Extraordinário
O filme Extraordinário, de
2017, com roteiro de Jack Thorne, Steve Conrad e Stephen Chbosky, direção de
Stephen Chbosky, oferece uma leitura sobre as dialéticas do convívio, ou seja,
a inserção de um menino singular em uma escola comum, os agendamentos, as
interseções, desdobramentos.
Auggie Pullman tem um rosto
diferente, em razão de problemas de nascimento. A medicina do corpo aponta a
síndrome de Treacher Collins. Após ter aulas em casa com sua mãe, com 10 anos
de idade o menino ingressa no quinto ano escolar. Nesse momento a obra retrata as
contradições de se buscar apoio em uma escola onde se exercitam o preconceito, a
discriminação, desvalorizando aquilo que não se vê à primeira vista.
A dedicação e o carinho,
envolvimento dos pais, a irmã, o diretor da escola, parecem não bastar. Para se
proteger, Auggie se utiliza de um capacete de astronauta para se proteger,
ensaia regressar ao refúgio de sua casa com as aulas da mãe, fica revoltado com
sua aparência.
Uma leitura a partir do filme -
semelhante a um bom livro - pode adquirir múltiplas facetas, de acordo com as
possibilidades do espectador/leitor em sintonia com a obra. Assim destaca-se a proposta
de um acolhimento compreensivo da singularidade, para superar o espírito de
multidão.
Trata-se de um componente das tipologias, com suas sucessivas versões para dar conta de uma singularidade que se multiplica. As classificações distanciam as pessoas delas mesmas e dos outros. Sua intervenção, com a maquiagem científica, propõe submeter atitudes insubmissas a essa lógica.
Nesse sentido, multiplicam-se
diagnósticos e prognósticos ao fenômeno humano - cada vez mais surpreendente -
ao invés de um estudo aprofundado das especificidades de cada um. Esses enquadramentos, enquanto prosseguirem inventando síndromes, transtornos, doenças
mentais..., seguirão desconhecendo a pessoa além de um visar de superfície.
Enquanto instituições de ensino e
o espírito de multidão continuarem associados as definições da Psiquiatria, o festival
de psicopatologias vai continuar. Possivelmente alguém esteja ganhando
algo com isso. Michel Foucault em seu texto: O nascimento da clínica, elabora
uma reflexão crítica sobre a ideologia (como ocultamento) das práticas da
medicina. O pensador destaca as tipologias de controle, submissão, como
ingredientes para abastecer a indústria da doença.
Em nossos dias, reivindica-se estudos
compartilhados para desenvolver a pesquisa inter e transdisciplinar, para quem
sabe, superar a percepção (soberana) do ato médico, atribuindo a química, a biologia,
o fator determinante para as contradições humanas e seus desdobramentos em somatização.
Todas as pessoas nascem extraordinárias,
até os rituais de civilização. A proposta de conter e adaptar
expressividades, via de regra, oferece seu resultado ótimo: a pessoa acrítica,
incapaz de refletir, analisar, os fundamentos da sociedade onde se encontra. A
partir daí, o sujeito costuma ser tratado como algo a ser domesticado.
Destacam-se a cumplicidade das famílias, igrejas, escolas, clubes, compondo uma
trama recheada de boas intenções.
O filme tem um final esperado,
reverenciando a diversidade, o acolhimento da singularidade de Auggie. A ficção
parece acenar algo ainda sem tradução, distante do dia a dia de quem vê a vida
do outro lado da tela, onde se multiplicam estigmas à guisa de conhecimento.
Cada vez mais a medicina do corpo
se fasta de seu papel existencial cuidador, para se aventurar na fenomenologia
da mente, a qual se esboça em linguagem própria, reivindicando método e
interseção para acessar suas múltiplas versões. Nesse sentido a cultura segue
refém dos agendamentos da Psiquiatria e seus coadjuvantes. Pretextando fazer
ciência, na verdade renova a máxima de Paul Joseph Goebbels - chefe da
propaganda nazista - onde uma mentira repetida mil vezes, se torna verdade.
Aquele abraço,
hs
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