado pode significar o último refúgio para a raça humana, em vias de extermínio, em uma realidade distante da fenomenologia da singularidade.

O texto refere: “Não, Van Gogh não estava louco, mas suas telas eram jorros de substância incendiária (...) ao contrário de todas as outras pinturas com prestígio na sua época, teria sido capaz de perturbar seriamente o conformismo espectral da burguesia do Segundo Império (...). Diante da lucidez ativa de Van Gogh, a psiquiatria nada mais é que um reduto de gorilas obcecados e perseguidos que, para aplacar os mais espantosos estados de angústia e asfixia humana, só dispõem de uma ridícula terminologia. (...)” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 163).

Aos desavisados se oferece um bilhete - quase ilegível - um pouco antes do abismo cavado por suas próprias mãos, ou seja, perseguir a lógica aprendiz que atua no centro de todo lugar, para encontrar a originalidade descrita pelos desclassificados, contraditória com a lucidez delirante de seus espelhos.

Aquele abraço,

*hs    

domingo, 3 de novembro de 2024

Filosofia Clínica Agridoce 44*

Ao tecer alguns apontamentos sobre a arte de ler, em um convívio com as páginas de um livro, numa leitura agradável e sem pressa, é possível sentir a experiência de ter vivido muitas vidas em suas histórias. Algo recheado de incompletudes, quando se tenta aprisionar a palavra numa só direção, para descrever o prazer da hora leitura. A ilegibilidade de um texto costuma se refugiar nas entrelinhas de um parágrafo qualquer, um desse lugares onde a escritura e seu leitor se encontram, para compartilhar originalidades.

Os acontecimentos do dia a dia poderiam contar algo mais sobre a correria das pessoas a perseguir metas sem sentido. Colocando suas vidas como reféns da propaganda, do marketing, e suas indicações sobre como se preparar para correr mais depressa, comer rápido, dormir pouco, acreditar que leitura dinâmica é leitura, passar os olhos pelas redes sociais, acolher a lógica tik tok.

As lógicas da velocidade acenam com algo inalcançável, para isso reinventam metas, acenam riquezas materiais, multiplicam fórmulas sobre o que pensar, como viver. Talvez um dia se comece a suspeitar sobre essa forma de sobrevida, para reencontrar sabor e cor num cotidiano que não volta. Começar a sentir a vida de outros ângulos, em sintonia com a expressividade de um tempo com tempo para redigir sua própria história.   

Alberto Manguel indica: “(...) o pensamento requer tempo e profundidade, as duas qualidades essenciais do ato de ler.” (À mesa com o chapeleiro maluco, 2009. Pág. 48).

Para acessar o fenômeno leitura é preciso desacelerar, colocar a mente num estado de abertura e disponibilidade para conviver com os eventos do texto. As páginas de um livro costumam oferecer boas ideias, auxiliam a decifrar incógnitas, reinventar questões, saborear eventos surpreendentes a cada capítulo, desenvolver uma epistemologia aprendiz.   

Se, como afirma Manguel, o pensamento requer tempo e profundidade, como encontrar algo assim num cotidiano apressado, que insiste em se manter a qualquer preço? Pode ser importante lembrar quando foi a última vez que você visitou sua poltrona preferida para reencontrar aquela obra exilada na estante dos esquecidos? Ouvir suas músicas, saborear um café, encontrar alguém para conversar sem ter razão?  

Para ser humano é preciso exercitar uma condição humana, algo singular, inédito, irrepetível, cuja originalidade costuma se abrigar nas contradições de si para si mesmo.   

Com Manguel: “Nessas aberturas entre a borda do papel e a borda da tinta, o leitor pode gerar uma revolução silenciosa e estabelecer uma nova sociedade, na qual a tensão criativa já não se gera entre a página e o texto, mas entre o texto e o leitor.” (À mesa com o chapeleiro maluco, 2009. Pág. 81).

Uma interseção entre autor e leitor, pode significar algo mais ao instante leitura, de onde pode surgir - como passe de mágica - uma pluralidade de hipóteses e experimentações, até então refugiadas nas margens de sua própria estrutura de pensamento. Sua prática, como aliada para exercitar singularidades, pode localizar, com a mediação dos textos, os endereços subjetivos desconsiderados num cotidiano de dívidas existenciais intermináveis.

A criatividade, a invenção, os ensaios contidos num discurso existencial, reivindicam uma aproximação com as lógicas da diferença, para reencontrar - sem pressa - as páginas descartadas, onde se possa reescrever as leituras ainda sem tradução.

Aquele abraço,

hs

sábado, 5 de outubro de 2024

Filosofia Clínica Agridoce 43

 

                                   Um farfalhar de coisas antigas

Um dos achados significativos da nova abordagem da Filosofia Clínica, foi sua metodologia apta a se relacionar com as pessoas, tendo em vista um certo princípio da indeterminação, ou seja, o filósofo clínico a priori sabe que não sabe, mas busca, pela via da interseção clínica, conhecer e aprender com seu partilhante sobre sua condição singular em processo.

Uma de suas buscas é acessar a farmácia subjetiva do partilhante, para identificar os venenos e contravenenos com os quais irá lidar na dialética da terapia. Nesse ponto das atividades clínicas, é preciso aprender a língua na qual a pessoa se diz, por onde se diz, ainda quando se cala. Os tempos, lugares, momentos, relações, onde sua estrutura de pensamento respira, transpira, não pira.     

A retórica da ciência normal, sustentada com pompa e circunstância no convívio contemporâneo com os novos paradigmas, tratam de desmerecê-los, fazer de conta que não existem ou se existem, são insignificantes. Não percebem seu barco epistemológico fazendo água.

Fritjof Capra lembra Werner Heisenberg: “O grande feito de Heisenberg foi expressar essas limitações dos conceitos clássicos de uma forma matematicamente precisa – que hoje leva seu nome e é conhecida como princípio de indeterminação. (Sabedoria incomum, 1988. Pág. 15).  

Assim é possível entender a miopia de muitos pesquisadores do nosso tempo, os quais se veem impedidos de enxergar algo mais, que não seja a continuidade de uma ciência normal (Thomas Kuhn). Suas lentes cristalizadas em uma só direção enxergam - tão somente - o que seu ângulo de visão permite ver. Sem contar as narrativas voltadas aos interesses econômicos, ideológicos, políticos.   

A Filosofia Clínica, longe de ser uma resposta definitiva para qualquer coisa, se apresenta como uma proposta aprendiz sobre a condição humana singular. Sua tez de atividade artesanal, reapresenta, sob muitos aspectos, o reflexo incessante das águas de Heráclito.

Uma aproximação com o fenômeno partilhante em consultório, reivindica um ajuste permanente ao visar de escuta do filósofo clínico. Os estudos compartilhados seguem durante o processo da terapia, por onde um e outro visitam seus jardins subjetivos para conhecer e qualificar as possibilidades existenciais do lado a lado da interseção.

Capra com Heisenberg: “O princípio de indeterminação mede o grau em que o cientista influencia as propriedades dos objetos observados pelo próprio processo de mensuração.” (Sabedoria incomum, 1988. Pág. 15).

Por outro lado, na mesma direção, a presença do filósofo clínico, pela via da redução fenomenológica, e sua disposição de um acolhimento aprendiz em uma investigação compartilhada, atribuem qualidades diferenciadas ao encontro terapêutico.

Esse aspecto da Filosofia Clínica aparece como um ingrediente para se compreender a natureza de sua fundamentação teórico-prática, ainda quando as palavras sejam limitadas para descrever os eventos de consultório. A hora-sessão costuma se caracterizar como um espaço de ensaios, construções compartilhadas, sensações, desdobramentos de significado, e algo mais.

Algumas vezes, é possível sentir um farfalhar de coisas antigas, a ressoar tão próximo. Se assemelha a voz das mentes brilhantes, um pouco antes de se chegar aqui, para uma interseção cúmplice com os dias de hoje. Uma animação indeterminada se esboça no sem-fim de quase tudo.  

Aquele abraço,

hs